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A crítica literária trata as mulheres de forma diferenciada?

em 14 de jul de 2011.

A postagem de hoje ocorre novamente por influência de coisas que vi e ouvi na FLIP. Desta vez, trata-se de um comentário feito pela autora argentina Pola Oloixarac - que, inclusive foi citado na postagem O poder das palavras. Durante sua mesa da FLIP, a escritora revelou que os críticos literários de seu país tratam as mulheres de maneira diferenciada. E não necessariamente de uma maneira boa. No comentário em questão, ela revelou que algumas temáticas, caso sejam tratadas pelas mulheres, são interpretadas de outra forma pela crítica - ou simplesmente ignoradas; isto é, acaba-se falando de alguma outra coisa da obra ou da autora e deixa-se a temática mais delicada de lado.


Creio que devo concordar com muito do que ela fala, pelo simples fato de observar as autoras que normalmente ganham a mídia, tanto por se tornarem best-sellers como por serem apreciadas pela crítica - que é o que hoje coloco em discussão. O que Pola nos disse fica claro pela maneira como ela mesma foi tratada durante as festividades; isto é, a forma como a mídia vinha a classificando diante do público. Ela era considerada a "Musa da FLIP". Ou seja, antes de se falar de seu trabalho, antes de julgarmos se a sua narrativa possui qualidade ou não (mais relevante do que ela ser uma excelente escritora), era preciso ressaltar o fato de que ele era bela; musa, portanto. Eis exatamente a questão a qual ela se referia. Sua literatura contém uma série de aspectos relevantes, aborda algumas temáticas mais complexas, mas em primeiro lugar, antes de se falar sobre como ela percorria estas temáticas, fala-se de seu aspecto físico; como se ele fosse mais importante do que a sua habilidade literária.

O problema é que essa inversão de valores realmente acontece. Sei que pode ser uma opinião não muito popular, mas infelizmente vejo que, mesmo entre os críticos, mas especialmente entre a mídia, o fato de uma mulher escrever e ser considerada bonita ajuda muito na sua recepção. Isso não significa dizer que uma escritora atraente e que faça sucesso escreva mal - muito pelo contrário, na maioria das vezes, aquelas aclamadas pela crítica realmente são grandes autoras. No entanto, não há como negar que o fator beleza é parte crucial do sucesso. Se elas apenas escrevessem extraordinariamente bem, provavelmente não teriam tanto espaço como têm os homens; o que é, naturalmente, um absurdo. Não sei se todos irão concordar comigo, mas é assim que vejo as coisas. Logicamente, não estou satisfeito com isso, mas me parece ser de fato uma verdade; basta olharmos para as últimas autoras que têm surgido como queridinhas do mundo literário (lembrando aqui, novamente, que acho a maioria delas excelentes). O fato é que as coisas não deveriam ser assim, de maneira alguma.

E para nos aprofundarmos ainda mais na questão, cito novamente a Pola, para que se volte a colocar em discussão as temáticas. Em um certo momento da mesa, o autor Valter Hugo Mãe falava de sua vontade de escrever um livro sobre um personagem homem que quer ser pai. Ele, então, falou de seu próprio sentimento, de sua vontade de ter um filho e de como isso poderia ser passado para a obra. O público pareceu gostar muito da idéia, as pessoas logo se conectaram com a história - e realmente soa, como o autor mesmo revelou, como algo diferente tratar deste assunto por uma perspectiva masculina.

Eis que Pola faz sua observação, com bom-humor, claro, mas também com uma carga crítica muito forte: "Se eu escrevesse um livro sobre este mesmo tema, iriam dizer que eu soava como uma das garotas daquele seriado, 'Sex and the City'". E, de fato, convenhamos, ela falou a verdade. Um livro do mesmo estilo, só que pelo ponto de vista feminino, seria tratado como "brega" e comercial, sendo provavelmente dilacerado pelos críticos. O que nos leva novamente a questão: a crítica literária trata as mulheres de forma diferenciada?

Eu dei minha opinião, agora gostaria de ouvir a de vocês!

12 Comentários:

Thayza

Se Pola escrevesse um livro sobre uma mulher que quisesse ser mãe, rotulariam seu livro de chick lit e seria esmagada pela critica. Já ouviu a frase "literatura de mulherzinha"?? Ela carrega toda essa carga descriminatória.

