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[Crônicas do Jardim do Impossível] O Jardim, o Xadrez e a Loucura

em 4 de abr de 2012.

Era o meu primeiro dia naquele local mágico e maravilhoso. A tarde já se apresentava; e o sol brilhava num amarelo quase alaranjado. O jardim, imenso, espalhava-se pela minha frente. De onde estava, conseguia avistar vastos campos verdes e duas árvores gigantescas, colocadas a uma distância quase sobrenatural uma da outra. Embora eu as pudesse ver com clareza, sabia que de alguma forma o espaço a se percorrer entre uma e outra deveria ser quase infinito, mesmo que com os olhos eu as pudesse tocar. Era assim que funcionavam as coisas naquele lugar, naquele jardim. Nada era necessariamente o que parecia. E tudo era envolto em um certo mistério, em uma certa magia, um misticismo há tanto tempo esquecido pelas pessoas de fora.


(Se ainda não acompanhou o início da história, veja aqui a primeira postagem)

Eu caminhava ao lado de Raphael, o fantástico criador daquele lugar. Era um homem de uma idade já um pouco mais avançada, talvez perto de seus 50 anos, embora ainda tivesse um vigor físico e uma energia impressionantes. Tinha os cabelos levemente grisalhos e a pele morena, já bem bronzeada pelo sol. Os olhos eram um caso à parte. Eram nebulosos, quase místicos. E posso jurar que mudavam de cor. Às vezes verdes, às vezes azuis, às vezes opacos. Isso de certa forma me assustava. Mas não por muito tempo. Não com aquele homem. Sua presença e sua sabedoria eram simples, porém convincentes; provocavam um efeito de confiança em qualquer pessoa que viesse a conhecê-lo. Era uma figura impressionante, capaz de enxergar o potencial de cada uma das centenas de pessoas daquele jardim. Devo confessar que ter a oportunidade de conviver com alguém assim mudou por completo a minha maneira de enxergar a vida, de perceber as coisas. E posso afirmar que muitos de vocês sentirão o mesmo.

Naquele dia, ele me guiava pacientemente. Caminhávamos. E as duas grandes árvores se aproximavam, como mágica, como se andássemos em uma velocidade muitas vezes maior do que aquela que sentíamos. Logo, passamos pela primeira. Era imensa, com galhos fortes e largos como pilares. Sob sua sombra, repousavam algumas dezenas de pessoas, felizes, descansando e conversando, como se nenhuma preocupação lhes afetasse. Os frutos caíam gentilmente dos galhos e tocavam o chão, intactos, como que se oferecessem para fornecer energia e conforto àqueles que ali estavam. O ar era puro, leve e com um doce aroma de tranqüilidade. Era uma sensação tão poderosa que me vi dar alguns passos em direção à árvore, como se quisesse por ali também descansar. Foi quando senti a mão de Raphael em meu ombro. Ele fitava meus olhos com intensidade, com confiança, como se soubesse exatamente no que eu pensava.

- Você ainda não está preparado, meu caro. Ainda não pode ficar sob a Árvore do Repouso. Nem todos os homens estão preparados para a sua paz, para seu descanso e conforto. Há casos de homens que por ali ficaram até o final de suas vidas, simplesmente entregues ao sentimento de tranqüilidade, à possibilidade de passar toda a existência em conforto, sem qualquer preocupação ou objetivo. Não, meu caro Dylan, não ainda. Por enquanto, este não é o local para você, não é permitido. E nós, amigo, seguimos nossa caminhada.

Eu dei um passo para o lado, sem questionar as palavras de Raphael, e o segui. De alguma maneira, conforme deixávamos a árvore para trás, um sentimento bom aos poucos tomava conta de meu peito, um ânimo novo que, de algum modo, parecia ter sido roubado naquele lugar. Por um momento, fiquei assustado, apenas ali percebi quão perigosa poderia ser a minha jornada, por mais que parecesse não ser nada além de uma simples caminhada ao pôr do sol.

- E aquela árvore mais adiante? Parece ainda maior, ainda mais imponente, mas só vejo um homem lá, bem ao longe, quase como um ponto próximo àquela imensidão.

Raphael abriu um sorriso calmo e receptivo; o rosto transparecia paz e conforto.

- Ahhh, meu caro Dylan, aquela é a Árvore das Histórias. É o que há de mais antigo e sábio neste jardim. E quase ninguém pode visitá-la, ou tem o direito de visitá-la. É chamada também de a Árvore da Verdade. E são poucos os homens que podem enfrentá-la.

Eu não soube exatamente como reagir àquelas palavras, apenas fitei por um longo tempo o homem e a árvore, em total silêncio.

- Aquele que você vê é um escritor, como muitos dos que estão aqui. Aquele é um homem bem conhecido por vocês lá fora. Ele conversa com a árvore e aprende aqui histórias maravilhosas para recontá-las ao mundo, para dar a adultos e crianças um pouco de fantasia, um pouco de mágica, em um mundo que cada vez mais se fecha a ela.

- E é por isso que você nos traz aqui? – eu completei, com um leve sorriso no rosto.

