Aviso também que estou preparando uns banners legais e tal para deixar ainda mais interessantes as postagens - e que fiz uma página estática com links para cada texto da série, veja aqui. E peço isso sempre. Caso gostem do que leram, indiquem aos amigos! Enfim, os textos seguem abaixo.
A Sociedade da Rosa - Relato primeiro
Muitas vezes algo de extrema importância nos bate à porta, choca-se conosco e altera radicalmente nosso destino sem que tenhamos escolha. Isso aconteceu comigo cinco anos atrás, quando encontrei alguns diários em um antigo sebo de Veneza. O dono não conseguia lê-los e me vendeu bem barato; os livros estavam escritos em português: retratavam a história de vida de um homem chamado Felipe Pereira Meinham, um brasileiro que me deu pistas sobre uma organização extremamente complexa e influente; a Sociedade da Rosa.
Antes de continuar com meus relatos, porém, acho prudente me apresentar. Chamo-me Marcos Costa de Oliveira, sou um historiador com mestrado e doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nunca pensei que me envolveria em algo tão grande como o que estou prestes a relatar, sempre fui um acadêmico centrado, não dado a nenhuma especulação histórica, a nenhuma pesquisa que envolvesse pressupostos nebulosos, sem visíveis bases concretas, mas sinto que, de algum modo, as coisas não poderiam ter acontecido de maneira diferente.
Como já bem lhes relatei, faz cinco anos, deparei-me com alguns diários em Veneza que me abriram os olhos para um mundo novo. De lá para cá, fiz muitas pesquisas, no mundo inteiro e, principalmente, no Brasil, para reconstruir a vida deste misterioso homem chamado Felipe Pereira Meinham – e muitas vezes cheguei a arriscar a minha vida para isso. Infelizmente, devo admitir, fiz descobertas terríveis, coisas que muitos achariam repugnantes – e que a maioria teria dificuldade em acreditar. Conheci uma organização que já atua faz centenas de anos na sociedade ocidental e que, desde o princípio, foi responsável por dar um destino ao mundo, mesmo que tudo parecesse obra do acaso.
Escrevo, a partir do dia de hoje, para transmitir o que descobri a todas as pessoas, escrevo também para impedir que a Verdade – uma vez que a organização me parece quase uma entidade metafísica – possa ser silenciada, para ter certeza de que minha história chegará às mãos de outros, mesmo que algo de terrível aconteça a mim. Sou apenas um mero pesquisador, não sei se tenho as habilidades literárias necessárias, mas tentarei reconstruir tudo aquilo que descobri da vida de Felipe Pereira Meinham para revelar, por meio de sua história, mais detalhes a respeito da Sociedade.
Antes de continuar com meus relatos, porém, acho prudente me apresentar. Chamo-me Marcos Costa de Oliveira, sou um historiador com mestrado e doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nunca pensei que me envolveria em algo tão grande como o que estou prestes a relatar, sempre fui um acadêmico centrado, não dado a nenhuma especulação histórica, a nenhuma pesquisa que envolvesse pressupostos nebulosos, sem visíveis bases concretas, mas sinto que, de algum modo, as coisas não poderiam ter acontecido de maneira diferente.
Como já bem lhes relatei, faz cinco anos, deparei-me com alguns diários em Veneza que me abriram os olhos para um mundo novo. De lá para cá, fiz muitas pesquisas, no mundo inteiro e, principalmente, no Brasil, para reconstruir a vida deste misterioso homem chamado Felipe Pereira Meinham – e muitas vezes cheguei a arriscar a minha vida para isso. Infelizmente, devo admitir, fiz descobertas terríveis, coisas que muitos achariam repugnantes – e que a maioria teria dificuldade em acreditar. Conheci uma organização que já atua faz centenas de anos na sociedade ocidental e que, desde o princípio, foi responsável por dar um destino ao mundo, mesmo que tudo parecesse obra do acaso.
Escrevo, a partir do dia de hoje, para transmitir o que descobri a todas as pessoas, escrevo também para impedir que a Verdade – uma vez que a organização me parece quase uma entidade metafísica – possa ser silenciada, para ter certeza de que minha história chegará às mãos de outros, mesmo que algo de terrível aconteça a mim. Sou apenas um mero pesquisador, não sei se tenho as habilidades literárias necessárias, mas tentarei reconstruir tudo aquilo que descobri da vida de Felipe Pereira Meinham para revelar, por meio de sua história, mais detalhes a respeito da Sociedade.
