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Criação de personagens e histórias (Considerações)

em 31/08/2010.
| Comentários: (14)
Em primeiro lugar, gostaria de pedir desculpas pela demora na atualização do blog. Os últimos dias, porém, foram muito ocupados, então ficou bem difícil de colocar novas atualizações por aqui. Mas prometo que o Na Ponta dos Lápis continuará com publicações interessantes e constantes. Tentarei preparar para as próximas semanas, inclusive, algumas entrevistas com novos autores brasileiros; creio que conhecermos as histórias desses autores que batalham por um espaço no mercado seja sempre bom, é algo que sempre nos trará novas idéias e nos mostrará que, algumas vezes, correr atrás pode valer muito.

Enfim, conforme alguns haviam me pedido, começo a tentar escrever uma série de postagens aqui sobre Criação Literária. Não sei exatamente sobre o que falar, portanto me guiarei por aquilo que os próprios leitores do blog sugeriram. Aviso, porém, que tudo o que eu falar aqui não deve ser encarado como uma regra a ser seguida; são só minhas impressões sobre como produzir um bom texto, são opiniões pessoais que podem, ou não, ajudar cada um a moldar o seu próprio estilo de escrever. De fato, não há uma fórmula para se tornar um excelente escritor, necessita-se de muito trabalho, além de um conhecimento grande sobre si, para que se possa produzir narrativas de acordo com um estilo próprio, um modo de escrever que não copie os de autores já consagrados. Além disso, eu, como qualquer autor, também estou sempre tentando aperfeiçoar a minha escrita. Imagino, por este motivo, que discutir, por intermédio do blog, com outros autores possa me ajudar a melhorar ainda mais a minha narrativa.

Decidi nesta primeira postagem falar sobre a criação de personagens. A idéia veio de uma pergunta feita no Formspring (veja a pergunta aqui) para o livro que irei lançar, O Código dos Cavaleiros. A grande questão, porém, foi que, ao pensar sobre como tratar deste assunto de uma maneira mais geral, não tive como escapar de dissertar também sobre a própria criação das histórias. Isso porque, para se construir um personagem (ou alguns personagens), é necessário saber que tipo de narrativa quer se fazer, que tipo de gênero, até mesmo, será trabalhado. Por exemplo, nos romances policiais, de uma maneira geral, a história é montada antes dos personagens. Cria-se a trama, como o assassino agiu, quem ele é e etc... Deste modo, é como se cada personagem exercesse uma função dentro da história para que ela se desenrole; o que irá acontecer, normalmente, já está bem definido antes mesmo que se comece a narrar a história. Neste cenário, os personagens, embora possam ser incríveis e ter grandes personalidades (como Sherlock Holmes), não costumam "guiar a história", como acontece em alguns outros gêneros. Nos romances policiais (com várias exceções, é claro), a história tende a guiar as ações dos personagens.

Já em outros tipos de obra, como em muitos livros de Realismo Fantástico - ou Realismo Mágico -, o meu gênero favorito, os personagens têm uma força tal que, a partir deles, a história vai sendo criada. Nestes casos, como dizem muitos autores, é como se eles tivessem vida, fossem capazes de construir os cenários e agir com tal grau de independência que os autores se tornam incapazes de prever exatamente o que irá acontecer. No caso do Realismo Fantástico, sempre gosto de citar Ensaio sobre a cegueira, do Saramago, e A Metamorfose, do Kafka. Em ambos os casos, um acontecimento estranho coloca os personagens em uma situação surreal que os faz passar por inúmeros problemas. Entretanto, a história vai se construindo justamente a partir do modo como estes personagens lidam com aquela situação, com aqueles problemas, como se as escolhas e reflexões feitas por eles carregassem e dessem valor à história.

