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O Bêbado, por Carlos Alberto Affonso. (mais o resultado da última promoção)

em 26 de mai de 2010.

Segue mais um conto enviado por leitores do Na Ponta dos Lápis. Gostei muito deste e resolvi publicar. A linguagem é bem legal, o ritmo é legal e a história tem aquela característica surpreendende de um bom conto. Espero que o pessoal aprecie.

Carlos Alberto Affonso, 61 anos, é formado em ciências físicas e biológicas. Contista por afinidade, com várias de suas obras publicadas no site Recanto das letras e em outros. Este conto faz parte de uma trilogia de nome "Aparências". Confiram mais textos do autor na sua página do Recanto.


O Bêbado
Ele estava bêbado fisicamente, mas mentalmente sóbrio. Havia proposto um acordo com a garrafa de bebida de trocar os conteúdos: o líquido volátil - promessa de alívio - por suas lembranças sólidas, pungentes. Ele cumpriu a sua parte, mas a garrafa, assim que vazia, eximiu-se, traidora. Enraivecido, atirou-a contra a parede, despedaçando-a. Ah, se assim pudesse fazer com as pessoas que também o traíram.

Suas pernas trôpegas tropeçavam em nada. Suas mãos se apoiavam no que via, mas não existia. Seu corpo tolo esborrachava-se no chão. O rosto esfacelava-se no atrito com o chão duro e áspero. O sangue, exalando álcool, escorria, embaçando-lhe a visão e tingindo a calçada de vermelho. Quem o via assim, o imaginava um bêbado inveterado; porém, nunca bebera, era a primeira vez. Bebera porque sempre ouvira dizer que a embriaguez entorpece os sentidos e nos faz esquecer de tudo. Mentirosos, fingidos; enganam-se a si próprios para se desculparem aos outros.

A sua mente lúcida repassava a todo instante a cena que destruiu sua vida e que queria esquecer. Esquecer não, que era pouco. Desejava não ter visto, mas isso também não adiantava: não deixava de ser aquilo que não via. Mais dias, menos dias, aconteceria, era só uma questão de tempo. Poderia ser um pesadelo, um sonho ruim, do qual acordaria como o fim de uma embriaguez. Ficaria apenas a ressaca ou a indisposição de uma noite mal dormida, nada que um banho gelado e um café reconfortante não eliminassem.

O seu rosto ferido sangrava. As dores eram reais: a dor física causada pelos tombos e a dor moral de ter visto o que não queria ver, ou melhor, que não deveria ser. Arrastou-se até o muro de uma casa e soergueu-se, apoiando as mãos nas grades do portão. O seu peso abriu o portão que estava só encostado. Sem apoio, caiu para dentro do quintal da casa causando um grande alvoroço. Os cachorros da redondeza latiram em uníssono. As luzes da casa acenderam-se e uma mulher em trajes de dormir apareceu para averiguar o que estava acontecendo. Vendo aquele homem caído e sangrando abundantemente no rosto, apiedou-se dele e, ingenuamente, carregou-o para dentro de casa, acomodando-o, por não haver outro lugar, em sua própria cama para cuidar-lhe os ferimentos.

Enquanto assistia ao bêbado, sentada na beirada da cama, debruçada sobre ele, limpando-lhe o rosto com água oxigenada, seu marido chegou. Vendo o que imaginou ser uma cena de traição, armado de um revólver, atirou na pobre mulher que caiu morta ao lado da cama. O bêbado arregalou os olhos e antes de morrer, vítima da mesma arma, reconheceu naquele homem o mesmo que tinha visto na cama com a sua mulher, razão dos seus tormentos e da sua bebedeira.

O sangue encharcado de álcool escorria do seu corpo, tornando-o sóbrio. As lembranças esvaiam-se de sua mente, deixando-a vazia. Não sentia mais dores: física e moral. Uma luz branquíssima e suave iluminou aquele pequeno quarto. Levantou-se e saiu para a rua. Suas pernas já não mais tropeçavam em si mesmas e o conduzia ereto, acompanhando a luz. Sua mente, livre dos pensamentos ruins, exalava tranqüilidade. Uma música suave lhe transmitia paz e felicidade.

As vidas daqueles que lhe fizeram sofrer, estavam despedaçadas: espiariam a culpa da morte de quem traíram, achando, terrivelmente, que por eles foram traídos.


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Resultado da promoção do livro "A Lenda de um Beatlemaníaco"


Como se sabe, a última promoção foi escolhida por sorteio e também pela resposta mais criativa. Pelo sorteio, o vencedor foi @Israelteles (confiram em http://sorteie.me/mR8). A resposta considera de que mais gostei (normalmente peço para outras pessoas julgarem, desta vez, não deu) foi a da @BiancaBriones. Achei a frase simples, achei também que soou muito bem:

"O grande charme dos romances policiais é que após lermos as primeiras páginas nos tornamos escravos do livro e só nos libertamos ao desvendarmos os seus segredos".

6 Comentários:

Israel Teles

Pense numa pessoa que tem sorte em sorteios, um cara que tudo que ganhou até hoje em algo assim foi uma garrafa de água (isso mesmo!!) em uma barraquinha de festa junina a trocentos anos atrás...
Uhuuuuuuuuuuuu!!!
=]

Paul Law

Eis um conto queretrata um personagem muito parecido com a gente... as vezes nos escondemos de nós e dos outros com a bebida, mas seu efeito é passageiro!

Excelente sugestão!

Leonardo Schabbach

Paul, fico feliz que tenha gostado do conto. Eu achei bem interessante, gosto desses finais mais impactantes. É como dizem por ai, um conto devo nos derrubar por nocaute!

E Israel, que bom que sua sorte mudou, hahaha. Abraço!

Bianca Briones

Nossa! Que conto maravilhoso! Surpreendente.

Quanto a promoção, estou dando pulinhos aqui. Super feliz.

Obrigada, Leonardo.

Beijo.

Bruna Maria

Excelente conto, Carlos!
Gostei muito. Ele é bem direto, bem objetivo, muito bem escrito. Gostei de pensar também que, mesmo preenchido pelo líquido alcóolico, acho que o que mais 'embriaga' nesse conto (e em nossas vidas, também) são as lembranças, as memórias morais, decepções e frustrações. Uma vez que, de algum forma, sentimo-nos delas nos libertar, parece também que chega certa lucidez e consiguimos caminhar sem tropeçar pelo caminho.

Muito bom, parabéns!! =)

Isie Fernandes

Olá, Leonardo.

Gostei bastante do conto. Muito bom mesmo! O Carlos Alberto está de parabéns.

Grande abraço.

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