Ass. Marcos Costa de Oliveira
Sociedade da Rosa – Boa vizinhança
Estes relatos retratam o período vivido por Felipe Pereira Meinham em uma pensão na Lapa, localizada na Avenida Mem de Sá, número 71
Felipe Pereira Meinham não era o tipo de homem que precisava se preocupar com uma boa vizinhança. Ele era um agente treinado, um dos melhores, alguém que certamente não precisaria de um refúgio em que se sentisse confortável, um lugar para chamar de casa. Era o tipo de pessoa independente, até por causa do rigor que exigia seu trabalho, um homem com uma enorme capacidade de viver sozinho, de sair ileso das situações mais complexas e perigosas.
Entretanto, por muito tempo, ele teve seu porto seguro; uma pequena pensão situada na Avenida Mem de Sá, próxima aos Arcos da Lapa, no centro do Rio de Janeiro. Era uma casa pequena, com apenas três quartos disponíveis para aluguel. Felipe ocupava dois deles, pagava um preço cinco vezes mais alto do que o combinado. A responsável pelo estabelecimento, Dona Nevinha, uma mulher doce e prestativa, já com seus 57 anos, não reclamava, naturalmente, mas se sentia obrigada a cozinhar, todos os dias, pelo menos duas refeições para Felipe e qualquer convidado que ele trouxesse como forma de agradecer pelo pagamento.
No terceiro quarto, vivia um jovem introvertido chamado Júlio. Era daqueles tipos revoltados com o mundo; tinha fugido de casa, usava roupas largas e sempre mantinha uma aparência de quem não se preocupa com as coisas. Felipe sabia, porém, que o garoto vendia drogas. Os horários em que costumava sair, o pó presente nas roupas e o fato de pagar a pensão sempre com dinheiro vivo haviam lhe dado esta certeza; confirmada com uma pequena investigação feita no quarto de Júlio em um dia em que ele passara a tarde toda fora.
Durante seus primeiros meses na pensão, Felipe almoçava quase diariamente com uma mulher extremamente atraente; uma loira, de traços finos, com cabelos longos e sedosos. Seu nome era Taíssa Siqueira, e ela tinha sido apontada, através de uma mensagem enviada pela organização, como uma nova agente a ser treinada. Por um bom tempo, foi testada em diversas missões, recebendo tarefas das mais variadas, para desenvolver todas as habilidades de que um membro da Sociedade necessita.
Após os atentados de 11 de Setembro, após ser superado por um de seus rivais, Felipe retornou ao Brasil para assistir à última missão de sua aprendiz; se ela obtivesse sucesso – e não restava dúvidas de que obteria – se tornaria uma agente oficial da organização.
Ele respirou fundo, enchendo os pulmões com o ar morno da noite carioca. Caminhava lentamente pela praia de Copacabana, atento ao som constante do vai-e-vem das ondas do mar. Ele gostava de caminhar sozinho, gostava de levar o tempo que precisasse pensando sobre questões que há anos o afligiam. Mas, naquele momento, não poderia se dar ao luxo de se perder em seus pensamentos, havia uma missão que ele precisava cumprir: tinha de se certificar de que Taíssa completaria a tarefa que lhe fora designada. Fora um teste simples, ajudar um casal a se apaixonar; coisa fácil, nada demais se comparado às principais tarefas da organização. Na realidade, tratava-se de uma missão simbólica, uma forma de lembrar dos primeiros tempos, da época em que a Sociedade se estabelecera.
No período dos reinos absolutistas, como todos sabem, eram os reis que detinham o poder. Nenhuma localidade tomava decisões, entrava em guerras ou mudava suas políticas sem a permissão de seus governantes. Eram períodos conturbados e obscuros, em que um simples matrimônio poderia alterar o curso da História. E foi então que a Sociedade da Rosa foi fundada, ninguém sabe precisar quando ou por quem. Ela surgiu com o intuito de determinar as rotas do mundo; as guerras, as alianças, tudo. E tudo se definia pelo matrimônio, pela junção de um príncipe – e de seu reino – com o reino de uma princesa. Quantos países não foram poupados durante toda a História de invasões terríveis por um casamento fortuito, uma “jogada do destino”? Quantas alianças imbatíveis não foram feitas pelo mesmo motivo?
Era justamente assim que trabalhava a Sociedade. Ela criava encontros, gerava situações políticas favoráveis, convencia reis; enfim, fazia com que os casais corretos se formassem, e assim seus agentes controlavam o destino do mundo, sempre batalhando entre si para estabelecer a sua visão das coisas. A Rosa se tornou um símbolo do amor – e agora finalmente entendo como.
