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3 Rascunhos poéticos (4 poemas)

Na falta de título melhor, achei que esse caberia. Hoje resolvi dividir várias pequenas poesias com vocês. Mas, devo admitir, eu as chamo de rascunhos, pois elas são uma coisa bem mais solta, sem tanto trabalho, nem preocupação, que eu fiz. Talvez não devesse colocá-las por aqui, pois pode ser que muitos achem elas ruins, afinal, são "quase rascunhos", mas como de vez em quando eu leio e gosto de uma ou outra, decidi dividir com vocês. Veremos quais serão as reações.


Poeminha da Continuidade

Bem, digo-nos, amigos,
quando a vida apresentar-se impiedosa,
levemos um dedo de prosa,
batamos um pouco de bola,
guardemos, no saco, a viola
e sigamos por nossas estradas.


A busca

A cada dia,
de nada em nada,
preenchemos o vazio.


Sem tempo

Olhos marejados...
corpo cansado...
Tenho para onde ir?
Acho que não...
Sigo sozinho,
por um árduo caminho.
Sigo, enfim, sem qualquer direção.

A cidade é vaga, vazia, injusta...
Cada hora é um dia, cada dia uma luta.
Assim nos perdemos,
nesse tão vasto mundo,
onde o tempo que temos
dura nenhum segundo.


Sobre um prostíbulo

Uma puta, por uma hora, cento e vinte reais.
De segunda a domingo,
exceto na quarta.
Na quarta tem promoção.
Jogada de marketing.
Duas por setenta, e por uma hora.
Ah!
E o chopp é com dose dupla.

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0 Um "Reality Show" para escritores

Pois é. Aproveitando esta onda de Realities Show que aparecem em todos os cantos e de todas as formas, a Seleções decidiu criar uma competição parecida nas páginas de sua revista. Achei a idéia bem interessante e resolvi compartilhar com vocês no blog para saber o que acham e também por achar que pode ser uma excelente oportunidade para quem está começando a escrever e briga por um espaço no mercado editorial. Interessante ver como na internet quanto mais você divide, mais recebe em troca. Após minha postagem em apoio aos novos escritores, este concurso literário me foi indicado pela @marilialia, do Twitter.

A idéia da Revista Seleções é bem simples. Eles irão selecionar ao todo 10 participantes, levando em consideração algumas linhas que os escritores devem enviar para a revista tendo como base uma história que gostariam de escrever: ou seja, quase como o início de um livro, por assim dizer. Todo o "Reality Show" ocorrerá em 4 etapas, onde os escritores devem produzir novos textos e agradar ao público da Seleções. No final, o vencedor ganha um notebook e os três outros participantes que chegaram à final junto com ele levam um smartphone.

Enfim, parece-me uma idéia bem interessante. É de fato um concurso a ser considerado. É também uma idéia bem mais agradável a mim do que muitas das idéias de "Reality Show" que vejo por ai. Fica a dica.

Clique aqui para saber mais informações a respeito da competição

Veja ainda no site outra postagem com mais informações sobre concursos literários.

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4 [Mercado Editorial] Apoio a novos autores

Ultimamente, venho pensando muito na questão dos novos autores no mercado editorial brasileiro. Como todos sabem, publicar um livro, embora pareça difícil, é na verdade a parte menos complicada do processo - e é neste exato ponto em que a maioria dos autores erra. Mesmo publicando sua obra em uma grande editora, conseguir real espaço no mercado, ainda mais para um escritor desconhecido, é tarefa quase impossível; ter uma vendagem boa então é ainda mais difícil. É preciso, por parte não só da editora, mas também do autor, um esforço enorme para conseguir promover uma publicação com a devida eficiência.

Com todas estas idéias na cabeça, deparei-me com um texto excelente da Laura Bacellar em seu site Escreva seu livro, que fala justamente de uma mudança de pensamento pela qual nós leitores devemos passar para estimular também a compra de novos autores nacionais: O movimento em prol dos novos escritores brasileiros. Normalmente, quando nos perguntam quais obras você lê e  indica, tendemos a falar dos grandes clássicos e nos esquecer dos novos autores, daqueles que estão surgindo agora e que mais precisam da nossa ajuda. O que Laura propõe é justamente que façamos o contrário, que procuremos nas livrarias por gente nova, desconhecida, e que falemos sobre estas pessoas para nossos amigos, parentes e etc...

É uma idéia muito boa, idéia que pretendo seguir aqui no blog. A partir de hoje, começarei a procurar por autores novos para divulgar por aqui, fazer entrevistas, resenhar livros; ainda estou definindo exatamente o que será feito. Peço aos leitores do Na Ponta dos Lápis, que indiquem novos escritores também, para que assim eu possa procurá-los e, quem sabe, entrevistá-los. Com esta mesma idéia, encontrei um blog muito legal, da @cellyborges, que pretende divulgar os autores de fantasia: é uma campanha definivitamente muito bonita e efetiva, portanto, decidi participar. Vocês podem conferir o banner nesta mesma postagem. E podem também entrar no Mundo de Fantas para saber mais.

Enfim, o que acham dessa nova idéia? Que tal todos participarmos?

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4 Carlos Drummond de Andrade - Poemas

Fazia algum tempo que não colocava um poema dele aqui. Hoje, trago três poemas de Carlos Drummond de Andrade; bem curtos, mas com muita perspicácia e ironia. Retirei-os do livro Farewell, que na minha opinião é um dos melhores para comprar do poeta. No blog, além dos poemas, vocês ainda podem conferir alguns contos de Carlos Drummond de Andrade.


