O Legado dos Dragões [E-book gratuito]

Acompanhe esta história épica de aventura fantástica, no estilo "O Senhor dos Anéis". Baixe aqui o livro gratuitamente e participe deste universo em construção!

Leia Mais

[Resenha e Indicação] O Nome do Vento e Patrick Rothfuss

Hoje falo sobre um dos melhores livros de literatura fantástica que já li (senão o melhor). Coloco, inclusive, a resenha marcada como livros de cabeceira, pois de fato trata-se de uma obra incrível...

Leia Mais

[A Sociedade da Rosa] Boa Vizinhança

Acompanhe essa série de mistérios, com um certo ar de romance policial, aventuras e ação. Descubra também tudo sobre esta estranha sociedade secreta

Leia Mais



14

Sobre novas antologias (pedido de opinião), Mutuus e Alétheia

em 28/01/2011.
| Comentários: (14)
Olá, leitores do blog. Hoje faço uma postagem menos literária e mais, uhm, administrativa - ou informativa. Vou tratar de muitos assuntos pelos quais acho que muita gente aqui está interessada. Primeiramente, sobre a Mutuus Editora, a editora que em breve abrirei. Como informamos em uma postagem no blog da Mutuus, tivemos alguns atrasos por causa de burocracia, então a abertura demorou a sair, com isso demos uma parada na leitura de originais e até mesmo demorarmos a responder muitas das perguntas que nos fizeram. Enfim, em breve faremos uma postagem para explicar melhor como está a situação, mas o fato é que a editora deve ser aberta legalmente em mais ou menos um mês, e os primeiros livros devem sair em 2 meses ou menos. Entretanto, o que interessa para nós disso tudo é uma das novas idéias que tivemos. Devido a alguns pedidos que foram feitos, estamos pensando em organizar pela Mutuus uma ou duas antologias por ano. Ainda não sabemos exatamente como esquematizaríamos a antologia, pois nossa idéia inicial seria fazer algo realmente bom, com uma tiragem maior, para tentar vender nas livrarias mesmo, com uma distribuição legal, pelo menos no Rio de Janeiro - o que não é tão comum assim quando se trata de antologias.

O que eu, particularmente, gostaria de perguntar aos escritores que acompanham o blog é que tipo de antologia vocês achariam interessante. Refiro-me aqui ao gênero (contos, crônicas, poesia e etc...) e também a temática (cotidiano, fantasia, mistério; enfim, dêem suas sugestões). Acho que saber o interesse do pessoal pode ser importante para se ter, caso venhamos a fazer mesmo a antologia, obras de qualidade sendo enviadas em boa quantidade. Isso agilizaria muito o processo. Vale lembrar também que a idéia é fazer uma antologia que tenha potencial de vendas, pois pensamos em produzí-la de um jeito a tentar colocar exemplares nas livrarias, ou seja, produzí-las de modo a tentar ganhar um espacinho no mercado.

Por último. Falo sobre a Antologia Alétheia. Primeiro, gostaria de me desculpar novamente pela demora. Mas o último ano para mim foi bem cheio. Além disso, o principal motivo de atraso é que alguns autores ainda não enviaram os contratos. Por este motivo, irei enviar um e-mail neste final de semana para os que faltam e esperarei uma semana para resolver a situação. A partir daí, já começaremos a enviar para os autores os textos corrigidos; também pediremos novas biografias para alguns.

Enfim, é isso. Conto com a compreensão e colaboração de todos!
Leia Mais...
13

Técnicas de narrativa - Gonçalo M. Tavares

em 24/01/2011.
| Comentários: (13)
Bom, em uma das discussões do Escreva seu livro, um fórum que costumo acompanhar, algumas pessoas falavam sobre narrar histórias que envolviam personagens deficientes. No mesmo momento, lembrei-me de alguns trechos do livro Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares - um autor contemporãneo do qual gosto muito, você pode ler mais sobre ele aqui. Como gosto de discutir também técnicas de narrativa no blog, achei interessante trazer um trecho do livro para cá - por sinal, um dia ainda resenharei Jerusalém, que é de fato uma obra muito boa, embora eu prefira os mini-contos do autor.

