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Fernando Pessoa (Poesias inéditas) - Deixei de ser aquele que esperava

em 29 de nov de 2008.

Deixei de ser aquele que esperava,
Isto é, deixei de ser quem nunca fui...
Entre onda e onda a onda não se cava,
E tudo, em ser conjunto, dura e flui.

A seta treme, pois que, na ampla aljava,
O presente ao futuro cria e inclui.
Se os mares erguem sua fúria brava
É que a futura paz seu rastro obstrui.

Tudo depende do que não existe.
Por isso meu ser mudo se converte
Na própria semelhança, austero e triste.

Nada me explica. Nada me pertence.
E sobre tudo a lua alheia verte
A luz que tudo dissipa e nada vence.


Comentário:
Em primeiro lugar, postei este poema por achar interessante colocar coisas “inéditas” de Fernando Pessoa no blog; assim podemos fazer comentários sobre versos ainda não tão discutidos. Eu particularmente gosto muito do poeta português, mas nunca fui um assíduo leitor, comecei a lê-lo com mais freqüência recentemente. Gostaria, portanto, de convidar as pessoas a discutirem o poema, embora saiba que provavelmente ninguém irá comentá-lo. Achei este especialmente interessante, pois ao menos para mim ele parece se abrir para inúmeros significados, o que o torna um poema de grande qualidade.

Peço comentários neste caso específico, pois imagino que as leituras serão extremamente diferentes da minha. Não há muito a se comentar sobre a estrutura do poema, a métrica e as rimas, afinal, tudo se encaixa de maneira muito bonita. Deste modo, as impressões a respeito do que Pessoa pode ter pensado ao escrevê-lo serão muito pessoais; serão altamente influenciadas pelo momento de cada um.

O que logo me chamou a atenção – além, é claro, da beleza poética da obra – foram os dois primeiros versos; versos que, em minha opinião, dão o tom do poema. Eles revelam um grande problema enfrentado hoje pela sociedade, ou melhor, pelos indivíduos. Nós vivemos em um mundo no qual estamos sempre projetando o futuro, sempre pensando em uma vida futura, em um “eu” futuro que desfrutará de uma vida tranqüila pelo qual é válido sacrificar o presente. A grande questão é que este “eu” muitas vezes não se realiza e nós seguimos vivendo sem nos dar conta disso. Isto é, projeta-se uma imagem de si no presente, uma imagem que se tornará completa em um futuro que não necessariamente existe. Quando nos damos conta disso é exatamente o momento em que “deixamos de ser aquilo que nunca fomos”. É neste momento que se percebe como o “eu” presente se torna escravo deste “eu” futuro, como ele se torna uma imagem semelhante, austera e triste dele.

Eu sei que há muitas outras abordagens para a temática deste poema – eu mesmo poderia escrever mais uma ou duas seguindo ainda esta linha de projetar um “eu” que não existe (e talvez seja por intermédio desta discussão que se possa tentar descobrir um pouco mais sobre Fernando Pessoa e seus heterônimos) – mas quis levantar uma questão específica que me chamou a atenção logo nos primeiros versos. Enfim... sintam-se livres para discutir.


4 Comentários:

Glauco

Oi!

Vi uma propaganda do blog e vim conhecer. Achei muito interessante! Parabéns! Sou autor, revisor e tradutor, por isso gosto de trabalhos assim.

Aliás, este mês eu "estive com" Fernando Pessoa. Ao lado do túmulo dele, lá em Portugal. Camões também! Publicarei sobre isso no blog (bloglauco.blogspot.com).

Vá fundo aqui com seu trabalho! Muito sucesso!

Cizenando

Fala, Léo

Então, concordo em linhas gerais com a sua interpretação sobre o poema. E a atualidade dele mostra um problema pelo qual o homem vem passando - palpite - há tempos, sendo em Pessoa algo pós-Revolução Industrial, sendo agora pós-realidade (virtualidade): a relação consigo mesmo. Porque enquanto a tecnologia expande as possibilidades da vivência humana, seu criador parece que vai perdendo a intimidade consigo próprio (cresce para fora e afasta-se de seu interior - e a crise de identidade em voga). Acho que vale destacar, além dos dois versos iniciais, quando ele fala em mudez, em não explicar - sintomas da transferência desse desencontro pessoal para a relação com o outro.

Anônimo

Foi sim, uma bela interpretação de Fernando Pessoa... Está de parabéns!

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