Fora de Hora

Entrega fora de hora
e posse fora de hora.
Quem mandou
você atrasar a hora,
você apressar a hora,
você aceitar a hora
não madurada
ou demasiado madura.

O tempo fora de hora
não é tempo nem é nada.
O amor fora de hora
é como rolar a escada.


Escravo de Papelópolis

Ó burocatas!
Que ódio vos tenho, e se fosse apenas ódio...
É ainda o sentimento
da vida que perdi sendo um dos vossos.


Aristocracia

O Conde de Lautréamont
era tão conde quanto eu.
Que sendo o nobre Drummond
valho menos que um plebeu.


Nota: Quem ainda não conferiu, pode ver no blog uma postagem com uma outros três poemas de Carlos Drummond de Andrade, sendo um deles declamado.

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2 Dois capítulos do livro "O Código dos Cavaleiros"

Decidi postar aqui no blog mais dois capítulos do livro de ficção que terminei não faz muito tempo. O título provisório da história é "O Código dos Cavaleiros", trata-se de uma brincadeira com os contos de cavalaria clássicos, mas de uma maneira diferente de livros como "Dom Quixote" e "O cavaleiro inexistente". Posto para pedir a ajuda de vocês que acompanham o Na Ponta dos Lápis. Não sei se poderei colocar toda a história aqui, até porque ela já está sendo analisada por gente do mercado editorial, mas gostaria muito mesmo que vocês lessem e dessem as impressões que tiveram, seria de extrema importância para mim. Quem ainda não leu o primeiro capítulo pode conferí-lo no blog também: Cap.1 - Tudo tem um começo.

Cap. 2 - E uma continuação -

Deitado na cama de seu quarto, Lino começou a pensar em um plano. Deveria haver algum meio de fugir sem que ninguém notasse. Moedas de prata ele já tinha, conseguira juntar nos últimos três meses o que achava ser o suficiente para a sua empreitada. Faltava agora uma forma... uma forma de escapar sem alertar a sua família.

Conforme a noite passava, algumas idéias lhe ocorreram. Nenhuma delas, entretanto, parecia realmente boa, poucas tinham alguma chance de funcionar. Mas ele permanecia determinado. Sabia que não podia se deixar derrotar pelo cansaço. Antes de sequer cogitar a possibilidade de repousar, precisava criar um plano para sair dali.

Levantou-se da cama e começou a arrumar as suas coisas. Pegou uma velha bolsa de couro que ficava em seu armário e guardou tudo o que lhe parecia importante. Primeiro, colocou cuidadosamente o seu pequeno saco de moedas de prata no compartimento da esquerda. Depois, foi a vez de uma antiga panela de barro, cordas e um lampião a óleo no lado direito. Como a velha bolsa parecia não suportar mais muita coisa, pegou duas peças de roupa, jogou lá dentro e a fechou.

Tudo estava empacotado, agora só precisava dar traços finais a seu plano. Enquanto guardava os seus pertences na velha bolsa, tivera uma excelente idéia. E tudo conspirava a seu favor, principalmente agora que os primeiros raios da manhã começavam a iluminar a pequena vila.

Justamente hoje era o dia em que sua família enviava de carroça metade dos alimentos que conseguira estocar durante o ano para a vila onde uns primos seus moravam, uma cidadezinha próxima aos portos onde o mercado era mais aquecido. A idéia que lhe ocorrera era bastante simples. Bastava se voluntariar para levar os alimentos e aproveitar o momento oportuno para fugir em sua empreitada rumo à cavalaria.

Sabia que alguns detalhes do plano ainda precisavam ser aperfeiçoados. O tempo, porém, era curto; certamente sua mãe faria questão de que a carroça saísse o quanto antes, até para evitar o olhar alheio que em épocas de escassez poderia ser cobiçoso.

Ele saiu rápido de casa e correu até a entrada da pequena vila, onde um viajante, amigo íntimo da família, costumava ficar durante as manhãs. O nome do homem era Marcos. Pelo que Lino sabia, seu trabalho consistia em viajar de cidade em cidade comprando e revendendo produtos.

- Senhor Marcos, senhor Marcos! O senhor está acordado?!

- Bem, de certo que sim. Mas é claro que se não estivesse, tenho certeza de que agora estaria, com todo esse barulho, não é? – retrucou o viajante, de forma bem-humorada.

Lino ficou um pouco constrangido, com um certo receio de talvez ter importunado o velho homem. Marcos já não era mais tão jovem. Aparentava ter mais de 60 anos – o que já era bastante raro de se ver na época – e andava sempre curvado, apoiando sua mão direita em uma velha bengala de prata.

- Ora, meu bom garoto, não sabia que era você. O que faz tão cedo em minha tenda?

- Preciso pedir um favor seu. Será que pode me ajudar?

- É claro que sim. Sabe que faço qualquer coisa por você e sua família. Ninguém, em nenhuma vila ou burgo que visitei, tratou-me tão bem quanto vocês.

Lino apenas concordou com a cabeça, sabia que Marcos não estava mentindo. Ele ainda se lembrava da noite em que o viajante chegara à cidade, cheio de mercadorias e sem uma moeda sequer. Era uma noite de inverno, uma das mais frias de que conseguia se lembrar. Fora ele quem vira o estranho viajante cruzando a ponte, tentando vencer a fadiga que já havia tomado quase todo seu corpo já castigado pela idade. Fora ele quem correra até o velho homem e o levara para a sua casa.