Enfim, achei interessante trazer este trecho para cá para que possamos ver um pouco a forma de narrar do Gonçalo, quando ele trata de um personagem com deficiência. No livro, há mais pedaços para trás e para frente a respeito deste personagem. E realmente, relendo os trechos, passa-se uma sensação diferente na leitura, algo que nos faz pensar sobre muitos aspectos, às vezes aspectos que não envolvem sequer a questão da deficiência, mas outras deficiências de nossa sociedade. Como sempre digo, Gonçalo é um autor muito inteligente, muito mesmo, e por isso passa algumas percepções de mundo em seus textos que são fantásticas.

Colocarei dois trechos aqui, acho-os bem significativos. Espero que gostem:

Ninguém era semelhante a Kaas e essa dureza da separação atingira-o desde cedo. Não eram apenas as suas pernas absurdamente magras em relação ao resto do corpo, e o seu modo particular de dar passos nos quais a distribuição do peso parecia desequilibrada, também os seus interesses pessoais marcavam um intervalo não transponível em relação aos rapazes e raparigas da sua idade.

----

Cheirou algo, dirigiu-se à cozinha. Nada de especial, apenas dois pratos sujos. A dicção descontrolada de Kaas era talvez o maior objecto de troça, ainda mais do que as suas pernas. Poderia não andar, poderia ficar parado, ou mesmo sentado, com as pernas não visíveis, mas era mais difícil permanecer longos períodos em silêncio no meio de um grupo: seria ridicularizado. O estar sentado expressava um certo consentimento em relação à força que se distribuía pelo colectivo, mas o silêncio prolongado poderia ser visto como uma provocação; uma espécie de disponibilidade para a revolução, pequena é certo, circunscrita a uma sala e a meia dúzia de outros companheiros, mas revolução: hipótese de negar o sentido da História, mesmo que mínima e insignificante. Por essa razão Kaas tinha de falar, de quando em quando. E falando exprimia-se com aquela dicção descontrolada, onde certas palavras terminavam involuntariamente antes do tempo e outras começavam depois, numa turbulência que parecia colocar a frase num bote frágil. O seu pai, Theodor, dizia-lhe: segura a frase como se fosse um remo, segura a frase, não a deixes abanar. Mas Kaas não conseguia.


E agora um trecho do capítulo seguinte, também muito marcante, irei pegar o início do pequeno capítulo e pularei para o final.


Para Kaas a saúde vigorosa era algo que só conseguia manifestar em fotografias. Estava certo, por exemplo, de que um familiar distante, um Busbeck que vivesse do outro lado do mundo e que só recebesse notícias do pai por carta, não teria noção de que ele não era um rapaz normal. Theodor escolhia as fotografias a enviar e, escusando-se a fazer qualquer referência escrita às deficiências de seu filho, alimentava, sem nunca o exprimir, uma certa mentira que a imagem permitia. Numa fotografia as pernas esqueléticas e desproporcionadas de Kaas eram facilmente escondidas e a incapacidade de dicção normal era, como parece evidente, intransponível para um documento visual, que só dá importância aos olhos do receptor.


(...)


De resto, a imagem que mais o marcara na escola resultara de um pequeno conflito; breves insultos entre ele e um colega que foram crescendo de intensidade até ao momento em que nenhum dos dois poderia dizer mais uma palavra que fosse sem se tornar aos olhos dos outros cobarde; estavam assim os dois naquele instante único onde o contacto físico violento é inevitável e quase imprescindível, quando subitamente, o seu opositor, como que lembrando-se naquele momento de algo que se esquecera com os insultos trocados, parou, e afastando-se num movimento que noutras condições seria indiscutivelmente considerado como cobarde, afastando-se, então, disse, para Kaas: eu não posso lutar contigo.


E o certo é que Kaas tinha tanta força nos braços como os seus colegas. Eram as pernas que não acompanhavam, minimamente, as necessidades exigidas por uma luta entre rapazes. Qualquer toque nas pernas o derrubaria definitivamente, num segundo o combate acabava. Kaas não poderia dar um murro, ou recebê-lo, porque não tinha pernas. Eu não posso lutar contigo, eis a frase mais ofensiva que Kaas alguma vez ouvira.
Leia Mais...
1

[O Legado dos Dragões] Capítulo 10 - Punho Firme (Parte II)

em 21/01/2011.
| Comentários: (1)
Segue mais um pedaço da história de O Legado dos Dragões, que venho colocando aqui no blog. Se você ainda não acompanhou nenhum capítulo, bastas clicar aqui e passar a acompanhar, garanto que não irá se arrepender. Por enquanto, tentarei postar uma nova atualização de 7 em 7 dias ou de 14 em 14 dias, irá depender um pouco do meu tempo, que anda curto. Enfim, espero que gostem de mais esse pedaço. E deixem seus comentários!!

