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Técnicas de narrativa - Gonçalo M. Tavares

em 24 de jan de 2011.

Bom, em uma das discussões do Escreva seu livro, um fórum que costumo acompanhar, algumas pessoas falavam sobre narrar histórias que envolviam personagens deficientes. No mesmo momento, lembrei-me de alguns trechos do livro Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares - um autor contemporãneo do qual gosto muito, você pode ler mais sobre ele aqui. Como gosto de discutir também técnicas de narrativa no blog, achei interessante trazer um trecho do livro para cá - por sinal, um dia ainda resenharei Jerusalém, que é de fato uma obra muito boa, embora eu prefira os mini-contos do autor.

Enfim, achei interessante trazer este trecho para cá para que possamos ver um pouco a forma de narrar do Gonçalo, quando ele trata de um personagem com deficiência. No livro, há mais pedaços para trás e para frente a respeito deste personagem. E realmente, relendo os trechos, passa-se uma sensação diferente na leitura, algo que nos faz pensar sobre muitos aspectos, às vezes aspectos que não envolvem sequer a questão da deficiência, mas outras deficiências de nossa sociedade. Como sempre digo, Gonçalo é um autor muito inteligente, muito mesmo, e por isso passa algumas percepções de mundo em seus textos que são fantásticas.

Colocarei dois trechos aqui, acho-os bem significativos. Espero que gostem:

Ninguém era semelhante a Kaas e essa dureza da separação atingira-o desde cedo. Não eram apenas as suas pernas absurdamente magras em relação ao resto do corpo, e o seu modo particular de dar passos nos quais a distribuição do peso parecia desequilibrada, também os seus interesses pessoais marcavam um intervalo não transponível em relação aos rapazes e raparigas da sua idade.

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Cheirou algo, dirigiu-se à cozinha. Nada de especial, apenas dois pratos sujos. A dicção descontrolada de Kaas era talvez o maior objecto de troça, ainda mais do que as suas pernas. Poderia não andar, poderia ficar parado, ou mesmo sentado, com as pernas não visíveis, mas era mais difícil permanecer longos períodos em silêncio no meio de um grupo: seria ridicularizado. O estar sentado expressava um certo consentimento em relação à força que se distribuía pelo colectivo, mas o silêncio prolongado poderia ser visto como uma provocação; uma espécie de disponibilidade para a revolução, pequena é certo, circunscrita a uma sala e a meia dúzia de outros companheiros, mas revolução: hipótese de negar o sentido da História, mesmo que mínima e insignificante. Por essa razão Kaas tinha de falar, de quando em quando. E falando exprimia-se com aquela dicção descontrolada, onde certas palavras terminavam involuntariamente antes do tempo e outras começavam depois, numa turbulência que parecia colocar a frase num bote frágil. O seu pai, Theodor, dizia-lhe: segura a frase como se fosse um remo, segura a frase, não a deixes abanar. Mas Kaas não conseguia.


E agora um trecho do capítulo seguinte, também muito marcante, irei pegar o início do pequeno capítulo e pularei para o final.


Para Kaas a saúde vigorosa era algo que só conseguia manifestar em fotografias. Estava certo, por exemplo, de que um familiar distante, um Busbeck que vivesse do outro lado do mundo e que só recebesse notícias do pai por carta, não teria noção de que ele não era um rapaz normal. Theodor escolhia as fotografias a enviar e, escusando-se a fazer qualquer referência escrita às deficiências de seu filho, alimentava, sem nunca o exprimir, uma certa mentira que a imagem permitia. Numa fotografia as pernas esqueléticas e desproporcionadas de Kaas eram facilmente escondidas e a incapacidade de dicção normal era, como parece evidente, intransponível para um documento visual, que só dá importância aos olhos do receptor.


(...)


De resto, a imagem que mais o marcara na escola resultara de um pequeno conflito; breves insultos entre ele e um colega que foram crescendo de intensidade até ao momento em que nenhum dos dois poderia dizer mais uma palavra que fosse sem se tornar aos olhos dos outros cobarde; estavam assim os dois naquele instante único onde o contacto físico violento é inevitável e quase imprescindível, quando subitamente, o seu opositor, como que lembrando-se naquele momento de algo que se esquecera com os insultos trocados, parou, e afastando-se num movimento que noutras condições seria indiscutivelmente considerado como cobarde, afastando-se, então, disse, para Kaas: eu não posso lutar contigo.


E o certo é que Kaas tinha tanta força nos braços como os seus colegas. Eram as pernas que não acompanhavam, minimamente, as necessidades exigidas por uma luta entre rapazes. Qualquer toque nas pernas o derrubaria definitivamente, num segundo o combate acabava. Kaas não poderia dar um murro, ou recebê-lo, porque não tinha pernas. Eu não posso lutar contigo, eis a frase mais ofensiva que Kaas alguma vez ouvira.