Leonardo Schabbach

Sim, sim. Foi exatamente isso que ela indicou quando disse que seria comparada a "Sex and the City".

Maíra da Fonseca Ramos

Bom questionamento esse! E parece que as mulheres são tratadas, sim, de forma diferente. Tanto é verdade que existe aquela pejorativa frase: "isso é literatura de mulherzinha". Acho que não dá para rotular, afinal não é tudo literatura???

marcos nunes

Um escritor famoso, V. S. Naipaul, disse não ler livros escritos por mulheres, por considerá-los sentimentais; diz ainda ser capaz de identificar se o livro é escritor por um homem ou por uma mulher com facilidade, por tal caracteristica.

Graciliano Ramos, quando perguntado se já lera Em Busca do tempo perdido, de Marcel Proust, respondeu que nunca lia nada produzido por pderastas.

Como se vê, preconceitos arraigados fazem vítimas mesmo entre os escritores, que dirá entre a crítica e os leitores.

Pessoalmente não gosto de Pola, mas ela tem razão em algumas coisas. Ela estranhou que um evento literário se dispusesse a discutir literatura de maneira tão pouco literária, coisa a que valter hugo mãe se dispôs com galhardia. E a observação sobre livro de mulher que quer ter filho é precisa.

Mas...

Não diia que a "crítica literária", em si, nutre esses preconceitos. Você só os vê nas resenhas literárias, nas abordagens dec escritores como celebridades. A condição humana não merece ser tratada em compartimentos: condição feminina, condição masculina, condição homossexual, etc. As particularidades do sujeito não o fazem à parte do todo: somos integrantes de uma mesma espécie, e o olhar segmentado e segmentador parte da visão do ser humano como sonsumidor, é uma concepção de mercado, de nicho de consumo a ser atendido por empresas. Essa abordagem capitalista do ser humano está transformando a todos em partículas de estatísticas.

A crítica literária séria não considera relevante um escritor ser homem, mulher ou ambos. Dá-se destaque a determinada posição se ela é assumida como importante no contexto da produção literária. É um absurdo ler um livro tendo por princípio o sexo ou orientação sexual do escritor; mesmo que muito disso termine por se expressar no livro de várias maneiras, o livro contém muitos elementos da vida humana, social, do desenvolvimento da linguagem e das formas de relacionamento. Não vejo a boa crítica literária cativa de preconceitos, que podemos encontrar somente nas mostragens midiáticas, como sempre mais interessada nos aspectos mais superficiais (ela é bonita? o cara é gay? como eles se vestem?, etc), e indispostas, por princípio de desinformação característico nos órgãos de comunicação, ao mergulho nos conteúdos das obras - eles preferem apenas tentar mergulhar nos artistas, ou ao menos saber quem é que mergulhou neles...

É um aspecto importante a tratar, mas que deve passar, penso eu, pela crítica dos e aos órgãos de comunicação, e menos pela crítica literária. A FLIP, como "evento", dá margem a essas banalidades, infelizmente.

Leonardo Schabbach

O grande problema é que, de uma maneira geral, eu não vejo a crítica literária no Brasil boa ou forte o suficiente. Nem no mundo. Tirando algumas exceções, alguns veículos, as coisas andam mais ou menos como falei mesmo. A mulher sofre um tratamento diferenciado enorme, e o fator beleza acaba sim sendo fundamental para sua aceitação, na minha opinião, tanto pela crítica especializada (sendo ela boa ou não, infelizamente é o que acontece no grande cenário, embroa possamos ter bons críticos aqui e ali) quanto pela mídia e pelo público. E há de fato, como a Pola argumentou, esse preconceito em relação a algumas temáticas. Se as mulheres tocam, não são levadas a sério ou, pior, são taxadas de brega, ruim e etc...

marcos nunes

Olha, você tem alguns críticos razoáveis, que publicam alguns livros, abordam até autores novos, etc. O problema talvez seja outro: o espaço restrito da literatura no campo da cultura brasileira. Quando falamos nisso, cultura brasileira, o que vem à mente é a música, o carnaval. O número de leitores é grande, mas só para livros de autoajuda e best-sellers horrendos. Se a boa literatura só percorre um universo restrito de leitores, tambéma crítica literária atinge a um número mais restrito ainda, e seu alcance decai ainda mais, por isso a necessidade, na FLIP, de criar musas, polêmicas, misturar com eventos de teatro e música, passeios de saveiro, cachaça e gastronomia, pois a literatura por si só, e em um nível de discussão mais alto, seduz a muito poucos, em decorrência de um processo civilizatório, ademais, muito pouco interessado em problematizar aspectos da "realidade", e muito em transformar as pessoas em consumidores e cultores de seus valores, que são tudo, menos intelectuais.