**************

- O que está acontecendo aqui? – ela perguntou, assim que adentrou o salão, surpreendendo Malenberg e os demais membros da corte presentes.

- Eu que pergunto, o que faz você aqui? – retrucou o general

- Seus guardas tentaram me impedir, mas entrei assim mesmo. Vocês sabem que não podem fazer uma reunião secreta como esta!

O general deu um sorriso malicioso.

- Mas quem disse que esta é uma reunião secreta? Somos só amigos, amigos conversando. Falamos sobre assuntos importantes, claro, mas apenas de uma maneira amistosa.

Lia não respondeu imediatamente, apenas caminhou pelo grande salão da catedral, bem lentamente, enquanto fitava rosto por rosto cada um dos presentes. Ela se mantinha séria e determinada, olhando desafiadoramente para seus opositores.

- Madame, – iniciou o nobre gordo e de traços finos, que já havia se manifestado anteriormente na reunião: seu nome era Ilan Wasserbruck – nosso caro general nos trouxe à pauta um assunto por demais interessante, sobre os riscos de continuarmos a seguir a liderança de nosso atual Rei.

Lia apenas assentiu com a cabeça e, com um gesto da mão esquerda, pediu que ele continuasse.

- Creio que a maioria aqui se sente inclinada a concordar com o general. A situação parece indicar que uma fuga é necessária.

- Certo. E todos aqui estão de acordo com esta decisão?

De maneira tímida, cada um dos presentes balançou a cabeça positivamente, indicando que concordavam com o general. Entretanto, Lia tinha a percepção de que a maioria dos nobres que ali estavam não imaginava que o que Malenberg propunha era um golpe por parte do exército. A maioria deles estava apenas insatisfeita com as decisões tomadas até então. Certamente, nem todos, – principalmente aqueles que não eram generais – estariam dispostos a um combate armado; não havia necessidade de derramar sangue em um momento como aquele.

- Está decidido, então; algo precisará ser mudado. – declarou Lia. – Mas apenas peço que vocês esperem por Gabriel. Ele deve chegar em breve, provavelmente com alguma instrução de Sir Lance. Vocês sabem que estaremos em boas mãos. Peço apenas que esperem alguns dias.

Alguns murmúrios de aceitação puderam ser ouvidos pelo salão da catedral; boa parte dos presentes achava de fato mais prudente esperar pelo retorno de Gabriel. Os que apoiavam um golpe estavam em menor número, pelo menos por enquanto.

- Não adianta, Lia. Já tínhamos tomado uma decisão, não tínhamos? – interrompeu Malenberg, com um tom autoritário, enquanto fitava cada um dos presentes. – Não podemos esperar mais, as criaturas estão muito próximas. Se quiser nos impedir, sofrerá conseqüências, assim como qualquer outro nobre ou general aqui. Meus exércitos estão espalhados por toda a catedral, a decisão foi tomada, não podemos voltar atrás.

- Isso é uma ameaça? – perguntou Lia, com uma expressão séria e fechada.

Malenberg ficou um tempo sem falar, pensando bem no peso de sua resposta.

- Todos tínhamos chegado a um consenso. Neste momento, este consenso é o que deve valer. Infelizmente, se precisar tomar medidas drásticas, tomarei. O que são algumas vidas se iremos salvar milhares?

A catedral ficou em silêncio. Alguns generais acenavam em apoio, outros pareciam um pouco irritados. Ninguém, entretanto, estava disposto a se opor a Malenberg. Naquele momento, seu exército era gigante e havia sitiado toda a redondeza. Se alguém se opusesse a ele, certamente não deixaria vivo aquela reunião.

- Então você acha que seu exército será capaz de sobrepujar a Guarda Real, assim, com facilidade? – perguntou Lia, com uma calma surpreendente em sua voz.