Felipe reduziu o passo de sua caminhada e se sentou em um banco do calçadão, um local estratégico, de onde poderia observar o trabalho de Taíssa sem ser notado. A noite era agradável, possuía uma espécie de caráter romântico que ele não conseguia explicar, apenas percebia. Era nesses dias que gostava de agir quando precisava unir algum casal. E por isso mesmo, ordenou que sua pupila finalizasse sua missão naquele dia.
O local escolhido fora o Devassa, um bar bem conhecido no Rio de Janeiro. Ali, era onde Taíssa mais gostava de trabalhar nas vezes em que sua missão envolvia relações românticas. O amor é sutil, e os agentes eram treinados com muito cuidado para que pudessem lidar com estas sutilezas. Ainda assim, o amor é também imprevisível – e, por isso, muitas vezes até os mais experientes dentro da organização falhavam miseravelmente.
De onde estava, Felipe conseguia ver o casal. Eles já saíam fazia algum tempo, três “encontros”, para ser mais exato. Talvez por algum motivo de razão psicológica – ou simplesmente “por acaso”, embora nenhum dos agentes gostasse dessa expressão – ainda não tinham se entregue ao que sentiam. Era necessário um pequeno empurrão.
Taíssa já os fizera se encontrar, “sem querer”, no cinema. Ambos eram cinéfilos assumidos, gostavam, inclusive, mais de assistir aos filmes sozinhos do que acompanhados; era uma experiência sem igual, diziam. Mas quando se sentaram, “por acaso”, um ao lado do outro, alguma coisa aconteceu; a conversa fluiu, os olhares se encontraram, havia, definitivamente, algo entre eles: era possível sentir, quase como se fosse uma energia palpável.
E mesmo agora, no bar, era visível a atração de ambos. Inclinavam-se um na direção do outro enquanto conversam. Ela alisava o cabelo, ele fitava os olhos e depois a boca. Eventualmente, as mãos se tocavam; trêmulas, tímidas, mas desejosas.
Inesperadamente, uma belíssima rosa vermelha foi colocada entre os dois. Logo em seguida, uma garrafa de champagne. O casal olhou surpreendido para a atendente, uma mulher loira e de boa aparência; ela sorria.
Felipe atravessou a rua apressado, queria saber o que Taíssa diria a seguir.
- É... olha só, a gente... não pediu nada disso. – comentou a mulher, ainda um pouco desnorteada; embora, por dentro, suspeitasse e desejasse que fosse uma surpresa orquestrada por ele.
- Não. Eu sei. – respondeu Taíssa, ainda sorridente, embora também deixasse transparecer um falso embaraço. – É que nós estamos com uma política hoje de premiar alguns casais... sabe... os mais apaixonados. E vocês foram os ganhadores.
Ao terminar de dar sua resposta, ela balançou levemente a cabeça, parecendo um pouco envergonhada, e logo se virou, sem deixar tempo para uma resposta. É claro que sua história não era muito plausível, mas nenhum casal apaixonado se prenderia a esta questão.
Quando Taíssa deixou a mesa, ele e ela se entreolharam por um longo tempo. Sorriam, ainda um pouco envergonhados. Conforme o silêncio se prolongava e os sorrisos não se dissipavam, eles finalmente percebiam o que, aparentemente, apenas eles não tinham notado – ou, então, assumido. Os olhos se procuravam, excitados. A respiração acelerava. Aos poucos, inclinavam-se, mais em mais, um em direção ao outro. O beijo veio, finalmente. Mágico e marcante, como toda boa história de amor deveria começar.
Felipe sorriu, estava satisfeito. Talvez não atuasse daquela exata maneira se fosse uma missão sua, mas Taíssa fora inegavelmente eficaz, seria uma grande agente, sem sombra de dúvidas. Na mesma hora, seu celular apitou, ele recebera uma nova mensagem:
Ele levantou a cabeça, tentava encontrar algum outro agente, alguém que pudesse ter avaliado seu sucesso para que tal mensagem fosse enviada. Não conseguiu ter suspeitas de ninguém, entretanto. E era sempre assim. Eles sempre sabiam, sempre. Mas ele nunca conseguia descobrir como eles eram capazes de observá-lo.
Após algum tempo, quando se certificou de que ninguém nas proximidades o vigiava, atravessou a rua novamente e pegou um taxi de volta para sua casa. Estava feliz com o sucesso de Taíssa, mas também um pouco melancólico. Agora que ela não era mais sua pupila, dificilmente a veria de novo; e isso era normal, ele já passara pela mesma situação com muitos outros discípulos.
