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Técnicas narrativas: o perigo dos conectores

em 27 de set de 2010.

Hoje decidi escrever um pouco sobre os conectores. Creio que todos nós, que lidamos com a escrita, seja lendo ou escrevendo, já ouvimos falar muito deles, mesmo que apenas na época de redações do vestibular. Acontece que, uma das primeiras coisas que nos dizem, é que nas narrativas nós devemos utilizar os conectores, que eles dão unidade ao texto e às frases, que eles são responsáveis pela passagem do tempo e etc...

Eu, porém, tenho um sério problema com conectores. É uma questão bem simples: eu não gosto deles. Os melhores textos são sempre aqueles que não possuem essa conexões artificiais para dar continuidade às frases. Esta é minha opinião pessoal, nem todos precisam concordar, mas realmente me incomoda quando leio um texto em que o tempo inteiro apareça este tipo de conexão. É como se a fluidez da narrativa fosse interrompida, dá um ar de didaticidade muito grande, como se o leitor não pudesse pular etapas lógicas e precisasse o tempo inteiro do autor, que passa a exercer, portanto, um papel de "guia".

Novamente, ressalto que esta é uma opinião pessoal, mas tive vontade de a dividir com os leitores do blog e de mostrar mais concretamente do que estou falando, quem sabe as pessoas passam a concordar comigo. Quem sabe também não coloquem novas questões. Também é necessário lembrar que falo de um tipo específico de "conectores", não de todos; falo daqueles que muitos de nós acabamos utilizando como "apoio", quando deveríamos pensar com mais cuidado nas frases e na relação entre elas.

Vamos a um exemplo simples - talvez ele seja insuficiente, já que posso ter exagerado no número de conectores, mas é só para ilustrar como o corte deles pode tornar o texto muito mais interessante e, na minha opinião, bem escrito.


Valéria estava sozinha em casa, pois sua mãe acabara de sair. Nestes momentos, ela sentia muito medo, como se algo ruim estivesse para acontecer. Desde que tinham se mudado para aquele lugar, era assim, uma sombra parecia observá-la pelos cantos.


Poderíamos modificar o texto para cortar alguns conectores (nem sempre é possível cortar todos); deste modo, além de o texto ficar com uma leitura mais agradável, muitas vezes somos forçados a aprofundar mais nossas informações, tornando a cena ou a personagem mais atraente.


Valéria estava sozinha em casa, sua mãe acabara de sair. Ela odiava quando a deixavam só; sentia medo, como se algo ruim estivesse para acontecer. Desde que tinham se mudado para aquele lugar, era assim, uma sombra parecia observá-la pelos cantos.


Veja como a segunda opção é muito mais interessante - e observe também como o porque e o pois, na maioria dos casos, são dispensáveis. Claro que, naturalmente, não falo aqui dos conectores que remetem à ação, esses são até mais difíceis de serem cortados, ou aos que indicam contradição (como o Mas, Entretanto e por aí vai), mas falo dessas espécies de "conectores bengala" que utilizamos para dar coesão ao texto quando uma solução melhor não nos vem à cabeça. Geralmente é em situações assim que recorremos ao Por este motivo, Neste momento, Dessa forma, Assim sendo e algumas outras variações com um maior número de palavras (normalmente puxadas pelo Enquanto...). Como falei, é uma observação minha, pessoal, mas geralmente essa conexão, ao meu ver, forçada, acaba deixando o texto muito didático e diminui consideravelmente seu potencial dramático (no sentido de causar efeito, mesmo que de comédia).

Sei que talvez devesse me aprofundar mais nesta questão, mas queria colocá-la no blog apenas superficialmente para ver o que o pessoal acha. Eu sinceramente penso que se nós, autores, estivermos atentos a estes "conectores" que nos servem apenas como suporte em momentos difíceis, seremos capazes de produzir narrativas com uma qualidade muito maior. Eu mesmo, sempre que reviso meus textos literários, procuro reduzir ao extremo o uso de tais elementos de conexão. E, devo admitir, sempre que faço uma mudança, noto que a narração daquela determinada parte modificada passa a ter uma qualidade muito maior.

Um jeito de reduzir bem o número de conectores é utilizar um técnica que eu já apresentei aqui no blog. Se quiserem conferir, basta clicar aqui.

