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Dois Poemas de Fernando Pessoa

em 31/08/2009.
| Comentários: (2)
Para embelezar um pouco a segunda-feira - convenhamos, é o pior dia da semana - coloco no blog dois poemas de Fernando Pessoa. Um deles do heterônimo Alberto Caeiro (o heterônimo anti-metafísico), no qual o poeta fala sobre Deus. É bem interessante. O outro faz parte das poesias inéditas de Fernando Pessoa (confira mais dois inéditos poemas de Fernando Pessoa) e traz toda a musicalidade e beleza únicas que admiro nas obras do poeta.



VI - Pensar em Deus


Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou...

Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos! ...


Relógio, morre
Quem vende a verdade, e a que esquina?
Quem dá a hortelã com que temperá-la?
Quem traz para casa a menina
E arruma as jarras da sala?

Quem interroga os baluartes
E conhece o nome dos navios?
Dividi o meu estudo inteiro em partes
E os títulos dos capítulos são vazios...

Meu pobre conhecimento ligeiro,
Andas buscando o estandarte eloqüente
Da filarmônica de um Barreiro
Para que não há barco nem gente.

Tapeçarias de parte nenhuma
Quadros virados contra a parede ...
Ninguém conhece, ninguém arruma
Ninguém dá nem pede.

Ó coração epitélico e macio,
Colcha de crochê do anseio morto,
Grande prolixidade do navio
Que existe só para nunca chegar ao porto.


Você também pode estar interessado em um breve comentário sobre as características da obra de Fernando Pessoa.
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A moura Mara

em 30/08/2009.
| Comentários: (4)
Comentário: Gosto sempre de experimentar uma coisa ou outra em poemas. É sempre bom tentar produzir coisas novas, mesmo que num tom mais lúdico, sem saber se terá alguma utilidade futura. Enfim, só uma brincadeira, só para descontrair, espero que ninguém fique nervoso, hehe. Não entendeu? Leia em voz alta e tenha um bom domingo!

Amor, amai a moura Mara?
Amar a moura Mara?
Amor, amar a moura Mara.
Amor amar amor a Mara
a moura Mara a moura Mara.
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O pássaro e a árvore

em 28/08/2009.
| Comentários: (5)
Um pequeno pássaro azul voava por um imenso jardim - um jardim tão grande que para o pequeno pássaro era impossível o atravessar em uma única viagem. Ele já estava quase exausto, precisava urgentemente de um lugar em que pudesse descansar; precisava recuperar as suas forças para fazer uma nova tentativa. Não muito distante de onde estava, havia uma árvore alta e robusta, um local certamente muito aconchegante. Ele se preparava para o pouso, mas foi surpreendido.

A árvore, logo que o viu, fez um movimento estranho. Com um de seus galhos, atirou-se contra a pequena criatura. O pássaro deu um giro no ar, desviou por pouco, assustado. O que era aquilo? Pensou. Mas não teve muito tempo para entender o que acontecia. A árvore realizou uma nova investida. Ele girou no ar por mais uma vez, escapou ileso, ainda mais cansado. Sabia que, se aquilo continuasse, não duraria muito tempo. Voou em direção à árvore, passando com agilidade por entre as folhas e os galhos: pousou. No lugar onde estava não podia ser atingido. A árvore se sacudia ameaçadoramente. O pequeno pássaro se encolheu, tinha medo de se mover, medo de sair dali. E se ela o acertasse?

Permaneceu parado por mais alguns dias, não se atrevia sequer a piscar, não movia um músculo. Era melhor não se arriscar, era mais seguro permanecer ali, a salvo. E foi o que fez.

Com o tempo, foi se tornando parte da árvore. Primeiro as pernas, depois o corpo, depois as asas, até que um certo dia não passava de dois olhinhos incrustados no tronco.


Comentário: É um texto curto, espero que agrade. Para aqueles que gostam de mini-contos, há aqui no blog um projeto chamado "Cadernos do Homem Comum" que pode interessar, sugiro que leiam desde a postagem mais antiga. Vocês podem conferir por aqui também alguns contos do livro "Contos Plausíveis" do Drummond. Desfrutem!
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Ficção e Propaganda: a produção de realidades

em 27/08/2009.
| Comentários: (4)
Hoje farei algumas considerações a respeito da relação entre a ficção por mim proposta no livro "A nova posição da ficção na pós-modernidade e a mídia" e a propaganda. Esta é uma questão que pretendo trabalhar na tese de mestrado, mas já coloco algum esboço por aqui. Nos meus estudos, parto da premissa de que, em um mundo em que se percebe o próprio real como simulacro, a ficção ganha um status igual a este real, status de simulação, e por isso se torna extremamente influente, passa a ser capaz de modificar as relações de poder e verdade na sociedade. Afinal, aquilo que nos é mostrado pela ficção não mais precisa ser interpretado, aquilo que nos é mostrado pela ficção é.

Pode parecer uma afirmação confusa e talvez até mesmo estranha, mas é simples de confirmá-la no mundo real. Hoje, farei isso através da propaganda. A linha de raciocínio é bastante simples. Uma vez que aquilo que é apresentado pela ficção é visto com o mesmo peso - quando se trata da formação de uma consciência, de uma identidade e das noções de verdade - que o real, ele passa a ter o poder de transformar - por meio da produção de uma realidade - a própria realidade em que vivemos.

Simplificando: imagine que se faça uma propaganda de óculos escuros. A propaganda então irá contar uma história de, em geral, trinta segundos - ou seja, produzir uma ficção - em que um homem vestindo os óculos escuros saia pela cidade e faça um sucesso extraordinário com as mulheres, seja tudo aquilo que elas querem por causa dos óculos.

Um sujeito que assista a tal história irá decidir comprar o produto não porque ele é barato ou porque esteja realmente precisando, mas por acreditar que os óculos lhe darão realmente aquelas características. É como eu disse, se a ficção é de mesmo material que o real, "se aconteceu ali naquela história, poderá também acontecer comigo".

O que é ainda mais interessante, entretanto, é que alguns produtos (e é claro que isso não acontece sempre) ainda produzem algo mais. Se a propaganda e o posicionamento da marca foram realmente bem feitos, homens e mulheres que assistiram a propaganda, além do nosso já citado comprador, irão também agregar o valor dado por ela aos óculos. Eles irão olhar para o nosso comprador e pensar: "Olha lá, ele está usando aqueles óculos, deve ser alguém descolado, sedutor e etc..."