Quando finalmente chegou à pensão, parado em frente à porta de entrada, notou que Júlio também acabara de chegar. O jovem lhe lançou um olhar assustado, como se não tivesse percebido sua presença; sua expressão era tensa, ele parecia um pouco ansioso e descontrolado. Felipe estranhou, mas abriu a porta e o deixou entrar, acompanhando-o com o olhar até o seu quarto. Havia algo de estranho, definitivamente; e Júlio era um bom garoto.
Felipe decidiu investigar. Andou até a porta do quarto e, com muita habilidade, destrancou-a sem fazer barulho.
- Ei, garoto, aconteceu alguma coisa?
Júlio, que já tinha deitado em sua cama, levantou-se depressa ao escutar a pergunta, parecendo um pouco intrigado.
- Ahn... eu não tinha trancado a porta?
Felipe abriu um sorriso irônico, deslocando o corpo levemente para trás, como se acabasse de ouvir algo absurdo.
- Claro que não, né? Se eu abri...
Júlio suspirou.
- É... eu devo ter me esquecido.
- Mas, então, aconteceu alguma coisa? Isso aí não tem a ver com as drogas que você anda vendendo, tem? – perguntou Felipe, com os olhos fixos no jovem. Tentava aparentar confiança, mas ainda assim tomava cuidado para não soar ameaçador.
11 de Setembro de 2001
Foi muito doloroso assistir à implosão das torres. Talvez pior do que o atentado, fosse admitir que eu falhara de maneira tão grotesca. Era triste pensar nas conseqüências, na Guerra ao Terror que se instauraria nos anos seguintes. Eu havia perdido. Nigel tinha sido mais capaz do que eu. Seu plano tinha sido perfeito, a história seria mudada, conforme nos pede a organização. Eu queria evitar, mas não pude, é duro admitir que este capítulo histórico terá um enredo escrito de maneira tão infeliz. Agora, nada me resta a fazer senão voltar ao Brasil, reencontrar meus amigos de pensão e terminar o treinamento de Taíssa. Gostaria muito, porém, de saber o porquê de fazermos isso tudo, para que devemos manipular o mundo por caminhos aleatórios. Gostaria de saber qual é realmente a nossa função.
Felipe Pereira Meinham não era o tipo de homem que precisava se preocupar com uma boa vizinhança. Ele era um agente treinado, um dos melhores, alguém que certamente não precisaria de um refúgio em que se sentisse confortável, um lugar para chamar de casa. Era o tipo de pessoa independente, até por causa do rigor que exigia seu trabalho, um homem com uma enorme capacidade de viver sozinho, de sair ileso das situações mais complexas e perigosas.
Entretanto, por muito tempo, ele teve seu porto seguro; uma pequena pensão situada na Avenida Mem de Sá, próxima aos Arcos da Lapa, no centro do Rio de Janeiro. Era uma casa pequena, com apenas três quartos disponíveis para aluguel. Felipe ocupava dois deles, pagava um preço cinco vezes mais alto do que o combinado. A responsável pelo estabelecimento, Dona Nevinha, uma mulher doce e prestativa, já com seus 57 anos, não reclamava, naturalmente, mas se sentia obrigada a cozinhar, todos os dias, pelo menos duas refeições para Felipe e qualquer convidado que ele trouxesse como forma de agradecer pelo pagamento.
No terceiro quarto, vivia um jovem introvertido chamado Júlio. Era daqueles tipos revoltados com o mundo; tinha fugido de casa, usava roupas largas e sempre mantinha uma aparência de quem não se preocupa com as coisas. Felipe sabia, porém, que o garoto vendia drogas. Os horários em que costumava sair, o pó presente nas roupas e o fato de pagar a pensão sempre com dinheiro vivo haviam lhe dado esta certeza; confirmada com uma pequena investigação feita no quarto de Júlio em um dia em que ele passara a tarde toda fora.
Durante seus primeiros meses na pensão, Felipe almoçava quase diariamente com uma mulher extremamente atraente; uma loira, de traços finos, com cabelos longos e sedosos. Seu nome era Taíssa Siqueira, e ela tinha sido apontada, através de uma mensagem enviada pela organização, como uma nova agente a ser treinada. Por um bom tempo, foi testada em diversas missões, recebendo tarefas das mais variadas, para desenvolver todas as habilidades de que um membro da Sociedade necessita.
Após os atentados de 11 de Setembro, após ser superado por um de seus rivais, Felipe retornou ao Brasil para assistir à última missão de sua aprendiz; se ela obtivesse sucesso – e não restava dúvidas de que obteria – se tornaria uma agente oficial da organização.
