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Gonçalo Tavares na Bienal - a arte de escrever pouco para ampliar os significados (técnica de narrativa)

em 21 de set de 2011.

Hoje escreverei um pouco sobre minha experiência na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. É claro que, fazendo isso, falarei de algo muito interessante em termos literários, algo falado pelo excelente autor português Gonçalo M. Tavares (leia mais sobre ele aqui) em sua passagem pelo Café Literário.

Em primeiro lugar, antes de escrever qualquer coisa, gostaria de dividir algo que pessoalmente foi importante para mim. Após o Café Literário, consegui, além de pegar um autógrafo do Gonçalo, conversar um pouco com ele - e iremos tentar, nas próximas vezes que ele vier ao Brasil, marcar uma entrevista presencial. Acho que será difícil, mas, se ela ocorrer, será muito legal. Posso dizer que ele é um escritor um pouco tímido e simpático - e que certamente está sempre pensando em boas histórias para seus contos. Digo isso, pois peguei meu autógrafo com alguns amigos e revelei ao autor que eu que tinha feito todos eles lerem sua obra - o que os tornou fãs também. Eis que, logo após eu pedir meu autógrafo, um amigo meu foi pegar o dele. Gonçalo, então, pergunta: "qual o seu nome". Ele responde: "Leonardo". Como era o mesmo nome que o meu, o autor português logo retrucou, de brincadeira: "então você só convence pessoas do mesmo nome?". Todos riram, claro. Mas, em seguida, ele emenda: "seria interessante, né? Uma história de uma pessoa que só convence pessoas do mesmo nome". Achei a observação legal, pois esse é justamente o tipo de conto que o Gonçalo escreve, partindo dessas premissas peculiares, o que mostra que ele, a todo momento, busca idéias para sua literatura - e isso é muito importante.

Agora, sobre o que ele falou no Café Literário. Em meio a diversas questões, começou-se a discutir os estilos de narrativa, a voz do autor também. Quando Gonçalo falou sobre sua obra, ele trouxe algumas idéias importantes e interessantes. Ele logo explicou que, de uma maneira geral, prefere construir seu texto com o caminho mais curto possível. Uma frase até o seu ponto final pode ter muitas curvas, adjetivos e etc... ou pode ser construída em linha reta, como ele busca fazer. No entanto, essa sua procura não se dá de modo a simplificar o texto. A intenção é justamente ampliar os significados (Gonçalo é adepto, portanto, da velha frase de Drummond, "escrever bem é cortar palavras"). Ele acha que, exatamente pelo fato de que o leitor precisa completar o que é dito com seus próprios adjetivos e conhecimentos, engrandece-se a experiência. É possível que múltiplas pessoas tenham múltiplas leituras sobre seus contos. Para evidenciar esta possibilidade, ele leu uma pequena história do livro "O Sr. Calvino", de sua série o Bairro. Abaixo vocês podem conferir o conto:



Três Sonhos - 1.º sonho de Calvino

Do alto de mais de trinta andares, alguém atira da janela abaixo os sapatos de Calvino e a sua gravata. Calvino não tem tempo para pensar, está atrasado, atira-se também da janela, como que em perseguição. Ainda no ar alcança os sapatos. Primeiro, o direito: calça-o; depois, o esquerdo. No ar, enquanto cai, tenta encontrar a melhor posição para apertar os atacadores. Com o sapato esquerdo falha uma vez, mas volta a repetir, e consegue. Olha para baixo, já se vê o chão. Antes, porém, a gravata; Calvino está de cabeça para baixo e com um puxão brusco a sua mão direita apanha-a no ar e, depois, com seus dedos apressados, mas certeiros, dá as voltas necessárias para o nó: a gravata está posta. Os sapatos, olha de novo para eles: os atacadores bem apertados; dá o último jeito no nó da gravata, bem a tempo, é o momento: checa ao chão, impecável.