Particularmente, eu prefiro este segundo tipo de construção de personagem. Normalmente, crio os nomes, imagino eles fisicamente (mesmo que não venha a descrevê-los com detalhes no livro) e lhes dou uma determinada personalidade. Porém, isso tudo é bem tênue. Gosto exatamente dos livros que fazem com que os personagens se modifiquem, para melhor ou para pior, de modo a instigar o leitor, a fazê-lo refletir junto com a história que vai se construindo. Neste tipo de criação, tento me imaginar mesmo no lugar dos personagens e pensar da mesma maneira que eles pensariam, tento resolver as situações do mesmo modo que eles resolveriam; e isso, geralmente, faz com que a história tome rumos que, inicialmente, não tinham sido por mim previstos.

Aconteceu algo assim quando escrevi O Código dos Cavaleiros. Tracei uma descrição rápida dos quatro personagens principais e de suas características físicas e psicológicas mais importantes. No decorrer do livro, embora estas características base tenham permanecido, cada um deles passou por grandes mudanças de pensamento. É quase como se a obra, além dos tons cômicos, da sátira e da aventura, falasse também sobre o amadurecimento de cada um dos personagens.

Todavia, como disse anteriormente, este é só um modo de trabalhar - há outras formas de lidar com este tipo de criação. Agora, mesmo nos casos em que é a história, a trama, que dá o tom do livro, criar personagens com grande profundidade é extremamente importante. Afinal, mesmo que não sejam eles os responsáveis por puxar as sequências narrativas, serão eles os responsáveis por conquistar o leitor. Mesmo num romance policial, por melhor que seja a trama, se não tivermos personagens realmente atrativos, o leitor acabará se chateando e se sentindo desestimulado a continuar lendo.

Enfim, o texto já está bem grande, acho que já deu para passar algumas das coisas que penso sobre o assunto. Mas gostaria de fazer um convite a todos os escritores e blogueiros que acompanham o Na Ponta dos Lápis:

Escrevam sobre suas experiências em criação de personagens e enviem o link das postagens para mim por twitter (@leoschabbach). Assim, daqui a alguns dias, crio um post aqui apenas para divulgar bons artigos sobre este assunto.

Espero que tenham gostado das minhas opiniões e que decidam aderir à campanha!
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O Código dos Cavaleiros: sinopse e mais informações. Ajudem a divulgar!

em 25/08/2010.
| Comentários: (4)
Faço essa postagem para divulgar a sinopse oficial do livro, assim como algumas outras informações. Foi criado um grupo no Skoob para O Código dos Cavaleiros, que deve trazer sempre novidades, assim como um cadastro da obra (clique aqui e marque o livro como futura leitura; se for ler, claro). Além disso, peço a quem tiver cadastro no site e estiver disposto a ajudar para divulgar também. Abaixo, segue a sinopse oficial. Novamente, aos que puderem dar apoio, podem postá-la em seus respectivos blogs, junto com a capa aqui divulgada. Há também um Formspring criado para que os leitores possam perguntar o que quiserem sobre a obra e até mesmo fazer algumas perguntas para mim sobre o processo de criação literária: basta clicar aqui. Enfim, estou bem animado com o que está por vir e espero que o pessoal que sempre acompanhou o blog se sinta tão animado quanto eu.

Sinopse abaixo:

“Um conto de cavalaria emocionante e inusitado, uma aventura medieval capaz de nos fazer refletir sobre nossa realidade”

A obra retrata a jornada de um jovem camponês que deseja se transformar em um cavaleiro; um garoto chamado Lino que sonha em se tornar um honrado e poderoso combatente, um homem capaz de proteger os fracos e oprimidos, como os cavaleiros das grandes histórias.

Porém, ao encontrar um nobre e seu companheiro de viagens, o mundo da cavalaria se mostra muito diferente de tudo o que ele imaginara. Lino passa, então, por algumas revelações capazes de mudar sua percepção de mundo.

A história satiriza os clássicos contos de cavalaria medieval, revelando aspectos com os quais os leitores podem se identificar, em uma grande crítica ao momento atual de nossa sociedade. A narrativa possui características cômicas, envolventes e instigantes que tornam a obra uma leitura imprescindível e agradável.

