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Aquele momento

em 29/12/2009.
| Comentários: (1)
Ela estava bem a sua frente, falava com o professor, de pé, em um canto da sala. Sabia que já a tinha visto antes, que não era uma total desconhecida, mas nunca a notara daquele jeito, da maneira como a percebia naquele momento.

Ela permanecia em pé, os braços em volta dos cadernos cuidadosamente colocados a sua frente. Sorria, sem esforço. A alegria parecia emanar de todo o seu corpo, de cada fio de cabelo, de cada gesto. A beleza era tão impressionante que ele não podia deixar de notá-la. Como não a percebera anteriormente é que não sabia.

Os minutos passavam, ele continuava a observá-la. Sabia que aquele momento não era um momento qualquer, queria aproveitá-lo. Era impressionante como se sentia em paz, como naquele instante seu ser se enchia de uma certeza que até então o mundo lhe negara. Chegava a ser doloroso. Dificilmente conseguiria experienciar aquele sentimento novamente. Era a primeira vez que sentira algo tão forte, algo que certamente não viria a se repetir.

Ele continuava a olhar, encantado. Apesar de tudo, sentia-se feliz, sentia-se humano. Acordara para uma infinidade de sentimentos e possibilidades em um mundo que lhe parecia sem cor, sem textura. O sentimento já lhe tomava todo o corpo, alimentava-o. O mundo já não era o mesmo. Somente agora ele estava finalmente atento a todos os seus detalhes.

Nota: Este é mais um daqueles textos que você reencontra sem querer e acaba achando interessante. Não acho que seja espetacular nem nada, nem me lembrava que tinha escrito isso, mas achei sem querer em uns arquivos velhos do computador e resolvi colocar aqui. Não sei muito bem se pode ser qualificado como conto, já que não há basicamente ação. Talvez possa ser considerado prosa poética, não sei, não costumo escrever prosa poética. Mas o que importa mesmo é que achei o texto legal, traz uma imagem bacana, pelo menos para mim, então divido aqui no blog, especialmente agora que o movimento na internet começa a retornar. Um abraço e um feliz ano novo para todos, caso eu não poste até lá!
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3

Uma mensagem de Natal

em 24/12/2009.
| Comentários: (3)
Fiz uma singela mensagem de Natal que gostaria de dividir com todos vocês, leitores desse meu pequeno espaço virtual. Inicialmente, não tinha a escrito necessariamente com o intuito de a colocar aqui, pois é uma mensagem mais simples e também um pouco mais sentimental, mas fui sábia e gentilmente encorajado a fazê-lo - e creio que realmente foi uma excelente sugestão: vocês, leitores do blog, foram muito importantes para mim nos últimos seis meses e, definitivamente, fizeram com que eu produzisse mais e melhor. Fica aqui então meu agradecimento!

O natal é um período raro, um momento em que se celebra a esperança; a fé em uma sociedade mais generosa e em uma civilização menos opressora, um tempo em que podemos viver felizes e podemos realizar tudo aquilo que temos no mais profundo canto do coração. O natal é uma aposta na humanidade. É um recomeço, uma nova chance para que possamos parar, refletir e nos tornar pessoas melhores; uma época em que você pode abrir o coração e libertar os mais puros e ternos sentimentos sem qualquer receio, pois sabe que eles não serão menosprezados, mas encorajados e divididos, num raro período de união.

Por tudo isso é que eu desejo a todos um feliz e gratificante natal!

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2

Governar - Contos (Drummond)

em 14/12/2009.
| Comentários: (2)
Os garotos da rua resolveram brincar de Governo, escolheram o Presidente e pediram-lhe que governasse para o bem de todos.

- Pois não - aceitou Martim. - Daqui por diante vocês farão meus exercícios escolares e eu assino. Clóvis e mais dois de vocês formarão a minha segurança. Januário será meu Ministro da Fazenda e pagará o meu lanche.

- Com que dinheiro? - atalhou Januário.

- Cada um de vocês contribuirá com um cruzeiro por dia para a caixinha do Governo.

- E que é que nós lucramos com isso? - perguntaram em coro.

- Lucram a certeza de que têm um bom Presidente. Eu separo as brigas, distribuo tarefas, trato de igual para igual com os professores. Vocês obedecem, democraticamente.