27 Comentários:

Leonardo Schabbach

Legal, essa é a idéia. Estou sempre com essas questões na cabeça também, pensando em formas melhores de escrever e etc... =)

letraimpressa.com

Conectores... Usá-los ou não merece um grande 'depende' como resposta.
Algumas vezes eles 'arrastam' a narrativa, outras lhe dão fluidez. E não usá-los pode tanto tornar a leitura mais dinâmica (e permitir ao leitor que complete os espaços que a princípio parecem faltar) ou mais lacônica.
Questão de estilo. E de momento.

Paul Law

Notei que quando você diminuiu o uso dos conectores no exemplo, o texto ficou mais moderno. Acho que muitos estão seguindo sua recomendação mesmo sem saberem. Acho que tem muito a ver com estilo também...

Ótimas observações. Abraço

Michel Filipe

Nunca dei muito valor a isso, agora prestarei mais atenção. Vei me ajudar bastante, porque gosto de cortar o maior numero de palavras possiveis. Valeu Leonardo.

Wander Shirukaya

Pois é, olhar esses pequenos elementos é essencial, pois nele é que se percebe o trato com a língua e com a arte. A concisão, especialmente na poesia e no conto, podem definir a qualidade do texto. Grande post, Leonardo! ^^


A propósito, t enviei um email há umas duas semanas com o q vc me pediu e não tive resposta. Aconteceu algo? Não recebeu? :/

Leonardo Schabbach

Recebi sim. É que você seus e-mails para um e-mail semi-desativado. Então, às vezes posso demorar a ver ou responder.

Leitor

Boa reflexão.

Nas oficinas de contos, de técninas de narrativa, é comum o estudo desses conectores. Claro, isso porque se não for muito bem empregado, quebra o texto, diminíu a força dos textos.
Existem exercícios específicos para criar conecxões narrativas que sejam menos monônotas; mas nada espalhafatoso, porque o bom conector é aquele que NÃO APARECE ou APARECE O MENOS POSSÍVEL.

Problemas maiores estão ainda no uso de orações subordinas, o uso quês(quês são como joelhos de encanamento num texto), excesso de metáforas ( que são também uma maneira de ocultar uma incapacidade de dizer alguma coisa de forma direta, em certos casos, claro.)

Mas tudo é relativo. Às vezes, o uso de conectores óbvios pode ser um recurso estético, quando usado de forma nova buscando um efeito; tal como as reiterações.

É uma coisa que desafia quem lê e quem escreve.

Parreira

Gostei do seu post e preciso aprender a lidar melhor com os conectores.

Muito bom.

Thiago P. Neves

Escrevendo contos me deparei com a mesma questão. Pelo dinamismo que os contos tem, fui me acostumando a não usar estes "conectores bengalas" com frequência.

Hoje meu modo de escrever é muito mais dinâmico e fluído do que a um tempo atrás, quando eu usava e abusava delas, as bengalas.

Márcia Luz

Oi, Leo

Há tempo não apareço por aqui.

Não posso me eximir desse assunto, porém, pela minha experiência como professora de Morfossintaxe. O problema é, na realidade, o que definimos como conectores. É usual que se atribua tal função às conjunções (principalmente) e às preposições e, mais raramente, a alguns advébios. Os recursos gramaticiais não estão, no entanto, restritos às palavras gramaticais.

A conexão é propriedade intrínseca da coesão textual e deve ser vista para além das classes gramaticais. Na primeira frase de seu exemplo, "Valéria estava sozinha em casa, sua mãe acabara de sair. ", eu já considero a sequência dos tempos verbais (pretérito imperfeito e pretérito mais que perfeito) como um elemento que estabelece a conexão entre os dois fatos. A vírgula é também um elemento conector, responsável pela coordenação que fortalece a relação de sucessividade desses mesmos fatos. Para mim, o uso explícito do conectivo "pois" tornaria o texto pleonástico, daí a fluidez ao não usá-lo.

Costumo dizer aos meus alunos que texto é tecido(comparação até aqui óbvia). Não posso olhar para uma blusa de malha e ver fios; é preciso ver o tecido. Há entretanto as tramas entrelaçadas em padrões "tradicionais" (um tear previsível, bidimensional - horizontalidade e verticalidade...) e aquelas obtidas por processos multifacetados (expansão, hibridismo, holografia...). O interessante dessas últimas é que a beleza do tecido é maior que a visibilidade do processo de produção.