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III Prêmio Literário Canon de Poesia

em 23/08/2010.
| Comentários: (2)
Hoje trago mais uma oportunidade legal a quem acompanha o blog, desta vez destinada aos poetas. Trata-se de um concurso que não cobra nada para inscrição e que premiará os poetas selecionados com 10 exemplares da antologia por eles proposta (que deve incluir 50 selecionados). A tiragem da obra será de 1.500 exemplares, sendo proibida a comercialização da mesma. Os poemas selecionados e o livro serão divulgados pela Canon através de suas estratégias de marketing e propaganda.

Para quem se interessou, basta clicar aqui para checar mais informações a respeito do regulamento, assim como a ficha para inscrição. Boa sorte a todos!
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Os segredos da ficção, por Raimundo Carrero

em 19/08/2010.
| Comentários: (6)
Escrevo mais uma vez sobre um livro que posso considerar de cabeceira. Este, entretanto, não se trata de um livro de literatura por assim dizer, mas de uma obra que fala justamente sobre as sutilezas narrativas. Naturalmente, não deve interessar tanto àqueles que não encaram a escrita como um prazer ou um trabalho. De qualquer maneira, como eu havia prometido faz algum tempo - e voltei a prometer na minha penúltima postagem - indico aqui Os Segredos da Ficção por achar que se trata da melhor obra que li sobre este assunto. Na realidade, o livro é tão bom e traz tantas informações boas sobre a literatura que, mesmo quem não quer aprimorar sua habilidade narrativa, pode se interessar de algum modo por ele.

O que mais chama a atenção nesta obra do Raimundo Carrero é o fato de ela não querer se apresentar como um manual, como a maioria dos livros do gênero o faz. Como já disse no twitter, na minha opinião, a primeira regra para ser um bom escritor é justamente fazer suas próprias regras. Claro que isso não significa sair por ai escrevendo de qualquer jeito, mas, de alguma forma, precisamos procurar nossos modos particulares de contar uma história e, principalmente, de narrar esta história, isso é muito importante.

Em Os Segredos da Ficção, Raimundo Carrero também nos diz isso e ainda nos dá bases para que possamos adquirir mais conteúdo a respeito das diversas técnicas narrativas e de criação de personagens para que possamos nos tornar bons escritores. Durante toda a obra, ele nos traz citações dos grandes clássicos e apresenta de maneira bem didática suas idéias. Inclusive, grande parte das dúvidas que o pessoal apresentou nos comentários da minha penúltima postagem, são discutidas no livro.

Portanto, fica aqui minha indicação. Tenho certeza absoluta de que qualquer um que queira se tornar um escritor não irá se arrepender
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Concurso de contos e poesias da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima

em 17/08/2010.
| Comentários: (7)
Bem, como sempre, toda vez que me deparo com alguma oportunidade que me parece interessante a todos aqueles que se dedicam à escrita, trago as informações aqui para o blog. Este concurso me foi enviado via comentários, mas, por se tratar de um assunto altamente interessante, em vez de publicar o comentário, decidi criar uma postagem apenas para falar dele. Trata-se de um concurso de contos e também de poesia com uma premiação bem alta aos vencedores (será dividido um prêmio de 10 mil entres os cinco ganhadores na categoria conto e de 11 mil entres os cinco vencedores da categoria poesia e os três vencedores na categoria poesia falada). Se quiserem um link direto para mais detalhes (inscrição e etc...) é só clicarem aqui. Para saber mais sobre o regulamento, basta clicar logo abaixo, tenho certeza de que irão se interessar.


Fundação Oswaldo Lima com inscrições abertas para Concursos Literários

A Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima inscreve até o dia 15 de setembro de 2010 para o XX Concurso Nacional de Contos José Cândido de Carvalho e o XII FestCampos de Poesia Falada, que este ano oferecerá, ao todo nos dois eventos, 21 mil reais em prêmios (10 mil no Concurso de Contos e 11 mil no Festival de Poesia), valor que será dividido entre os autores dos cinco melhores contos, dos cinco melhores poemas e os três melhores intérpretes. A comissão julgadora para a seleção e para a final do festival será formada por um mínimo de cinco jurados, todos profissionais ligados à literatura, teatro e comunicação.