Enfim, em casos como este, há de fato, por intermédio da ficção, uma alteração da própria realidade. A ficção, por se confundir tanto com o real, por ter a mesma substância que ele, é capaz de influenciar a formação das noções daquilo que é certo ou errado, bom ou ruim, daquilo que deve ser valorizado, portanto. São inúmeros os casos em que situações como a descrita acima acontecem. E muitas vezes acontecem até mesmo na formação das identidades, posicionando produtos como formadores da personalidade de cada um. Piercings, roupas rosas, tênis all-star e vários outros produtos contam suas histórias e se posicionam, por meio dos mundos ficcionais, na própria realidade. E vemos quem usa estes produtos da maneira como nos é contada pelas ficções que assistimos na TV, escutamos no rádio, lemos nos jornais e etc...

Observação: Sei que é um assunto bem complicado. Espero que tenha sido claro ao expor minhas idéias. Como sempre, caso alguém tenha dúvidas ou críticas, é só comentar aqui que eu respondo. Além disso, enquanto pensava no que escreveria neste post, vi em um outro blog que, hoje, na propaganda o importante é o storytelling (justamente o "contar histórias" de que falei aqui). Achei interessante coincidir com a semana em que pretendia fazer este post. Portanto, se quiserem saber mais sobre o "contar histórias" na propaganda vocês pode conferir no blog "Palavras aos Píxels".
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A palavra-homem

em 26/08/2009.
| Comentários: (1)
Esta é uma poesia muito antiga, muito antiga mesmo, que por algum motivo desconhecido desapareceu do blog. Recoloco ela aqui, até porque maioria não deve tê-la visto. É um dos meus poemas favoritos (dentre os que eu fiz, é claro). Gosto da mensagem que procurei passar e gosto da forma como consegui passá-la. Foi uma daquelas poesias que saem praticamente prontas, sem quase nenhuma mudança a ser feita depois. Espero que gostem.


A palavra-homem

Como uma palavra, o homem é interpretado
e, por isso, é julgado de uma forma complicada.

Forma que vai julgando as outras formas
que, aos poucos, abrem suas asas
e vão tomando formas próprias.

Formas com as quais o homem se adorna
e seus ideais, então, contorna,
tomando as formas que a forma forma.

E nessa dança, de formas e contornos,
o homem, puro e sem adornos,
desaparece entre todas as formas.
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Uma visão sobre Cecília Meireles

em 25/08/2009.
| Comentários: (4)
Como prometido, faço hoje uma postagem mais ampla sobre Cecília Meireles. Não pretendo me prender muito a dados biográficos, até porque o melhor resumo sobre a vida da escritora pode ser encontrado no projeto releituras. Falarei, portanto, de algumas características da obra da autora que me chamam a atenção e também da minha visão sobre a importância dela para a literatura nacional.

Já disse anteriormente que Cecília Meirelles é, sem sombra de dúvida, única. Dentro de uma fase em que o modernismo se voltava para as lutas políticas, para uma produção que tinha como objetivo "educar" e conscientizar, ela apresentou um estilo de poesia diferente - com algumas características simbolistas, como o uso constante de sinestesias - que se voltava mais para o interior do ser humano, tinha um clima mais sincero e intimista, naturalmente instrospectivo. Seus poemas têm um cuidado muito grande com a musicalidade e são envoltos em um universo muitas vezes de sonho, de fantasia, às vezes de solidão (como vocês podem notar no poema "Canção", já postado aqui).

Por todas essas características, suas produções costumam ser muito belas e, ao meu ver, extremamente agradáveis de se ler. E, embora muitos possam criticá-la por não seguir a tendência "educativa" de grande parte dos poetas de sua época, não há como a acusá-la de alienada. O poema "Mulher ao Espelho" deixa isto claro, quando, através da introspecção, faz uma crítica às pressões sociais em relação à imagem colocada em cima dos indivíduos no mundo capitalista e à falsidade.

Cecília Meireles, portanto, foi a grande responsável por consagrar e também popularizar uma literatura intimista e introspectiva que, no futuro, iria se tornar uma marca da literatura feminina, representada também por Clarice Lispector (veja entrevistas da Clarice Lispector aqui).

Ainda é interessante lembrar que os poemas de Cecília são também muito marcados pela presença do tempo, ou melhor, pela passagem dele. Ela tem a clara visão de que tudo é transitório e de que o fim está sempre no horizonte; característica que se evidencia no poema "Retrato".

Uma última coisa que acho legal comentar, e que muitos já devem ter observado, é a similaridade de estilos entre ela e Fernando Pessoa. Já postei algumas coisas sobre o poeta português aqui no blog (confira aqui) e sempre destaco a musicalidade em suas poesias, além da beleza dos versos, exatamente como acontece com Cecília. Inclusive, arrisco-me a dizer que Fernando Pessoa só não é o meu poeta favorito porque não leio a sua obra com a frequência que deveria.

Rapidinha - Aconselho a quem gosta dos poemas da autora o livro "Os melhores poemas de Cecília Meireles".




Gostou do blog? Gostou dos textos? - o autor Leonardo Schabbach, que produz o conteúdo do Na Ponta dos Lápis lançou recentemente sua primeira obra literária, O Código dos Cavaleiros. Ajude-o a continuar produzindo! Informações sobre a obra (como comprar - autografada -, capítulos para degustação, capa, sinopse e muito mais) podem ser encontradas neste super hotsite (clique para acessar).

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Em Aletheia - Os outros

em 23/08/2009.
| Comentários: (2)

Os outros são o terceiro elemento de uma enunciação. Quando dizem, em Aletheia, "os profissionais são os aventureiros, os contempladores e os outros", a frase fica balanceada, com três exemplos a serem dados. Os outros cumprem, portanto, uma função estética. Foi decidido, por isso, que devem tornar mais belo aquilo que foi desenvolvido e pesquisado pelas outras duas profissões. Os outros, portanto, nada fazem, apenas repetem de uma forma mais bonita aquilo que já foi elaborado. Naturalmente, tornaram-se os membros mais populares do lado de fora daquele pequeno país.


Cheque os outros textos deste pequeno país chamado Aletheia.
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Como escrever bem, técnica de redação (e narrativa)

em 22/08/2009.
| Comentários: (5)
Continuarei a trabalhar um pouco a questão da produção narrativa, iniciada na postagem "Como escrever bem?". Hoje tentarei explicar uma técnica de redação que me foi ensinada faz algum tempo. É claro que ela não precisa necessariamente ser utilizada, até porque cada um tem o seu próprio estilo de escrever, e isso pode ou não incluir a técnica que apresentarei aqui. No caso de uma redação dissertativa de fato (o que inclui vestibulandos que possam passar pelo blog), seguir essas orientações certamente resultará em um texto bem estruturado. O mesmo não vale para se produzir um bom texto literário, já que na literatura muitas outras questões estão envolvidas.

