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[A Sociedade da Rosa] Boa vizinhança - Parte II (retomada da série)

em 26/07/2011.
| Comentários: (5)
Antes de colocar a segunda parte deste conto, quero adicionar alguns comentários. Primeiro, como falei nas últimas postagens, pretendo produzir com maior velocidade e, como consequência, levar em frente séries como A Sociedade da Rosa. Como já faz muito tempo que coloquei a primeira parte aqui, neste espaço colocarei (no formato escondido), o prólogo e a primeira parte do primeiro conto. Por isso, aviso ao pessoal que lê por FEED, onde a ferramenta de esconder/revelar texto não funciona, que, caso não queiram ler o que já foi postado anteriormente (prólogo e Parte I), basta descer até a Parte II - só farei a postagem deste modo, com todos os textos anteriores juntos, nessa única vez, pois imagino que, mesmo quem acompanha por feed, irá querer ler o início da história, já que faz tanto tempo que eu o postei.

Aviso também que estou preparando uns banners legais e tal para deixar ainda mais interessantes as postagens - e que fiz uma página estática com links para cada texto da série, veja aqui. E peço isso sempre. Caso gostem do que leram, indiquem aos amigos! Enfim, os textos seguem abaixo.


A Sociedade da Rosa - Relato primeiro
Muitas vezes algo de extrema importância nos bate à porta, choca-se conosco e altera radicalmente nosso destino sem que tenhamos escolha. Isso aconteceu comigo cinco anos atrás, quando encontrei alguns diários em um antigo sebo de Veneza. O dono não conseguia lê-los e me vendeu bem barato; os livros estavam escritos em português: retratavam a história de vida de um homem chamado Felipe Pereira Meinham, um brasileiro que me deu pistas sobre uma organização extremamente complexa e influente; a Sociedade da Rosa.

Antes de continuar com meus relatos, porém, acho prudente me apresentar. Chamo-me Marcos Costa de Oliveira, sou um historiador com mestrado e doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nunca pensei que me envolveria em algo tão grande como o que estou prestes a relatar, sempre fui um acadêmico centrado, não dado a nenhuma especulação histórica, a nenhuma pesquisa que envolvesse pressupostos nebulosos, sem visíveis bases concretas, mas sinto que, de algum modo, as coisas não poderiam ter acontecido de maneira diferente.

Como já bem lhes relatei, faz cinco anos, deparei-me com alguns diários em Veneza que me abriram os olhos para um mundo novo. De lá para cá, fiz muitas pesquisas, no mundo inteiro e, principalmente, no Brasil, para reconstruir a vida deste misterioso homem chamado Felipe Pereira Meinham – e muitas vezes cheguei a arriscar a minha vida para isso. Infelizmente, devo admitir, fiz descobertas terríveis, coisas que muitos achariam repugnantes – e que a maioria teria dificuldade em acreditar. Conheci uma organização que já atua faz centenas de anos na sociedade ocidental e que, desde o princípio, foi responsável por dar um destino ao mundo, mesmo que tudo parecesse obra do acaso.

Escrevo, a partir do dia de hoje, para transmitir o que descobri a todas as pessoas, escrevo também para impedir que a Verdade – uma vez que a organização me parece quase uma entidade metafísica – possa ser silenciada, para ter certeza de que minha história chegará às mãos de outros, mesmo que algo de terrível aconteça a mim. Sou apenas um mero pesquisador, não sei se tenho as habilidades literárias necessárias, mas tentarei reconstruir tudo aquilo que descobri da vida de Felipe Pereira Meinham para revelar, por meio de sua história, mais detalhes a respeito da Sociedade.


Ass. Marcos Costa de Oliveira

Sociedade da Rosa – Boa vizinhança
Estes relatos retratam o período vivido por Felipe Pereira Meinham em uma pensão na Lapa, localizada na Avenida Mem de Sá, número 71


11 de Setembro de 2001
Foi muito doloroso assistir à implosão das torres. Talvez pior do que o atentado, fosse admitir que eu falhara de maneira tão grotesca. Era triste pensar nas conseqüências, na Guerra ao Terror que se instauraria nos anos seguintes. Eu havia perdido. Nigel tinha sido mais capaz do que eu. Seu plano tinha sido perfeito, a história seria mudada, conforme nos pede a organização. Eu queria evitar, mas não pude, é duro admitir que este capítulo histórico terá um enredo escrito de maneira tão infeliz. Agora, nada me resta a fazer senão voltar ao Brasil, reencontrar meus amigos de pensão e terminar o treinamento de Taíssa. Gostaria muito, porém, de saber o porquê de fazermos isso tudo, para que devemos manipular o mundo por caminhos aleatórios. Gostaria de saber qual é realmente a nossa função.

Felipe Pereira Meinham não era o tipo de homem que precisava se preocupar com uma boa vizinhança. Ele era um agente treinado, um dos melhores, alguém que certamente não precisaria de um refúgio em que se sentisse confortável, um lugar para chamar de casa. Era o tipo de pessoa independente, até por causa do rigor que exigia seu trabalho, um homem com uma enorme capacidade de viver sozinho, de sair ileso das situações mais complexas e perigosas.

Entretanto, por muito tempo, ele teve seu porto seguro; uma pequena pensão situada na Avenida Mem de Sá, próxima aos Arcos da Lapa, no centro do Rio de Janeiro. Era uma casa pequena, com apenas três quartos disponíveis para aluguel. Felipe ocupava dois deles, pagava um preço cinco vezes mais alto do que o combinado. A responsável pelo estabelecimento, Dona Nevinha, uma mulher doce e prestativa, já com seus 57 anos, não reclamava, naturalmente, mas se sentia obrigada a cozinhar, todos os dias, pelo menos duas refeições para Felipe e qualquer convidado que ele trouxesse como forma de agradecer pelo pagamento.

