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As surpresas narrativas

em 26 de set de 2009.

Nota: Eu iria colocar esta postagem aqui ontem, mas o pessoal da net fez um monte de besteira quando veio trocar meu modem e talvez eu fique até segunda sem internet. Agora, posto da casa de um amigo. Espero que desfrutem o texto e que ele traga discussões.

Hoje faço uma postagem baseada num artigo que li do Raimundo Carrero no Jornal Rascunho. Uma vez mais, trago à discussão a oposição entre uma literatura mais voltada para a crítica e uma literatura que é consumida pelo que chamam de "massas". No artigo, Raimundo Carrero fala sobre a surpresa na narrativa, atenta para o fato de que cada vez menos os autores têm como nos supreender através do conteúdo narrativo e aponta para uma surpresa derivada do próprio texto, dos recursos estilísticos.

Eu concordo com ele. Inclusive é incrível poder ler textos que sabem utilizar este recurso - Guimarães Rosa sabia fazer isso como ninguém. É uma surpresa de alto valor literário. Para exemplificar melhor, irei retirar do artigo do Raimundo Carrero a citação de um trecho de "Perdoando Deus", conto de Clarice Lispector.

"Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo. Por puro carinho mesmo, sem qualquer prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe... E foi quando quase pisei num enorme rato morto. Em menos de um segundo, eu estava eriçada pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-me toda em pânico, e controlava como podia o meu mais profundo grito".

Este é um trecho que, ao menos a mim, incomoda, provoca. Notem como a autora trabalha, por intermédio do estilo narrativo, todo um clima de conforto materno, cria um ambiente agradável e, então, muda drasticamente a situação através do uso de palavras fortes, da mudança da própria "voz narrativa". Como nos diz Raimundo: "Clarice preparou a surpresa tornando-se carinhosa e, de certa forma, divina, por assim dizer. Criou um efeito de ternura e afeto, para só depois levar o terrível ao leitor".

Acho que com este exemplo fica claro o que significa esta surpresa derivada do trabalho com o texto. Entretanto, uma vez mais, tal observação de Raimundo Carrero me faz pensar na relação entre a literatura mais artística e a chamada literatura comercial. Isso porque, por mais que os escritores mais conceituados e também leitores mais sofisticados estejam abandonando a surpresa nervosa, aquela que vem da curiosidade de saber o que irá acontecer, ela ainda está de fato muito viva. Todos os últimos "super best-sellers" mundiais trazem este tipo de surpresa: os livros de Dan Brown, Harry Potter e etc... todo mundo quer saber como vai terminar a história.

Na minha opinião, o próprio Raimundo Carrero faz uma observação neste sentido, quando diz que a "surpresa nervosa", é claro, ainda existe e não pode ser ignorada. Afinal, é o que a realidade nos mostra. Não há como ignorá-la quando vemos livros alcançando um sucesso tão grande se baseando apenas nela, se baseando apenas em uma boa trama, sem tanta complexidade linguística e trabalho literário. Isso significa que o leitor quer sim ser surpreendido, ter a curiosidade aguçada, ter aquela vontade de saber o que vai acontecer, e não apenas se deleitar com as pequenas surpresas narrativas, que tem, claro, um valor literário maior e, até mesmo por isso, são menos valorizadas pelas massas, que muitas vezes não as captam.

Creio que o equilíbrio seja peça-chave aqui novamente. Não devemos descartar a surpresa nervosa e nem depreciar as obras que se baseiam nela. Criar uma boa trama, uma história boa o suficiente para provocar estas sensações, é um processo que certamente deve ser valorizado. Numa época em que já se viu e leu quase de tudo, ter a capacidade de inventar algo que ainda surpreenda é uma tarefa extremamente complicada, algo que deve ser definitivamente creditado. Resta aos escritores definir o seu próprio estilo, seja equilibrando as duas supresas ou não. A própria Clarice Lispector é uma escritora que utiliza muito as pequenas surpresas narrativas e poucas vezes as surpresas nervosas das grandes tramas. Alguns desgostam de suas obras por isso, outros a veneram. Na minha opinião, quem escreve deve ser seu maior crítico e criar sua própria maneira de contar histórias. E cabe a nós, leitores, é claro, ler aquilo que gostamos.

O que quero dizer, portanto, é que a capacidade de inventar uma grande trama, em geral, não é valorizada pela crítica - e há realmente algum sentido nisso, uma vez que o trabalho literário com a palavra independe da história que está se contando. Por outro lado, é notável que boa parte das grandes obras da literatura mundial tem como seu ponto mais forte justamente uma idéia original, como vemos no caso de "Dom Quixote", "A Divína Comédia" e, mais recentemente, "A metamorfose", "O Aleph" e o próprio "Ensaio sobre a cegueira" do Saramago. É claro que a habilidade literária em todas essas obras também é impressionante, mas o que mais as marca é de fato a sua originalidade. Por isso, não devemos desprezar a já tão surrada surpresa nervosa, mas pensar em uma forma de utilizá-la com precisão.

3 Comentários:

Marcela

Poxa... Mto bom o post, eu nunca tinha parado para pensar nesses 2 tipos de surpresa na narrativa. Mto legal!

Paullo Phirmo

De fato, Leonardo! É uma discussão muito interessante. É. Eu também fico na valorização das duas coisas: estilo literário e conteúdo. Mas confesso que tendo mais para o estilo, pois este mesmo que não se some à uma novidade de idéias (história/conteúdo), muitas vezes é capaz de alimentar e realimentar as nossas percepções em meio a esta relação com o autor, com a narrativa...

Este seu post me lembrou duas coisas ainda. Ontem estava lendo "Cartas a um jovem escritor", do Mario Vargas Llosa e hoje, "Máquina de Pimball" da Clarah Averbuck. A partir do Mario, estava lendo sobre justamente sobre estilo literário e como exemplo (a meu ver) do que seu post levantou, ressalto a "3ª" opção no lugar do narrador. O "tu/ele" que é algo novo, segundo ele e é diferente da primeira e da terceira pessoas. No livro da Clarah eu vejo este tipo de narrador e muito, muito estilo literário. Um estilo que eu gosto muito! É bem interessante. Fica a (s) minha (s) dica (s).

Abração, cara!

Leonardo Schabbach

Valeu pelos toques, vou dar uma olhada no que você falou. Achei interessante essa colocação de um terceiro elemento a ser observado.

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