Muitas vezes quando escrevemos, notamos, ao fazer uma releitura, que há algo de errado. As idéias não estão muito claras, o texto parece não encaixar muito bem ou possui palavras que se repetem constantemente, o que não deve acontecer. Isso geralmente ocorre por não seguirmos um regra básica na hora de estruturar o texto, seja ele argumentativo ou narrativo (lembrando uma vez mais que a narração literária pode apresentar outras formas). Sempre que formos escrever uma frase, devemos utilizar a "idéia nova" apresentada na frase anterior.

Por exemplo: escrevo "Uma menina passeava pela praça". Neste caso, todas as informações são novas, acabo de iniciar a história. Digamos que queira contar mais sobre a menina. Então continuo: "Vestia uma roupa velha e corria ao encontro de seus amigos, uns garotos com quem costumava brincar". Agora temos apenas duas informações novas: a roupa velha e os amigos. Se continuar pela menina, como muitas vezes fazemos em uma redação dissertativa ou em uma narração, note que o texto já começa a ficar repetitivo, pois teria de utilizar o "ela" novamente ou "menina".

Vamos supor que queira falar agora dos amigos. Continuo: "Eles pareciam não lhe dar muita atenção, sempre a ignoravam quando jogavam futebol". Novamente temos duas novas informações. Poderia descrever algo que a menina fez para chamar a atenção dos garotos (dando continuidade a idéia de que eles pareciam não prestar atenção) ou aprofundar mais os sentimentos dela em relação a isso (já que eles sempre ignoravam ela quando jogavam futebol). Prossigo: "Ela tinha raiva daquele esporte". E então continuo, raiva por quê? "Por causa dele era forçada a brincar sozinha". Por que era forçada a brincar sozinha? "Não tinha amigas, desde muito pequena que preferia brincar com os garotos".

Enfim, veja como ficaria o parágrafo (incompleto):

Uma menina passeava pela praça. Vestia uma roupa velha e corria ao encontro de seus amigos, uns garotos com quem costumava brincar. Eles pareciam não lhe dar muita atenção, sempre a ignoravam quando jogavam futebol. Ela tinha raiva daquele esporte. Por causa dele era forçada a brincar sozinha. Não tinha amigas, desde muito pequena que preferia brincar com os garotos.

Espero ter sido claro. Caso tenham dúvidas, é só comentar que explico melhor. Em uma futura postagem, tentarei selecionar um conto de algum autor consagrado para mostrar essa relação entre frase seguinte e frase anterior. Sugiro que leiam os contos de Drummond que coloquei no Blog e também os contos de Gonçalo M. Tavares que disponibilizei em download para perceber essa relação, lembrando, novamente, que às vezes ela não é respeitada nas narrativas literárias. Inclusive, é interessante observar os textos de grandes autores para saber como isso pode ser feito; isto é, como é possível produzir textos narrativos sem necessariamente seguir a regra aqui apresentada.
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Lançamento do meu livro - A nova posição da ficção na pós-modernidade e a mídia

em 21/08/2009.
| Comentários: (7)
É cada vez mais recorrente o discurso de que na atualidade as pessoas confundem ficção com realidade, atores com personagens e etc... Do mesmo modo, fala-se da internet como um lugar onde se poder criar perfis falsos e interagir com pessoas reais, como se estes personagens fictícios existíssem de fato. Enfim, a linha entre a ficção e o real se torna cada vez mais fina, de modo que é muito difícil (ou quase impossível) distinguir um do outro.

Naturalmente, num contexto como este, a forma das pessoas produzirem e absorverem a ficção se modifica. Quando os mundos ficcionais e virtuais passam a ter uma consistência tal qual a da próprio real, o olhar para a realidade produzida por estes ambientes muda: eles se tornam também produtores de sentido, produtores de verdade, e passam a influenciar a vida em sociedade. (leia mais aqui)

É nesta direção que caminha o livro "A nova posição da ficção na pós-modernidade e a mídia", que estou lançando. Quem acompanha o Blog sabe que tenho um projeto aqui em que coloco em prática (analisando filmes e, em breve, livros) aquilo que apresento nesta obra. Para compreender um pouco mais do livro, sugiro que leiam o artigo Notas sobre a ficção (ele resume muito bem as idéias do livro) e as análises do Bee Movie e dos filmes do Homem de Ferro e do Hulk.

Para não poluir o Na Ponta dos Lápis com muitas informações sobre o livro, criei um outro Blog para divulgá-lo. Colocarei links aqui onde vocês podem conferir mais um pouco da obra e decidir se querem comprar ou não.

Leia o prefácio do livro "Ficção e Real: o desafio da literatura", por Marcio Tavares d'Amaral - pós-doutor pela Université de Paris V (Sorbonne) e professor emérito da Escola de Comunicação da UFRJ).

Confira o resumo do livro e o texto da contra-capa.

Confira a capa do livro.


COMPRE O SEU EXEMPLAR

A noite de autógrafos do livro acontecerá no dia 13 de outubro, no Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, na Urca, de 18:30 às 21:30. Quem não for morador do Rio e quiser comprar um exemplar - ou quem for e não puder ir à noite de autógrafo - tem algumas opções de compra. Os que decidirem comprar pelo Blog - e não pela amazon.com ou pelo site da editora - receberão o livro com suas devidas dedicatórias!

1) Você pode me contactar por e-mail, através do blog mesmo, e resolveremos a questão do pagamento e do envio por correio. O valor do livro é de R$ 24,00 + 3,00 de frete. Entretanto, por e-mail, é possível que o preço se reduza conforme sua localidade - e também por não haver pagamento de taxa da Uolpagseguro.

2) Você pode clicar no botão que coloquei a seguir e comprar direto pelo Uolpagseguro. O procedimento é totalmente confiável e o pagamento é feito sem maiores complicações, mas você precisa ser cadastrado (o serviço é gratuito).



3) Sei que alguns visitantes do Blog não moram no país. Para esses, caso seja mais cômodo do que me enviar um e-mail, é possível comprar pela Amazon.com.

Observação: O livro também pode ser encontrado no site da editora, mas por lá ele sai por 31,50 + frete em vez do preço que coloquei acima, por isso não divulguei.


Aos blogueiros amigos, se puderem divulgar a página ou o livro, fica aqui um eterno agradecimento.
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(In)Sensibilidade

em 20/08/2009.
| Comentários: (8)
Estou curioso para saber como as pessoas reagirão a este poema. Não quero dizer exatamente as coisas que pensei conforme fui escrevendo, mas tem sim uma mensagem. Além disso tem outras coisas que adicionei também. Espero que ele se torne - como todo bom poema deve ser - como o conto "A volta do guerreiro" que colei aqui do Carlos Drummond de Andrade, uma obra que passe coisas diferentes a cada um a cada leitura. É um poema mais complexo, exige mais atenção na leitura, veremos o que vocês irão achar.