No terceiro quarto, vivia um jovem introvertido chamado Júlio. Era daqueles tipos revoltados com o mundo; tinha fugido de casa, usava roupas largas e sempre mantinha uma aparência de quem não se preocupa com as coisas. Felipe sabia, porém, que o garoto vendia drogas. Os horários em que costumava sair, o pó presente nas roupas e o fato de pagar a pensão sempre com dinheiro vivo haviam lhe dado esta certeza; confirmada com uma pequena investigação feita no quarto de Júlio em um dia em que ele passara a tarde toda fora.

Durante seus primeiros meses na pensão, Felipe almoçava quase diariamente com uma mulher extremamente atraente; uma loira, de traços finos, com cabelos longos e sedosos. Seu nome era Taíssa Siqueira, e ela tinha sido apontada, através de uma mensagem enviada pela organização, como uma nova agente a ser treinada. Por um bom tempo, foi testada em diversas missões, recebendo tarefas das mais variadas, para desenvolver todas as habilidades de que um membro da Sociedade necessita.

Após os atentados de 11 de Setembro, após ser superado por um de seus rivais, Felipe retornou ao Brasil para assistir à última missão de sua aprendiz; se ela obtivesse sucesso – e não restava dúvidas de que obteria – se tornaria uma agente oficial da organização.

**************

Ele respirou fundo, enchendo os pulmões com o ar morno da noite carioca. Caminhava lentamente pela praia de Copacabana, atento ao som constante do vai-e-vem das ondas do mar. Ele gostava de caminhar sozinho, gostava de levar o tempo que precisasse pensando sobre questões que há anos o afligiam. Mas, naquele momento, não poderia se dar ao luxo de se perder em seus pensamentos, havia uma missão que ele precisava cumprir: tinha de se certificar de que Taíssa completaria a tarefa que lhe fora designada. Fora um teste simples, ajudar um casal a se apaixonar; coisa fácil, nada demais se comparado às principais tarefas da organização. Na realidade, tratava-se de uma missão simbólica, uma forma de lembrar dos primeiros tempos, da época em que a Sociedade se estabelecera.

No período dos reinos absolutistas, como todos sabem, eram os reis que detinham o poder. Nenhuma localidade tomava decisões, entrava em guerras ou mudava suas políticas sem a permissão de seus governantes. Eram períodos conturbados e obscuros, em que um simples matrimônio poderia alterar o curso da História. E foi então que a Sociedade da Rosa foi fundada, ninguém sabe precisar quando ou por quem. Ela surgiu com o intuito de determinar as rotas do mundo; as guerras, as alianças, tudo. E tudo se definia pelo matrimônio, pela junção de um príncipe – e de seu reino – com o reino de uma princesa. Quantos países não foram poupados durante toda a História de invasões terríveis por um casamento fortuito, uma “jogada do destino”? Quantas alianças imbatíveis não foram feitas pelo mesmo motivo?

Era justamente assim que trabalhava a Sociedade. Ela criava encontros, gerava situações políticas favoráveis, convencia reis; enfim, fazia com que os casais corretos se formassem, e assim seus agentes controlavam o destino do mundo, sempre batalhando entre si para estabelecer a sua visão das coisas. A Rosa se tornou um símbolo do amor – e agora finalmente entendo como.

Felipe reduziu o passo de sua caminhada e se sentou em um banco do calçadão, um local estratégico, de onde poderia observar o trabalho de Taíssa sem ser notado. A noite era agradável, possuía uma espécie de caráter romântico que ele não conseguia explicar, apenas percebia. Era nesses dias que gostava de agir quando precisava unir algum casal. E por isso mesmo, ordenou que sua pupila finalizasse sua missão naquele dia.

O local escolhido fora o Devassa, um bar bem conhecido no Rio de Janeiro. Ali, era onde Taíssa mais gostava de trabalhar nas vezes em que sua missão envolvia relações românticas. O amor é sutil, e os agentes eram treinados com muito cuidado para que pudessem lidar com estas sutilezas. Ainda assim, o amor é também imprevisível – e, por isso, muitas vezes até os mais experientes dentro da organização falhavam miseravelmente.

De onde estava, Felipe conseguia ver o casal. Eles já saíam fazia algum tempo, três “encontros”, para ser mais exato. Talvez por algum motivo de razão psicológica – ou simplesmente “por acaso”, embora nenhum dos agentes gostasse dessa expressão – ainda não tinham se entregue ao que sentiam. Era necessário um pequeno empurrão.

Taíssa já os fizera se encontrar, “sem querer”, no cinema. Ambos eram cinéfilos assumidos, gostavam, inclusive, mais de assistir aos filmes sozinhos do que acompanhados; era uma experiência sem igual, diziam. Mas quando se sentaram, “por acaso”, um ao lado do outro, alguma coisa aconteceu; a conversa fluiu, os olhares se encontraram, havia, definitivamente, algo entre eles: era possível sentir, quase como se fosse uma energia palpável.

E mesmo agora, no bar, era visível a atração de ambos. Inclinavam-se um na direção do outro enquanto conversam. Ela alisava o cabelo, ele fitava os olhos e depois a boca. Eventualmente, as mãos se tocavam; trêmulas, tímidas, mas desejosas.

Inesperadamente, uma belíssima rosa vermelha foi colocada entre os dois. Logo em seguida, uma garrafa de champagne. O casal olhou surpreendido para a atendente, uma mulher loira e de boa aparência; ela sorria.

Felipe atravessou a rua apressado, queria saber o que Taíssa diria a seguir.

- É... olha só, a gente... não pediu nada disso. – comentou a mulher, ainda um pouco desnorteada; embora, por dentro, suspeitasse e desejasse que fosse uma surpresa orquestrada por ele.

- Não. Eu sei. – respondeu Taíssa, ainda sorridente, embora também deixasse transparecer um falso embaraço. – É que nós estamos com uma política hoje de premiar alguns casais... sabe... os mais apaixonados. E vocês foram os ganhadores.