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Ele respirou fundo, enchendo os pulmões com o ar morno da noite carioca. Caminhava lentamente pela praia de Copacabana, atento ao som constante do vai-e-vem das ondas do mar. Ele gostava de caminhar sozinho, gostava de levar o tempo que precisasse pensando sobre questões que há anos o afligiam. Mas, naquele momento, não poderia se dar ao luxo de se perder em seus pensamentos, havia uma missão que ele precisava cumprir: tinha de se certificar de que Taíssa completaria a tarefa que lhe fora designada. Fora um teste simples, ajudar um casal a se apaixonar; coisa fácil, nada demais se comparado às principais tarefas da organização. Na realidade, tratava-se de uma missão simbólica, uma forma de lembrar dos primeiros tempos, da época em que a Sociedade se estabelecera.
No período dos reinos absolutistas, como todos sabem, eram os reis que detinham o poder. Nenhuma localidade tomava decisões, entrava em guerras ou mudava suas políticas sem a permissão de seus governantes. Eram períodos conturbados e obscuros, em que um simples matrimônio poderia alterar o curso da História. E foi então que a Sociedade da Rosa foi fundada, ninguém sabe precisar quando ou por quem. Ela surgiu com o intuito de determinar as rotas do mundo; as guerras, as alianças, tudo. E tudo se definia pelo matrimônio, pela junção de um príncipe – e de seu reino – com o reino de uma princesa. Quantos países não foram poupados durante toda a História de invasões terríveis por um casamento fortuito, uma “jogada do destino”? Quantas alianças imbatíveis não foram feitas pelo mesmo motivo?
Era justamente assim que trabalhava a Sociedade. Ela criava encontros, gerava situações políticas favoráveis, convencia reis; enfim, fazia com que os casais corretos se formassem, e assim seus agentes controlavam o destino do mundo, sempre batalhando entre si para estabelecer a sua visão das coisas. A Rosa se tornou um símbolo do amor – e agora finalmente entendo como.
Felipe reduziu o passo de sua caminhada e se sentou em um banco do calçadão, um local estratégico, de onde poderia observar o trabalho de Taíssa sem ser notado. A noite era agradável, possuía uma espécie de caráter romântico que ele não conseguia explicar, apenas percebia. Era nesses dias que gostava de agir quando precisava unir algum casal. E por isso mesmo, ordenou que sua pupila finalizasse sua missão naquele dia.
O local escolhido fora o Devassa, um bar bem conhecido no Rio de Janeiro. Ali, era onde Taíssa mais gostava de trabalhar nas vezes em que sua missão envolvia relações românticas. O amor é sutil, e os agentes eram treinados com muito cuidado para que pudessem lidar com estas sutilezas. Ainda assim, o amor é também imprevisível – e, por isso, muitas vezes até os mais experientes dentro da organização falhavam miseravelmente.
De onde estava, Felipe conseguia ver o casal. Eles já saíam fazia algum tempo, três “encontros”, para ser mais exato. Talvez por algum motivo de razão psicológica – ou simplesmente “por acaso”, embora nenhum dos agentes gostasse dessa expressão – ainda não tinham se entregue ao que sentiam. Era necessário um pequeno empurrão.
Taíssa já os fizera se encontrar, “sem querer”, no cinema. Ambos eram cinéfilos assumidos, gostavam, inclusive, mais de assistir aos filmes sozinhos do que acompanhados; era uma experiência sem igual, diziam. Mas quando se sentaram, “por acaso”, um ao lado do outro, alguma coisa aconteceu; a conversa fluiu, os olhares se encontraram, havia, definitivamente, algo entre eles: era possível sentir, quase como se fosse uma energia palpável.
E mesmo agora, no bar, era visível a atração de ambos. Inclinavam-se um na direção do outro enquanto conversam. Ela alisava o cabelo, ele fitava os olhos e depois a boca. Eventualmente, as mãos se tocavam; trêmulas, tímidas, mas desejosas.
Inesperadamente, uma belíssima rosa vermelha foi colocada entre os dois. Logo em seguida, uma garrafa de champagne. O casal olhou surpreendido para a atendente, uma mulher loira e de boa aparência; ela sorria.
Felipe atravessou a rua apressado, queria saber o que Taíssa diria a seguir.
- É... olha só, a gente... não pediu nada disso. – comentou a mulher, ainda um pouco desnorteada; embora, por dentro, suspeitasse e desejasse que fosse uma surpresa orquestrada por ele.
- Não. Eu sei. – respondeu Taíssa, ainda sorridente, embora também deixasse transparecer um falso embaraço. – É que nós estamos com uma política hoje de premiar alguns casais... sabe... os mais apaixonados. E vocês foram os ganhadores.