(In)Sensibilidade

Há poucas coisas mais sensíveis que uma pedra.
É impossível não sentir uma pedrada.
Mas pedra, que é pedra,
sente nada.
Provoca choro,
a pedra dura e pesada.

Pedra boa provoca os sentidos,
pedra polida e também pedra lascada.
A pedra que é pedra
lapidada,
já não é pedra
é pedra-coisa, fabricada.

Pedra sensível é pedra pura e cristalina.
Às vezes verde, às vezes avermelhada.
A pedra que de calor e cor se inunda
que só tem sentido à pessoa que é amada.

E quem olha para tal pedra logo pergunta:
de que serve pedra tão bela e abrilhantada,
se certa hora, lá no final das contas
pedra que é pedra vai terminar quebrada?
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Pacote de mudanças e melhorias

em .
| Comentários: (0)
Modifiquei algumas coisas no Blog e faço esta postagem para explicá-las. Em primeiro lugar, coloquei os feeds dos comentários disponíveis para inscrição. Ultimamente, muitos comentários interessantes têm sido feitos em algumas postagens, por isso achei legal que, quem quisesse, tivesse a possibilidade de acompanhá-los, até porque há comentários sendo feitos em postagens mais antigas. Num site sobre literatura, cultura e filosofia, os comentários devem sempre trazer mais sabor às postagens, provocar discussões, portanto, nada melhor do que poder acompanhá-los. Agradeço também àqueles que tem comentado e agregado valor às postagens do blog, esse é o meu objetivo desde o início; provocar discussões, especialmente literárias.

A segunda mudança é em relação ao endereço do site e hospedagem. Continuo utilizando o Blogger, mas agora o site, como alguns devem ter notado, tem domínio próprio - http://www.napontadoslapis.com.br. O link anterior ainda funciona, redireciona para esse, o que manteve o pagerank do blog no Google, ainda bem. Os assinantes de feed também não precisam se preocupar, o Feedburner trocou todos para o novo endereço sem problema. Além do domínio, também tenho hospedagem, como disse. Os visitores mais assíduos devem ter notado que de vez em quando o layout apresentava problemas. Isso acontecia porque o lugar onde a template estava hospedada era instável. Agora, passei tudo para a hospedagem própria e não teremos mais problemas deste tipo.

A terceira mudança é na ferramenta search do Blog. Troquei o search do Blogger pelo do Adsense do Google. Logo, quando procurarem algo no blog, a pesquisa será mostrada mais ou menos como é no Google, porém apenas com o meu conteúdo. Alguns podem pensar que fiz essa mudança para ganhar dinheiro com os anúncios do Adsense, mas não foi essa a intenção. Eu não tenho como objetivo ganhar dinheiro com propaganda aqui, embora até pense em colocar anúncios do Adsense abaixo do título das postagens. O problema mesmo foi que, num dia desses, fui procurar um poema meu pelo título na ferramenta Search antiga e não encontrei. Então fiz testes, procurei várias outras coisas e não encontrei. Por isso, decidi colocar essa nova ferramenta de search, que acha tudo que vocês quiserem procurar.

A última modificação se refere ao formulário para contato. Agora vocês podem encontrar no topo da página e na direita o botão "Contato". Caso queiram tirar dúvidas, discutir algo ou até mandarem suas produções, é só fazer isso por lá. Quem quiser me enviar textos para ler, pode; lerei com o maior prazer. Inclusive, caso ache que tenha alguma ligação com o que venho produzindo para o Blog, posso postar por aqui (depois de pedir autorização, é claro).
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A nova geração literária e as "massas"

em 19/08/2009.
| Comentários: (4)
Dois dias atrás recebi e li o Jornal Rascunho, que tinha acabado de assinar. Trata-se de um jornal especificamente literário, com um grupo excelente de colunistas, entre eles o Raimundo Carrero, já tão falado neste blog. Você pode, inclusive, acompanhar o Jornal Rascunho pela internet acessando o site deles.

Enfim, retomando o curso deste artigo. Ao ler a matéria do Nelson de Oliveira (é, você pode conferir online), fiz algumas ponderações e decidi escrever por aqui. O artigo fala da nova geração literária que surge, a geração 00, como alguns apontam, e traz algumas idéias curiosas. É um texto longo, bem longo, mas que vale ser lido, pois traz um grande número de informações valiosas. No meu caso, entretanto, um ponto particular do artigo me chamou a atenção, algo inclusive levemente relacionado a todo o questionamento que fiz à crítica literária no meu texto "Como escrever bem?'.

Lá para o meio da matéria, Nelson de Oliveira começa a falar das possibilidades abertas pela diminuição do custo de produção de um livro - ou seja, a possibilidade de se publicar livros com menores tiragens e, como conseqüência, de se vender obras para "nichos de mercado" menores, sem a preocupação com o grande Mercado, digamos assim. Ele, então, fala de uma nova geração de escritores que se volta justamente para estes mercados menores, para o que chama de pequena elite intelectual, como fica claro neste trecho:

"A propensão para o nefasto, para o sinistro, para o agourento, afasta desses novos autores o dilema sofrido pela maioria dos artistas desde que a economia de mercado se estabeleceu: produzir para as massas ou para a elite? Vender trezentos mil exemplares ou só trezentos? Todos eles, consciente ou inconscientemente, escrevem para a pequena elite intelectual da qual eu e você, querido leitor, fazemos parte. Porque escrever para o leitor médio, ingênuo e de gosto pouco apurado, está fora de cogitação".

Naturalmente, não posso discordar; ele está certo. Existe sim um grupo de escritores como este surgindo e se firmando no cenário da literatura nacional, pelo menos assim vejo. O grande problema, para mim, é colocar o "Mercado" e a "pequena elite intelectual" como dois públicos obrigatoriamente diferentes. Tal percepção, inclusive, faz com que Nelson de Oliveira acredite ser quase impossível imaginar o surgimento de autores como Drummond, Clarice, Manuel Bandeira e etc... autores que possuíam grande aceitação dentro do mercado e que também influenciavam toda uma geração literária.

Realmente, é muito difícil que nomes como esses apareçam, mas não necessariamente por uma questão conjuntural: gênios não aparecem a toda hora. Tivemos no passado recente grandes autores convivendo em uma mesma época; talvez tenhamos ficado mal acostumados.

A questão que quero colocar é que, ao contrário do que muitos pensam, há ainda espaço para o surgimento de grandes escritores, escritores capazes de conquistar a "pequena elite intelectual" e também o "deus Mercado", por mais fragmentado que o universo literário esteja - acho que o Saramago, inclusive, é um bom exemplo disso. Porém, muito de minha visão otimista em relação a este tema parte também de uma premissa otimista em relação às "massas". Normalmente, pensa-se que a massa é burra, que não lê aquilo que é de real qualidade, que prefere o que é de fácil absorção, coisas como os famosos livros best-sellers, novelas e etc...