- Claro que não. Não irei contar apenas com minha Guarda, outros generais enviarão seus exércitos também para nos ajudar.

Lia deixou escapar uma risada suave.

- Então apenas os seus comandados protegem a área da catedral?

- Sim. E qual o problema?

- Você acha que seus exércitos poderão impedir a Guarda Real, os soldados de Gabriel e ainda nossa tropa de elite de arqueiros?

Malenberg engoliu em seco.

- Quer dizer que...

Lia riu novamente, com uma expressão ao mesmo tempo gentil e severa.

- Exatamente, general. Imagino que seus soldados já tenham até se rendido...

- E se você fizer qualquer movimento, terá problemas. – completou Anita, que havia se aproximado sutilmente de Malenberg e encostado um punhal em suas costas. No salão, todos se surpreenderam; ninguém havia notado a ação sorrateira da espiã.

- Você está preso, em nome do Rei. Em alguns dias, será levado a Sir Thomas Brickmond para ser julgado por traição. Mais alguém pretende organizar um golpe? – perguntou Lia, com um olhar severo e irônico. – A situação, então, está resolvida. Retornem para suas casas e esperem pela volta de Gabriel. Se alguém quiser se opor a mim, terá de enfrentar todo o poderia militar desta cidade.

Os nobres e generais apenas baixaram a cabeça, a maioria concordava com as atitudes da comandante. Mesmo naquela situação de fraqueza, não havia espaço para uma revolta ou uma revolução. Nada restava a se fazer senão esperar pelo retorno do Cavaleiro Negro, que trazia conselhos de Sir Lance, o segundo homem mais respeitado do continente.
Leia Mais...
15

A ficção sobrenatural e a sociedade: o embate entre Fé e Razão

em 18/01/2011.
| Comentários: (15)
Hoje resolvi falar sobre um tópico no qual penso muito: a relação entre sociedade e ficção. Como sempre defendi e defendo por aqui, os diversos universos ficcionais com os quais temos contato diariamente (novelas, filmes, noticiários e etc...) são de extrema importância na formação das noções do que é certo e do que é errado de todos os indivíduos, nas concepções sociais que nós teremos. Entretanto, a ficção que produzimos também reflete os anseios de nossa sociedade. Deste modo, quando nos deparamos com o crescente sucesso de obras literárias ou audiovisuais com a temática fantástica ou sobrenatural, há de se pensar um pouco. Por que este interesse repentino?

Na minha opinião, o sucesso deste tipo de criação se dá por dois motivos. Hoje, irei falar de um deles aqui, que envolve justamente esta relação entre ficção e sociedade, o tema que escolhi para a postagem de hoje.

Logicamente, como alguns já devem estar pensando, a exploração do sobrenatural na literatura não é nova, obviamente. Porém, se analisarmos com muita calma, poderemos notar que há épocas em que este tipo de literatura é mais presente. De uma maneira geral, isso acontece conforme o momento social, a situação em que a sociedade se encontra. Falo aqui, especialmente, da relação entre Fé e Razão. Isto é, na crença no imponderável e na crença científica.

Durante os muitos séculos de existência da humanidade, houve uma variância, especialmente significativa nos últimos séculos, entre a crença no sobrenatural e nos ideais científicos. E essa variância ocorre, pricipalmente, de acordo com a situação em que a sociedade se encontra em determinada época. No século XIV, por exemplo, quando o mundo ocidental passou por uma grave crise, em que milhões de pessoas morriam devido a peste bubônica, passou-se a se questionar a sabedoria da época, que era extremamente voltada para o religioso. No momento em que a humanidade não conseguia mais encontrar explicações no Divino para aquela aguda crise, ela se voltou então para o cientificismo, que prometia solucionar todos os nossos problemas, encontrar a cura para as doenças e etc...

Hoje, porém, parece-me que ocorre o processo contrário. Mesmo possuindo tanta tecnologia, vemos milhões de pessoas morrerem de fome todos os anos, deparamo-nos com doenças como a AIDS, que a ciência até agora não consegue erradicar. Enfim, o discurso científico não mais consegue dar todas as respostas de que as pessoas e a sociedade necessitam. Num contexto assim, o homem volta-se novamente para o sobrenatural, na esperança de encontrar nesta "nova" crença uma resposta aos seus anseios.