Ao terminar de dar sua resposta, ela balançou levemente a cabeça, parecendo um pouco envergonhada, e logo se virou, sem deixar tempo para uma resposta. É claro que sua história não era muito plausível, mas nenhum casal apaixonado se prenderia a esta questão.

Quando Taíssa deixou a mesa, ele e ela se entreolharam por um longo tempo. Sorriam, ainda um pouco envergonhados. Conforme o silêncio se prolongava e os sorrisos não se dissipavam, eles finalmente percebiam o que, aparentemente, apenas eles não tinham notado – ou, então, assumido. Os olhos se procuravam, excitados. A respiração acelerava. Aos poucos, inclinavam-se, mais em mais, um em direção ao outro. O beijo veio, finalmente. Mágico e marcante, como toda boa história de amor deveria começar.

Felipe sorriu, estava satisfeito. Talvez não atuasse daquela exata maneira se fosse uma missão sua, mas Taíssa fora inegavelmente eficaz, seria uma grande agente, sem sombra de dúvidas. Na mesma hora, seu celular apitou, ele recebera uma nova mensagem:


Parabéns! Acaba de finalizar o treinamento de sua pupila. O valor de 300 mil dólares referentes a esta tarefa foi depositado em sua conta.

Ele levantou a cabeça, tentava encontrar algum outro agente, alguém que pudesse ter avaliado seu sucesso para que tal mensagem fosse enviada. Não conseguiu ter suspeitas de ninguém, entretanto. E era sempre assim. Eles sempre sabiam, sempre. Mas ele nunca conseguia descobrir como eles eram capazes de observá-lo.

Após algum tempo, quando se certificou de que ninguém nas proximidades o vigiava, atravessou a rua novamente e pegou um taxi de volta para sua casa. Estava feliz com o sucesso de Taíssa, mas também um pouco melancólico. Agora que ela não era mais sua pupila, dificilmente a veria de novo; e isso era normal, ele já passara pela mesma situação com muitos outros discípulos.

Quando finalmente chegou à pensão, parado em frente à porta de entrada, notou que Júlio também acabara de chegar. O jovem lhe lançou um olhar assustado, como se não tivesse percebido sua presença; sua expressão era tensa, ele parecia um pouco ansioso e descontrolado. Felipe estranhou, mas abriu a porta e o deixou entrar, acompanhando-o com o olhar até o seu quarto. Havia algo de estranho, definitivamente; e Júlio era um bom garoto.

Felipe decidiu investigar. Andou até a porta do quarto e, com muita habilidade, destrancou-a sem fazer barulho.

- Ei, garoto, aconteceu alguma coisa?

Júlio, que já tinha deitado em sua cama, levantou-se depressa ao escutar a pergunta, parecendo um pouco intrigado.

- Ahn... eu não tinha trancado a porta?

Felipe abriu um sorriso irônico, deslocando o corpo levemente para trás, como se acabasse de ouvir algo absurdo.

- Claro que não, né? Se eu abri...

Júlio suspirou.

- É... eu devo ter me esquecido.

- Mas, então, aconteceu alguma coisa? Isso aí não tem a ver com as drogas que você anda vendendo, tem? – perguntou Felipe, com os olhos fixos no jovem. Tentava aparentar confiança, mas ainda assim tomava cuidado para não soar ameaçador.


Boa Vizinhança - Parte II


Julio o fitou sobressaltado. Como ele podia saber sobre seus negócios?

- Ah... é... drogas? Do que você tá falando?

Felipe sorriu.

- Pra quem vive com você fica meio óbvio, não? Mas não se preocupe, eu não vou contar pra ninguém. Só estou preocupado.

O jovem avançou até a porta e a fechou, ainda um pouco alterado.

- Isso não é da sua conta! Me deixa em paz, tá? Me deixa em paz. Você não tem nada que se meter nisso. – resmungou ele, trêmulo.

Felipe se aproximou com cuidado. Gentilmente empurrou o garoto com a mão direita até fazê-lo se sentar novamente na cama. Em seguida, mirou-o fixamente, mantendo contato visual; era importante realmente demonstrar sua preocupação.

- Fica calmo... pode ficar calmo. – disse ele, deixando que sua voz soasse agradável e pausada, num ritmo quase hipnótico. – Só vim até aqui por ter percebido que há alguma coisa de errado. Se você quiser, pode falar comigo. Tenho certeza de que isso vai te fazer melhor. Você sabe que desabafar vai te fazer se sentir muito mais leve. Pode confiar em mim.

Júlio baixou a cabeça e fitou as próprias mãos, que agora repousavam em seu colo, por alguns segundos; elas tremiam, ou melhor, seu corpo inteiro tremia.

- Eu tô muito ferrado, cara, muito ferrado. – ele balançava a cabeça negativamente de um lado para o outro. – Meu fornecedor... cara, eles vão me pegar... eles vão me pegar.

- Eles vão te pegar? Por quê? Você fez alguma coisa de errado?

Júlio levantou a cabeça e encarou Felipe por alguns instantes; seus olhos começavam a se encher de água.

- Pior que não. Eu não sei o que aconteceu... Fui no lugar onde guardo as drogas e não tinha nada lá. Nada. Alguém me roubou e agora eu não vou ter como pagar meu fornecedor. Eles vão me pegar... não sei o que eu faço... não sei mesmo. – sua voz soava quase desesperada.

- É... esse é um problema, um problema bem grande. Não tem como você pedir mais um tempo? Eu posso ir com você. Onde você se encontra com eles?

- Não... não ia adiantar nada. Se eu não tiver o dinheiro eles me matam.

Felipe segurou a mão direita de Júlio e novamente fitou seus olhos. Era triste ver um jovem naquele estado. Ainda mais um jovem que parecia ter tanto potencial. Era inteligente, educado e sempre tratava todos na pensão com muito carinho. Se não tivesse escolhido um caminho tão tenebroso, seria um garoto exemplar. Mas Felipe também não podia julgá-lo, seu trabalho certamente não era dos melhores.

- Eu posso te emprestar o dinheiro, mas só se eu for junto com você, por isso preciso saber onde é o lugar.

