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A Biblioteca - por Gonçalo M. Tavares

em 22 de nov de 2009.

O senhor Juarroz gostava de organizar a sua biblioteca de maneira secreta. Ninguém gosta de revelar segredos íntimos.

O senhor Juarroz primeiro organizara a biblioteca por ordem alfabética do título de cada livro. Rapidamente, porém, foi descoberto.

O senhor Juarroz organizou depois a sua biblioteca por ordem alfabética, mas tendo em conta a primeira palavra de cada livro.

Foi mais difícil, mas ao fim de algum dia alguém disse: já sei!

A seguir o senhor Juarroz reordenou a biblioteca, mas agora por ordem alfabética da milésima palavra de cada livro.

Há no mundo pessoas muito perseverantes, e uma delas, depois de muito investigar, disse: já sei!

No dia seguinte, assumindo este jogo como decisivo, o senhor Juarroz decidiu arrumar a biblioteca a partir de uma progressão matemática complexa que envolvia a ordem alfabética de uma determinada palavra e o teorema de Godel.

Assim, para estranheza de muitos, a biblioteca do senhor Juarroz começou a ser visitada, não por entusiastas da leitura, mas por matemáticos. Alguns passaram tardes a abrir livros e a ler certas palavras, utilizando o computador para longos cálculos, tentando assim encontrar a todo o custo a equação matemática capaz de desvendar a organização da biblioteca do senhor Juarroz. Era, no fundo, um trabalho de descoberta da lógica de uma série, semelhante a

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Pois bem, passaram dois, três, quatro meses, mas chegou o dia. Um reputado matemático, completamente vermelho e eufórico, segurando, na mão direita, um bloco gigante coberto de números, disse: Já sei!, e apresentou depois a fórmula da série que baseava a organização da biblioteca.

O senhor Juarroz ficou desanimado e decidiu desistir do jogo. Basta!

No dia seguinte pediu à sua esposa para organizar a biblioteca como bem entendesse. Por ele estava farto.

Assim foi. Nunca mais ninguém descobriu a lógica da organização da biblioteca do senhor Juarroz.


Comentário: É sempre bom poder dividir um pouco de boa literatura. Sem sombra de dúvida, o português Gonçalo M. Tavares é boa literatura. Como falei em outra postagem, talvez seja meu contista favorito - e é atual. Este conto em particular eu já tinha colocado em uma amostra numa postagem mais antiga - Gonçalo M. Tavares: um autor a ser lido - em que falo mais sobre ele e suas características. Como poucos devem ter o lido, coloco num post separado, pois acho esse conto simplesmente sensacional. Gostaria de dividir este autor com vocês, pois será com certeza, se já não é, um dos grandes nomes da literatura portuguesa. Abraço e bom domingo a todos.

4 Comentários:

Chris

Excelente conto, apesar de deixar dizer que as mulheres tem uma organização caótica.
Insisto em dizer, enquanto mulher, que há alguma lógica, embora às vezes nem a gente saiba.
Somos um caos e por isso complexas e por isso ininteligíveis, por isso fascinantes.
Li teu post anterior sobre o Gonçalo Tavares e li a entrevista dele. Com certeza carimbou o nome entre os grandes contistas universais.
Abraço,

Camila Alves.

Adorei.
Fazia tempo que eu não comentava aqui, mas estou sempre acompanhando as atualizações.

Muito bom mesmo.

www.desentoa.tumblr.com

Leonardo Schabbach

Legal ver que voltou a comentar! E po, eu não sei, mas acho que eu vejo esse conto de uma maneira diferente da que vi nos comentários. Acho que o fato de ser a mulher dele que dá a organização à biblioteca no final em nada tem a ver com ser uma mulher a fazer isso.

Pelo menos, eu vejo o conto assim: ele queria uma fórmula que impedisse as pessoas de saber a maneira que ele organiza sua biblioteca e buscou isso sem parar. Justamente quando ele desistiu e deixou ao acaso, que é o que acontece quando uma pessoa simplesmente vai lá e coloca os livros aleatoriamente na estante, ironicamente ele conseguiu fazer o que ele tanto perseguiu e acabou desistindo. O conto, ao meu ver, é uma grande ironia. E é isso que eu adoro no Gonçalo, não só sua capacidade filosófica como também sua sempre constante ironia.

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