Deste modo, uma conclusão que pode ser tirada deste sucesso crescente de filmes, livros e séries voltadas para o fantástico é a de que a sociedade começa a viver uma nova crise de paradigma; isto é, mesmo inconscientemente, as pessoas começam a procurar por novas teorias que possam dar as respostas de que tanto necessitam.


Nota: isso me fez pensar no livro de auto-ajuda O Segredo, que vai bem por esse caminho, talvez por isso seu extremo sucesso.

Nota 2: acho que farei no futuro uma postagem para explicar a segunda razão, em minha opinião, pela qual algumas ficções sobrenaturais têm alcançado muito sucesso.
Leia Mais...
7

[O Legado dos Dragões] Capítulo 10 - Punho Firme (Parte I)

em 12/01/2011.
| Comentários: (7)
 Segue mais um pedaço da história de O Legado dos Dragões, que venho colocando aqui no blog. Se você ainda não acompanhou nenhum capítulo, bastas clicar aqui e passar a acompanhar, garanto que não irá se arrepender. Por enquanto, tentarei postar uma nova atualização de 7 em 7 dias ou de 14 em 14 dias, irá depender um pouco do meu tempo, que anda curto. Enfim, espero que gostem de mais esse pedaço. E deixem seus comentários!!

**************

- Caros nobres e generais, – começou Malenberg enquanto andava pela catedral com as mãos por trás das costas. Cerca de vinte homens dos mais altos postos do governo o escutavam. Naquela noite chuvosa, ele pretendia finalmente convencê-los de que uma retirada seria a medida mais prudente naquela situação; iria fazê-los perceber que uma nação inteira não podia confiar no julgamento de um Rei adoecido, que parecia esperar por um milagre. – Vocês podem notar como nossa situação está complicada. Sabem o quanto aquela raça de criaturas já conquistou, sabem quão profundamente eles já se embrenharam em nossas terras.

Os generais e nobres presentes apenas fitavam Malenberg. Alguns deles, com a mente em um lugar distante, uma vila muito ao sul, após a Cidade de Mármore e o Deserto. Era uma vila antiga e tradicional que fora invadida pelas Criaturas, um lugar de paz, um campo próspero, que vivia de pequenas hortas, arte e artesanato. Malenberg fora o general derrotado naquela batalha e, por pouco, não perecera em combate; muitos, inclusive, consideraram um milagre ele ter sobrevivido.

- Todos sabem as razões pelas quais não informamos sobre a perda da Pequena Vila de Buyl; sabem que Sir Thomas não queria preocupar a sua população inutilmente. Acontece que o momento é sim de preocupação. Os homens estão perdendo suas terras, suas vidas, seus domínios. Se não nos retirarmos logo deste continente, em breve o veremos tomado, veremos nossas mulheres e filhos destroçados nas garras destas criaturas.

A catedral ficou em completo silêncio assim que Malenberg terminou o seu discurso. A única coisa que podia ser ouvida era o barulho da forte chuva que caía do lado de fora, com direito a ocasionais raios e trovoadas. Após alguns segundos, porém, uma mão tímida foi levantada em meio aos nobres presentes.

- O que propõe, então? – perguntou um homem de rosto gordo e traços finos, vestido com uma túnica vermelha; era o filho de um dono de pequenas terras, próximas às grandes montanhas. – Pretende que façamos um apelo imediato e direto ao Rei?

Ao ouvir a pergunta, o general Malenberg fechou a sua expressão e olhou com alguma dureza para cada um dos presentes.

- Apelo ao Rei? Ora... convenhamos... ele nunca escutou vocês, nem nós, sempre governou sozinho. Nunca ninguém reclamou, porque ele parecia sempre certo, sempre tomava a medida mais correta. Mas agora não! Agora ele está doente... senil. Não temos como ter a absoluta certeza de que ele está certo desta vez. Até hoje, o que ele fez? Nada! As criaturas se aproximam, e nós apenas assistimos, apenas esperamos por nossa aniquilação! Isso é absurdo. Temos de nos mover. Se ele nada fará, nós iremos. Temos nossas milícias particulares. Os exércitos do rei estão dispersos, com um comando fraco. Precisamos apenas agir, agir o mais rápido possível

*******************

Anita e Lia arrancavam pela cidade em direção à grande catedral. Na escuridão da noite, apenas dois vultos, quase indetectáveis, podiam ser vistos se movendo habilmente em meio à tempestade. As duas sabiam que precisavam se apressar – e sabiam que tinham de evitar ser avistadas pelos soldados de alguns dos outros generais. O plano era simples: chegar até o conselho e ganhar tempo, até que fosse o momento certo de agir.