Júlio pareceu surpreso.

- Você faria isso por mim?

- Mas é claro! Acha mesmo que eu vou deixar que eles te peguem? Um dia desses você me paga. Só não pode ser com dinheiro da venda de drogas, combinado?

- Tudo bem... tudo bem... qualquer coisa pra sair dessa.

- Então, onde você os encontra?

- É num armazém abandonado, há mais ou menos três quadras mais para cima na rua, numa esquina, você já deve ter passado por lá.

Felipe fez um sinal de afirmativo com a cabeça.

- Sim, sim. Eu sei onde é. Sempre achei aquele lugar estranho.

- É lá. – o garoto confirmou.

- Tá certo. A gente faz o seguinte... quando eles precisam receber o pagamento?

- Em uns dez dias.

- Tá. Até lá eu vou ter o dinheiro. Pode ficar tranqüilo. Descansa bem agora e esquece isso por um tempo. – finalizou Felipe, ao dar um tapa amigável de conforto nas costas do garoto e se virar para sair do quarto.

- Obrigado. – disse Júlio, ainda com lágrimas nos olhos. – Eu realmente não sabia como sair dessa.

Felipe não respondeu, apenas fez um aceno de positivo com a cabeça, abriu a porta e deixou o pequeno quarto; era necessário tomar algumas providências.

**************

Se é quase sempre preciso observar por um certo tempo aqueles sobre os quais você quer ter alguma influência, é ainda mais crucial estudar aqueles que se quer ludibriar; aqueles em quem pretendemos aplicar um golpe. Esta era uma das frases mais presentes nos diários de Felipe; e podemos dizer que se encaixa com perfeição neste seu trabalho.

Nos cinco dias seguintes a sua conversa com o Júlio, ele se disfarçou de mendigo e se colocou em frente à porta do estabelecimento em que trabalhavam os fornecedores de droga. Seu aspecto era terrível. Sujo, com uma falsa barba marrom longa, lentes de contato verdes e cinco ou seis pedaços de pano velho pelo corpo.

Durante as manhãs, ele permanecia em frente à casa, do outro lado da rua, imóvel na calçada. Logo após o meio-dia, saía, voltava para a pensão e ficava por lá até a noite, quando retornava para a frente do estabelecimento, trazendo consigo algumas garrafas de vodka. Imaginava que isso justificaria a sua ausência durante as tardes para os dois seguranças que ficavam de guarda na porta.

Além de colher informações, sua insistência diária em ficar no local tinha o intuito de fazer com que os seguranças e os demais envolvidos com a casa se acostumassem a sua presença. Ele precisava se tornar parte da paisagem, um elemento facilmente esquecível, praticamente invisível; inofensivo. Até aquele momento, não podia dizer que havia completado este seu primeiro objetivo. Toda noite, chegava um pequeno carregamento, que parecia ser de drogas, ao local. Os seguranças, assim como os aparentes traficantes, olhavam-no de esguelha; às vezes até apontavam, ainda preocupados com o que ele poderia presenciar.

Felipe, porém, mantinha-se calmo; até cantarolava algumas canções quase incompreensíveis, tal era o estado alcoolizado que ele queria transmitir. Ainda assim, observava com atenção. Já havia até notado qual era a jogada daquela pequena organização. Durante a tarde, um jovem diferente era sempre trazido para a casa. Entrava, ficava alguns minutos lá dentro e depois saía com uma sacola preta, cheia de drogas, provavelmente. À noite, dois homens apareciam com a mesma sacola e a levavam para dentro na casa. No dia seguinte, os jovens retornavam, completamente transtornados, certamente em pânico pelo fato de que seu “produto” havia desaparecido.

Era um golpe. Sim. Até bem simples. Naquela casa não viviam traficantes de fato, mas golpistas, que tinham apenas uma pequena quantidade de drogas, bem limitada, mas que era suficiente para endividar os “inocentes traficantes de classe média”. Fazia até sentido, uma vez que a casa era pequena, eles não possuíam armamentos e o local nem era assim tão bom para que uma organização de maior porte pudesse funcionar (era um lugar muito visível para práticas criminais mais intensas, como Felipe descreveria).

Pegá-los seria fácil. Era só esperar até que se habituassem a sua presença para que fosse possível atuar sem que, no futuro, viessem a desconfiar de suas ações. Um dos princípios mais básicos da Sociedade era o de que as coisas precisavam parecer ter acontecido por acaso, especialmente àqueles sobre os quais eles agiam. Portanto, era necessário que os bandidos sequer lembrassem do mendigo bêbado bem a sua frente.

No sétimo dia, aconteceu. O mendigo estava lá, como sempre, parado, fingindo beber sua vodka. O carregamento chegou. Os seguranças sequer olharam em sua direção, assim como os outros dois homens; era como se ele realmente fosse invisível. Ainda não convencido de que sua tática dera certo, Felipe começou a recitar, bem alto, canções novamente incompreensíveis. Os homens continuaram a ignorá-lo, quase como se ele e sua música fizessem parte do triste cenário da miséria urbana. Naquela momento, ele não passava de uma mera paisagem.

Finalmente tinha acontecido. Finalmente!
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Mudanças no blog

em 24/07/2011.
| Comentários: (3)
Esta é uma postagem rápida, mais para falar do que decidi após ouvir os comentários do pessoal (no blog e por e-mail) a respeito do que eu tinha perguntado aqui. Como alguns devem ter notado, há algumas pequenas mudanças no design do próprio blog. Os contadores na barrinha da direita, com mais informações e um pouco mais sérios que os anteriores; lá embaixo pretendo atualizar os livros em promoção e indicados com uma frequência maior também, para aproveitar o espaço da pequena estante; e, por último, após insistência da amiga @AnakinT, coloquei no menu do topo do blog um link para um texto sobre o autor.