- Assim não vale. O Presidente deve ser nosso servidor, ou pelo menos saber que todos somos iguais a ele. Queremos vantagens.

- Eu sou o Presidente e não posso ser igual a vocês, que são presididos. Se exigirem coisas de mim, serão multados e perderão o direito de participar da minha comitiva nas festas. Pensam que ser Presidente é moleza? Já estou sentindo como este cargo é cheio de espinhos.

Foi deposto, e dissolvida a República.


Comentário: Mais um texto excelente de Drummond, que eu cada vez mais aprecio como contista (talvez, mais até do que como poeta, se isso for possível). Há nos textos dele, além da ironia constante, algo que José Saramago apontou como um deficiência dos escritores atuais: a capacidade imaginativa. Creio que esses contos, do livro Contos Plausíveis, mostrem com clareza esta imaginação fértil que possuía Drummond; é por isso que aprecio tanto os seus textos.

Nota: E a quem não costuma entrar no blog, se quiser mais do poeta, pode conferir ele declamar uma de suas obras na postagem Poemas de Carlos Drummond de Andrade. Já a postagem sobre o livro Contos Plausíveis traz mais sobre os contos de Drummond.

Nota 2: Não tenho atualizado o blog tão rapidamente quanto nos últimos meses, pois o movimento caiu muito agora em dezembro por causa das férias. Isso também é um dos motivos pelos quais estou segurando as séries de contos e contos policiais. O segundo motivo para tal é que tento terminar o meu livro de ficção até o final do ano, o que torna complicado escrever aqui para o blog o tempo todo.
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7

Amor: possibilidade (Poemas)

em 11/12/2009.
| Comentários: (7)
Ainda estou indeciso sobre este poema, acho que com o tempo irei classificá-lo como um dos bons, um dos meus favoritos, mas ainda não estou distanciado o suficiente dele para tal (isso leva tempo). O que gostei, além da construção, que acho ter ficado boa, é mesmo das mensagens que consegui colocar nele, tem toda uma visão de mundo ai por trás. Enfim, como sempre, deixo para vocês o julgamento.


Amor: possibilidade 

Quero sentir
como se sente o amor.
Quero viver a vida ilusória
que somente um amor real nos proporciona.

Sem alguma ilusão, viver não é possível.
E a quem não pode acreditar,
o mundo é incompreensível;
um lugar frio
e cruel,
um pesadelo terrível.

A vida sem o amor não tem sentido.
Não é vida, é uma existência sem significado,
uma série de probabilidades ao acaso,
a tristeza de uma alma consumida.


nota: decidi acatar uma crítica feita nos comentários e cortei a última estrofe, achei que ficou melhor mesmo!
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Cecília Meireles e Manuel Bandeira - Poemas

em 09/12/2009.
| Comentários: (0)
Trago na postagem de hoje dois poemas muito legais de dois incríveis poetas: Manuel Bandeira e Cecília Meireles. As duas obras que escolhi não tem necessariamente uma relação entre si, só achei interessante fazer uma postagem com dois autores diferentes. Naturalmente, eles dividem algumas características em suas obras de uma maneira geral. Se quiser saber um pouco mais, pode ler aqui mesmo um artigo sobre as características das obras de Cecília Meireles e, também, um pouco mais sobre os poemas de Manuel Bandeira. Enfim, espero que gostem!


A morte absoluta (por Manuel Bandeira)

Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão - felizes! - num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
- Sem deixar sequer esse nome.



Serenata (por Cecília Meireles)

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.

Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.
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7

Quando Criança (Poema)

em 07/12/2009.
| Comentários: (7)
Houve uma época em que eu podia voar.
Podia atravessar muros.
Podia enfrentar dragões.
Podia salvar donzelas
e matar mil feras;
ou derrotar o mais terrível dos vilões.

Tudo pelo prazer de imaginar.

Já hoje, não tenho o mesmo tempo
nem tenho a mesma força de vontade.
Tenho apenas as pontas dos meus lápis,
que, ao menos por enquanto,
permitem que eu escreva.