Seus pais, embora sempre tenham passado por dificuldades, nunca se negaram a ajudar alguém necessitado e deram comida e abrigo ao viajante desconhecido. No dia seguinte, Marcos não podia ter se mostrado mais agradecido, dando de presente à família diversos itens de sua coleção que considerava valiosos na região. Daquele dia em diante, uma grande amizade se formou, e Lino passou a ter um amigo que podia lhe contar os feitos dos grandes cavaleiros espalhados por todo o continente.

- E então? O que quer me dizer? – perguntou o viajante enquanto olhava o garoto nos olhos com sua expressão carinhosa habitual.

- É... não sei... é que é meio complicado...

Marcos continuou em silêncio. Embora o menino ainda não tivesse lhe dito o que tanto o afligia, ele já imaginava o que ele queria lhe perguntar. Desde que o encontrara pela primeira vez, no dia em que chegara à vila, percebera naquele garoto magro e esguio, de apenas quinze anos, uma vontade enorme de conhecer o mundo. Nos meses seguintes, nos quais criou um laço de amizade muito forte com toda a família, percebeu que suas previsões estavam corretas. Lino tinha de fato o espírito de um aventureiro, um empreendedor; isso era o que mais chamava a sua atenção, fazia-o se lembrar da sua própria juventude.

- Bem, senhor Marcos. Sabe, preciso muito de sua ajuda, muito. E preciso que você me prometa que não vai contar nada pra ninguém. Nem pros meus pais, nem pros meus irmãos.

Lino lançou um olhar esperançoso ao seu velho amigo. Se existia alguém em toda a vila que podia ajudá-lo a concretizar o seu grande objetivo, era ele. O único homem que acreditava em seu potencial. O único que lhe contava sobre as guerras, os heróis e os torneios. Se mesmo morando em uma pobre vila de camponeses sabia algo em relação ao mundo, era por causa de Marcos. Não restava dúvidas: era hora daquele velho viajante ajudá-lo a pôr em prática o seu grande plano.

- E o que quer que eu faça, garoto? O que está planejando?

- Preciso que você vá até a vila onde meus primos moram por mim e que leve os alimentos da minha família.

O velho viajante sorriu.

- E qual a razão disto? Por acaso está pensando em fugir?

- Bem... sim... é isso. E você é a única pessoa pra quem posso confiar os alimentos que vão estar na carroça. Preciso que você vá no meu lugar. Só assim vou ter tempo de fugir sem que minha família fique preocupada com minha ausência. Assim eu ganho seis dias de vantagem. Quando você voltar, pode explicar pros meus pais. Por favor... nessa vila só você é capaz de me entender.

- Tá certo. Você ainda é muito novo, mas acho que pode escolher o caminho que quer seguir. Traz a carroça até aqui e a gente faz a troca. Pode confiar em mim, vou fazer o que você pediu. – disse o viajante, dando um último aceno com a cabeça e se dirigindo para dentro da tenda.

O garoto mal podia acreditar. Esta era a sua grande chance. Agora que ela havia aparecido e tudo parecia estar bem encaminhado, já podia até sentir seu coração bater mais forte. Apesar de ser um misto de alegria e tristeza por causa de todas as conseqüências de sua partida, a sensação ainda assim era muito boa.

Voltou para casa o mais rápido que pôde. Logo se deparou com a carroça, já pronta para a partida. Sua mãe e seu pai conversavam no quintal, ainda decidindo quem seria o responsável por levar os alimentos. Ele os interrompeu, ainda um pouco ofegante.

- Pai... mãe... deixa que eu levo a carroça dessa vez.

A idéia, porém, pareceu não ser muito bem recebida. Sua mãe colocou as mãos na cintura e cerrou os olhos, gesto que normalmente significava reprovação. O pai, que não costumava discordar da mulher, permaneceu calado e um pouco desconsertado diante do pedido.

- Olha, Lino, acho melhor você não ir não. Você é muito novo e o caminho é perigoso. Você é avoado demais. Não sei não... – resmungou a mãe.

- Mas mãe, eu já tenho quase dezesseis anos, já estou pronto. E tenho muitas saudades dos primos. Qual o problema de eu ir?

- Bem, se quer tanto ir... ainda não sei. Melhor eu conversar com seu pai sobre isso. Agora, vai comer algo lá dentro. Daqui a pouco eu digo o que decidi.

Lino fez um sinal de positivo com a cabeça e correu para dentro da pequena casa de madeira. Estava ansioso, não sabia muito bem como se comportar. Decidiu comer um pouco do pão que tinha sobrado do dia anterior enquanto olhava seus pais pela janela; tentava decifrar qual decisão eles tomariam.

Por uns poucos segundos, chegou a fraquejar. A idéia de se separar de sua família por tempo indeterminado era no mínimo assustadora. Seu pai, Antônio, e sua mãe, Sônia, sempre cuidaram dele e de seus irmãos com muito carinho. Lino tinha dúvidas de que conseguiria sobreviver sem a proteção e a segurança que eles o davam. Mesmo seus irmãos, que tanto o menosprezavam o chamando de sonhador, fariam muita falta.

A perspectiva de concretizar o seu grande sonho, entretanto, foi varrendo aos poucos todos estes sentimentos. No momento em que percebeu que seus pais tinham chegado a uma decisão, Lino não conseguiu mais se conter e correu para o quintal.