Tanto no Festival de Poesias, como no Concurso de Contos, cada autor poderá inscrever um máximo de três textos. A poesia inscrita não têm a necessidade de ser inédita, desde que não tenha sido classificada nas edições anteriores do festival. Na fase final, a interpretação da poesia poderá ser feita pelo próprio autor ou por pessoa indicada por ele.

Os contos deverão estar assinados com pseudônimo, em cinco vias digitadas em Times New Roman corpo 12, em papel formato A-4, espaço simples, acompanhados de CD. O tema é livre. Cada trabalho deverá ter um mínimo de 30 (trinta) linhas e um máximo de 03 (três) laudas.

O regulamento completo e a ficha de inscrição dos dois concursos estão disponíveis na página inicial do site oficial da Prefeitura de Campos dos Goytacazes-RJ (www.campos.rj.gov.br). Outras informações podem ser obtidas pelo e-mail fcjol.literatura@gmail.com ou pelo telefone (22) 2734-4600.

Premiação

Poesia
1º lugar: R$ 2.200,00
2º lugar: R$ 1.700,00
3º lugar: R$ 1.300,00
4º lugar: R$ 1.000,00
5º lugar: R$ 800,00

Interpretação
1º lugar: R$ 1.700,00
2º lugar: R$ 1.300,00
3º lugar: R$ 1.000,00

Contos
1º lugar: R$ 3.000,00
2º lugar: R$ 2.500,00
3º lugar: R$ 2.000,00
4º lugar: R$ 1.500,00
5º lugar: R$ 1.000,00
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Mais pedidos de opinião, blog da Mutuus Editora e informações sobre a antologia

em 16/08/2010.
| Comentários: (9)
Hoje publico mais uma postagem com o intuito de pedir alguns conselhos aos leitores do Na Ponta dos Lápis - além, é claro, de falar sobre algumas outras coisas, como deve ter ficado evidente pelo título. Primeiro, às opiniões. Da última vez em que fiz uma postagem como essa, algumas pessoas demonstraram ter vontade de ver textos aqui sobre a produção narrativa ou literária (coisas voltadas para melhorarmos todos a nossa prosa e/ou poética). Eu até gostaria de fazer postagens deste tipo, mas realmente não sei muito por onde começar, sobre que tipo de técnica falar. Gostaria de pedir aos leitores interessados neste tipo de texto que me dissessem mais ou menos por que caminho seguir, sobre o que falar em relação à produção narrativa e etc... (em breve, farei uma resenha sobre um livro que pode ajudar muito a todos neste sentido, conforme me foi pedido anteriormente).

Além disso, aproveito a postagem para falar do blog da Mutuus Editora, que foi aberto faz uma semana ou duas, não lembro bem. Enquanto não colocamos a Loja Virtual no ar (coisa que deve acontecer e uns meses, somente quando os primeiros livros começarem a ser vendidos), colocaremos nossas novidades por lá; livros sendo preparados, possíveis promoções e etc... Também faremos algumas postagens voltadas para os novos autores e com novidades sobre o mercado editorial, então fiquem ligados!

Por último, gostaria de falar sobre a antologia de contos Alétheia, para trazer mais esclarecimentos aos autores, conforme pedido em um comentário. Nos próximos dias, devo enviar os contratos (que foram me passados pelo editor da Multifoco para os autores selecionados). O processo de correção dos textos também já está bem avançado, dez dos vinte três contos selecionados já foram revisados. Quando o processo terminar, iremos enviar os contos para os autores relerem e aprovarem.

Enfim, é isso. E nos próximos dias devo trazer alguns concursos literários legais em que todos poderão participar.
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[Contos] - Estranhos e A Queda

em 12/08/2010.
| Comentários: (10)
Coloco hoje dois contos não muito grandes no blog, um deles é bem curtinho, quase como uma brincadeira, não sei se fará muito sucesso, mas gostei muito dele, é um conto antigo que achei em um caderno velho meu. Já o texto Estranhos é bem recente, terminei de escrevê-lo hoje e é, digamos assim, o conto "principal" desta postagem. Enfim, como sempre, espero que gostem.