Beijo

Márcia

Leonardo Schabbach

Legal, Márcia. Excelente comentário mesmo. Quando falei que talvez devesse me aprofundar no assunto, era mais ou menos desse caminho que falava. É claro que nas frases sem os "conectores bengala" que chamei aqui, temos uma conexão, sendo por pontuação, sentido e etc... Mas queria expor essas conexões mais "fáceis" que muitos de nós usamos e que estragam o texto.

Quando não sentimos a necessidade de usá-las é justamente pelo fato de nossa narrativa estar ainda mais coesa, com cada elemento puxando o outro através de conectores mais suaves, ou apenas através da conexão lógica, o que leva a uma outra opinião minha, de que esse tipo de conexão é o melhor, já que dá crédito ao leitor, uma vez que acredita que ele é capaz de fazer a ligação lógica entre um elemento e outro sem a necessidade de conectores "visíveis".

Inclusive, isso talvez seja papo para uma oura postagem =)

Valeu mesmo pelo comentário, garanto que foi útil a muita gente!

Márcia Luz

Eu de novo e já desejosa desta nova postagem sobre a valorização da atividade do leitor!

Você nem imagina a vida que este seu post sobre conectores me deu. Adoro falar dessas coisas!

Um grande abraço

Márcia

Leonardo Schabbach

Hehe. Legal, fico feliz mesmo que a postagem tenha agradado. Isso é bem satisfatório, saber que a postagem foi importante.

Abraço,
Leo.

MarcosP.S.Reis

Algo que me fascinou neste post foi a extensão dele, esta troca de conhecimento que se inicia com o artigo e se extende aos comentários é muito legal. Uma aula do Leonardo e da Márcia. Aliás, esse debate sobre o uso dos conectores, reforça também, a importância da coesão.
O conhecimento exposto por ambos me fez quebrar um paradigma de que os conectores só eram úteis na dissertação, argumentação ou em texto de caráter acadêmico, no entanto, a Márcia abordou algo de muito valioso com a metáfora do tecido, ao afirmar que há outras formas de manter a coesão textual. Digo que isto é valioso, pq compartilho da opinião do Leonardo de que os "conectores bengalas" diminuem a qualidade da escrita, principalmente em textos que não são quadrados - científicos - como as narrativas.
Este post foi feito à quatro mãos. Obrigado pela aula Leo e Márcia.
Cada dia, um novo aprendizado.
Grande abraço

Ana Karenina

oi Léo

Mas eu adoro os conectores, adoro escrever assim, pra mim é assim que o texto fica melhor, mais amarrado. Foi assim que aprendi.

Mas também tem o detalhe que você frisou bem que é o caso do texto narrativo, talvez no texto dissertativo-argumentativo não fique tão bem sem conectores, mas como a narração me parece uma forma literária mais livre, que serve mais pra entreter do que para informar, talvez seja bom mesmo não usar tantos conectores. Mas mesmo nesse caso precisa-se ter muito mais cuidado com pontuação.

É, acho que estou usando os conectores como moletas, será que aprendo a andar de novo sem eles? rs isso muda toda a forma de escrever, é uma mudança de paradigma, um estilo diferenciado. Não domino narração, escrevo mais dissertativo, você pensa da mesma forma pro texto dissertativo?

Bom, me fez pensar, ótimo texto como sempre. Adoro ler você!

Um Abraço :)

@anakint

Emanuelle Najjar

Bom, creio que o uso dos conectores dependa diretamente do tipo de texto usado. Em ficção por exemplo o escrito ganha um tom mais moderno e fluido, algo que um dissertativo não pudesse comportar, ou até pudesse, mas com moderação.

Fui diminuindo o uso de conectores sem perceber, a medida em que fui lendo e notando como os autores tendiam a usar alguns elementos. Algo natural, visto que sequer prestei atenção que isto tinha um nome. Pode ser que seja errado, mas nunca me preocupei muito em encontrar regras maiores que um simples teste quando se trata de escrita. Prestarei mais atenção nisso, com certeza.

Excelente post!

Isie Fernandes

Oi, Leo.