Enfim, até aqui, todas são mudanças bem superficiais. No entanto, há mais coisas. Pretendo postar com uma regularidade um pouco maior no blog, mais vezes por semana provavelmente. E decidi também continuar com as duas séries literárias, O Legado dos Dragões e A Sociedade da Rosa. Não sei se vou conseguir colocar um texto de uma das séries por semana no ar, mas é o que, inicialmente, irei tentar. Caso seja um ritmo de produção muito acelerado, posso passar a postar de duas em duas semanas.

Basicamente, é isso. Agradeço muito ao pessoal que deu opinião, é sempre bom ouvir o que os outros têm a dizer, especialmente em relação ao nosso trabalho. Por isso, ficam os sinceros agradecimentos. E por hoje é só! (amanhã, quem sabe, tem mais)
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Como publicar de forma independente, dicas de Barbara Dewet (Parte II)

em 21/07/2011.
| Comentários: (3)
Hoje faço uma postagem para retomar uma entrevista feita no meio do ano passado com a escritora Barbara Dewet (@Babidewet) - clique aqui e veja a Part I. Achei interessante falar novamente com a autora para que possamos saber como foi sua jornada desde seu lançamento independente no ano passado. Quem quiser conhecê-la ainda melhor, pode conferir o seu blog.

Posso dizer que acompanhei o caminho percorrido pela Babi desde o lançamento de seu livro até hoje, tendo total consciência de quanto ela se esforçou para alcançar um bom número de vendas. Como poderão ver em sua entrevista, de sua tiragem inicial de mil exemplares, 700 já foram vendidos, e provavelmente os que restam devem se esgotar até o final do ano, até porque ela deverá fazer parte da Bienal do Rio de 2011.

É, portanto, interessante para todos nós essa conversa com a autora, para que se possa notar como é necessário para um autor independente correr atrás de seus objetivos; certamente não é um caminho fácil. Por outro lado, ele pode sim ter seus prazeres e benefícios. E por mais que as dificuldades sejam enormes, é possível conseguir ter sucesso.

Desde a nossa primeira conversa, a Babi participou de uma série de eventos, incluindo a Bienal de São Paulo, no ano passado. Após tudo isso, resolvi fazer novamente uma entrevista, para que ele pudesse nos contar um pouco mais desta sua rica experiência. Espero que vocês, leitores, apreciem o que ela tem a dizer. Deixem aqui suas impressões!



ENTREVISTA


Já se passaram algumas meses desde nossa última conversa. De lá para cá, como foram as coisas com SAN (Sábado a Noite). As vendas superaram as expectativas? Foi necessário uma segunda tiragem? Pode nos dar um número aproximado?

R: Pois é, as coisas acontecem muito rápido! Foi mais rápido do que esperava! Ainda não precisei da segunda tiragem, mas estou com livros contados pra Bienal do Livro e isso é incrível! De mil livros feitos eu já vendi uns 700 em pouco mais de um ano de divulgação independente e, se depender de como andam as coisas, minha cota acaba até o final desse ano.


Durante este período, pelo que pude acompanhar, você participou de alguns eventos literários para divulgar o seu livro, incluindo a Bienal de São Paulo. Qual foi a sensação de, como autora iniciante, participar destes eventos? Como você conseguiu participar deles?

R: A Bienal de São Paulo do ano passado foi minha primeira grande experiência. Fui meio na coragem, com alguns livros vendendo em um stand que me cobrava um pouco caro pela exposição e tudo mais. E acabou dando super certo. Fiz amizades, vendi 200 livros em alguns dias e todo mundo foi muito carinhoso comigo! Os leitores que iam até lá me ver para conversar, tirar fotos e pegar autógrafos foram todos uns amores e eu fiquei bastante impressionada. Não imaginava!

Depois fui pra Porto Alegre na Feira do Livro e foi outra experiência incrível. Um público menor, claro, mas não menos carinhoso e curioso! Foi muito legal! Também fui sem saber onde vender meus livros, estava disposta a sentar no chão e abrir barraquinha de hippie, mas deu tudo certo e consegui alguns contatos por lá - só conversando mesmo e sendo cara de pau.


Ficou satisfeita por ter optado lançar seu livro de maneira independente?

R: Fiquei, bastante! Tenho uma liberdade enorme que não poderia ter com editoras. Claro que hoje eu penso em assinar com alguém para a publicação de uma nova tiragem e para o segundo da série, mas não teria trocado a experiência por nada. Todo autor deveria passar por isso para amadurecer quanto à divulgação própria e à batalha que é ser reconhecido.



Há mais algum evento literário do qual planeja participar?

R: A Bienal do Livro do Rio é minha próxima parada!


Há algum novo projeto de livro em andamento?

R: Alguns, eu sempre tenho muitas idéias. Nada finalizado de qualquer jeito, só a segunda parte de Sábado à Noite.


Após seu sucesso como escritora independente, você planeja procurar uma editora tradicional para suas próximas publicações? Alguma chegou a se interessar por você após a boa recepção por parte do público?

R: Algumas editoras entraram em contato e eu estou em processo de conversação. Vamos ver, eu gostaria sim de assinar Sábado à Noite com alguma editora. Acho que, no fim, todo autor quer isso.


Como você vê o mercado para quem quer publicar de maneira independente?

R: É acirrado, existe muitos livros legais por aí - nacionais e internacionais - mas está melhorando bastante. As pessoas, empresas e editoras estão prestando um pouco mais de atenção no novo autor e, quando se mostra e prova de que não é só mais um, normalmente você se destaca. Tem muito autor que publica independente e que fica parado, esperando chegar o público e depois reclama que ser independente é difícil, que não tem leitores e que nenhuma editora pega seu livro.


Quais as dicas que você pode dar para os autores que querem realizar esta empreitada?