Estranhos


Ele iria se matar, já tinha se decidido. Estava cansado da rotina, das milhares de obrigações e da vida solitária que levava; nem no trabalho lhe davam atenção. Ele se esforçava, muito, tentava ser o melhor empregado, o melhor amigo, mas todos estavam sempre muito apressados. Quem era aquele chato que queria puxar assunto a toda hora? Deveria ser meio louco. Onde já se viu? Parar para conversar? Certamente não dava atenção ao seu trabalho como deveria.

Mas isso não era verdade. João – um João qualquer – se esforçava, como todos os outros. Trabalhava a duras penas para receber o seu merecido salário mínimo – ou melhor, se fosse o merecido, receberia muito mais; afinal, era um excelente empregado. Acontece que João gostava da humanidade em demasia, amava todas as pessoas, talvez por conta de seus pais. Sua avó sempre lhe dissera que eles eram criaturas santas. Estranhamente, também tinham se matado. Talvez fosse esse o seu destino e também o de sua família.

Estava sentado no metrô, olhando pela janela escura, que refletia apenas o nada dos túneis rochosos e eletrificados. O ambiente era frio, o vagão estava razoavelmente cheio e algumas pessoas já se punham de pé; os assentos, como sempre, não eram suficientes. Naturalmente, como quase tudo lhe parecia, eram reservados àqueles que tinham mais pressa e menos educação.

Num determinado momento, uma senhora muito idosa passou lentamente pela porta e adentrou o vagão. João se levantou, quase que automaticamente – para isso, ele e muitos outros eram bem treinados – e deu lugar a mulher. Ficou de pé, as mãos no corrimão de ferro frio destinado às pessoas lentas demais para garantir o seu lugar ou para aquelas que tiveram o azar de se verem próximas a um idoso ou deficiente.

João não se importava, não se sentia obrigado a ceder o seu assento, o fazia realmente com muito prazer e gosto, talvez por culpa do sangue de seus pais. Ainda assim, tinha a consciência de que, na maioria dos casos, as pessoas só demonstrassem aquele tipo de “gentileza” por se sentirem acuadas diante dos severos olhares de reprovação. Tudo acontecia de forma natural e, ao mesmo tempo, falsa. No fundo, não havia conexão e, muito menos, preocupação, era tudo minuciosamente ensaiado.

Um toque quente e áspero desviou a atenção para o seu braço, alguém o segurava. João abaixou a cabeça e percebeu que a senhora falava com ele. Lentamente, ela abriu a bolsa e lhe ofereceu um pacote de balas, jujubas ao que lhe parecia. João a encarou com estranheza. A senhora sorria e, com um tênue movimento com a cabeça, incitava-o a aceitar o presente. Você é um bom menino, ela dizia.

João aceitou o pacote de jujubas, abriu-o, ainda um pouco incrédulo e surpreso. As balas começaram a derreter em sua língua, o gosto lhe pareceu muito mais saboroso do que o normal, muito mais doce e reconfortante. Não era o sabor do confeite em si que lhe agradava, mas o prazer da situação, a retribuição daquela senhora, a conexão feita entre um ser humano e outro, por mais inesperado que aquilo pudesse lhe parecer.

Na estação seguinte, João desceu do vagão já um pouco mais aliviado. Da janela, a senhora lhe fitava e, discretamente, ameaçava um aceno simpático. Ele retribuiu o sinal, colocou mais uma jujuba na boca e caminhou para fora da estação. De algum modo, sentia suas esperanças reacenderem, podia notar um sentimento bom renascendo em seu corpo. Definitivamente, não via mais motivos para se matar, talvez o mundo não fosse assim tão ruim. Quem diria que meras jujubas pudessem o modificar tão profundamente, que dirá então salvar a sua vida? Era irônico, porém doce, como eram aquelas balas.

