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Fernando Pessoa, Heterônimos, Parte II

em 26 de nov de 2009.

Continuando as postagens a respeito da obra de Fernando Pessoa, iniciada pelo artigo Poemas - Fernando Pessoa (Parte I), irei escrever hoje um pouco sobre o mestre dos heterônimos do autor. Trata-se de Alberto Caeiro, o heterônimo anti-metafísico. Acho, inclusive, que é justamente ele quem mostra a incrível capacidade de produção literária do poeta português. Poucos sabem que os 49 poemas do livro "O Guardador de Rebanhos", de Alberto Caeiro, foram escritos em apenas um dia.

Além disso, os vários heterônimos de Pessoa também revelam um domínio incrível sobre diversos temas e estilos poéticos. Isso porque as obras desses seus personagens criados diferem em aspectos importantes da obra do próprio Fernando Pessoa, dos poemas que ele assinava com seu verdadeiro nome. É difícil compreender exatamente por qual razão ele criou seus heterônimos - se por diversão, jogada de marketing, exercício imaginativo e etc... -, mas eles de fato tornaram o poeta um dos grandes escritores da língua portuguesa e um dos maiores nomes da poesia mundial.

Como já foi dito, cada um de seus personagens tinha de fato vida própria, possuía características peculiares em sua poesia (assim como temáticas) e também toda uma biografia, uma vida construída por Fernando Pessoa. No caso de Alberto Caeiro, por exemplo, ele escreveu: "Nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão, nem educação quase alguma, só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia avó. Morreu tuberculoso". Vale lembrar também que os heterôminos Álvaro de Campos e Ricardo Reis, além do próprio Fernando Pessoa, viam Alberto Caeiro como um mestre. As características de sua obra são a linguagem simples e o vocabulário limitado de um poeta camponês pouco ilustrado. Ele pratica o realismo sensorial, numa atitude de rejeição às elucubrações da poesia simbolista.

Dentre as suas características mais marcantes está também sua rejeição à metafísica - o que creio que para mim e para muitas outras pessoas seja um aspecto extremamente interessante do heterônimo. Alberto Caeiro é avesso à metafísica, opõe a ela o desejo de não pensar, faz da oposição à reflexão a matéria básica de seu pensamento, fato que podemos ver no poema a seguir, que eu particularmente acho incrível.


V - Há Metafísica Bastante em Não Pensar em Nada

Há metafísica bastante em não pensar em nada.


O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

3 Comentários:

Bruno Ramalho

Excelente poema, Léo.

Gostei muito da introdução que fez sobre ele. Nos faz ter mais conhecimento desse incrível autor.

Creio que a criação de heterônimos para os autores serve para explorar mais, colocar a imaginação de um lado deles pra fora, produzir algo imaginário. Não sei.

Não acho que seja algo ligado a publicidade. Sinceramente? Até acho incrível quem consegue escrever e produzir mais. Como se fosse um lado inexplorável.

Poema maravilhoso.

Leonardo Schabbach

Eu também não acho que seja publicidade não. Concordo contigo, acho que isso só mostra a capacidade superior imaginativa e literária de Fernando Pessoa, quem dera mais autores fossem assim.

O Saramago, coincidentemente também autor português, criticou faz um tempo atrás a falta de imaginação nos autores contemporâneos. Para ele, assim como para mim, falta um pouco disso que Pessoa trazia para grande parte dos nomes atuais da literatura mundial, quem sabe não faço um post sobre isso no futuro.

Abraço!

Ebrael Shaddai

Leonardo,

Acho que o que ele quis dizer é que a Luz do Sol é a mesma, sempre, independente do referencial, de quem a observe ou analise. O Sol é o Sol, e basta saber de sua necessidade e utilidade. Qualquer especulação, além desta, seria vã e uma perda de tempo.

É o que eu penso também. Salve Fernando Pessoa, ou melhor, Alberto Caeiro!! kkkk...

Abçs!!

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