Em frente ao portão da catedral, três guardas permaneciam de sentinela. Eram todos homens do general Malenberg, Lia sabia bem disso, conhecia quase todos os integrantes de cada tropa, assim como Anita Nhyria, que achava importante a toda espiã deter este tipo de informação.

As duas se encostaram na parede de uma casa a poucos metros de distância dos guardas, era preciso agir com cautela e precisão.

- Eu vou na frente, você me dá cobertura, como nos velhos tempos. – disse a espiã a Lia, deixando escapar um sorriso sincero, um tipo de sorriso que ela apenas destinava a sua amiga e também comandante. Lia retribuiu com aceno positivo com a cabeça, sabia exatamente o que devia fazer.

Sorrateiramente, Anita saiu de trás da parede e começou a se movimentar na direção dos guardas. Quando estava próxima o suficiente, passou a caminhar a passos regulares, deixando-se ver, como quem passeia tranqüilamente por uma praça.

- Parada aí, Anita! – gritou o líder dos guardas. – O que faz por essa região?

- Vim a mando de minha comandante, Lia Tarathon, ficamos sabendo que há uma reunião secreta acontecendo na catedral.

- Não há nada para ser visto aqui. Dê meia volta e retorne de onde veio. Sou Henri Argor, o chefe da guarda de Malenberg, você me deve obediência.

Anita baixou a cabeça, escondendo o rosto sob o capuz e se virou lentamente, retirando do bolso as mãos, que carregavam dois dardos tranqüilizantes. Em um movimento rápido, deu um giro sobre os calcanhares e atingiu a jugular de Henri com um dos dardos. Um instante depois, o segundo guarda, que estava mais distante, foi atingido nas pernas por uma boleadeira arremessada por Lia e caiu imobilizado. O terceiro chegou a sacar um punhal, já que não teria tempo de puxar a espada, mas teve sua mão segura por Anita, que logo o colocou para dormir, cravando o segundo dardo em seu pescoço.

Com muito cuidado, a espiã deixou os corpos desacordados no chão e, então, deu uma coronhada no guarda que fora imobilizado com a boleadeira. Lia, que neste momento já saíra de seu esconderijo, passou destemida em direção à porta da catedral.
Leia Mais...
21

O perigo dos brinquedos: o "Jogo da Vida"

em 10/01/2011.
| Comentários: (21)
A postagem de hoje ficará um pouco fora do campo da literatura. Retomo aqui, de alguma forma, parte dos estudos feitos em Notas sobre a ficção. Entretanto, desta vez, quero falar sobre um jogo em específico. Faz uns dias atrás, um amigo comentou sobre o "Jogo da Vida', um jogo de tabuleiro muito comum aqui no Brasil e também no mundo. O comentário dele foi sobre algo que eu também já havia notado, escrito em um antigo caderno e esquecido de publicar. Vai mais ou menos ao encontro das críticas que fiz, uma vez que o processo ideológico do filme me impressionou, ao Bee Movie.

A influência dos brinquedos e dos jogos sobre as crianças e, naturalmente, na formação do intelecto adulto já não é novidade. É através dos brinquedos que aprendemos, de algum modo, nossas funções sociais, como o menino que brinca de soldado, pratica esportes, e a menina que brinca de casinha, cuida da boneca e etc... Este assunto, inclusive, foi extremamente bem abordado por Roland Barthes, em seu livro Mitologias. Para quem quiser pesquisar mais, vale checar.