Dois passos adiante, João caiu, subitamente, morto: o pacote estava envenenado.



A Queda


Um homem caía de um prédio. Como o caminho era longo, resolveu aproveitar. Antes do primeiro pensamento, morreu. Nunca imaginara que as quedas fossem tão rápidas.
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[VIDEO] Acidente na sala, poema citado por Ferreira Gullar na FLIP

em 11/08/2010.
| Comentários: (1)
Infelizmente, por motivos vários, acabei não indo a FLIP, nem a acompanhando como eu gostaria. Mas, naturalmente, fiquei muito feliz ao ler, após o evento, que o grandíssimo poeta Ferreira Gullar foi muito bem recebido pelo público e aplaudido de pé. Emocionado, ele chegou a dizer que era reconfortante perceber que a poesia ainda tinha a capacidade de mexer tanto assim com as pessoas.

Também fiquei feliz ao ouvir que ele contou uma história em sua palestra em que falava que o poema vem do "espanto". Então, contou que um dia, ao levar do sofá (ou cadeira, não lembro bem) ouviu o osso da perna fazer um barulho, ouviu um estalo. Desta experiência, ele disse, escreveu um poema. Achei interessante, pois foi a mesma história que ele nos contou quando o entrevistamos na casa dele - e posso afirmar, o poeta é uma pessoa espetacular mesmo. Para os que não acompanham o blog desde cedo, posto novamente aqui um video exclusivo de Ferreira Gullar declamando o tal poema, que se intitula "Acidente na Sala" e que ainda é inédito.

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O Código dos Cavaleiros (capa do meu livro)

em 09/08/2010.
| Comentários: (20)
Bom, talvez seja ainda um pouco cedo para eu postar a capa aqui, uma vez que ainda faltam acertar alguns detalhes em relação ao livro, prefácio e etc... mas queria dividir isso com o pessoal que acompanha o blog logo. É a capa do meu livro, O Código dos Cavaleiros, que será lançado dentro de uns meses (se tudo der certo, aproximadamente dois). Durante este tempo, devo ter mais novidades para dar a vocês - e talvez uma promoção ou outra. Abaixo, vocês podem clicar na capa para vê-la em um tamanho maior e com mais detalhes.

Atualização: O livro já está à venda em livrarias e no site da Mutuus Editora. Vocês podem o adquirir com autógrafo e frete grátis! Ficou interessado? Então basta acessar: http://www.mutuuseditora.com.br/ocodigodoscavaleiros-2.html

Faz algum tempo, postei três capítulos do livro no blog, para que o pessoal desse opiniões, mas acabei os retirando do ar, uma vez que fiz algumas modificações para melhorar a narração e etc... Mais para frente, disponibilizarei esses capítulos novamente, já devidamente melhorados. Em breve, também devo disponibilizar uma sinopse com a capa para os parceiros que quiserem ajudar na divulgação postarem em seus blogs, sites e etc...

Falarei um pouco da história por causa de um pedido do amigo escritor @endersonrafael. Assim, aqueles que ainda não sabem da trama terão a oportunidade de conhecê-la um pouco melhor. Trata-se de uma aventura de cavalaria medieval, obviamente, mas um tanto quanto diferente do que as pessoas estão habituadas. Inspirado, de algum modo, por Cervantes (Dom Quixote) e Calvino (O Cavaleiro Inexistente, que já resenhei aqui), criei uma história que satiriza um pouco os contos de cavalaria, mas sem perder a ação e o suspense. Trata-se da história de um garoto camponês chamado Lino que quer se tornar um cavaleiro. Ele tem toda uma idealização do mundo da cavalaria que, ao longo do livro, mostra-se não corresponder à verdade, especialmente após ele encontrar um nobre e seu serviçal. A partir dai, uma série de revelações se sucedem e o garoto vai descobrindo como todo aquele universo é, em alguma instância, baseado em aparências. A história se desenrola com muito humor, sempre deixando claras algumas críticas a nossa própria sociedade, e também com alguma ação. Como propus na antologia de contos Alétheia, que estou organizando, utilizei, neste livro, a ficção para trazer também um pouco de reflexão aos leitores. Ainda assim, a história aos poucos vai se modificando e, ironicamente, tomando contornos um pouco mais épicos, terminando como um livro de aventura e comédia; acho que quem ler irá gostar muito.