R: Acreditar na sua história e correr atrás. Rejeição acontece em todo o lugar, mas é importante dar ouvido às críticas e comentários.
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Pergunta importante aos leitores

em 20/07/2011.
| Comentários: (8)
A postagem que faço hoje considero muito importante, por isso peço que os leitores participem e dêem um feedback. Não precisa ser por comentários, pode ser pelo e-mail mesmo (uma vez que muitos entram em contato por lá). A questão basicamente é a seguinte. Organizei-me nos últimos dias e fiquei bem animado em voltar a produzir textos meus com mais regularidade para o blog; falo aqui de contos e também das séries que eu havia iniciado já faz um tempo.

O que eu gostaria de saber é se há gente acompanhando elas, principalmente O Legado dos Dragões e a Sociedade da Rosa. Se houver uma quantidade boa de pessoas interessadas nas séries, eu pretendo voltar com tudo para elas, tentando produzir um texto novo por semana. Só gostaria muito de saber se o pessoal estaria ou não interessado nisso.

E, caso não estejam interessados, seria interessante ouvir de vocês quais as temáticas que acham interessantes para postagens (e isso pode incluir as outras séries do blog também). Assim posso montar o blog com cada vez mais qualidade para vocês.
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A literatura independente na FLIP

em 18/07/2011.
| Comentários: (10)
Sigo com textos a respeito do que aconteceu na Festa Literária de Paraty 2011; agora com uma postagem mais voltada para a produção independente, que também teve - e sempre tem - grande força no evento através da OFF-FLIP. Este ano, inclusive, houve uma adição interessante ao circuito - e infelizmente só a descobri mais próximo do final da festa: o Clube de Autores esteve presente em Paraty com uma casa só sua e com mesas voltadas para a produção independente. Tenho de admitir que para mim foi uma surpresa muito agradável ver que o site investiu para ter não só uma presença no evento como também para discutir com novos autores (que publicam com eles ou que estavam na FLIP) e dar a eles informações e espaço num momento tão importante para a literatura nacional.

Aos que não conhecem o site, o Clube de Autores é um espaço que permite ao usuário montar seu livro pela internet e vendê-lo. É uma ferramenta muito interessante, principalmente se for bem usada pelo novo autor - há casos de escritores que começaram no site e conseguiram publicar até mesmo em Portugal. Enfim, não me alongarei mais sobre a ferramenta. Quem quiser saber mais detalhes, dê uma olhada numa postagem antiga aqui do blog que disseca as vantagens e desvantagens do Clube: Publique seu livro de graça.

Agora, voltemos aos eventos que ocorreram na casa, todos focados na produção independente. Em primeiro lugar, foi bem legal ver que a poesia teve um espaço considerável, algo bem raro de se ver, especialmente no circuito oficial da FLIP. Foi discutida a importância da poesia no mundo literário e também o seu lugar, assim como os novos métodos de "distribuição" desta arte. Naturalmente, acabou-se voltando também para o papel da internet nessa pequena, como eu considero, revolução para os poetas. Ao meu ver, é por intermédio dos blogs que eles podem hoje começar a se conectar com os seus leitores.

Houve outras mesas interessantes também, que davam dicas aos autores sobre como se auto-divulgar, algo que é, sem sombra de dúvidas, o grande desafio para o novo escritor, principalmente aquele que publica de maneira independente. Afinal, se ninguém souber que o seu livro existe, que o seu trabalho existe, como esperar que haja interesse em adquiri-lo? Isso porque, como todos nós sabemos, aparecer por intermédio das estantes das livrarias é praticamente impossível para um novo autor.

Enfim, foram eventos muito legais, que terminaram com uma discussão extremamente importante. Tratou-se de uma reunião entre autores para se discutir novos meios de garantir benefícios àqueles que estão começando junto à sociedade e também ao governo. Novamente, digo que foi uma atividade bem única e importante; primeiro por ter criado mesas até então escassas na período da FLIP; e segundo por ter ocorrido mais num clima de "comunidade de autores independentes" do que de uma maneira vertical, sem uma participação tão efetiva dos escritores do site.
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A crítica literária trata as mulheres de forma diferenciada?

em 14/07/2011.
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A postagem de hoje ocorre novamente por influência de coisas que vi e ouvi na FLIP. Desta vez, trata-se de um comentário feito pela autora argentina Pola Oloixarac - que, inclusive foi citado na postagem O poder das palavras. Durante sua mesa da FLIP, a escritora revelou que os críticos literários de seu país tratam as mulheres de maneira diferenciada. E não necessariamente de uma maneira boa. No comentário em questão, ela revelou que algumas temáticas, caso sejam tratadas pelas mulheres, são interpretadas de outra forma pela crítica - ou simplesmente ignoradas; isto é, acaba-se falando de alguma outra coisa da obra ou da autora e deixa-se a temática mais delicada de lado.


Creio que devo concordar com muito do que ela fala, pelo simples fato de observar as autoras que normalmente ganham a mídia, tanto por se tornarem best-sellers como por serem apreciadas pela crítica - que é o que hoje coloco em discussão. O que Pola nos disse fica claro pela maneira como ela mesma foi tratada durante as festividades; isto é, a forma como a mídia vinha a classificando diante do público. Ela era considerada a "Musa da FLIP". Ou seja, antes de se falar de seu trabalho, antes de julgarmos se a sua narrativa possui qualidade ou não (mais relevante do que ela ser uma excelente escritora), era preciso ressaltar o fato de que ele era bela; musa, portanto. Eis exatamente a questão a qual ela se referia. Sua literatura contém uma série de aspectos relevantes, aborda algumas temáticas mais complexas, mas em primeiro lugar, antes de se falar sobre como ela percorria estas temáticas, fala-se de seu aspecto físico; como se ele fosse mais importante do que a sua habilidade literária.

