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Caminho (Conto)

em 29 de mar de 2010.

Nota: é um conto bem diferente de todos que já botei aqui, com uma veia mais introspectiva. Eu realmente gostei do resultado e resolvi dividir com vocês para saber o que acham. Boa leitura!

Ele fechou a porta com delicadeza, quase que automaticamente, e colocou as chaves de casa no bolso; escutou o barulho sólido das partes de metal. Naqueles dias, naqueles exatos tipos de momento, prestava atenção a esses detalhes; aos barulhos, às texturas das coisas e dos sons, ao mundo. Era melhor olhar para fora do que para dentro de si, embora a vontade de fazê-lo fosse pouca. E assim se distraía.

Limpou com a mão direita as gotas de água que escapavam tímidas pelas extremidades de seus olhos; respirou fundo. As ruas estavam frias, como ele gostava, e vazias, como convinha ao momento. A noite, porém, era seca, atacava-lhe a garganta; era de uma acidez terrível, um incômodo que se espalhava pelas vielas e por todo seu corpo, por mais que tentasse se desvencilhar do sentimento.

Ele andava, seguia em silêncio, atento apenas aos barulhos de seus próprios passos. Tinha comprado um tênis novo, daqueles que fazem os sons mais estranhos enquanto não ficam velhos e desgastados; diria até que gostava mais das coisas velhas, elas são confortáveis. Mas o barulho agora o entretinha, tirava-o um pouco de dentro de sua própria cabeça; era disso que precisava.

Virou a primeira esquina; respirou fundo, o ar continuava ácido: como era doloroso caminhar sozinho. Não tinha quem o acompanhasse, alguém para segurar a sua mão e dizer que tudo ficaria bem. E como poderia ter? A vida lhe tinha sido tão ingrata. Como poderia voltar a sorrir, a conversar; por que se deixar envolver por outra pessoa? Era desperdício, um erro de fato; era apostar no imprevisível, naquilo que não se pode controlar, nem confiar. Entregar-se ao mundo era mais confortável do que se entregar a outra. O mundo ele sabia que estaria sempre lá.

Fechou o zíper do casaco, o frio aumentara; ou talvez fosse por causa do ambiente. Passou pelo velho portão de ferro e se sentou no mesmo pedaço de mármore de todas as noites. Levou os dedos ao seu pingente. Por que ela não estava com ele? Por que tivera de partir tão cedo? Eles ainda eram tão jovens; recém-casados, apaixonados. Talvez a felicidade fosse coisa proibida. Ele sabia que seus pais não eram felizes; mas eles continuavam juntos, por anos, e nada ameaçava separá-los. E assim era também com os amigos de seus pais... e com seus amigos... e com os amigos dela. Todos viviam tristes, mas estavam juntos, embora para eles isso de fato não importasse.

Levantou-se. Deslizou timidamente a mão pela pedra fria da lápide. Por um momento, esperou sentir de novo o calor do corpo dela, o cheiro, o tato. Ainda podia se lembrar da pele macia, do abraço, do carinho de cada gesto... e do amor. Ah, o amor... como duvidara de Shakespeare, como zombara dele enquanto estivera com ela. Agora, arrependia-se... o velho poeta estava certo. O amor é grandioso. E trágico. Talvez também fosse proibido.

Afastou-se um pouco, puxou o braço para trás em um ato reflexo, como se tivesse medo de se machucar. Voltou de novo os olhos para o mundo, para o mato que crescia ao redor, para a vida. Era tão difícil se manter atento a ela. Afinal, de que serviam todas as coisas? De que servia o mundo senão para dar sustento às pessoas? Sem elas, ele não faria sentido. Ou talvez fizesse, e ele não passasse de um bobo. O mundo estaria sempre lá, ele repetia... o mundo estaria sempre lá.

Enquanto isso, deixava o corpo cair ao lado da lápide e se entregava ao reino dos sonhos. Só precisaria encarar a vida quando nascesse o dia seguinte.


23 Comentários:

Meire

Sinceramente, um dos contos mais lindos que ja li!
Parabens, Leo! A cada dia vc me surpreende mais!
(Meire Ribeiro)

malvina

Muito inteso esse conto, como disse diferente do que geralmente leio por aqui, porem acho que esse texto foi o que mais me tocou... Uma leitura prazerosa. Parabens!

Leonardo Schabbach

Valeu! Ficou feliz mesmo que tenham gostado. Realmente é um conto que envolve muito mais sentimentos, bem mais introspectivo. Diferente do que faço normalmente, como disse. Mas gostei muito do resultado.