Bem, estas afirmações estão, em grande parte, corretas. Mas devemos admitir que a "massa" tem razão para ter tal tipo de comportamento. Primeiro por ser difícil de chegar em casa depois de oito, nove, dez, onze, doze ou mais horas de trabalho e ainda ler um livro de alta complexidade filosófica. Segundo pelo fato de que os programas e livros considerados ruins são justamente os que são apresentados às "massas" constantemente, seja na televisão ou por meio da propaganda (no caso dos best-sellers).

A minha opinião é de que a "massa" não é tão burra assim: é na verdade inteligente. Ou melhor, burra e inteligente, tudo ao mesmo tempo. Às vezes se contentam com programas e livros de "baixa qualidade", às vezes não. Alguns se contentam com programas e livros de "baixa qualidade", outros não. O que quero dizer é que é possível que um livro tenha alta qualidade intelectual e ainda assim seja bem recebido pelas massas. Entre um programa de baixa qualidade e outro, pode ser que leiam uma obra de qualidade maior, pode ser que queiram uma obra de qualidade maior, que queiram ser desafiados, instigados a pensar. Esta é a minha visão. É por isso que acredito na possibilidade de surgimento de grandes gênios literários. É claro que a tarefa hoje é mais difícil, pois requer uma série de fatores favoráveis, como uma boa publicidade e uma produção tão espetacular que seja inegavelmente boa, por mais sucesso que faça.

Como disse uma certa campanha política de um certo candidato em um certo país quase desconhecido: "sim, nós podemos". E parafraseando o último filme do Peter Pan: eu acredito em um melhor cenário para literatura nacional, acredito... acredito... acredito!
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A volta do guerreiro - Carlos Drummond de Andrade

em 18/08/2009.
| Comentários: (2)
Os homens que voltaram da guerra traziam feridas e pesadelos. Encontraram suas amadas indiferentes. Passara tanto tempo que algumas nem se lembravam deles, e muitas tinham estabelecido novos amores.

Uma, entretanto, permaneceu lembrada e fiel, e atirou-se com fúria passional aos braços do ex-guerreiro. Ele a repeliu, dizendo:
― Não quero mais ver a guerra diante de mim.
― Eu não sou a guerra, sou o amor, querido ― respondeu-lhe a mulher, assustada.
― Você é a imagem da guerra, você me agarrou como o inimigo na luta corpo a corpo, eu não quero saber de você.
― Então farei carícias lentas e suaves.
― O inimigo também passa a mão de leve pelo corpo do soldado caído, para tirar o que houver no uniforme.
― Ficarei quieta, não farei nada.
― Não fazer nada é a atitude mais suspeita e mais perigosa do inimigo, que nos observa para nos atacar à traição.

Separaram-se para sempre.


Comentário: Este é mais um texto do livro "Contos Plausíveis" de Carlos Drummond de Andrade - você pode checar, se quiser, o conto "A Opinião em Palácio", postado no blog anteriormente. Sei que numa leitura rápida muitos podem achar o texto sem sentido e até mesmo bobo. Mas é por isso que eu o escolhi. Numa primeira leitura, superficial e desinteressada, a única coisa que sobressai, além da linguagem do autor, é o tom bem-humorado do texto. Entretanto, há mais coisas a serem lidas, coisas que requerem uma segunda, terceira ou até mesmo quarta leitura. Acho que a importância desse conto - foi por isso que postei - é esta. Cada vez mais, os leitores se acostumam a textos em que o sentido já vem inteiramente mastigado, às vezes até como uma grande lição de moral. Talvez, inclusive, seja por isso que muitas produções que recorrem a lugares comuns - ao Kitsch, como alguns diriam - têm alcançado grande sucesso.

Na minha opinião, este pequeno conto de Drummond nos mostra o exato oposto. Ele é curto, mas você pode retirar dele inúmeras lições, pode perceber diversas situações e conflitos diferentes em tão poucas linhas - talvez seja o lado poético do autor tomando conta de sua prosa.
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Bee Movie - As idéias por trás do filme

em 17/08/2009.
| Comentários: (7)
Observação: caso não tenha assistido Bee Movie, pretenda assistir e não queira saber detalhes, não leia.

Confesso que quando assisti a este filme fiquei chocado. É uma excelente produção, uma animação e fez muito sucesso, ganhando prêmios inclusive (leia a sinopse), mas eu me surpreendi quando vi as idéias presentes nele. Por isso, decidi fazer uma análise para expor a produção de realidade do filme e as noções de verdade por ele apresentadas, como fiz em postagens anteriores - para compreender melhor leia o projeto notas sobre a ficção e também esta postagem sobre os filmes "O incrível Hulk" e "Homem de Ferro").

Bee Movie retrata a história de uma abelha que processa os humanos pelos direitos de todas as abelhas a receberem de volta o mel por elas produzido. No filme, as abelhas são capazes de falar, embora tenham mantido isso em segredo por séculos. O personagem principal, Barry B. Benson (uma abelha com a voz de Jerry Seinfeld), passa a ter uma relação de amor platônico com uma humana e acaba descobrindo que as abelhas são exploradas por nós para que consigamos produzir e vender mel.

Quando se dá conta de tal injustiça, Barry resolve processar os seres humanos para que as abelhas possam reaver o mel que lhes foi roubado, aquilo que foi produzido com o trabalho delas e apropriado de forma indevida pelos donos de vendedoras de mel. Um marxista - ou alguém que já leu as teorias de marx, e neste ponto me incluo - logo percebe que o que está sendo mostrado nada mais é do que: alguém explorado (que por marx seria o operário) e antes alienado percebe finalmente que o seu trabalho está sendo apropriado por um patrão e resolve brigar para reaver aquilo que lhe é de direito.

Até ai tudo bem. Mas depois que Barry B. Benson vence a disputa na justiça é que a história muda - e foi quando eu fiquei surpreendido e chocado. Já no tribunal, o advogado de defesa ameaça Barry dizendo que ele iria se arrepender do que fez, que o que ele fizera fora quebrar o ciclo natural das coisas. Um absurdo, certo? Bem... segundo o filme, errado, como ficaria claro logo depois.

Acontece que, recebendo todo o mel que haviam produzido e que lhes fora roubado, as abelhas ficaram sem mais ter o que fazer e resolveram deixar de trabalhar. Como consequência, não houve mais polinização; sem polinização as plantas começaram a morrer; sem plantas, em pouco tempo veríamos o fim do mundo. Sim, isso mesmo. O fim do mundo.