Ao terminar de dar sua resposta, ela balançou levemente a cabeça, parecendo um pouco envergonhada, e logo se virou, sem deixar tempo para uma resposta. É claro que sua história não era muito plausível, mas nenhum casal apaixonado se prenderia a esta questão.
Quando Taíssa deixou a mesa, ele e ela se entreolharam por um longo tempo. Sorriam, ainda um pouco envergonhados. Conforme o silêncio se prolongava e os sorrisos não se dissipavam, eles finalmente percebiam o que, aparentemente, apenas eles não tinham notado – ou, então, assumido. Os olhos se procuravam, excitados. A respiração acelerava. Aos poucos, inclinavam-se, mais em mais, um em direção ao outro. O beijo veio, finalmente. Mágico e marcante, como toda boa história de amor deveria começar.
Felipe sorriu, estava satisfeito. Talvez não atuasse daquela exata maneira se fosse uma missão sua, mas Taíssa fora inegavelmente eficaz, seria uma grande agente, sem sombra de dúvidas. Na mesma hora, seu celular apitou, ele recebera uma nova mensagem:
Parabéns! Acaba de finalizar o treinamento de sua pupila. O valor de 300 mil dólares referentes a esta tarefa foi depositado em sua conta.
Ele levantou a cabeça, tentava encontrar algum outro agente, alguém que pudesse ter avaliado seu sucesso para que tal mensagem fosse enviada. Não conseguiu ter suspeitas de ninguém, entretanto. E era sempre assim. Eles sempre sabiam, sempre. Mas ele nunca conseguia descobrir como eles eram capazes de observá-lo.
Após algum tempo, quando se certificou de que ninguém nas proximidades o vigiava, atravessou a rua novamente e pegou um taxi de volta para sua casa. Estava feliz com o sucesso de Taíssa, mas também um pouco melancólico. Agora que ela não era mais sua pupila, dificilmente a veria de novo; e isso era normal, ele já passara pela mesma situação com muitos outros discípulos.
Quando finalmente chegou à pensão, parado em frente à porta de entrada, notou que Júlio também acabara de chegar. O jovem lhe lançou um olhar assustado, como se não tivesse percebido sua presença; sua expressão era tensa, ele parecia um pouco ansioso e descontrolado. Felipe estranhou, mas abriu a porta e o deixou entrar, acompanhando-o com o olhar até o seu quarto. Havia algo de estranho, definitivamente; e Júlio era um bom garoto.
Felipe decidiu investigar. Andou até a porta do quarto e, com muita habilidade, destrancou-a sem fazer barulho.
- Ei, garoto, aconteceu alguma coisa?
Júlio, que já tinha deitado em sua cama, levantou-se depressa ao escutar a pergunta, parecendo um pouco intrigado.
- Ahn... eu não tinha trancado a porta?
Felipe abriu um sorriso irônico, deslocando o corpo levemente para trás, como se acabasse de ouvir algo absurdo.
- Claro que não, né? Se eu abri...
Júlio suspirou.
- É... eu devo ter me esquecido.
- Mas, então, aconteceu alguma coisa? Isso aí não tem a ver com as drogas que você anda vendendo, tem? – perguntou Felipe, com os olhos fixos no jovem. Tentava aparentar confiança, mas ainda assim tomava cuidado para não soar ameaçador.
Boa Vizinhança - Parte II
Julio o fitou sobressaltado. Como ele podia saber sobre seus negócios?- Ah... é... drogas? Do que você tá falando?
Felipe sorriu.
- Pra quem vive com você fica meio óbvio, não? Mas não se preocupe, eu não vou contar pra ninguém. Só estou preocupado.
O jovem avançou até a porta e a fechou, ainda um pouco alterado.
- Isso não é da sua conta! Me deixa em paz, tá? Me deixa em paz. Você não tem nada que se meter nisso. – resmungou ele, trêmulo.
Felipe se aproximou com cuidado. Gentilmente empurrou o garoto com a mão direita até fazê-lo se sentar novamente na cama. Em seguida, mirou-o fixamente, mantendo contato visual; era importante realmente demonstrar sua preocupação.
- Fica calmo... pode ficar calmo. – disse ele, deixando que sua voz soasse agradável e pausada, num ritmo quase hipnótico. – Só vim até aqui por ter percebido que há alguma coisa de errado. Se você quiser, pode falar comigo. Tenho certeza de que isso vai te fazer melhor. Você sabe que desabafar vai te fazer se sentir muito mais leve. Pode confiar em mim.