Por fim, talvez seja possível "resumir" a obra da seguinte forma: um conto de cavalaria emocionante e inusitado, uma aventura medieval capaz de nos fazer refletir sobre nossa realidade.
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Glossário na ponta dos lápis: Acreditar

em 05/08/2010.
| Comentários: (14)
Acreditar - é uma palavra que transmite insegurança, ao contrário do que muitos podem pensar. Se você diz que acredita em alguém, é porque acredita apesar de ter alguma dúvida; ou seja, algum rastro de incerteza ainda persiste. O ato de acreditar se baseia em, sem provas, mas com dúvidas, optar por dizer que determinado enunciado é verdadeiro; ou seja, não há uma relação de confiança total.

Exemplo: "eu acredito na existência de Deus", significa dizer que eu opto por considerar que ele existe. Tem um valor de confiança muito menor do que "eu sei que Deus existe", por exemplo, que denota certeza. Logo, se confiamos em alguém, é melhor dizer "eu sei que você está certo", do que "eu acredito em você", uma vez que acreditar exige a pré-existência de uma dúvida que, numa relação de completa confiança, não existiria.

____________________________________
Nota: às vezes paro para pensar no uso que fazemos das palavras no cotidiano e algumas idéias vêm à cabeça, algumas reflexões. Neste caso só pensei que dizer "eu acredito" tem um poder incrível na nossa sociedade, mas que no fundo é uma palavra bem dúbia. Talvez eu comece a trazer essas ponderações para cá. Pode ser que muita gente até não venha a concordar - ou ache muito nada a ver - mas, enfim, neste caso, é só ignorar esta postagem e curtir as outras, hehe.
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E-books x Livros tradicionais: que tal pensarmos um pouco sobre os números?

em 03/08/2010.
| Comentários: (7)
Como já disse aqui anteriormente, temos de ter muito cuidado quando nos debruçamos sobre números e estatísticas. No fundo, eles podem provar qualquer tipo de coisa ou ponto de vista, por mais variado que seja. Por isso, hoje faço uma postagem para alertar sobre algumas análises que vêm sendo feitas a respeito dos e-books baseadas, claro, em números (vejam esta excelente matéria sobre o mercado editorial). É um fato, como a Amazon.com mesmo declarou, que a venda de e-books tem aumentado assustadoramente ano após ano, ainda mais agora com a chegada de novos leitores e também do Ipad. Como a gigante americana mesmo disse, as vendas de e-books tendem a ser maiores do que as de livros de papel já em 2011. Isso significa então que o e-book está substituindo o livro físico? Errado.

Vamos analisar com mais atenção os fatos, para entendermos melhor estes números apresentados em diversos locais da web. Os e-books não estão tomando o lugar dos livros físicos (tudo bem, em uma escala bem pequena, talvez estejam), eles na verdade apenas ampliam o poder de venda do mercado editorial. De uma maneira geral, os livros comprados no formato digital não são os mesmos que são comprados fisicamente.

Quer um exemplo bem simples? Os livros consagrados. Shakespeare, clássicos gregos, Dom Quixote, Fernando Pessoa e etc... Estes livros têm, claro, mercado físico, mas os e-books transformam em absoluto o seu potencial de venda. Quem, ao comprar um Kindle ou Ipad, não irá querer gastar 2 dólares para ter TODA a obra de Shakespeare (em inglês), TODAS as histórias de Sherlock Holmes, os livros de Freud e assim sucessivamente. É o que, em geral, acontece. A cada aparelho de leitura digital comprado, gera-se quase que automaticamente a compra de uma série de livros consagrados que são vendidos a preços muito baratos na internet. A pessoa pode até ter um ou outro livro de determinado autor, mas a obra completa por apenas 2 dólares, mesmo que ela a tenha em formato físico, vale a pena ser comprada. Além disso, a maioria das pessoas que compra esses livros clássicos, não os compraria no formato físico, seja por falta de espaço ou dinheiro. Isso significa dizer, uma vez mais, que os e-books ampliam o mercado editorial e não substituem os livros físicos. E-book é uma coisa, livro é outra, digamos assim.