Eis que Barry B. Benson então percebe que ele realmente havia quebrado o ciclo natural. As abelhas tinham de trabalhar, pois sem o seu trabalho o mundo não conseguiria se sustentar. Sem o seu trabalho nada funcionaria. Elas deviam trabalhar e o mel tinha de ser retirado delas para que continuassem a trabalhar. Só assim manteriam o equilíbrio do mundo, deixariam-no em harmonia. É o que acontece no final do filme. Em determinado momento, o personagem de Jerry Seinfeld chega a declamar um discurso em que diz que todo o trabalho, por mais insignificante que pareça, é de grande importância para o funcionamento das coisas.

Enfim, acho que todos podem perceber a razão pela qual fiquei chocado. Este é um filme para família, para crianças e, como dito anteriormente, fez um sucesso absurdo. O grande problema é que ele, claramente, nos diz: é natural que alguns sejam explorados e outros lucrem com esta exploração; sem este tipo de relação o mundo não funcionaria, entraria, inevitavelmente, em colapso.
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Como escrever bem?

em 15/08/2009.
| Comentários: (13)
Observação: Veja também o tópico "Como escrever bem, técnica de redação (e narrativa)".

Hoje escrevo sobre uma temática complicada, uma questão que envolve todos aqueles que se arriscam nos caminhos da literatura: como escrever bem? Ou melhor, o que é escrever bem? É uma questão complexa, pois envolve diferentes gostos e diferentes linhas de pensamento. Destaco aqui as principais: a de uma boa parte da crítica, principalmente a brasileira e a européia (com exceção talvez da Inglatera), e a comercial.

Antes de entrar em mais detalhes sobre estas duas formas de encarar um texto literário, irei divagar um pouco mais. Eu, como todo o escritor e aspirante a escritor deveria fazer, leio constantemente, tanto livros de autores consagrados como de novos escritores, sejam os já publicados ou os milhares de blogueiros espalhados pelo país e pelo mundo. Naturalmente, reflito sobre aquilo que leio, tento identificar o que ficou bom e o que ficou ruim. Infelizmente, vejo muita coisa ruim. E vejo muita gente que produz coisas ruins reclamar de poucas oportunidades no mercado editorial. Sei que eles têm razão, as oportunidades são poucas, mas um pouco de cuidado com o texto poderia facilitar. Foi então que me ocorreu: como fazer para escrever bem?

Lembrei-me do livro "Os segredos da ficção", do Raimundo Carrero. É uma obra que vale a pena ser lida. Não possui, de maneira alguma, um caráter de auto-ajuda, não te diz exatamente como fazer um bom texto, mas te passa toda a experiência do autor e uma série de fundamentações teóricas, além de comentários sobre textos de autores consagrados, que devem ser absorvidos. Um ponto que destaco é quando Raimundo Carrero fala do pulso narrativo e do estilo do autor. Acho que isso é importante. Escrever bem não se trata apenas de escrever certo, trata-se de ter o seu próprio estilo. Quem não saberia identificar um texto do Saramago?

É justamente o estilo, portanto, que me impede de julgar com precisão o que seria um bom texto e o que seria um texto ruim - excluindo, é claro, os com excessivos erros de gramática e estrutura. Como dito anteriormente, é uma situação complicada. Dois de meus autores contemporâneos favoritos, José Saramago e Gonçalo M. Tavares, por exemplo, têm estilos praticamente opostos. Enquanto o primeiro tem um texto mais solto, o segundo apresenta obras mais secas, um estilo, inclusive, bem compatível com as preferências da crítica literária atual.

Defendo, por isso, que cada escritor procure encontrar o seu estilo, a sua forma de lidar com as palavras, sem se preocupar com o julgamento dos outros. Grande parte da crítica se dá por afinidade, por gosto: e é assim que deve ser. Afinal, só irei ler comentários de críticos literários que têm um gosto parecido com o meu; só assim saberei que os livros por eles indicados me serão agradáveis.

Neste ponto, retorno à questão dos diferentes tipos de crítica literária. Aqui no Brasil, esta crítica se dá em grande parte por uma "elite intelectual" que muitas vezes se prende a determinados vícios que eu, particularmente, não acho saudáveis; vícios que às vezes colocam a literatura quase que fora da sociedade, do mundo, do contato com o público, presa demais a questões de linguagem, isto é, fadada ao rebuscamento. Uma outra forma de crítica, liderada pelos americanos, exalta aquilo que é vendável, que consegue conquistar um grande número de leitores. Naturalmente, esta é uma maneira de se olhar para a literatura ainda mais perigosa. Afinal, a maioria das obras que alcança sucesso o faz por causa de uma boa publicidade e de uma distribuição inacessíveis a grande parte das produções atuais. Ou seja, às vezes a qualidade da obra não altera de maneira significante a vendagem.

Neste contexto, já ouvi umas pessoas dizerem que escrever bem é cortar palavras (é, repetindo Carlos Drummond de Andrade) e outras afirmarem que para se produzir um bom texto é preciso descrever bem a cena, com detalhes, para permitir que o leitor se envolva com o livro. De fato, existem estas duas formas de se produzir literatura, e milhares de outras formas intermediárias ou até mesmo totalmente diferentes. Todas elas podem fazer sucesso e podem, também, ser bem aceitas pela crítica. Como falei anteriormente, em geral, é uma questão de gosto. Resta ao escritor produzir o máximo que puder, reler, corrigir, rescrever. Resta a ele também mostrar o seu texto para outros, receber as críticas e, claro, saber diferenciar os comentários que se referem ao seu estilo daqueles que apontam para melhorias significativas em sua produção. Certamente, é uma tarefa difícil, mas ninguém disse que escrever bem seria fácil.

Veja a excelente postagem do blog Ofício Literário, incluindo uma entrevista com o escritor pernambucano Raimundo Carrero
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Em Aletheia - Os aventureiros

em 14/08/2009.
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Os aventureiros são os mais práticos dentre os moradores de Aletheia; adoradores do mundo, de tudo o que é concreto e preciso. São eles que fazem o país funcionar, que viajam, constróem e negociam, sempre a busca de novos horizontes, de conhecimento, daquilo que o excesso de abstração encobre com um luxuoso véu de arrogância. O trabalho mental só é possível por meio do trabalho concreto. É um erro, um sonho infantil, pensar sobre o mundo sem verdadeiramente conhecê-lo. Nenhuma teoria pode impor à realidade a sua vontade. São as coisas propriamente como são que devem definir as regras, os sistemas e, claro, todas as outras coisas.