Júlio baixou a cabeça e fitou as próprias mãos, que agora repousavam em seu colo, por alguns segundos; elas tremiam, ou melhor, seu corpo inteiro tremia.
- Eu tô muito ferrado, cara, muito ferrado. – ele balançava a cabeça negativamente de um lado para o outro. – Meu fornecedor... cara, eles vão me pegar... eles vão me pegar.
- Eles vão te pegar? Por quê? Você fez alguma coisa de errado?
Júlio levantou a cabeça e encarou Felipe por alguns instantes; seus olhos começavam a se encher de água.
- Pior que não. Eu não sei o que aconteceu... Fui no lugar onde guardo as drogas e não tinha nada lá. Nada. Alguém me roubou e agora eu não vou ter como pagar meu fornecedor. Eles vão me pegar... não sei o que eu faço... não sei mesmo. – sua voz soava quase desesperada.
- É... esse é um problema, um problema bem grande. Não tem como você pedir mais um tempo? Eu posso ir com você. Onde você se encontra com eles?
- Não... não ia adiantar nada. Se eu não tiver o dinheiro eles me matam.
Felipe segurou a mão direita de Júlio e novamente fitou seus olhos. Era triste ver um jovem naquele estado. Ainda mais um jovem que parecia ter tanto potencial. Era inteligente, educado e sempre tratava todos na pensão com muito carinho. Se não tivesse escolhido um caminho tão tenebroso, seria um garoto exemplar. Mas Felipe também não podia julgá-lo, seu trabalho certamente não era dos melhores.
- Eu posso te emprestar o dinheiro, mas só se eu for junto com você, por isso preciso saber onde é o lugar.
Júlio pareceu surpreso.
- Você faria isso por mim?
- Mas é claro! Acha mesmo que eu vou deixar que eles te peguem? Um dia desses você me paga. Só não pode ser com dinheiro da venda de drogas, combinado?
- Tudo bem... tudo bem... qualquer coisa pra sair dessa.
- Então, onde você os encontra?
- É num armazém abandonado, há mais ou menos três quadras mais para cima na rua, numa esquina, você já deve ter passado por lá.
Felipe fez um sinal de afirmativo com a cabeça.
- Sim, sim. Eu sei onde é. Sempre achei aquele lugar estranho.
- É lá. – o garoto confirmou.
- Tá certo. A gente faz o seguinte... quando eles precisam receber o pagamento?
- Em uns dez dias.
- Tá. Até lá eu vou ter o dinheiro. Pode ficar tranqüilo. Descansa bem agora e esquece isso por um tempo. – finalizou Felipe, ao dar um tapa amigável de conforto nas costas do garoto e se virar para sair do quarto.
- Obrigado. – disse Júlio, ainda com lágrimas nos olhos. – Eu realmente não sabia como sair dessa.
Felipe não respondeu, apenas fez um aceno de positivo com a cabeça, abriu a porta e deixou o pequeno quarto; era necessário tomar algumas providências.
**************
Se é quase sempre preciso observar por um certo tempo aqueles sobre os quais você quer ter alguma influência, é ainda mais crucial estudar aqueles que se quer ludibriar; aqueles em quem pretendemos aplicar um golpe. Esta era uma das frases mais presentes nos diários de Felipe; e podemos dizer que se encaixa com perfeição neste seu trabalho.
Nos cinco dias seguintes a sua conversa com o Júlio, ele se disfarçou de mendigo e se colocou em frente à porta do estabelecimento em que trabalhavam os fornecedores de droga. Seu aspecto era terrível. Sujo, com uma falsa barba marrom longa, lentes de contato verdes e cinco ou seis pedaços de pano velho pelo corpo.
Durante as manhãs, ele permanecia em frente à casa, do outro lado da rua, imóvel na calçada. Logo após o meio-dia, saía, voltava para a pensão e ficava por lá até a noite, quando retornava para a frente do estabelecimento, trazendo consigo algumas garrafas de vodka. Imaginava que isso justificaria a sua ausência durante as tardes para os dois seguranças que ficavam de guarda na porta.
Além de colher informações, sua insistência diária em ficar no local tinha o intuito de fazer com que os seguranças e os demais envolvidos com a casa se acostumassem a sua presença. Ele precisava se tornar parte da paisagem, um elemento facilmente esquecível, praticamente invisível; inofensivo. Até aquele momento, não podia dizer que havia completado este seu primeiro objetivo. Toda noite, chegava um pequeno carregamento, que parecia ser de drogas, ao local. Os seguranças, assim como os aparentes traficantes, olhavam-no de esguelha; às vezes até apontavam, ainda preocupados com o que ele poderia presenciar.