O autor, então, observou que um determinado leitor poderia achar Calvino um tolo, de se jogar do alto de um prédio por estar atrasado ao trabalho - ou por causa de suas roupas. Outro, poderia achá-lo incrível, por, mesmo em queda livre, ser capaz de manter a tranquilidade e agir, fazer tudo o que precisava para cair com perfeição, como um herói das grandes histórias. Eu, pessoalmente, vejo no conto o desespero de alguém que está atrasado para o trabalho, que se atira atrás de suas roupas para não se atrasar; já que em nossa sociedade o que menos se tem é tempo - e o que mais se tem é pressão.

Enfim, ele poderia ter deixado claro quais as intenções de Calvino ao se jogar da janela, escrevendo, por exemplo: "estava atrasado, mas já não podia mais se atrasar, se o fizesse, seria demitido, não teria mais como sustentar sua família". Neste caso, ficaria clara uma determinada visão do assunto e do conto. No entanto, Gonçalo prefere deixar tais descrições (ou curvas) não definidas, escrevendo em linha reta, para que cada leitor possa preencher os vazios com significados diferentes. É claro que nem toda a literatura deve ser feita assim - e nem todo o autor deve seguir o mesmo estilo. Porém, é muito interessante observar a abordagem do autor português, até porque, na minha opinião, sua literatura é da mais alta qualidade.

Portanto, fica aqui minha impressão sobre a fala do Gonçalo em relação a sua produção narrativa e literária. E espero que a postagem traga mais recursos a quem acompanha o blog - ou, ao menos, traga reflexão sobre o assunto.

3 Comentários:

marcos nunes

Calvino prestes a morrer

Atrasado, desestimulado, mal vestido, traído, acabado, Calvino, é o fim, Calvino. Saí pela janela, como Primo Levi, como Mario Monicelli. O telefone toca:
- Calvino? Quem fala é Italo Calvino. Conheço suas intenções. Não se mate.
A janela está aberta, o gancho do telefone está preso à mão esquerda, que repousa paralela à coxa, distante da orelha que se nega a ouvir. Batem à porta. Gritam:
- Calvino, abra a porta, Calvino!
Quem fala lá fora, ele sabe, é outro Italo Calvino. Parece que, nessa manhã, todos querem impedi-lo de se matar. O trânsito está engarrafado, vê ao olhar pela janela, quando mira a rua e vê sair, de um carro que acabara de estacionar, sair um novo Calvino, que lhe acena desesperadamente, não, não se mate, pense melhor, ou não pense que é melhor, parecem dizer os gestos do homem magro, calvo, de olhar mortiço, minha imagem e semelhança, pensa Calvino.
Não há mãe, não há mulher, só uma multidão de Calvinos o cercam para impedir o ato tresloucado, é como gostam de escrever os cronistas, nunca um ato de piedade, consciência das próprias limitações, de força diante da fraqueza de todos os homens, de serenidade face a efemeridade da vida... Não, o ato é sempre tresloucado.
Do computador ligado Calvino ouve o sinal; chegaram mais de dez e-mails, remetidos por dez Italos Calvinos diferentes, exortando-o à resistência, pois todos os Calvinos, como ele, um dia resistiram, seja ao fascismo, seja ao stalinismo, seja ao pessimismo, embora este agora pareça soçobrar justo nesse momento, quando uma passeata de Italos Calvinos passa pela rua carregando faixas com slogans tais como "O sonho é realidade", "Não tomem o elevador, tomem o poder", "Abaixo o realismo socialista. Viva o surrealismo”, "A imaginação toma o poder", "A liberdade do outro estende a minha ao infinito".
O bairro todo é tomado pela euforia e, antes que possa pensar novamente, Calvino desce pela escada e se junta aos companheiros. Os bares ficam cheios.

Paul Law

Leonardo,

é interessante ver como o autor aqui em questão produz seu texto. Entendo que ele "chama" seus leitores para ajudá-lo com o texto. Valoriza o entendimento de cada leitor e aposta nele. Muito inteligente da parte dele e com certeza pode nos servir de exemplo.

Um abraço.

Ronperlim

O conto é bacana. Não merece uma leitura simplória, nem comentários tolos. Quem se prende as roupas por vestir, não pratica a compreensão e a reflexão. O texto nos conduz a uma convivência que pode se parecer com a de muita gente sobre pressão e que muitas vezes deseja a morte.

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