(A imagem acima é um desenho de Di Cavalcanti, se quiser saber mais sobre ela é só clicar aqui)

E não se esqueça de conferir todos os textos do projeto aqui.
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Ferreira Gullar fala sobre poetas e a poesia contemporânea

em 13/08/2009.
| Comentários: (0)
"Muitos são os chamados, poucos são os escolhidos" - Das partes que coloquei da entrevista com Ferreira Gullar esta, talvez, seja a que considero a mais interessante: ele fala de poesia, da poesia contemporânea e do "ser poeta". A pergunta inicial se referia à produção literária contemporânea, mas, como irão perceber, ele preferiu falar da poesia, pois se sentia mais confortável para fazê-lo.

Um dos aspectos que me é mais interessante é a visão do Gullar, que acredito muitos tenham, de que ser poeta não é simplesmente saber escrever, é ter uma relação diferente com o mundo e com a palavra. Ele também aponta para uma geração, hoje em seus 40 anos, com bons poetas e uma geração ainda mais jovem e promissora que também surge. A crítica que faz é em relação a alguns poetas atuais que tendem a um excesso de hermetismo. Enfim, é um trecho muito interessante, especialmente para quem gosta de poesia. Confiram!





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Sapatos

em 11/08/2009.
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Ela saiu do banheiro do hotel enrolada em uma toalha. Tivera um dia extremamente cansativo, daqueles típicos de turista. Visitara algumas igrejas, a prefeitura da pequena cidade e todo o centro histórico. Estava abafado. A caminhada, como não podia deixar de ser, fora muito desgastante; um bom banho era tudo de que precisava.

Quando se encaminhava para o armário, foi surpreendida: havia um sapato velho ao lado da cama. Ela recuou até a porta do banheiro assustada, levando a mão lentamente até a maçaneta, sem tirar os olhos do sapato. Será que entrara no quarto errado? Era possível. Depois do dia exaustivo que tivera, uma distração como essas seria perdoável. Ninguém reclamaria dela ter utilizado o chuveiro alheio... talvez ninguém precisasse saber.

Em um rápido movimento, entrou no banheiro e fechou a porta. A sua volta estavam todos os seus produtos de beleza e de higiene pessoal. Ela os colocara ali pela manhã; não tinha, portanto, entrado no quarto errado.

Começou a sentir um pouco de medo. Será que outra pessoa entrara em seu quarto por engano? Ela estava de toalha, exposta. E se fosse algum louco? Talvez algum hóspede mais pervertido. Já ouvira falar de casos assim, lera sobre eles no jornal.

Abriu lentamente a porta, deixando apenas uma fresta por onde conseguia olhar. Ali estava o sapato, poucos metros ao lado da cama. Ela o fitou por alguns momentos. Era um sapato masculino muito velho, possuía algumas marcas de lama seca nas laterais. Deveria pertencer a alguém que esperara pacientemente nos jardins do hotel, alguém que aguardara o momento exato de entrar pela janela; isso explicava a lama, definitivamente.

Mas a janela estava aberta? Disso não conseguia se lembrar. Também não se arriscaria a tentar ver, era melhor evitar qualquer tipo de exposição. O sapato continuava ali, era o pé esquerdo. A sua presença incomodava. Onde estaria o outro pé? E pior, onde estaria o dono dos sapatos?

Ela se abaixou um pouco e olhou por debaixo da cama; não conseguiu ver ninguém. O homem provavelmente se escondera no armário. Ou, quem sabe, não houvesse homem algum. Ela riu, esta era uma idéia estúpida, o sapato continuava a sua frente, encarando-a; ele garantia a presença de alguém. Sapatos não andam sozinhos, ele deve estar aqui em algum lugar.

Seus olhos se moviam com habilidade pela fresta, percorriam cada centímetro do quarto. A janela estava fechada; a porta do quarto entreaberta. O homem deveria ter fugido, mas deixara para trás o sapato. Talvez tivesse invadido o quarto enquanto ela tomava banho, provavelmente com a intenção de roubar alguma coisa.

Ela saiu do banheiro, caminhando silenciosamente; olhava tudo ao redor com muita atenção. Andou vagarosamente até a porta do quarto e a fechou. Voltou-se uma vez mais para o sapato. O incômodo diminuíra, o sapato não mais marcava a presença de alguém, mas sim uma ausência. Alguém deixara o quarto, talvez bem antes dela tomar banho, talvez antes dela ter se hospedado naquele lugar. Nada fora roubado, nada fora sequer tocado, ninguém passara por ali.

Ela riu novamente. Tinha se assustado à toa, provavelmente impressionada com a onda de violência anunciada pelo noticiário. Olhou para o sapato por uma vez mais antes de chutá-lo para debaixo da cama; o incômodo retornara. Agora não se tratava de uma presença, nem de uma ausência: era uma questão de higiene. Como puderam as camareiras deixar um sapato sujo de lama no meio do quarto?
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Mundo literário

em 09/08/2009.
| Comentários: (2)
Imagine se vivessemos em mundo literário.

A vida teria mais textura,
teria cheiro de coisa antiga,
um sabor de marrom-madeira.

Seria uma vida cheia de cor
e com barulho de cachoeira.

As pessoas
seriam personagens.

O poeta não viveria à margem,
o mundo é que seria poesia.

Um mundo literário nada mais seria
do que um mundo ideal,
um mundo de alegria,
com frescor de primavera
e sabor de carnaval.
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Poemas de João Cabral de Melo Neto

em 08/08/2009.
| Comentários: (6)
Coloco aqui mais três poemas de João Cabral de Melo Neto, um dos meus poetas favoritos. O primeiro, O último poema, coloco por achar muito interessante, pois o poeta revela talvez a presença de algo que podemos chamar de inspiração, algo que ele sempre disse não possuir, o que talvez seja explicitado pelo verso "esse Quem (eu mesmo, meu suor?)".

O segundo poema chama-se O Ovo podre. Selecionei-o por achar impressionante a capacidade de João Cabral de descrever algo tão normal de uma forma tão incomum e ainda passar algumas reflexões. O terceiro faz uma alusão a Clarice Lispector, traz uma brincadeira, inclusive, da relação dela e da nação - principalmente dos homens - com o futebol. Por isso, achei interessante destacar.

Naturalmente, todos os poemas possuem uma beleza poética incrível, um trabalho impressionante com a forma.



O Último Poema

Não sei quem me manda a poesia
nem se Quem disso a chamaria.

Mas quem quer que seja, quem for
esse Quem (eu mesmo, meu suor?),

seja mulher, paisagem ou o não
de que há que preencher os vãos.

fazer, por exemplo, a muleta
que faz andar minha alma esquerda,

ao Quem que se dá à inglória pena
peço: que meu último poema

mande-o ainda em poema perverso,
de antilira, feito em antiverso.



O Ovo Podre

Por que a expressão do que não houve
não chega à força do ovo podre?