- E então?!

- Você pode ir sim. Arruma suas coisas e sobe na carroça. Mas não se esquece que tamo confiando em você. É muito importante que os alimentos cheguem lá bem cuidados. – afirmou o pai enquanto lhe dava um abraço carinhoso.

- Certo, pai. Pode confiar, não vou decepcionar.

Lino correu para dentro da casa, esperou alguns minutos para fingir que arrumava suas coisas e saiu para o quintal. Seu pai, sua mãe e seus irmãos lhe esperavam para que pudessem se despedir.

- Bem, filho, é isso. Leva este mapa para não se perder e segue sempre a estrada. Daqui a uns seis dias, eu espero te ver de novo com boas notícias. – disse o pai, sorrindo.

Já Lino tentava conter as lágrimas. Sabia que não retornaria tão cedo, mas pelo menos tinha se certificado de que o dinheiro chegaria a sua família e também de que Marcos explicaria tudo o que tinha acontecido.

Num último esforço para conter a tristeza, despediu-se de seus familiares o mais rápido que pôde, subiu na carroça e partiu em direção à entrada da cidade. Em pouco tempo, alcançou a tenda de Marcos. O velho viajante, pontual como sempre, já estava a esperá-lo, apoiado em sua bengala de prata e todo coberto por uma capa cinza que costumeiramente utilizava em suas viagens.

- Bem, já estava demorando, não? Quase desisti. – brincou.

- Sabe como é... – começou Lino, em um tom um pouco melancólico. – despedidas costumam ser longas e desconfortáveis.

- Sei, sei. Agora me deixe subir e tomar o seu lugar.

Marcos segurou as rédeas dos cavalos e subiu cautelosamente na carroça. Lino lhe entregou o mapa que marcava onde era a casa de seus primos e desceu.

- Por favor, cuida bem dos alimentos, ta? Toda minha família depende dessas vendas.

- Não se preocupe, garoto! Quando se trata de cuidar de mercadoria, ninguém é mais qualificado do que eu. Agora, é você quem deve tomar cuidado. Tem muita gente ruim por ai. Ande sempre com seus dois olhos abertos. Te vejo em breve! Heyah!! – gritou ele, ao sair em disparada com a carroça.

Lino permaneceu parado por alguns instantes, observando Marcos sumir em uma curva da estrada. Sua jornada finalmente começara. Com um punhado de alimentos que pegara de última hora em casa, cordas, uma panela de barro, algumas moedas de prata e três peças de roupa precisaria aprender a sobreviver nos ermos, sozinho. Era o grande desafio de sua vida que começava e ele estava certo de que um dia retornaria àquela mesma vila como um grande cavaleiro, um grande motivo de orgulho para toda a sua família.

Encorajado por estes pensamentos, deu seu primeiro passo com convicção: daquele momento em diante, deixava a vila para entrar na História.


Cap. 3 - Primeiros passos -

Os passos seguintes não mantiveram o mesmo entusiasmo. Caminhara por um dia inteiro e, mesmo assim, sabia que ainda teria muito trabalho pela frente. Desde que saíra de casa, a única coisa em que conseguia pensar era que já teria chegado ao seu destino se ainda estivesse com a sua carroça.

A verdade era que, apesar de estar determinado e concentrado em seus objetivos, não passava de um menino novo e inexperiente que mal sabia para onde ir. O que mais queria era se tornar um grande cavaleiro, disso não tinha dúvidas. Mas por onde começar era uma questão que ainda não tinha conseguido resolver.

Por enquanto, continuava andando, sempre seguindo a estrada em direção a uma vila não muito distante da de onde morava. Estava esperançoso. Naquela região, costumavam acontecer diversos torneios. Aparentemente, um dos mais ricos e poderosos nobres do reino possuía um de seus castelos nas proximidades da vila. Marcos uma vez havia lhe contado que este homem, conhecido como Arturo de Galgânia, era também um grande cavaleiro, um combatente que gostava de participar de muitos dos torneios que promovia.

O grande problema era que a sua situação apenas se complicava. O cansaço aos poucos aumentava, assim como a vontade de voltar para casa e deixar todos os seus planos de lado. E o que tornava tudo ainda pior: descobrira que a quantidade de alimentos que tinha levado era muito pouca. Mal duas noites tinham se passado e seus suprimentos já começavam a escassear.

Diante de tais problemas, preferiu se manter apegado às poucas esperanças que lhe restavam. Começou a racionar o que sobrara dos alimentos e resolveu parar menos para descansar; quem sabe não conseguia alcançar a vila mais próxima antes de tudo dar errado. Pelo pouco que sabia da geografia do lugar, não parecia muito distante. A vegetação aos poucos tinha se modificado, já se mostrava bem diferente da de sua terra natal. Segundo Marcos lhe ensinara, aquele tipo de floresta, bem menos densa e formada por altos pinheiros, era típica da vila para onde se encaminhava.

Um barulho mais à frente na estrada, porém, resgatou-o de suas ponderações. Não muito distante de onde estava, três homens conversavam animadamente entre um gole e outro de cerveja. Certamente, eram homens pouco educados: limpavam a boca nas mangas de suas blusas e discutiam em voz alta. Lino achou melhor baixar a cabeça e tentar passar sem chamar muita atenção, mas foi puxado pelo ombro no meio do caminho

- Vem cá, muleque. Tá vindo de onde?