13 Comentários:

Luis Narval

Sem dúvida, Leonardo, tratar com personagens que possuam algum tipo de "deficiência", oferece ao escritor um desafio singular e fascinante. Existe toda a questão psicolôgica e, por que não dizer metafísica em seus dramas que cabe levantar, com uma acuidade com que os demais personagens, os "normais", digamos assim, podem até prescindir. Eu mesmo já experimentei isso na prática, em pelo menos um de meus contos. A título de ilustração, como os do Gonçalo Tavares que você oportunamente postou, deixarei aqui um trecho, se você me permitir. Abraços.


“...Quem o visse nesse momento. Quem, sem peias na alma, reparasse atentamente no ardor com que Gustavo manuseia os brinquedos, na entrega febril com que se lança a seus devaneios infantis, nem por sombra duvidaria que se encontrava diante de uma criança como outra qualquer. Entretanto, a superficialidade, própria de escrúpulos adquiridos e do receio congênito do que foge aos padrões, faria com que o observador o visse como uma aberração, um escárnio da natureza. De qualquer forma, uma concepção errônea. Decididamente, Gustavo não era uma criança, dado que uma anomalia genética impedira-o de se desenvolver normalmente. Sua consciência oscilava no infinito. Supondo agora como verdadeira a hipótese de que o infinito não conhece - como premissa básica de sua infinitude - gradações de mais ou menos, alto ou baixo, frio ou quente, perto ou longe, certo ou errado, também não pode restar, absolutamente (sem risco de contradizer-se) margem para aberração ou escárnio. Sua aparência, embora singular (lembrava um duende imberbe), não revoltava o estômago ou as efeminadas apreciações estéticas, que querem ver no contorno a substância. Contudo, havia um traço destacadamente peculiar em sua constituição, verdadeiramente desorientador, que causava perplexidade e, não raro assombro. Esse traço estava numa voz incrivelmente versátil, rica em inflexões, abundante de tonalidades; mas, em razão de sua natureza irrefletida, decorria confusamente. Tanto que numa mesma frase podiam-se detectar as mais variadas modulações. Podiam-se ainda apontar todas as dissimulações, todos os simulacros; e mesmo toda a verdade, entusiasmo e vibração de que se reveste a voz humana no ato complexo de se comunicar e fazer-se entender. Isso, acrescido ainda do fato de mirar diretamente os olhos de seu interlocutor, tornava a presença de Gustavo incômoda e muitas vezes vexatória.

Havia qualquer coisa em sua personalidade incongruente; qualquer coisa de inaudito em seu espírito paradoxal que escapava a toda e qualquer especulação. Especulação essa que, em sua forma vulgar, meramente intelectual, classifica como loucura o inclassificável; como insanidade o que vãs comparações utilitaristas imputam de inaproveitável; quer seja para um fim imediato, quer seja para um propósito de natureza subjetiva, remoto e desconhecido. Apesar disso, estupidamente cotejado, avaliado e inventariado por uma razão epidérmica, tola e pretensiosa, ignorante do relativismo inerente a todo o juízo.

Gustavo abandonou os brinquedos. Apanhou debaixo do colchão algumas folhas amarrotadas, nas quais podiam-se ver, rabiscados em caligrafia canhestra, caracteres disformes que só remotamente lembravam a escrita. Pôs-se a ler, com a desenvoltura de quem traçara aqueles garranchos.

Tratava-se efetivamente de obra sua. Tinha o infeliz costume de anotar suas abstrações. Como se a vida, por si só, não se encarregasse de fazer imprimir, no céu cognoscível de nossa fadiga, o absurdo e o conflitante.

Levava por título 'O Relógio e o Pêndulo'. Breve alegoria – chamo-a assim na falta de designação mais apropriada – na qual divagava sobre o tempo e a eternidade.

Apesar das dificuldades quase invencíveis, como já salientei, tentarei transcrevê-la aqui (sem qualquer comentário, juízo de valor ou interpolação) na sua forma e sentido original...”

marcos nunes

Escala em Jerusalém

Eis tudo: Gonçalo M. Tavares encontra-se em Jerusalém
onde conversa com Friedrich Nietzsche sobre a Genealogia da Moral
e com Sigmund Freud, mais longamente, sobre
Psicopatologia da Vida Cotidiana e O Mal-Estar da Civilização
enquanto o espectro de Karl Marx andas às voltas da mesa do bar
onde os três se envolvem em animado simpósio
sem deixar que o comunista participe do grupo. Os demais (e anônimos)
frequentadores do bar veem o português sozinho e embriagado
de vinho tinto, testando sua força sobre o tampo
de vidro da mesa, sem conseguir sequer trincá-lo.
Em Jerusalém, de passagem para a Índia, o poeta
autentica suas obsessões entre fantasmas reais e imaginários,
eis tudo.

Paul Law

Lendo os trechos que você nos sugere, pude perceber que o autor indicado escreve de forma simples um tema muito complexo. Acho mágica tal capacidade. Fiquei interessado pela obra.

Um abraço, Leonardo.

Leonardo Schabbach

Luis, legal postar sim um trecho seu, acho que outros autores irão gostar. E se quiserem podem fazer o mesmo, afinal, estamos querendo justamente analisar as qualidades narrativas dos textos de outros para tentar aprender alguma coisa um com o outro. Essa foi minha idéia colocando o texto aqui, legal você ter continuado a coisa colocando um seu. E, por sinal, eu, como já falei, gosto muito da maneira como você escreve.