Há muitos podres pelo mundo,
muitos decerto mais imundos.

O podre do ovo está contido
para a maioria dos sentidos

e à vista não há diferença
entre sua saúde e sua doença.

Por que é que o ovo podre, então,
parece pesar mais na mão?

Será que pesa mais o real
quando em defunto, em pantanal?



Contam de Clarice Lispector

Um dia, Clarice Lispector
intercambiava com amigos
dez mil anedotas de morte,
e do que tem de sério e circo.

Nisso, chegam outros amigos,
vindos do último futebol,
comentando o jogo, recontando-o,
refazendo-o, de gol a gol.

Quando o futebol esmorece,
abre a boca um silêncio enorme
e ouve-se a voz de Clarice:
Vamos voltar a falar na morte?


Aos que gostam do poeta, aconselho a compra do livro "O cão sem plumas" (clique para conferir). Ele contém alguns de meus livros favoritos do João Cabral. Também é valido checar o livro "Melhores poemas de João Cabral", acho que o título é auto-explicativo.
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Pode o jornalismo literário ser mais objetivo do que o convencional?

em 07/08/2009.
| Comentários: (1)


Sei que algumas pessoas não acompanham o blog apenas por causa dos assuntos literários e, por isso, decidi colocar mais um artigo online. Segue o resumo do artigo para os interessados e um link para baixá-lo.


RESUMO

Este artigo pretende demonstrar como o jornalismo literário pode ser uma ferramenta utilizada para se produzir discursos jornalísticos mais objetivos e, portanto, mais verdadeiros do que os produzidos pelo jornalismo convencional. Para isso, é necessário compreender a teoria das verdades – que percebe a valorização de diversos discursos subjetivos como a única forma de se aproximar da verdade absoluta – e analisar a produção dos discursos históricos, aos quais os discursos jornalísticos estão intimamente conectados. Somente desta forma será possível perceber como a relação entre verdade e objetividade não mais é uma relação de dependência. O jornalismo convencional possui um discurso verdadeiro, porém não objetivo, enquanto o literário pode produzir um discurso mais objetivo por meio da inclusão das subjetividades.


Ficou interessado? - Clique aqui.
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Felicidade

em 04/08/2009.
| Comentários: (4)
É uma poesia mais simples minha, mas que tem uma musicalidade bem mais marcante, é positiva também. Não trabalhei muito nela, está quase como eu a produzi inicialmente, acho que ficou bem legal, apesar da simplicidade - gosto de poesias assim. É bom quando elas saem de repente, de maneira fácil, mas têm todo um conteúdo legal por trás, como sempre gosto de fazer, somado a uma boa musicalidade.


Felicidade 

Escrevo o que minha poesia manda.
Penso no que minha poesia quer.
Faço versos sinuosos
como curvas de mulher.

É dia de poesia.
É dia de serenata,
de colher a rosa do dia
e levar para a namorada.

As ruas já não são tão tristes,
tão cinzas e amarguradas.
Com a ponta do lápis em riste
eu descrevo contos de fada.

E se tal inspiração tem nome
não posso dizer... não sei.
Mas na terra em que o pessimismo consome
quem tem bom humor, meu amigo, é rei.
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3

Ferreira Gullar fala sobre mercado editorial e crítica literária

em .
| Comentários: (3)
Coloco hoje aqui um trecho grande da entrevista com o poeta Ferreira Gullar. Apesar de ser um trecho maior, o conteúdo é extremamente interessante, vale a pena a leitura. Num clima de bate-papo, foram discutido temas como o mercado editorial e a crítica literária no Brasil.

Um dos pontos que destaco da conversa é quando Gullar fala da escolha - em minha opinião equivocada - das editoras brasileiras de publicar muitos livros com pouca tiragem em vez de poucos livros de alta tiragem, como é feito no exterior. Tal opção, além de sobrecarregar as livrarias, diminui a exposição dos autores e enfraquece tanto a promoção de novos escritores como o diálogo literário, a crítica, digamos assim.

Lamenta-se na entrevista também o desaparecimento desta crítica literária. O ponto importante a ser observado aqui é que os donos de jornais, de outras mídias e os governantes não percebem que estimular a discussão literária não é algo que gera prejuízo. Com um pouco de investimento e paciência é possível criar uma cultura de leitores e críticos. Embora este processo seja longo e gere, inicialmente, um certo prejuízo, no futuro este investimento terá retorno; afinal, por intermédio de uma cultura literária o mercado editorial brasileiro tem um potencial enorme, pode se tornar extremamente lucrativo. Infelizmente, poucos tem esta visão.


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Em Aletheia - Os contempladores

em 03/08/2009.
| Comentários: (3)
São os mais sábios e abstratos dos moradores de Aletheia. Alguns rebuscados demais; os mais respeitados dentre aqueles que devem contemplar o mundo. O fluxo vital é tão complexo que a linguagem precisa ser trançada para representá-lo; uma teia de elementos desconexos, afirmam - por mais paradoxal que seja. Formam o que poderia ser chamado de aristocracia; vivem bem, felizes por terem nascido onde nasceram. Só em Aletheia são bem recompensados aqueles que se dedicam ao pensamento e à filosofia. Do outro lado da fronteira, a preocupação com o concreto é grande demais. Não é de se estranhar, portanto, que os homens de lá apreciem de tal forma as artes da guerra.



Ilustração de Allison Afonso - http://affo.blog.terra.com.br/
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Lançamento de antologia poética de comunidade do Orkut

em .
| Comentários: (1)
É sempre bom ver iniciativas interessantes a favor da leitura e da literatura serem colocadas em prática. Alguns dias atrás recebi a informação de que uma comunidade no orkut - "Dicas para publicar um livro" - lançaria uma antologia poética com as obras das pessoas participantes da comunidade. O lançamento será online, com chat e vídeo, amanhã (04/08/09) e incluirá outros dois livros do autor Rodrigo Capella, que organizou a antologia. Confira o restante das informações abaixo:

O escritor e poeta Rodrigo Capella, 28 anos e autor de seis livros, entre eles “Transroca, o navio proibido”, que está sendo adaptado para o cinema pelo diretor Ricardo Zimmer, prepara o lançamento virtual de mais três obras inéditas, publicadas pelo Clube de Autores.

O lançamento virtual será no dia 04 de agosto, das 18h30 às 20h00, com chat, power point e vídeo, no endereço http://www.ustream.tv/clubedeautores




@ntologia online

Contém os poemas dos participantes da comunidade do Orkut "Dicas para publicar um livro".









Loucuras de um escritor

Traz diversos textos sobre a viagem do autor, Rodrigo Capella, a Europa.








Dicas para escrever, publicar e vender um livro

Traz cinqüenta orientações para quem quer entrar para o mercado editorial
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