Comentário: este é um poema mais simples, mas gosto muito dele principalmente pelo fato dele ser bem sincero, de mostrar um pouco de mim mesmo, coisa que não costumo fazer tanto quanto escrevo. Espero que gostem desse, por mais singelo que seja =)
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Curiosos "causos" de grandes autores - Mario Quintana

em 04/12/2009.
| Comentários: (5)
Continuando a série de "causos" dos grandes autores, um tipo de postagem que gosto muito, pois mostra um pouco daquele lado poético e literário dos grandes escritores, aquelas pequenas coisas que transformam eles em grandes personagens. Em breve, colocarei uma história contada por um professor meu sobre o Manuel Bandeira, mas essa é uma história que me levará a uma argumentação também. Por hoje, coloco duas histórias, como sempre, engraçadas do excelentíssimo poeta Mario Quintana. Como bem sabem aqueles que acompanham o blog, elas estão no livro Ora Bolas - o Humor de Mario Quintana. Desfrutem.


VALES

NA ÉPOCA em que trabalhava na Editora Globo ele andava sempre duro. Como o salário terminava antes do fim do mês, vivia pedindo vales de adiantamento. Até que um dia o caixa chiou:

- Mas seu Mario, o senhor já tem um monte de vales!

Quis saber, com aquele sorriso maroto:

- Afinal, são vales ou são montes?


O MAPA DO CÉU

FERNANDO SAMPAIO, autor de livros sobre discos voadores e sobre o continente perdido de Atlântida, era o responsável pela edição do mapa astronômico, com as posições das estrelas e das constelações, publicado semanalmente no Correio do Povo. Mario acompanhava o trabalho do amigo, até que um dia não resistiu e deixou escapar, para outro:

- Não é que eu não ache válido, mas há anos ando pela noite toda e nunca vi ninguém conferindo esse mapa...
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Diga talvez aos períodos curtos

em 02/12/2009.
| Comentários: (0)
Ultimamente tenho lido em muitos lugares diferentes "regras" para se escrever bem. Uma coisa que tem me chamado a atenção e da qual discordo inteiramente é a famosa regra do "fazer períodos curtos". Lembro aqui que, quando me refiro a "escrever bem", não falo de produzir textos sem erros gramaticais e bem estruturados, falo do fazer literário. Esta questão do tamanho dos períodos é perfeitamente aceitável - e até aconselhável - quando você escreve um jornal ou um texto argumentativo; tudo bem, ela realmente facilita a compreensão do leitor e pode evitar alguns erros por parte de quem escreve.

Ainda assim, escrever sem muitas vírgulas e de forma mais direta é, numa maneira geral, uma forma de proteger quem escreve. Esta dica, na verdade, foi criada para ajudar aqueles que têm dificuldade em dominar a língua. Alguém que tem o domínio completo da gramática e das estruturas pode sim, com alguma facilidade, produzir textos com períodos extremamente longos e perfeitamente compreensíveis e agradáveis (talvez o José Saramago seja o maior exemplo disso).

Por outro lado, como o título da postagem já nos mostra: diga talvez aos períodos curtos. Quando indico que escrever bem não necessariamente passa por essa regra, não quero dizer que a utilização de uma linguagem mais seca, mais direta, não possa produzir textos de grande valor literário. Um dos meus contistas favoritos, o português Gonçalo M. Tavares (confira uma postagem sobre ele), utiliza este tipo de linguagem e, para mim, pode ser apontado como um dos grandes nomes da literatura contemporânea.

Em resumo, o que quero dizer é que os períodos curtos são, sem sombra de dúvida, uma excelente ferramenta para quem quer informar, principalmente quando o produtor do conhecimento que está a ser transmitido não é um exímio escritor. O grande problema, para mim, é que cada vez mais, mesmo no meio literário, pensa-se que escrever bem obrigatoriamente passa por uma linguagem seca e direta, uma linguagem objetiva e curta. Particularmente, eu acho que esta postura desvaloriza o leitor, considera-o burro, considera a "massa" burra - como eu já disse na postagem A nova geração literária e as massas. Por isso, escrevo aqui no blog apenas para dizer que os períodos curtos podem sim gerar um prazer literário enorme, mas há outros caminhos que também são válidos; está na hora de desvalorizarmos um pouquinho o ponto final e darmos a devida atenção a diversos outros tipos de pontuação que também podem enriquecer um texto.
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