E Malvina, os comentários demoram um pouquinho a aparecer pq estou moderando eles, então só precisa mandar 1x e esperar um pouquinho que eles vão online =P

Grande abraço!

derkleyndiner

Muito bom, realmente. Particularmente gosto de contos mais instropectivos, bem nesse estilo. E não preciso dizer que está muito bem escrito. =)

Leonardo Schabbach

Eu gostei muito do resultado deste conto também. Por isso fiz questão de colocar no ar, mesmo sendo de um outro estilo narrativo; sei que muita gente prefere mesmo esse estilo mais introspectivo.

Fico feliz com os comentários. E espero que o pessoal que comentou por aqui pela primeira vez se sinta confortável para comentar sempre, hehe.

Abraço!

Moon Baby

Olá Leonardo
tua narrativa é bem envolvente e falar sobre sentimentos é complicado, principalmente de alguém que não mais faz parte de nossa vida.
Tem que se ter noção da dor e da solidão. Do que podia ter sido e não foi. Dos sonhos e das possibilidades da vida.
Gostei
Abraço

Ana Karenina

olá Leonardo

que belo texto, não vim antes ler ele, porque pra ler um texto assim é preciso estar preparado pra captar as emoções dele.

e eu pensando equivocadamente que sensibilidade era um atributo feminino e venho aqui e vejo um texto desse que desmancha toda a minha pseudo teoria rs

entendi a referência do tocar na lápide fria, como uma esperança do personagem em negar os próprios sentimentos, uma busca de querer ser tão frio e rígido quanto a pedra, mas ele sofre porque se reconhece humano e humanos sentem, vivem e se emocionam.

Um abraço :)

Leonardo Schabbach

Valeu, gente. Legal que gostaram, mesmo. E estou com vontade de fazer mais conto nesse viéis, quem sabe, mais introspectivo, embora não necessariamente tão sentimental quanto esse, dependerá da história do conto claro.

É um outro estilo. E gostei de escrever assim =)

Julia Guará

Leo,
realmente muito diferente de TUDO que eu já li de você. Já disse isso pra vc, que vc vem me surpreendendo cada vez mais, e superando sempre o aparentemente insuperavel. Fico muito feliz de poder presenciar essa evolução, não no sentido de melhoria, mas de sucessivas mudanças... E mudanças sempre enriquecem quando não se perde, apesar delas, as outras belezas anteriores. Não pare nunca, meu caro.

E quero te ver.

Um beijo da amiga Julia

Raphael Ramires

"Era melhor olhar para fora do que para dentro de si, embora a vontade de fazê-lo fosse pouca."


Schababach, adoro poemas. Acho que bem mais do que contos. Mas esse, talvez por ter algo poético, me chamou muito a atenção. Seria um verdadeiro poema prosaíco, não fosse a caracterização de personagem, tempo e lugar. O que denuncia de fato sua natureza de conto. Enfim, é muito rico e de uma sensibilidade fantástica. Quero ler outros como este.

Leonardo Schabbach

De uma certa maneira tento mesmo dar uma cadência mais poética mesmo quando escrevo prosa. Acho que faz parte da minha formação como escritor, já que sempre me considerei muito mais poeta do que contista ou romancista ou o que seja.

Legal mesmo que tenha gostado. E é provável que faça mais contos como esse, já que teve uma boa aceitação - e também por eu ter gostado muito de fazê-lo, foi uma experiência boa.

Abraço!

Anônimo

Era tudo que eu estava precisando. Sou professora de Língua Portuguesa e, no momento, estou trabalhando contos com meus alunos de 14 anos. Vou mostrar-lhes essa obra de arte, posso?
parabéns! Maria do socorro ou se quiser misshelp.

Diego

"Enquanto isso, deixava o corpo cair ao lado da lápide e se entregava ao reino dos sonhos. Só precisaria encarar a vida quando nascesse o dia seguinte."

Fantástico Leonardo. Belíssimo texto. Final de arrepiar.

abs
Diego

Tânia

Esta é a primeira vez que estive aqui , e fiquei emocionada com este conto que me deixou comovida .
"Enquanto isso, deixava o corpo cair ao lado da lápide e se entregava ao reino dos sonhos. Só precisaria encarar a vida quando nascesse o dia seguinte."
Concordo com o Diego é fantastico.
Muitos eu acho se endentificou muito com este conto ,principalmente aqueles que perderam alquem como eu.

Parabéns Leonardo

Giselle

Lindo. Sem comentários, para não maculá-lo. Talvez eu transforme num curta. Beijos, grande e talentoso escritor.

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