Já grande parte dos novos autores, os livros best-sellers e etc... continuam sendo comprados - em sua maioria - no formato físico, muitas vezes por causa da exposição que conseguem nas livrarias (e este é um assunto que pretendo tratar mais à frente: as livrarias). Os e-books, na realidade, apenas trazem a uma série de autores e gêneros desprivilegiados (novos autores independentes, acadêmicos, poetas e etc..) a oportunidade de vender mais, além de potencializar a venda de clássicos, que podem ser vendidos "quase de graça".

Portanto, os e-books irão, em muito pouco tempo, superar os livros físicos em vendas, mas isso não significa dizer que a venda destes livros físicos irá diminuir drasticamente. O mercado é que está sendo ampliado - e ampliado de tal maneira que a porcentagem da venda de e-books será maior do que a dos livros tradicionais.
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Donatelo, o escritor: A xícara de café

em 01/08/2010.
| Comentários: (6)
Como alguns aqui já devem saber, este conto se trata de uma série com um personagem fictício criado por mim. Confesso que os contos são curtos, mas dão até um bom trabalho, pois são bem pensados - e ainda tomo alguns cuidados até mesmo na escolha vocabular e na montagem do texto, na forma de narrar. Enfim, faz um bom tempo que não atualizo a "série", mas aqui vai mais um conto. A quem não leu os outro, aconselho dar uma olhada. Ainda assim, não é necessário ler os contos anteriores para desfrutar do atual, mas certamente a leitura trará alguns elementos a mais na compreensão. Espero que gostem.





Donatelo, o escritor: A xícara de café


O cheiro do café tinha um gosto saboroso, Donatelo podia quase degustá-lo. Era forte, como as coisas da natureza tendem a ser. Mexeu um pouco na xícara, a fumaça subia, espalhava-se por toda a cozinha, o líquido ainda estava muito quente.

Era engraçado encarar o café, ali, movendo-se lentamente ao balançar de suas mãos; negro, impenetrável. Donatelo o olhava, fascinado. Como as pessoas gostam desse líquido escuro! E como ele é misterioso. Outro dia, passava em uma loja e notou que existiam mais de cinqüenta tipos diferentes de café. Era um para cada gosto, as formas das mais variadas. De certo, era uma bebida democrática. Existia uma para cada tipo de pessoa. Assim ninguém precisava experimentar nada de diferente, ele pensava. No fundo, era como as pessoas de sua rua, cada um escolhia o seu grupo e ficava por lá, alheio aos outros sabores.

Olhou o café na xícara, a fumaça diminuía, agora já subindo lentamente até a ponta do nariz. Como o cheiro era gostoso! Abria sua mente, disso tinha certeza; sentia-se mais sábio.

O líquido lhe pareceu mais escuro, talvez por causa da temperatura fria. A forma tinha se modificado lentamente. Tratava-se de fato de uma bebida intimamente ligada às formas. Talvez por isso fosse tão consumida por tanta gente e em tantos níveis da sociedade. Aqui, ninguém parece dar muita importância ao conteúdo, interessam a forma e o efeito. E isso o café tem muito! O cheiro toma toda uma sala e a bebida, pelo que dizem, faz as pessoas trabalharem ainda mais rápido.

Com um sorriso no rosto, Donatelo se levantou, pegou a xícara com cuidado e jogou o conteúdo na pia. Ele gostava muito do cheiro do café, ajudava-o a pensar. Mas assim que ele esfriava, já não tinha mais graça, era hora de se preocupar com seus outros afazeres. O gosto... esse era terrível. Achava peculiar que o cheiro fosse tão bom.
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