Como falei, a postagem hoje é só para colocar o questionamento a respeito de o "Jogo da Vida". Para quem não conhece, trata-se de um jogo de tabuleiro, onde, após percorrem um determinado percurso, vê-se qual o jogador que terminou a partida com mais dinheiro para se saber quem é o vencedor. Vejam só, logo de cara, que problema. O nome é "Jogo da Vida", ou seja, pretende-se com ele simular o que seria, em alguma âmbito, a realidade. E o que mede, então, o sucesso de alguém? O que deve ser a coisa fundamental para que se possa dizer ser um vencedor? O dinheiro.

Até aí, temos um problema, mas talvez não um problema tão grande; afinal, alguns podem alegar que, de fato, é preciso, para se tornar uma pessoa de sucesso, obter dinheiro, quanto mais melhor. Tudo bem, é uma das milhares de noções que se pode ter de sucesso, mas, até um certo limite, aceitável.

O problema é que o jogo vai além. Não sei como é a versão nova, mas era assim na época em que eu jogava, pelo menos. Conforme se anda pelo tabuleiro, é possível cair em casas que dizem "Seu filho nasceu, receba os presentes". Ou, "Você se casou". Deste modo, pode-se chegar ao final do jogo com uma esposa e alguns filhos. E aí vem mais um problema. Para que você possa ganhar, possa alcançar aquele dinheirinho a mais que o colocará na frente de um de seus adversários, você pode vender seus filhos e sua esposa (marido). Deste modo, você ganhará um dinheiro extra e pode, então, tornar-se o grande vencedor.

Sei que pode parecer exagero, afinal, é só um jogo. Mas, de uma maneira geral, a mensagem que é passada para a criança, mesmo que ela não note (e mesmo que os próprios criadores não tenham notado, nem os pais), é que no "Jogo da Vida" pode e deve-se fazer de tudo para se conquistar mais riqueza, para se obter mais dinheiro. É claro que tudo acontece de uma maneira bem suave, é difícil precisar se há de fato influência, muito ou pouca, mas em algum grau, haverá. E, junto de outros produtos ficcionais - como séries, filmes e etc... -, além de outros jogos, vai se modelando uma espécie de maneira de pensar social, que impulsionará os indivíduos a agirem de determinada maneira.

Há outros elementos significantes no jogo também. O fato de ser mais importante receber os presentes do que ter o filho (novamente a valorização do dinheiro), por exemplo. Além disso, logo nas casas iniciais, há uma série de casas que indicarão qual profissão você terá no jogo. As diferentes profissões dão salários diferentes, logo começa-se a valorizar as que pagam melhor. De uma maneira ou de outra, acaba-se reforçando ali qual o tipo de profissão ideal. No jogo, ao menos na minha época, todos queriam ser médicos, era o que ganhava mais, depois acho que vinha advogado. Os acadêmicos e professores recebiam quase nada (o que de algum modo reflete a própria sociedade). Assim, a criança já vai aprendendo qual profissão deve seguir, quais profissões deve valorizar e etc...

Enfim, este é só um texto para que pensemos com mais carinho nos jogos e programas de TV. Nem sempre tudo é simples como parece.
Leia Mais...
9

[Conto] Feliz Ano Novo. Fim. - por Cizenando Cipriano

em 05/01/2011.
| Comentários: (9)
Após um longo tempo sem postar nada dele aqui, lá vai mais um conto de um dos colaboradores "oficiais" do blog. Durante um período do ano passado, o Cizenando postou alguns textos por aqui e o pessoal gostou bastante. Espero que apreciem o conto a seguir, eu achei bem interessante, embora talvez não tenha um cunho não tão otimista em relação ao ano novo, hehe.


Cizenando Cipriano - @cizenando_ - é colaborador do Na Ponta dos Lápis; jornalista da área esportiva, com passagens por MB Press (UOL e IG), LANCE! e Rádio Nacional. Você pode encontrar mais textos do autor, com algumas pitadas humorísticas, no blog Pau Na Mesa.



Feliz Ano Novo. Fim.

Já era quase fim de tarde. As diretrizes, definidas há algumas poucas semanas, foram sendo repassadas serena e mentalmente enquanto caminhava sem pressa na calçada em busca do melhor lugar para atravessá-la. A decisão foi até rápida, vinda de quem a tomou. O momento agora era colocá-la em prática.