O garoto não respondeu, apenas olhou para os três estranhos. Eles não se vestiam de forma muito diferente da de sua família. Claramente eram também de origem pobre; as roupas sujas, rasgadas e as botas furadas. A grande diferença eram as armas. Cada um tinha uma espada embainhada no lado esquerdo da cintura, coisa não muito comum entre camponeses.

- Ih, parece que cortaram a língua dele fora! – disse um segundo homem, que tinha uma aparência um pouco mais selvagem e descuidada do que o primeiro. – Pega essa bolsinha que ele tá levando e vamo dá no pé, deve ter gente melhor pra roubar por ai!

O primeiro homem, que ainda agarrava Lino pelo braço, jogou-o no chão e tomou à força a pequena bolsa de couro. Os três soltaram uma longa gargalhada e dispararam pela estrada.

O garoto arrastou-se até uma árvore próxima e se sentou, os braços cruzados envolvendo os joelhos. Algumas lágrimas rolaram de seus olhos, mas ele não sabia dizer se eram de medo ou de raiva. Seus planos tinham ido por água abaixo e sua jornada mal tinha começado. Mas, também, como pudera ser tão idiota? Não passava de uma criança, era um alvo fácil. Era óbvio que uma coisa dessas aconteceria.

E a raiva aumentava, mas uma raiva de menino, aquele incômodo que se tem quando você se decepciona com seus próprios atos. Por horas ficou ali, sentado, choramingando, remoendo-se. Mal sabia ele que o desespero era passageiro. E passou, depois de um tempo. A cabeça, que havia se abaixado durante o choro, ergueu-se. Se ele queria ser um cavaleiro, não podia se deixar abater por aquilo. Que criancisse a dele! Era a hora de continuar, e já até sabia como. Iria atrás dos três homens que haviam lhe roubado. Difícil não seria. Eles não eram nem um pouco sutis e suas pegadas podiam ser vistas sem grandes problemas.

Reconfortado por este novo sentimento, levantou-se, sacudiu a poeira da roupa e começou sua nova empreitada. Era hora de recuperar o tempo e o dinheiro perdidos.


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A tarefa, que parecia ser muito fácil, mostrou-se um pouco mais complicada do que inicialmente imaginara. O clima seco daquele início de inverno deixara a terra da estrada muito dura: as pegadas, com o tempo, ficavam cada vez mais difíceis de serem identificadas.

Mas isso não faria Lino se entregar. Ele seguia determinado pela estrada, analisava cada centímetro de terra e avançava o mais rápido que podia. Já tinha um dia que estava atrás dos três malfeitores e sabia que os alcançaria no momento certo. Ainda não tinha idéia do que faria se realmente os alcançasse, mas preferia não pensar muito sobre o assunto.

O tempo foi passando sem que ele pudesse notar. Só quando os últimos raios de sol começaram a se pôr e ficou difícil de enxergar o caminho é que percebeu que estava tarde. Em muito pouco tempo, seria impossível continuar a perseguição, ele não tinha como iluminar o caminho. Infelizmente, teria de esperar pelo dia seguinte.

Quando procurava por um local em que pudesse descansar, reparou em algo que lhe deu um novo ânimo. Um pouco para fora da estrada, no meio da floresta, era possível avistar uma luz em meio aos altos pinheiros. Definitivamente se tratava de uma fogueira. Se eram os três homens que o haviam roubado, não sabia; mas não restava dúvida de que o melhor era averiguar.

Esgueirou-se por entre as árvores com cuidado, tentando fazer o mínimo de barulho possível. Aproximou-se até vislumbrar a clareira de onde emanava a luz. Conseguiu avistar um homem sentado em um toco de madeira. Ele alimentava uma fogueira a sua frente e separava alguns ingredientes para cozinha; parecia um camponês comum, extraordinariamente forte, porém comum.

Um pouco desapontado, Lino deixou que o cansaço o vencesse e se sentou. Quanta coisa já havia se passado... e até agora só conseguira ficar mais perdido e desorientado. Não sabia exatamente para onde ir, não comia nada há quase dois dias e já não tinha quase mais esperanças de encontrar os homens que haviam lhe roubado. Se quando fugira da vila o destino fora um grande companheiro, agora ele parecia tê-lo abandonado. Mas apenas parecia, pois o destino não abandona os personagens das grandes histórias – e era justamente isso que Lino pretendia ser.

Quando se deu por vencido, por um golpe de sorte, que inicialmente pareceu azar, sentou-se em uma grande poça de lama, algo que lhe pareceu muito estranho; não vira um sinal de chuva sequer nos dias anteriores. Ao olhar ao redor, alimentando a sua curiosidade costumeira, notou algo que lhe chamou atenção, um detalhe que renovou o seu espírito: havia marcas espalhadas por toda a lama, marcas de pés. Conseguiu identificar cinco pares de pegadas diferentes. Duas seguiam em direção à clareira, onde estava o homem e a fogueira, mas uma delas fazia a volta e retornava novamente para estrada. As outras três tomavam o mesmo rumo.

O coração de Lino disparou. Ele conhecia as três últimas pegadas. Eram deles, dos três homens! E eram muito recentes. Era óbvio! Eles estavam prestes a realizar mais uma emboscada. Mas desta vez seriam surpreendidos, ele estava a caminho, pronto para estragar os seus planos.

