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Cadernos do homem comum - Horácio

em 06/11/2008.
Antes de mais nada, é preciso dizer que este é um projeto experimental. Ainda não faço a menor idéia do que achar, mas quem sabe alguma pessoas não entrem aqui e digam o que pensaram ou sentiram ao ler o texto. Talvez assim eu possa ter opiniões para saber se a tentativa deu frutos ou não. Enfim, é um estilo bem diferente do que eu costumo fazer... Só devo uma explicação. Pode até parecer, mas não é um projeto que envolve vários contos sobre o Horácio, este conto é único, sobre este personagem, os outros contos são sobre outros personagens; isso, é claro, se eu levar a idéia adiante.


Horácio

[1]

Ele era muito mais atento do que as outras pessoas. Todos os dias, saía de casa, girava a chave duas vezes para trancar a porta e dava três passos até o elevador. Assim que alcançava a rua, contava exatos cinco minutos de caminhada e virava à direita; estava no metrô. Sua atenção era total. Sabia que era crucial não deixar escapar nenhum detalhe. Era necessário sentir todas as coisas à sua volta.

Após descer as escadas, dava mais quinze passos até a bilheteria, adquiria a sua passagem, caminhava por mais dez segundos e passava pela roleta. Esperava logo no início da plataforma; era definitivamente menos trabalhoso. O metrô chegava. Ele tateava a porta por alguns segundos; era sempre fria, de aço, tinha certeza, ou talvez fosse de alumínio.

A viagem era sempre tranqüila. O horário não era muito movimentado. Ele se sentava e esperava pacientemente até a sua estação. Quando ouvia “next stop, Botafogo station” logo se levantava; só prestava atenção à voz quando ela falava em inglês.

Após cento e doze passos, um corrimão e uma escada rolante, saía do metrô. Geralmente estava calor do lado de fora, mas assim era o Rio de Janeiro. Ele se espreguiçava e andava até o trabalho; não ficava muito longe, bastavam trecentos e quarenta e sete segundos.

[2]

Horácio trabalha em um renomado laboratório; faz análise de amostras sanguíneas.

7 Comentários:

Lídia Michelle

Caramba, Leo, que vontade de continuar... tomei um susto quando acabou, hhehe, vontade de saber como continua a vida desse cidadão. Aliás, no meio da leitura me lembrei do filme 'Mais estranho do que a ficção"; pensei que o Horácio não fosse cego, mas o sentir a porta do metrô me deu a certeza de que ele era cego... heheh... Enfim... Muito bom mesmo... :)

Thiago

Muito interessante. Confesso que fui pego de surpresa. Continue o projeto. Lembrou um conto meu que postei no Alias e a proposito "Trivialidades"...

Leo Schabbach

Valeu ai ao pessoal que comentou. Espero que continuem comentando nos próximos posts. Quem leu e não comentou, comente! Assim posso ter uma noção de como as pessoas estão reagindo - bem ou mal - aos experimentos, contos, poesias e etc... Sobre o conto: a idéia é que ele fosse algo de significação bem aberta mesmo, que cada pessoa sentisse coisas diferentes. Mas devo admitir que houve uma intencionalidade de transmitir a sensação a quem lesse de que o homem era cego, para depois causar um choque ao mostrar que não. A idéia é mostrar como muitas vezes deixamos de sentir as coisas em todos os seus aspectos, como deixamos de prestar atenção nos detalhes, até mesmo nos outros sentidos que possuímos(algo tvz um pouco inspirado no Ensaio sobre a cegueira quem sabe). Isto é, não é preciso ser cego para se estar atento às particularidades de cada coisa. Espero ter sido claro, e mais uma vez, um obrigado aqueles que deixam suas opiniões.

Bernardo

sabe o que me pareceu, quando li? que o horácio era cego... porque a sua forma metódica parecia algo como que necessário para não ser alvo de nenhuma desordem externa. Não era ele propriamente que agia, mas uma certa segurança transcendente, que impedia que acontecesse qualquer coisa que afetasse a sua fragilidade. Mas depois pensei que não, quando vc disse "ele se espreguiçava...", ninguém se espreguiça desta forma. Enfim, mas vendo como um todo, só posso aguardar para ser um todo mesmo e entender quem é Horário,rs. É isso, leo, boa sorte! te dou mó apoio pra continuar. eu que não gosto muito de conto, gostei. abraço.

Cizenando

Fala, Leo. Bom, às vezes o comentarista demora mais aparece, hehe... Bom, primeiro de tudo o texto me reforça a sensação, e o interesse, no extraordinário contido no trival, ou seja, o quão rica pode ser a cena mais banal. Especificamente quanto ao texto, acho que o que salta é realmente o contraste entre a frase-afirmação inicial do narrador sobre a personagem e o comportamento oposto deste, no sentido de que o método de seu cotidiano anula a possibilidade de estar atento a algo que não a si. Aí, a relação com a cegueira é literal, uma escolha (que aponta para uma discussão): (escolher) ver algo implica (escolher) não enxergar outras coisas.

Luiz

Confesso que me peguei curioso como a Dani e em dúvida se era mesmo cegueira a, digamos, motivação de Horácio. Ou seria apenas um metódico? Continue, Léo, está bem legal !

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