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Singularidade

em 30 de set de 2009.

Américo descobriu que o tempo é infinito. Andava pelo templo de sua vila quando finalmente compreendeu: o tempo é infinito, para trás e para frente. E se assim o é, ele era um mero refém do mundo. Não podia fazer algo de novo, tudo já tinha acontecido. Sim. Tudo já tinha acontecido. Num tempo infinito para trás e para frente todo e qualquer acontecimento, em algum período da história, já se realizara. Não podia inovar, não tinha escolha. A ele restava sentar e esperar que o mundo passasse.

Voltou para casa e se acomodou em uma cadeira próxima à janela. Se fora condenado a ser um mero espectador da infinitude do mundo, pelo menos queria se reservar o direito de o fazer confortavelmente. Com olhos atentos, observava as pessoas da vila e as pequenas casas de madeira. Triste era a finalidade do homem, escravo do tempo, arrancado de toda a sua singularidade para viver a reencenação de um momento passado e indeterminável.

Américo descobrira o segredo, estava decidido a nada mais fazer. De nada adiantava se esforçar para tomar suas escolhas se elas um dia já tinham sido tomadas... sabe-se lá quando e sabe-se lá quantas vezes.

Nos dois primeiros dias, ficou parado, imóvel em sua cadeira, observando as coisas passarem a sua frente. No terceiro, viu os homens da vila saírem para caçar; uma forte chuva começou a cair. Ele permaneceu impassível, era um mero espectador. Um estrondo lhe chamou a atenção. No fundo da vila, uma das pequenas casas de madeira fora atingida por um raio, pegava fogo; nem a chuva forte era capaz de apagar as chamas.

Uma mulher saiu da casa aos gritos, chorava. Ele continuava a observar. A mulher se ajoelhou em frente à casa em chamas, berrava em desespero: sua filha pequena ficara presa lá dentro. Ele vacilou, será que devia se mexer? Será que deveria agir? Se o fizesse trairia sua mais recente descoberta. Se agisse estaria, mais uma vez, a repetir algo que já acontecera. Ele queria se livrar do mundo, desfrutar de uma liberdade real, e para isso não podia se importar com o que acontecia bem a sua frente. Todas as coisas para ele precisavam ser descartáveis e descartadas. Por outro lado, não agir também seria reencenar. E o pior, exerceria o papel de vilão. A escolha era difícil: era por isso que preferia as comédias.

Ele se levantou, saltou pela janela e correu até a casa. Este ato era ele quem definia, por mais que se tratasse de uma peça já tantas vezes reproduzida. Ele preferia ser o herói. Entrou na casa, enfrentou as chamas e salvou a criança. A mãe ainda chorava quando teve novamente sua filha em seus braços. Muito emocionada, ela o beijou: eles se apaixonaram.

Alguns dias depois, Américo se casou. Estava feliz, imortalmente feliz. No final da cerimônia, ainda deixou escapar um sorriso irônico e satisfeito. Sua felicidade naquele momento era apenas sua, era verdadeiramente singular, não podia ser repetida, nem reencenada, por mais infinito que o tempo fosse.

5 Comentários:

Bernardo

Gostei da liberdade final do personagem. Mas sobre o tempo, não acho que podemos dizer realmente que ele seja infinito tanto para frente quanto para trás. Para frente, porque não conhecemos o futuro e não é um absurdo lógico que todas as coisas deixem de ser, porque elas sao contingentes. Anteriormente, porque não é possível provar a eternidade do mundo, logo, não podemos dizer que o mundo existe desde sempre. Pois, logicamente é possível considerar que o tempo foi criado junto com a matéria, se considerarmos que o tempo é a medida de movimento, e que só há movimento propriamente com a matéria. Sobre o fato da história ser cíclica, parece interessante, mas também não é possível demonstrar a sua necessidade. Pois a história é apenas a sucessão da materialidade dos entes e não há nada nos entes necessariamente que indique que eles retornam para si mesmos, ou que seguem determinada repetição. A história não parece poder ser a priori absolutamente nada, a não ser uma afirmação analítica de identidade. A histótia é a história, e tudo o mais precisaria de muitas demonstrações que são, de certa forma, histórias. Mas como a história pode dizer a razão própria da história? forte abraço!

Leonardo Schabbach

A idéia do tempo cíclico é do Nietzsche, o conceito de eterno retorno. Mas não me preocupei tanto com essas questões (até por que é difícil afirmar se o templo é cíclico ou não), é mais o pensamento do personagem na história mesmo e como então se sucede a discussão filosófica interna dele. De qualquer maneira, é complicada a afirmação de que o tempo é linear, assim como a de que o tempo é cíclico. É arriscado dizer que o tempo surge junto com a matéria, para isso é preciso assumir que houve algo como Big Bang e que antes dele também nada havia. Já se adotar muitas teorias que dizem que o Big Bang aconteceu, mas que depois de bilhões, trilhões de anos o universo se retrai novamente e acontece outro Big Bang, você retorna à possibilidade de um tempo cíclico. Enfim, as duas teorias são puro "chute", hehe, depende da crença de cada um. Mas aqui estamos mais preocupados com nosso amigo Américo e as complicações que sua descoberta traz =P

Lisa Alves

A sua singularidade adquirida no final foi tão igual quanto as repeti~çoes que percebeu inicialmente. O que lembra-me de Macondo e seu sábio inventor de coisas já inventadas um dia. Américo é a ´persona nossa de cada dia.

"Tudo que é reto mente, a verdade é curva" Será que tudo que é repetido torna-se veraz? Os nossos sentimentos como felicidade ao se deparar com o nascimento de um filho é verdadeira ou apenas uma cópia dos nossos pais.

Adorei teu espaço e tua escrita


Lisa Alves

Jose

Deliciosa história, Leonardo, e com timing perfeito. Além do mal-humorado Nietzsche, com todo respeito ao mal-humor dele, os velhos gregos também tinham a percepção de circularidade do tempo.
Mas o tempo como uma dimensão semelhante à percebida pelo personagem é correta, dizem os físicos - ou alguns ramos da física. Aí, a questão que os teóricos se põem é altamente poética: por que, afinal, não lembramos o futuro?
Abs, Leo!

Rosana Madjarof

Oi, Leonardo!

Adorei o seu conto.

Não podemos ficar parados esperando a vida passar, pois ela passa tão rápido que se pararmos para apreciar o tempo passar, na certa estaremos perdendo um tempo muito precioso de nossas vidas.

Beijos no coração.

Rosana Madjarof.

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