Novamente tomado pelo entusiasmo e empurrado pela precipitação da juventude, levantou-se e saiu em disparada atrás dos rastros. Deixou a floresta, atravessou a estrada e se embrenhou na mata por mais uma vez. No meio do caminho, porém, ainda cego pela emoção, distraiu-se, tropeçou na raiz de um arbusto e se espatifou no chão. Quando olhou para frente, viu os três salteadores. No meio deles, estava um quarto homem, um senhor magro que vestia uma túnica de luxo roxa e uma boina de mesma cor na cabeça. Ele possuía um bigode bem fino e perfeitamente aparado, era definitivamente alguém muito rico, provavelmente um nobre.

Apesar da entrada desastrosa na cena, Lino não chegou a ser notado. Os salteadores pareciam muito ocupados assustando a sua vítima. O homem a quem roubavam, entretanto, mantinha a calma e a classe, mas também não mostrava resistência.

- Com calma, por favor. Vamos resolver as coisas sem violência, sejamos cavalheiros, meus bons homens. – disse ele, fazendo gestos com as mãos na tentativa de apaziguar os salteadores.

- Ih.... olha o cara... tentando enrolar a gente. – disse o homem de aspecto mais selvagem, que parecia ser o menos paciente dos três. – Vamo dá uma lição nele e ver se ele continua calmo assim!

- Ei, esperem ai vocês três! – gritou Lino enquanto se levantava do chão e apontava o indicador da mão direita na direção dos salteadores, que prontamente se viraram para encará-lo. Não demorou muito e caíram na gargalhada, tão logo o reconheceram como o menino que tinham roubado no dia anterior.

- Olha quem resolveu aparecer! – exclamou o salteador de aspecto mais selvagem em meio a incontidas risadas. – Erick, não vamos perder tempo! Pega ele logo!

O mesmo homem que havia arrancado e roubado a bolsa de Lino anteriormente partiu em sua direção. Sem o lampejo de coragem que o havia acometido momentos antes, o garoto olhou-o se aproximar com uma expressão de horror, quase atônito diante da situação. Em um ato reflexo, virou-se o mais rápido que pôde na direção oposta e saiu em disparada rumo à estrada. Precisava pensar rápido. O salteador estava a seu encalço. Não era muito fácil correr pela floresta, ainda mais desesperado. Um plano.... um plano... precisava de um plano. Ele não veio. Para piorar, suas idéias aos poucos se esvaíam, assim como o seu fôlego e a sua velocidade.

Em um salto, sobre uma pedra que quase o derrubou, alcançou a estrada. Olhou para os lados... tudo vazio. O som dos passos de seu perseguidor aumentava. Sem saber o que fazer, embrenhou-se na mata novamente. Mais à frente, viu uma luz... uma luz já conhecida. O homem da clareira! É claro! Ele poderia ajudar.


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O homem se levantou assim que viu o menino todo desengonçado sair correndo da floresta. Sem demonstrar qualquer hesitação e com uma prontidão até mesmo surpreendente, disparou ao seu encontro para lhe prestar socorro.

- O que aconteceu, garoto? Tá tudo bem com você?

- Salteadores... salteadores... ai atrás de mim. – balbuciou Lino, esbaforido.
O homem ergueu a cabeça. Assim que avistou outra pessoa saindo da floresta, puxou Lino para trás de si com o braço direito.

- Ah! Quer dizer que arrumou um protetor. – disse o salteador, em tom debochado, no momento em que parou a dois passos de distância do homem e começou a jogar sua espada de uma mão para a outra ameaçadoramente.

- Garoto, pelo que você falou, era pra ter mais de um bandido, não?

- É. Mas os outros dois estão atacando uma outra pessoa. Um nobre, eu acho.

O homem deixou escapar um grito de lamento e colocou as mãos sobre a cabeça. Depois, em um movimento rápido, segurou com a sua mão esquerda o braço esquerdo do salteador, deu um giro com o corpo e acertou uma cotovelada fulminante em seu rosto. Lino tomou um susto. Em uma questão de segundos, viu o seu perseguidor nocauteado.

- Uau... isso foi... incrível!

- Onde está o nobre que você falou? Me leva até ele imediatamente!

- Tá. Tudo bem. Vem comigo!

Os dois saíram em disparada em direção à floresta. Agora revigorado e um pouco mais seguro, Lino não teve dificuldades em alcançar a estrada e encontrar o local onde o nobre fora emboscado.

- Parem ai, vocês dois! – gritou ele, assim que saiu do meio das árvores e encontrou os salteadores.

Os dois homens se esqueceram do nobre que tentavam roubar e se viraram muito irritados. O que aquele menino intrometido poderia querer agora?

- Erick!! Não falei para pegar o... – dizia o salteador de aspecto mais selvagem quando viu um homem sair da floresta logo atrás de Lino. – quem é você?

- Vou dar uma chance pra vocês. Vão embora agora e eu não machuco nenhum dos dois. – disse o homem, puxando Lino mais uma vez para trás de si com o braço direito.

Os salteadores não levaram a ameaça a sério: começaram a gargalhar do estranho a sua frente. Atrás dos dois, o nobre respirou aliviado. Com uma calma incomum, ajeitou a boina roxa na cabeça cuidadosamente, passou pelo meio de seus agressores e se pôs ao lado de Lino e do outro homem.

- O que é isso?! – gritou o salteador de aspecto mais selvagem. – Não acreditam mesmo que estão a salvo agora, não é?

- Idiotas! – gritou o outro enquanto caía na gargalhada.

O nobre não deu atenção aos gritos. Lentamente, tirou duas luvas de couro do bolso, deu uma leve sacudida para tirar o pó e as vestiu. Depois, ajeitou novamente a boina na cabeça.