O problema é que essa inversão de valores realmente acontece. Sei que pode ser uma opinião não muito popular, mas infelizmente vejo que, mesmo entre os críticos, mas especialmente entre a mídia, o fato de uma mulher escrever e ser considerada bonita ajuda muito na sua recepção. Isso não significa dizer que uma escritora atraente e que faça sucesso escreva mal - muito pelo contrário, na maioria das vezes, aquelas aclamadas pela crítica realmente são grandes autoras. No entanto, não há como negar que o fator beleza é parte crucial do sucesso. Se elas apenas escrevessem extraordinariamente bem, provavelmente não teriam tanto espaço como têm os homens; o que é, naturalmente, um absurdo. Não sei se todos irão concordar comigo, mas é assim que vejo as coisas. Logicamente, não estou satisfeito com isso, mas me parece ser de fato uma verdade; basta olharmos para as últimas autoras que têm surgido como queridinhas do mundo literário (lembrando aqui, novamente, que acho a maioria delas excelentes). O fato é que as coisas não deveriam ser assim, de maneira alguma.

E para nos aprofundarmos ainda mais na questão, cito novamente a Pola, para que se volte a colocar em discussão as temáticas. Em um certo momento da mesa, o autor Valter Hugo Mãe falava de sua vontade de escrever um livro sobre um personagem homem que quer ser pai. Ele, então, falou de seu próprio sentimento, de sua vontade de ter um filho e de como isso poderia ser passado para a obra. O público pareceu gostar muito da idéia, as pessoas logo se conectaram com a história - e realmente soa, como o autor mesmo revelou, como algo diferente tratar deste assunto por uma perspectiva masculina.

Eis que Pola faz sua observação, com bom-humor, claro, mas também com uma carga crítica muito forte: "Se eu escrevesse um livro sobre este mesmo tema, iriam dizer que eu soava como uma das garotas daquele seriado, 'Sex and the City'". E, de fato, convenhamos, ela falou a verdade. Um livro do mesmo estilo, só que pelo ponto de vista feminino, seria tratado como "brega" e comercial, sendo provavelmente dilacerado pelos críticos. O que nos leva novamente a questão: a crítica literária trata as mulheres de forma diferenciada?

Eu dei minha opinião, agora gostaria de ouvir a de vocês!
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O "banco" do Itau na FLIP, um case de marketing de muito sucesso

em 11/07/2011.
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Depois de ter aproveitado minha passagem pela Festa Literária Internacional de Paraty de 2011, pretendo fazer uma série de postagens aqui no blog, todas relacionadas ao que vi por lá, aos autores, ao ambiente (clima geral) e aos pensamentos que tive durante as festividades. Hoje, dedicar-me-ei especificamente a um case de muito sucesso no evento deste ano.

O blog aqui, naturalmente, é literário, mas também trato um pouco de comunicação. O que posso dizer é que um dos pontos mais comentados da FLIP 2011 foi um pequeno invento de papelão trazido pelo Itau. Uma espécie de "bolsa" que se transformava em um banco (não era bolsa, pois não dava para carregar nada dentro; usei o nome pelo jeito como se carregava o "artefato"). Para que entendam melhor, consegui pegar um para mim e tirei fotos. Acompanhem:

O banco desmontado, de modo que possamos levá-lo para qualquer lugar durante a FLIP. Há uma alça e ele se fecha, por isso acaba-se gerando um certo aspecto de bolsa.



Eis agora ele em formato de banco. A "transformação" é simples de fazer e ele aguenta uma quantidade boa de peso; era muito seguro para qualquer um se sentar nele.


Agora vamos ao case. Não sei quem teve a idéia dos bancos, mas ela foi absolutamente genial. Primeiro, devo dizer que o objeto faz parte de uma série de artigos de marketing do Itau durante a FLIP, todos se baseando na idéia de desenvolvimento sustentável, amigo da natureza, como "bicicletas táxi" e também para aluguel, tudo com a estampa da marca.

No entanto, o grande sucesso da Festa Literária foi este singelo pedaço de papelão que vocês viram logo acima. Isto porque ele solucionava um enorme problema do evento. As pessoas circulam para lá e para cá o tempo inteiro; e muitas vezes não há lugar para se sentar. Com o "banco" do Itau, em qualquer lugar, a qualquer momento, tinha-se um assento imediato. O sucesso ainda foi ampliado pelo fato de que a tenda do telão, por exemplo, e outras televisões transmitiam ao vivo as mesas da FLIP e, sem muito esforço, era possível, como é em todos os anos, acompanhar as discussões mesmo sem comprar o ingresso, bastando ficar do lado de fora da tenda do telão. Porém, do lado de fora não há lugar para se sentar; ou seja, é preciso ficar mais de uma hora em pé para acompanhar o debate entre os autores. O "banco" do Itau, todavia, solucionou exatamente este problema. Bastava tê-lo em mãos para assistir às mesas com todo o conforto possível.

Não foi à toa que, nos horários em que o banco era distribuído, formavam-se filas enormes. E por todo o lado na FLIP, via-se pessoas carregando o artefato (e a marca) do Itau. Sem sombra de dúvida, quem teve essa idéia merece um aumento, pois o tal do "banquinho de papelão" foi um dos grandes sucessos da Festa Literária deste ano; o maior dentre os assuntos não-literários, com toda a certeza. Foi realmente um modo útil e inteligente de expor a marca, um belo trabalho dos publicitários e comunicadores da empresa que deu vida ao projeto.
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O poder das palavras - ou, sobre Valter Hugo Mãe na FLIP

em 08/07/2011.
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Inicia-se a mesa número 6 da FLIP, um pouco após o meio-dia. Em destaque, dois grandes autores contemporâneos: a argentina Pola Oloixarac e o português Valter Hugo Mãe. A temática era das mais interessantes: os pontos de fuga da literatura, o reflexo sobre a vida e a sociedade por meio do texto.

Agora vejam como são as coisas, como os eventos nos podem brindar com surpresas inesperadas. Não que eu não conhecesse o trabalho do Valter - ou que não imaginasse que poderíamos ter uma ótima mesa -, porém, como todos os presentes, eu fui surpreendido; a capacidade de se expressar do escritor português, de falar sobre os mais diversos pontos de sua obra e também da literatura, mostrou-se realmente incrível, sendo que ele ainda conseguia aliar excelentes doses de humor aos seus comentários.