laís D'Andréa

Preconceito é uma pedra fácil de tropeçar. Se ele não nos pega em uma coisa, pega-nos em outra; eu posso não ser racista, mas nutrir os piores sentimentos por um homossexual; ou posso nem ligar pra isso, mas ser vítima de um estranhamento danado ao ver um deficiente na rua, vivendo normalmente, como qualquer pessoa sem deficiência. E se é assim com as questões mais óbvias, por que não o seria com a crítica literária e as mulheres? Concordo que a crítica nos trate de forma diferente; além da literatura de mulherzinha, temos também a famosa literatura feminina, para os mais intelectuais. Que diferença faz? Nenhuma. Uma mulher "completa" não o é impunemente.

Leonardo Schabbach

Marcos, mas aí entra-se numa questão maior ainda. Essa questão de haver também pouco espaço na crítica. E é um ciclo vicioso. Havendo pouco espaço, a tendência é que as pessoas com grande qualificação, que são grandes críticos, acabem trabalhando em outras áreas, deixando para fazer suas críticas esporadicamentes, em alguns livros (raramente bem divulgados pelas editoras) ou em algum veículo (raramente com grande expressão). Então a coisa se torna, como eu disse, viciosa. Não há espaço, logo os críticos começam a abandonar o barco também.

amanciosiqueira

Vejo uma crítica diferenciada por gêneros, porém por um ângulo diferente: recebem destaque exatamente mulheres que fazem literaturagem para mulherzinhas, de preferência adolescentes que lêem Capricho ou recém-chegadas ao mundo de Contigo e Caras.
Sou admirador das Marguerites Yourcenar e Duras, de Isabel Allende, Laura Esquivel, Clarice Lispector, entre tantas outras escritoras de literatura, e o que observo, ao menos na internete, é que pouco valor se dá para esse tipo de escritoras.
Quanto ao tema do desejo de ser pai: que temazinho de homenzinho, hein?

Comunidade Evangélica Artistas de Cristo.

Se aqui tivesse botão de curtir, em especial, eu curtiria o comentário da Laís D'Andréa.

Assino embaixo. ;)

Kleris

Quando penso em crítica literária, me vem uma coisa na cabeça: "quem você quer privilegiar?" (quer dizer, em relação aos vários elementos da atividade literária que damos atenção). É a velha ideia do interesse: concordo com crítico x, porém quando se aproxima de tal ponto, considero mais a visão de y. Acaba numa mistura só, onde vamos topar com o preconceito. Realmente, "preconceito é uma pedra fácil de tropeçar. Se ele não nos pega em uma coisa, pega-nos em outra"... Fica aí o inevitável tratamento diferenciado. 'Chick-lit', 'literatura queer', 'cult', 'filosófico', 'infanto', 'jovem adulto', 'autoajuda', 'best-sellers'... de alguma forma trazem uma denominação pejorativa (ultimamente as primeiras), por vezes sem querer.
Parece coisa simples (que nos leva de novo à ideia de ponto de vista de considerações), mas se for discutir, percebe-se que tem muito pra conversar do que se tem na superfície.
Mas então do que nomear, como apontar, classificar a literatura? Temos esse hábito de classificar desde os primeiros estudos, só não nos disseram que isso, 'inofensivo', afetaria alguém, por estar mais distante. E ocorre, já inconsciente, apontar tal aqui e acolá. Acredito sim no preconceito e nas várias formas de preconceito literário, dessa vida literária. De quem tá 'dentro' e de quem tá 'fora'.
E esse que está dentro, que vê esse apego com as outras artes e culturas (o ciclo vicioso) deve se retrair? Não sei, acho que é um risco a correr se não há público suficiente para uma pura e séria discussão literária... isso é conquistar novos leitores, alargar a rodinha não? Ciclo vicioso então necessário...
Uma hora topamos com uma dessas discussões e desejamos que venham mais. Quanto ao preconceito, sentemos do lado dela e ofereçamos um outro livro que ele possa dar chance. Da iniciativa vêm as repercussões.

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