- Bartô... você está atrasado... como sempre. Agora, termine logo com estes dois, eles já causaram muitos inconvenientes.

- Desculpe-me, senhor, mas estava montando nosso acampamento.

Lino permanecia calado. A maneira como aqueles dois estranhos reagiam àquela situação era um tanto quanto peculiar. Ao menos para ele, tudo parecia muito perigoso e arriscado: a vida deles estava em jogo. Os dois salteadores tinham a mesma opinião. Ambos estavam incrédulos com o pouco caso feito de suas ameaças. Era algo definitivamente inaceitável. A atitude daquele nobre e de seu aparente serviçal era totalmente desrespeitosa e, o que ainda tornava as coisas piores, beirava a indiferença.

- Quem vocês pensam que são? – esbravejou o homem de aspecto mais selvagem. – É melhor pararem com a brincadeira ou vão acabar se machucando! Se não passarem tudo o que têm de valor agora vocês vão ver!

Os dois salteadores faziam gestos vigorosos no ar, tentando desesperadamente tomar o controle da situação. Lino mantinha os olhos fixos neles, ainda estava muito assustado e amedrontado com tudo que acontecia. Até agora, não conseguia entender como aquele nobre e o seu companheiro podiam estar tão calmos.

- Bartô... cuide deles, tudo bem?

- Como quiser, senhor.

- Está certo, então.

O nobre se virou, sacudiu as mangas de sua veste cuidadosamente e seguiu em direção à estrada. Os salteadores ficaram pasmos. Como alguém poderia reagir a uma emboscada daquela maneira? Quanta arrogância! Era hora de alguém lhes dar uma lição! E ninguém melhor do que dois bandidos experientes para fazê-lo.

Suas ações, porém, não foram tão rápidas e nem tão vigorosas quanto os seus pensamentos. Antes mesmo que pudessem levantar as suas espadas, viram um homem impressionantemente ágil para o porte que tinha desferir contra eles golpes que nunca tinham sequer imaginado. Depois da surra, até pensaram em se levantar e tentar continuar lutando, mas a covardia se mostrou mais forte. Melhor era permanecer no chão, derrotados, a correr o risco de se machucarem ainda mais. Vida difícil era aquela de salteador.

Já Lino continuava calado e imóvel, quase como o espectador de uma cena que não correspondia a sua realidade. Quem era aquele homem? O que ele e um nobre faziam na floresta? Isto era o que mais o interessava.

Um tapa amigável nas costas o fez voltar à realidade. Ele levantou a cabeça e viu o acampamento. Estava tão envolvido em seus pensamentos que nem percebera ter andado até ali. Com a mão em seu ombro, estava o homem que derrotara os salteadores. Mais adiante, o nobre tomava conta de uma panela meticulosamente colocada no fogo.

- Garoto, queria te agradecer. Foi muito corajoso de sua parte ter se colocado para me defender. Se não fosse você, Bartô não teria me encontrado. Claro que aqueles homens não eram grande coisa, mas fico feliz que tenha mostrado bravura. Nestes dias, ninguém a tem, pode apostar. – disse o nobre enquanto adicionava alguns ingredientes ao que cozinhava.

- Ah, obrigado. Mas não foi mais que minha obrigação. Eles também tinham roubado as minhas coisas, eu pude pegar elas de volta.

- Sim, sim. Muito modesto de sua parte. Agora se sente, vamos todos comer. Fiz uma sopa com alguns ingredientes desta floresta. Tenho certeza de que irá gostar.

O nobre pegou uma tigela de metal, encheu-a com uma sopa verde de aspecto e cheiro muito agradáveis e a ofereceu a Lino. O garoto prontamente aceitou, pegou a tigela e se sentou num toco de madeira. O homem que derrotara os salteadores, que atendia pelo nome de Bartô, sentou-se ao seu lado.

- A noite está muito bonita, não? Hoje o dia foi bom, acabou dando tudo certo. Acho que acordamos com o pé esquerdo. – comentou ele enquanto olhava do céu para a floresta.

- É verdade. E o clima está muito bom também, nem muito quente, nem muito frio. – respondeu o nobre, que fitava de cima a baixo as roupas sujas de lama que Lino vestia. – E você, garoto? Pelo que vejo, não teve um dia tão bom, não é?

- É. Não tive mesmo. Tava perseguindo os salteadores o dia todo, já tava quase desistindo. Ah, e obrigado pela sopa, está muito boa.

- Não precisa agradecer. Depois de tudo o que fez, você merece.

Lino respondeu com um sinal de positivo. Ainda se sentia desconfortável na presença dos dois estranhos. Eles pareciam ser boas pessoas, mas mal os conhecia; não sabia o que deveria dizer e nem como tinha de se portar. Era melhor baixar a cabeça e tomar a sua sopa em silêncio.

- Ei, garoto. Me diz: por que que você tá sozinho? É meio perigoso pra alguém da sua idade andar por essa região. – perguntou Bartô enquanto lhe oferecia um cantil de água.

- Ah... é... é que eu fugi de casa.

- Fugiu de casa?! Mas então precisamos levar você de volta! Seus pais devem estar muito preocupados! – exclamou o homem, parecendo extremamente contrariado.

O nobre fez um gesto para que ele se acalmasse e depois fitou Lino por alguns segundos. Talvez fosse interessante ouvir o que aquele bravo garoto tinha a lhes contar.