E assim ele ganhou o público, pouco a pouco. O auditório já ria com mais facilidade, ouvia com atenção cada palavra vinda do escritor português. Até mesmo sua parceira de mesa, Pola Oloixarac, mostrava-se animada com suas colocações, especialmente quando ele pediu para ler um último texto antes do fechamento da mesa - texto que foi, sem sombra de dúvida, o ponto alto desta edição da FLIP, mas ainda chegaremos lá. Antes, é interessante ressaltar que foram boas as discussões que permearam a mesa. Chamou-me a atenção um comentário de Pola, em que revelava que a crítica literária em seu país tratava de maneira diferente os textos produzidos pelas mulheres dos produzidos por homens. E isso, infelizmente, é uma verdade, não só na Argentina, mas também aqui no Brail e, provavelmente, no restante do mundo. Há certas temáticas que, se tratadas por uma mulher, como a escritora argentina revelou, não recebem a devida atenção. As pessoas preferem falar de outros assuntos a tocar naquilo que, essencialmente, é abordado pelo livro.

Após isso, porém, Valter Hugo Mãe roubou a cena. Já perto do final da mesa, ele pediu para ler um texto em que falava de sua experiência com o povo brasileiro. O público logo se animou, assim como sua companheira de mesa. E, neste aspecto, não houve surpresas; Valter leu um texto de extrema qualidade e, principalmente, de total sinceridade. Falava sobre suas experiências de vida com seus vizinhos brasileiros, adicionava muitos pontos de humor ao texto e lia com convicção. O público continuava atento; de vez em quando ria, de vez em quando se identificava. E a história prosseguia, com seu ritmo leve, fluente e encantador. Do lado de fora, nos telões, certamente todos estavam parados, apenas ouvindo o que o português tinha a nos dizer. No final, veio o que, naquele momento, todos já esperavam - e o que Valter verdadeiramente merecia. Aplausos de pé, uma ovação que durou um tempo considerável e que emocionou o autor português, fazendo-o cair no choro.

Enfim, o que se presenciou hoje não foi apenas uma mesa de discussão interessante, mas também a leitura de um texto trabalhado com maestria por um dos melhores escritores da atualidade. Sem dúvida alguma, para qualquer autor, deve ser um sonho receber tanto carinho após ler algo produzido com tanto empenho e sinceridade. Certamente, Valter nunca se esquecerá deste dia da FLIP, assim como a FLIP não o esquecerá. E muito menos os seus (novos) leitores.
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16

[Pedido de opinião] Três capítulos de "O Código dos Cavaleiros"

em 04/07/2011.
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Oi, pessoal. Hoje a postagem no blog é para deixar um link para um arquivo em PDF com os três primeiros capítulos do meu livro, O Código dos Cavaleiros (link para a capa), que será lançado pela Mutuus nos próximos meses. Em teoria, era para eu esperar até que o hotsite do livro estivesse pronto para que os capítulos fossem disponiblizados lá. Mas eu queria dividir com o pessoal do blog logo, principalmente por um pouco de ansiedade até. Eu queria muito saber se vocês, lendo os capítulos, gostaram do estilo de narração e se esse pequeno trecho deu vontade de ler o resto da obra. Eu sei que pode ser chato para uns ler os três capítulos sem ainda ter o resto, mas seria muito importante para mim se vocês pudessem dar uma olhada e depois me falassem sinceramente o que acharam (via e-mail, twitter ou comentários no blog, tanto faz). O trecho é curto, são só 37 páginas no formato 14x21, com letras grandes, em meia hora se termina a leitura.

Atualização: O livro já está à venda em livrarias e no site da Mutuus Editora. Vocês podem o adquirir com autógrafo e frete grátis! Acessem: http://www.mutuuseditora.com.br/ocodigodoscavaleiros-2.html

Como eu falei, para mim, seria muito importante saber se a história lhes parece interessante, se estão gostando do estilo de narração, principalmente pelo fato de ele ser um pouco mais leve, diferente talvez dos livros que fazem sucesso hoje, por causa de seu caráter um pouco mais humorístico (por causa da idéia inicial de não só escrever uma aventura, mas também de fazer uma brincadeira com os contos de cavalaria, desconstruir alguns paradigmas e etc...).

Enfim, gostaria muito que vocês participassem e me ajudassem a ter uma idéia melhor de como as pessoas vão receber a obra, eu ficaria muito contente. Abaixo segue o link para os três capítulos, espero que gostem (coloquei também logo abaixo a sinopse do livro, para que vocês possam saber melhor do que se trata; infelizmente nesses primeiros trechos ainda não tem início a parte mais, digamos assim, "diferente" do livro, mas já dá para se ter uma idéia).



(se quiserem baixar o arquivo basta clicar com o botão direito do mouse e escolher a opção "Salvar arquivo como..." ou "Save link as...")


Sinopse

“Um conto de cavalaria emocionante e inusitado, uma aventura medieval capaz de nos fazer refletir sobre a nossa realidade”

A obra retrata a jornada de um jovem camponês que deseja se transformar em um cavaleiro; um garoto chamado Lino que sonha em se tornar um honrado e poderoso combatente, um homem capaz de proteger os fracos e oprimidos, como os cavaleiros das grandes histórias.

Porém, ao encontrar um nobre e seu companheiro de viagens, o mundo da cavalaria se mostra muito diferente de tudo o que ele imaginara. Lino passa, então, por algumas revelações capazes de mudar sua percepção de mundo.

A história satiriza os clássicos contos de cavalaria medieval, revelando aspectos com os quais os leitores podem se identificar, em uma grande crítica ao momento atual de nossa sociedade. A narrativa possui características cômicas, envolventes e instigantes que tornam a obra uma leitura imprescindível e agradável.

Nota: alguém deixou um comentário sobre antologia. Como nada tinha a ver com a postagem, eu não publiquei, mas deixaram em anônimo. Quem tiver deixado o comentário, favor entrar em contato por e-mail para eu poder tirar as dúvidas.
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