Então, pode postar sim, é legal que acrescenta em muito à postagem. Essa é uma coisa que já falei até para o Marcos, quando ele ficou meio receoso de postar as coisas deles. Pode postar que é legal.

E Paul. É por aí mesmo, o Gonçalo tem uma escrita que parece bem simples mesmo, só que é altamente complexa de se fazer justamente por sua simplicidade. Além disso, o cara é muito, muito inteligente. Mesmo os contos lúdicos dele envolvem muito pensamento por trás. Eu o acho fantástico.

Abraço!

Luis Narval

Bacana esse teu posicionamento, Leonardo. Testifica mais uma vez que tu reconheces que a literatura não é uma coisa estanque, e que não pertence exclusivamente a esse ou aquele autor consagrado. E que, bem ao contrário, está sempre se renovando, sempre se solidarizando com aqueles, sejam eles quais forem, estejam eles aonde estiverem, que a buscam de espírito, coração e mente abertos. O que significa dizer que cada um de nós, apaixonados por este duro, difícil, incomparável ofício, está ciente do quanto pode aprender com os outros, o quanto pode com isso aprimorar seu próprio estilo, até torná-lo relevante, até torná-lo em fonte de inspiração moral e prazer estético para aqueles que, como nós, amam incondicionalmente a Grande Arte. Aprendi e continuo a aprender com mestres extraordinários do passado e também do presente que a linguagem escrita, que a multiplicidade de formas expressivas em que ela pode se plasmar ( a despeito do atual esvaziamento, banalização e inércia mental) é inesgotável; tanto quanto é inesgotável nosso pensamento, e a fundura de nossas almas antigas.

marcos nunes

Acho que devia ter explicado que os versos anteriores seguiram o estilo de "Uma Viagem a Índia", recente epopéia em cantos do autor português; o "eis tudo" é utilizado por ele no livro não menos que dez vezes, e todo o livro trabalha com duas ideias principais: a vontade de potência nietzscheana e sua emergência como instinto mal recoberta por uma civilização que só conseguiu transformar o estar-no-mundo em matriz do conflito essencial do ser-em-si contra seu próprio ser-no-mundo em tais circunstâncias. Quer dizer, Nietzsche e Freud sobrepondo-se ao transformar-o-mundo de Marx. Posição filosófica discutível, mas esteticamente interessante por perturbar o conforto da literatura de autoajuda e conseguir, pela via do insólito, cativar as imaginações, mesmo para os fins a que se propõe, ou para a essência dos problemas conforme compreende o autor.

Leonardo Schabbach

Luis, legal que compreendeu o posicionamento. Penso assim mesmo. Temos que aprender com os outros que lemos, e não precisam sempre ser os clássicos, claro.

E Marcos, pois é, você pode ou não concordar com as visões do autor, mas o que admiro no Gonçalo é que ele ao menos sempre fará o leitor pensar, refletir. E como eu disse, é um autor muito inteligente, até na forma de descrever as coisas - e não somente nas idéias que traz nos textos. Além de tudo, sabe trabalhar bem a palavra, por isso gosto muito dele.

Leo&Lara

Mais uma publicação do Na Ponta do Lápis muito interessante. Gostei muito do artigo e é verdadeiramente uma experiência a mais compartilhada com o leitor. Muito bacana a parte em que é citada o trecho que fala da época de escola do Kaas e suas lembranças e relação com aquela situação. "De resto, a imagem que mais o marcara na escola resultara de um pequeno conflito; breves insultos entre ele e um colega que foram crescendo de intensidade até ao momento em que nenhum dos dois poderia dizer mais uma palavra que fosse sem se tornar aos olhos dos outros cobarde; estavam assim os dois naquele instante único onde o contacto físico violento é inevitável e quase imprescindível, quando subitamente, o seu opositor, como que lembrando-se naquele momento de algo que se esquecera com os insultos trocados, parou, e afastando-se num movimento que noutras condições seria indiscutivelmente considerado como cobarde, afastando-se, então, disse, para Kaas: eu não posso lutar contigo."

Leonardo Schabbach

Legal que gostou. A intenção era que pudessemos aprender com o trecho mesmo. Como eu disse, sou muito fã do autor.

Maurem Kayna

Ainda não li nada do Gonçalo, mas tenho ouvido / lido somente comentários elogiosos. Teu post foi mais um empurrãozinho para colocá-lo na frente na interminável fila de leitura.
abraço!

Fábio C. Martins

Nuna havia pensado na possibilidade de escrever um texto aonde houvesse um personagem deficiente, talvez pelo fato de nunca ter convivido com pessoas assim. Mas o que Gonçalo faz é espetacular, ele não só consegue descrever as características de Kaas como também descrever a personalidade dele através da própria descrição. Realmente, muito bom!

Obrigado por apresentar o livro e, principalmente, o autor.
Abraços

Leonardo Schabbach

Legal que gostou. Sempre que posso, indico o Gonçalo para as pessoas. E sempre indico que comecem lendo ele pelo livro "O Sr. Brecht".

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