- Qual a razão dessa sua fuga? Não é algo muito comum de se ver, ainda mais se for para se embrenhar numa floresta perigosa como esta.

- Eu fugi pra tentar me tornar um cavaleiro. Como sempre ouvi dizer que na vila que tem ai mais adiante costumam fazer torneios, queria chegar lá. Mas os salteadores apareceram e tudo começou a dar errado.

- Ah... se tornar cavaleiro. Então é isso. Bem, vou lhe dizer que é uma tarefa bem difícil, ainda mais para alguém que parece vir de origem pobre como você.

- Eu sei. Mas nada pode me impedir de tentar, não é?

- É. Está certo. E sua família? Não acha que eles ficarão preocupados?

- Não, eu fiz uma combinação com um amigo meu. Meus pais só vão saber que eu fugi daqui a quatro dias. E esse meu amigo vai explicar tudo pra eles.

- Bem, isso não significa que eles não ficarão preocupados, mas já é alguma coisa. Não é mesmo, Bartô? Acho que não precisamos levá-lo para casa. – disse o nobre, sorrindo, enquanto servia um pouco mais de sopa para o menino.

- É. Poder ser. Eu ainda acho que seria melhor levar ele de volta, mas se você acha que não... tudo bem.

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2 A morte do poema

Na correria
não há poesia.
E essa não é apenas uma rima boba,
aquela coisa sem sentido e tola
de um poeta sem imaginação.

Não.

Esses são versos sinceros,
segredos que se revelam
como chaves de uma prisão.

Nada melhor do que as pressões do dia-a-dia
para matar de vez todo e qualquer poeta.
A eficiência é um arco que a sociedade cria
e as incertezas as mortíferas flechas.


Comentário: Esse é um poema BEM diferente mesmo do que costumo fazer. É mais engraçadinho vamos dizer assim, mais despreocupado talvez. Não sei se é dos melhores, mas quando o terminei ontem achei que, por ser bem diferente, eu deveria colocá-lo aqui no blog.

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7 Big Brother Brasil e a questão do preconceito

Talvez este seja o meu primeiro e último post a respeito do Big Brother Brasil. Digo talvez, porque, como sou formado em comunicação, o programa muitas vezes suscita questões interessantes, como a que pretendo comentar nesta postagem, então não posso garantir que eu não vá falar sobre ele aqui de novo. Não vou julgar se as pessoas devem ou não assistí-lo ou se ele é ou não é algo de qualidade; não me preocupo nem um pouco com isso. Eu, particularmente, não assisto ao programa, mas não por achar que é horroroso ou uma afronta à intelectualidade como muitos gritam aos quatro ventos, mas por uma simples questão de hábito; estou acostumado a fazer ou assistir outras coisas no horário.

O fato é que, na última terça-feira, acabei assistindo ao programa, vi uma pequena parte de edição e então a prova do líder. O que me chamou a atenção foi a questão da "diversidade" neste Big Brother Brasil, inclusive comentei isso via twitter. Achei engraçado que a Globo anuncie a quem quiser ouvir - e a quem não quiser também - esta edição como a que pretende "quebrar os preconceitos", pois o que eles fazem é justamente o contrário; não tratam a questão com a naturalidade que ela deveria ter, mas a exaltam o tempo inteiro como algo que deve ser exaltado. Isso é um problema, um erro grave que foi cometido.

Vejamos o porquê desta minha afirmação. Se você pretende estimular a aceitação dos homosexuais, você logicamente irá querer que a homosexualidade seja vista como algo natural. Uma pessoa seria advogada, loira e hétero; ou professor, moreno e gay; e assim por diante. Quando você exalta da maneira como o programa faz a sexualidade dos três participantes da Tribo dos Coloridos, quando exalta como característica principal que os define como pessoas a homosexualidade deles, você aponta que há algo de estranho ali, algo que de ser observado e que, por isso, não pode ser natural.

Mostrarei um exemplo em novelas para que a coisa fique mais clara. A Taís Araújo, por exemplo, foi a primeira protagonista negra da história das telenovelas brasileiras. Atualmente, ela é também a segunda, exercendo o papel de Helena na novela de Manoel Carlos. As duas situações em que ela foi protagonista, porém, foram totalmente diferentes se olharmos pela questão racial.

Na primeira novela, a Cor do Pecado, a protagonista possuía o nome de Preta, o próprio título da novela já apontava a questão da cor, e a personagem de Taís Araújo era definida somente por isso. Alguém ai lembra o que ela fazia para viver? Quais eram seus sonhos e etc? Não... toda a novela, todas as questões da vida da personagem principal se envolviam com o fato de ela ser negra, somente isso. Esta é uma maneira ruim de tratar o assunto. Afinal, se você quer que o negro seja visto sem diferenciação de tratamento, faça isso já na criação da personagem. Crie uma protagonista como outra qualquer; com profissão, sonhos e triângulos amorosos como em qualquer outra novela e faça com que ela seja, assim, por um acaso, negra, como poderia ser branca, mulata, loira e etc...

É isto que acontece nesta nova novela. Não acompanho para saber se já houveram episódios que envolvam a questão do racismo, mas esta personagem de Taís Araújo, a Helena, não tem como característica principal e quase única ser negra. Ela é uma pessoa como outra qualquer, uma protagonista como outra qualquer, que também é negra. É desta maneira que você de fato estimula a "quebra de preconceitos" e não da forma como o Big Brother Brasil vem fazendo.

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