Felipe, porém, mantinha-se calmo; até cantarolava algumas canções quase incompreensíveis, tal era o estado alcoolizado que ele queria transmitir. Ainda assim, observava com atenção. Já havia até notado qual era a jogada daquela pequena organização. Durante a tarde, um jovem diferente era sempre trazido para a casa. Entrava, ficava alguns minutos lá dentro e depois saía com uma sacola preta, cheia de drogas, provavelmente. À noite, dois homens apareciam com a mesma sacola e a levavam para dentro na casa. No dia seguinte, os jovens retornavam, completamente transtornados, certamente em pânico pelo fato de que seu “produto” havia desaparecido.
Era um golpe. Sim. Até bem simples. Naquela casa não viviam traficantes de fato, mas golpistas, que tinham apenas uma pequena quantidade de drogas, bem limitada, mas que era suficiente para endividar os “inocentes traficantes de classe média”. Fazia até sentido, uma vez que a casa era pequena, eles não possuíam armamentos e o local nem era assim tão bom para que uma organização de maior porte pudesse funcionar (era um lugar muito visível para práticas criminais mais intensas, como Felipe descreveria).
Pegá-los seria fácil. Era só esperar até que se habituassem a sua presença para que fosse possível atuar sem que, no futuro, viessem a desconfiar de suas ações. Um dos princípios mais básicos da Sociedade era o de que as coisas precisavam parecer ter acontecido por acaso, especialmente àqueles sobre os quais eles agiam. Portanto, era necessário que os bandidos sequer lembrassem do mendigo bêbado bem a sua frente.
No sétimo dia, aconteceu. O mendigo estava lá, como sempre, parado, fingindo beber sua vodka. O carregamento chegou. Os seguranças sequer olharam em sua direção, assim como os outros dois homens; era como se ele realmente fosse invisível. Ainda não convencido de que sua tática dera certo, Felipe começou a recitar, bem alto, canções novamente incompreensíveis. Os homens continuaram a ignorá-lo, quase como se ele e sua música fizessem parte do triste cenário da miséria urbana. Naquela momento, ele não passava de uma mera paisagem.
Finalmente tinha acontecido. Finalmente!
























5 Comentários:
Felipe é um agente muito responsável é a impressão que a segunda parte nos deixa. Os objetivos da sociedade começam a ser esclarecidos... ou pelo menos algo sobre ela já é possível saber. Ótima continuação e a parada se dá bem o íntimo da nossa curiosidade.
Um abraço, Leonardo.
Léo, muito intrigante. No começo, imaginei que poderia ser algum assunto batido... mas me surpreendi com a abordagem...
Até pensei que o Felipe é quem começaria a fazer algo de errado, hahahaha..
Adorei! Continue postando ;)
Bjs da Gi
Que ritmo...você começa lendo e quanto mais ler, mais quer saber o que vai acontecer no próximo parágrafo. Depois que a curiosidade da cena criada é saciada, já surge uma nova cena e a busca para saber o que vai acontecer depois, mas aí....
....Bom, amigos do No Ponta dos Lápis, chegamos ao fim de mais um episódio da Sociedade da Rosa... fiquem ligados que, em breve, teremos a continuação desse capítulo.
Poxa Leo, tô na expectativa para ver o que vai acontecer. O que será que o Filipe vai fazer agora que ele descobriu que “finalmente tinha acontecido”. E o Júlio? Mas, fiquei curioso mesmo pra saber qual vai ser a missão da Taíssa, agora, que ela já cumpriu seu treinamento.
Ontem, no trânsito me peguei com esses questionamentos. É muito legal receber o conteúdo por doses, pois, assim você processa a história e ainda fica instigado para o próximo capítulo. Vai que vai. A série tá show de bola!
Valeu, gente. Legal ver os comentários. E muito legal sua animação Marcos, me faz ter mais vontade também de continuar a história logo. Vou tentar terminar esse conto já para a semana que vem, espero que eu consiga.
Muito bom, Leo, amei, como sempre!
Confesso que não fazia ideia do que Felipe pretendia, e o decorrer da cena foi mesmo surpreendente. Gosto muito dos detalhes que você põe nas descrições - já falei isso, né? A imagem do mendigo bêbado ficou na minha cabeça. Isso é tão comum nas grandes cidades... Ainda não sei qual será o desfecho, mas, sem dúvida, a estratégia de Felipe foi certeira.
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