Entrou no carro comum, alugado, e encontrou seu caminho sem muitos obstáculos, apesar da confusão que toma a cidade nesta época. Parou na cabine de entrada, quase meia-hora depois, pediu a suíte e a recebeu sem maiores delongas. Na rota até o quarto, diversas garagens já fechadas. Muito o quê comemorar?

Sua primeira providência foi deitar-se na cama, deixando a mochila cair pelo braço. O colchão macio contrastava com o áspero do lençol encardido. Não achava nojento pensar nas substâncias, nos suores, nos gozos ali impregnados. Aspirou fortemente aquele tecido branco em busca de algo tátil nos odores de outros tempos. Vagamente letras e nomes se confundiram no ar. Desistiu de pensar.

Ali, na cama, não era como se estivesse depositando o peso que carregava. Ao contrário, queria manter o peso do mundo sobre si até o momento derradeiro. Talvez fosse uma forma de dar sentido a tudo aquilo e, mais profundamente, um depósito onde buscar coragem se ela, por ventura, faltasse-lhe quando necessária.

Horas. Esperaria. Sorriu com o canto direito da boca enquanto olhava a irregularidade da pintura nas paredes do quarto: os planos sempre reféns dos ponteiros do relógio. Nem agora se deixava libertar desta quimera chamada tempo. Tinha compromisso apenas consigo e mesmo assim prendeu-se ao mundo. Ironizou-se: um último presente.

No chão, a costa ereta respirava. De olhos fechados, rememorava. As palavras ainda brincavam de anagramas em sua cabeça, uma despedida, porém algumas se fixavam. “Quando eu morrer (...) Chamem palhaços e acrobatas! (…) A um morto nada se recusa (...)”. Gostava da sensação de consciência.

Durante aqueles dias vinha buscando uma justificava. Não que precisasse de uma, decidiu-se e pronto, era a sua única saída, mas e se lhe fosse perguntado? E se lhe dessem o direito de falar? Agradava-lhe o significado de controle daquilo tudo: não decidiu sobre o início, muito do que viveu foi de acordo com as circunstâncias. Mas, ali, roubava do acaso a ordem sobre o ponto final.

E se antes tudo se arrastava – minutos deságuam em dias –, naquela contagem regressiva parecia que as nove horas jamais dariam entrada às dez. Somente andava. Poderia estar tentando repassar sua trajetória, acertar mentalmente as contas com o que viveu. Não, apenas andava. Sobre brasa, sobre cacos de vidro, sobre o nada. Serenamente.

Um arrepio peculiar percorreu-lhe o corpo de súbito. Qual seguisse um roteiro, pegou o revolver 38 e o sentiu nas mãos, como da vez em que o comprara. Havia sido a única vez em que o tocara. Não lhe acometeu nenhum sentimento diferente. Era como se já estivesse tudo combinado para que seguisse aquele caminho. Nada lhe faltava, nem antes, nem já.

Os fogos de artifício ganharam mais força nos céus da cidade. Visualizou alguns rostos sorrindo e multidões esperançosas. Foi um flash rápido, carregado por uma espécie de contagem regressiva mental. Mesmo sem relógios, nem nada, tinha certeza de que saberia o instante exato para puxar o gatilho.

A sua maior dúvida fora sobre onde disparar. Algo eficaz, definitivo, certeiro. No peito? Não, muito piegas e sem resultado garantido; na têmpora? Talvez, boa simbologia, mas tinha algum risco de não dar certo; sob o queixo? Também não havia garantia absoluta. Decidiu-se pelo mais grosso dos modos. A beleza estava no gesto, não na sua forma.

Um silêncio tenso tornou-se a atmosfera da noite. Sabia. Não deixara bilhete, carta, recado, despedida. Tudo fora dado ao longo de trinta e um anos, para que mais? Se alguém se importasse, entenderia. A tensão ganhou um crescendo. Nove... Sete... Cinco... Três... Um... E a arma enfiada na boca coloriu de vermelho o quarto branco, enquanto o corpo, como se sincronizado com uma força exterior, mergulhava sobre a cama, já sem peso.

Feliz ano novo, o grito era espalhado de boca em boca. No quarto, fim.
Leia Mais...
 
Copyright© 2010 Na Ponta dos Lápis
Apoio: Literatura Fantástica
Tema original "Solitude" Modificado por Mundo Blogger