Nota: Este é um conto que eu já havia colocado no blog faz muito tempo atrás. Acontece que eu o retirei do ar para reescrevê-lo, já que achava a idéia boa, mas a execução (forma escrita) que eu tinha utilizado nem tão boa assim. Enfim, gostei do resultado do conto refeito e divido-o, agora, com vocês. Vamos ver o que vocês acham.
Ele caminhava por uma pequena vila situada no coração de uma grande cidade. Estava atrasado para o trabalho e resolvera cortar caminho por ali. Era um lugar calmo e simples, de ritmo muito diferente do vivido nas grandes metrópoles.
Ele gostou muito de poder presenciar tudo aquilo. Era como se pudesse, mesmo que por apenas alguns instantes, ser transportado para uma realidade diferente, um lugar em que não precisava se preocupar com a velocidade da vida urbana.
Naquele dia, o clima na vila era ainda mais propício a um estado de letargia. A alta umidade no ar e o calor criavam um ambiente ainda mais lento do que o normal. As ruas estavam quase totalmente vazias. Somente de vez em quando alguém podia ser avistado caminhando ou conversando pela calçada. Nada que perturbasse demais o silêncio - um silêncio praticamente inexistente nos grandes centros do país.
Em um banco de madeira mais adiante, uma voz rouca destoava daquele ambiente tranqüilo. Uma senhora de idade avançada gritava alguma coisa para as poucas pessoas que passavam; ninguém lhe dava atenção. Mas ela não parecia disposta a desistir e continuava a gritar aos que estavam na rua: não sigam, não sigam. Se escondam, pois já vem o arrastão.
Sem hesitar, insistia em dar o seu recado; a cada um que passava, repetia a sua mensagem. As pessoas a ignoravam. Ele teve compaixão. Era notável que a vida fora impiedosa com aquela senhora.
Ele se aproximou e se sentou ao lado dela no banco. Primeiro, ofereceu-lhe dinheiro, mas ela se manteve imóvel; observava o movimento na rua. Depois, tentou iniciar uma conversa, mas ela o ignorou; continuou a dar o seu aviso a quem quer que passasse.
Quando ele já havia desistido, tomado para si que aquela senhora era um caso perdido, ela lhe dirigiu a palavra: me diga, por que eles não escutam? Por que nunca escutam?
Ele a fitou por alguns instantes. Percebeu naqueles olhos já desgastados pelo tempo um desespero genuíno, uma angústia inegavelmente verdadeira. Era como se todos os esforços daquele corpo estivessem voltados para aquela única mensagem. Ele não conseguia se manter indiferente, precisava dar a atenção que aquela senhora merecia. Explicou-lhe que as pessoas da cidade eram assim mesmo, que costumavam não dar ouvido aos outros, que era perda de tempo, mas que ele a tinha escutado. Em seguida, perguntou o que deveriam fazer. Ela lhe respondeu: precisamos sair daqui, a minha casa é logo ali. Se sairmos agora, poderemos nos esconder em tempo.
Ele se levantou e estendeu a sua mão para ajudar a velha senhora. Decidira a levar para casa, assim poderia garantir que ela iria descansar. Sentia-se muito bem com isso. Sentia que recuperava um pouco de sua humanidade, uma virtude que deixara de lado por causa da vida agitada dos grandes centros urbanos.
Os dois andaram até uma pequena casa amarela na esquina. A velha senhora passou por um portão de metal enferrujado, que dava para um velho quintal, tirou as suas chaves do bolso e lentamente abriu a porta. Ele esperava pacientemente. Só se mexeu quando ela lhe fez um sinal para entrar. O interior da casa era mal iluminado, possuía um aspecto antigo, povoado por móveis do início do século.
Ela esperou que ele passasse, fechou a porta, andou vagarosamente até uma cadeira de balanço colocada em frente à janela e se sentou. Naquele lugar, parecia ainda mais velha e cansada. Os móveis, a iluminação e um cheiro de madeira antiga certamente ajudavam a aguçar esta sensação. Ele se sentiu um pouco incomodado. Fez menção de se virar e ir embora, mas parou ao ouvir um barulho intenso vindo do lado de fora.
Correu até a janela, o sangue lhe subiu à cabeça. Na rua, ocorria um arrastão... Um grupo de pessoas surgiu do nada e começou a roubar todos que estavam no caminho. Ele observou a cena, surpreendido e assustado. Por algum tempo, manteve-se imóvel. Uma série de perguntas o impedia de pensar claramente. Sem perceber, entretanto, sorria. Não podia deixar de sorrir. A sua boa ação tinha sido mais do que bem recompensada.
Ele voltou seus olhos para a velha senhora. Ela repousava em silêncio, adormecida em sua cadeira de balanço. Preferiu não a incomodar. A imagem dela sentada, iluminada pelos tênues fios de luz que cruzavam a janela, agora o fascinava. Assim que o arrastão terminou, decidiu deixar a casa em silêncio, prometendo nunca mais duvidar de algo em sua vida após tudo o que testemunhara.
Ela suspirou satisfeita, finalmente acertara. Por anos se sentara no mesmo banco da vila, por anos avisara as pessoas sobre um arrastão que nunca acontecia. Naquele dia, enfim, as suas previsões tinham se concretizado, e seu desejo final se tornara completo.
Assim que percebeu que o jovem saíra da casa, ajeitou-se por mais uma vez, deixou que seus muitos anos de vida abatessem o seu corpo frágil e faleceu, sentada na cadeira de balanço, com uma expressão tranqüila e um contente sorriso no rosto.
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