Posso afirmar que sua dica mudou meu estilo há, mais ou menos, seis meses. Foi uma mudança lenta, e progressiva, que me devolveu dinamismo e, por que não dizer, caracterizou em mim um pulso literário. Escrevo de uma forma mais direta, moderna, divertida, sem rodeios. Continuo fazendo uso dos conectores, apenas de modo estratégico.

Agradeço pelas preciosas dicas e te parabenizo pela postagem.

Beijos!

Márcia Luz

Oi, Ana

Eu diria, talvez mais como uma especulação, que, uma vez que o texto dissertativo-argumentativo é campo propício às estruturas subordinadas, encontramos outros mecanismos gramaticais e mesmo estilísticos para evitar o uso excessivo de conectivos.

Um deles é justamente o uso de orações reduzidas. Observe, por exemplo, o uso do particípio no seguinte fragmento: "A interação pressuposta no ambiente virtual exige de autor e leitor o domínio dos percursos transtextuais."

Vejo como processo semelhante o uso de adjetivos deverbais, incluindo-se aí as formas originárias do particípio presente. É o caso de "estruturador", "resultante" e "existente", no fragmento abaixo:
"O link Comentários é, portanto, mais que um convite ao leitor-autor, um elemento estruturador desse novo texto eletrônico, um entretecer de textos, resultante de contextos situacionais distintos que se unem de forma não linear e que proporcionam uma interação bem maior que aquela existente na tradicional relação autor-leitor."

Mecanismo bastante eficiente é também o uso de substantivos abstratos que evitem o desdobramento em uma oração subjetiva: "É notória a fusão dos papéis de receptor e produtor de textos que caracteriza esse novo leitor."

Eu apontaria ainda o uso de "dois pontos", "ponto-e-vírgula" e "parênteses".


Chega, né!... rs... Isso já deixou de ser um comentário.

Um abraço a todos

Márcia

Alex M

"Geralmente são em situações assim que recorremos ao Por este motivo, Neste momento, Dessa forma, [...]"

Não pude deixar de reparar nesta: não devia ser 'É em situações assim que recorremos ao...' ?
O sujeito é indeterminado, não é 'situações'.
É simplesmente a razão que nos leva a agir de certa forma em dadas situações.

A. Marques-Rodrigues

Prefiro também uma escrita mais "seca". Às vezes um ponto-e-vírgula substitui muitas palavras. O texto fica mais incisivo, mais direto, penso eu.

Leonardo Schabbach

Sim, eu gosto muito do ponto e vírgula, muito mesmo. Dá um ritmo legal ao texto.

Agradeço a participação de todo mundo, os comentários realmente trazem mais conteúdo à postagem.

E Alex, não sei se o jeito que eu tinha colocado seria aceitável ou não, mas modifiquei conforme você falou mesmo, porque é de fato o correto (ou mais correto). Valeu pelo toque.

Márcia Luz

Oi, Léo

E eu já falando de novo...

Só para esclarecer que, na oração destacada pelo Alex, você usou a famosa expressão de realce "é que", que não exerce nenhuma função sintática. Há portanto uma só oração articulada em torno do verbo "recorrer" cujo sujeito é "nós" (oculto).

Segundo a Gramática Normativa, essa expressão só é passível de concordância se usada para enfatizar o sujeito ou o objeto direto. No caso, ela dá ênfase ao adjunto adverbial.

Mas há aí, outras incoerências e outros questionamentos:
a)Se não exerce função sintática por que concordar com algum termo?
b) A concordância não deve ser estabelecida entre o verbo e seu sujeito?
c) Se a intenção é enfatizar algum termo, porque não enfatizar o plural desse termo?

Beijos

Márcia

Milena Caldas

Muito bom seu texto sobre conectores, espero que nos meus proximos textos consiga usa-los de forma a dar uma fluidez melhor aos textos.

Mônica Cadorin

Adorei a discussão! Não uso muito conectores, não. Prefiro as frases curtas, mas sem quebrar as idéias. Por outro lado, também gosto das subordinadas, então acho que vou rever meus textos para descobrir na verdade se uso os conectivos-bengala ou não.
Graças às explicações da Márcia, descobri que gosto de morfossintaxe. A língua portuguesa é mesmo fascinante, e nada como a literatura para nos colocar em contato íntimo com ela.

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