- Exato. O mundo precisa voltar a se lembrar dessas coisas, a acreditar e ver. – ele respondeu, ao colocar a mão direita em meu ombro. – Mas agora me siga, quero jogar com você uma partida de xadrez. Então, poderá fazer todas essas perguntas que estão a inundar os seus pensamentos.

***

A caminhada até as mesas não foi longa. Por mais uma vez, parecíamos deslizar pelos campos, até nos depararmos com um enorme espaço verde, tomado por mesas de pedra, utilizadas para a prática dos mais variados jogos. Ali, havia dezenas de pessoas também, todas jogando e se divertindo. Naturalmente, a chegada de Raphael provocou alguma comoção, uma vez que todos queriam lhe perguntar algo ou simplesmente conversar.

Somente após algum tempo, sentamo-nos sozinhos. Ele armou as peças em seus lugares e iniciamos a partida.

Sua perícia era impressionante. Aliás, impressionante seria até uma redução do que presenciei. Como alguns de vocês devem saber, o xadrez é um jogo essencialmente matemático. No entanto, há um segundo fator que tem uma interferência crucial na jogabilidade: a presença do seu oponente. A maneira de olhar, a velocidade com que pensa em suas jogadas e responde aos seus movimentos. Tudo isso gera um ambiente, que, se intimidante o suficiente, pode ser terrivelmente desestabilizador. E foi assim que me senti. Raphael permanecia calmo; os olhos, agora verdes, profundamente fixos nos meus, o sorriso calmo. Assim que eu movia uma peça, ele, sem sequer olhar para o tabuleiro, respondia com a sua jogada. Era incrível. A cada movimento, uma resposta imediata. E os olhos fixos em mim.

Não demorou muito, claro, e perdi a partida. Não somente uma, mas várias. Após algum tempo, quando uma brisa agradável percorria aquela área do Jardim, ele me pediu para que eu lhes fizesse as perguntas que tanto me incomodavam.

- Bem. – eu comecei. – A minha primeira questão é simples. Mas nem por isso não é atormentadora. Como eu posso saber que isso tudo é real? Como saber que não estou num sonho? Ou pior, louco?

- Louco? – ele retrucou, com um tom interessado em sua voz.

- Sim. Esse jardim poderia muito bem ser o jardim de um manicômio ou coisa parecida.

Ele sorriu.

- E você acredita nisso?

- Não. Mas se eu estivesse louco, certamente é o que eu iria responder.

- Ahhh, sim, exatamente, meu caro Dylan. É uma questão pertinente, cheia de curvas e obstáculos. Realmente, como provar que não és louco?

Não respondi. Apenas franzi a testa e depois o olhei, esperando por uma resposta.

- O Japão, meu caro, existe? – ele perguntou, subitamente.

- Sim, claro. Claro que existe. – eu respondi, um pouco surpreso com a questão.

- É um lugar interessante. Você já o visitou?

Eu fui pego meio de surpresa por aquela mudança na conversa, mas decidi continuar a responder. Raphael deveria ter algum tipo de argumento por trás daquelas questões.

- Não, nunca visitei.

- Pois, então, esta aí a sua resposta.

Confesso que fiquei sem reação. Não fazia a menor idéia de como aquilo poderia dar cabo a minha questão sobre a loucura. Raphael apenas riu, sorrindo-me atentamente.

- Parece que ainda precisa pensar algumas jogadas na frente, como no xadrez. – ele brincou. – Veja. Se você nunca foi ao Japão, como você acredita que ele existe?

- Conheço pessoas que já foram lá. Temos notícias em jornal, na internet, programas de televisão, produtos.

- Sei. E, no passado, muitos anos atrás, como alguém saberia que o Japão existe.

- Através de mapas e das pessoas que de lá vieram. E dos próprios japoneses, que tem características físicas diferenciadas.

- Exato. Aí está a sua resposta. Você sabe que o Japão existe por todas essas coisas. Então olhe ao redor. Todas essas pessoas lhe dirão que isso aqui é real, que você não está louco. O grupo com o qual você entrou aqui, não eram todos lúcidos? E todos não viram o mesmo que você?

Não pude deixar de sorrir, tudo o que ele dizia era simples, porém verdade.

- Temos fotos também. Temos muitas histórias. Se você é capaz de acreditar nos outros sobre o Japão, é capaz de notar que não está louco, que isso é real. A única exceção, é claro, é se duvidássemos de tudo, de todos e de nossa própria realidade, como sugeriu Descartes em sua filosofia. Mas como ele mesmo viria a dizer, pensamos, logo existimos. E podemos presumir que os outros a nossa volta pensam, logo podemos neles ultimamente também confiar. Eis o porquê de crer no Japão. Eis o porquê de saber que não estás louco, a não ser que o mundo inteiro seja uma ilusão.

- Isso é simplesmente brilhante. – eu completei, realmente surpreso com o rumo tomado por ele para esclarecer minhas dúvidas.  – Mas não esperava que eu pensasse nisso tudo só por ter me perguntado se eu acreditava na existência do Japão, certo?

- É claro que esperava. – ele respondeu, ao se levantar, com um sorriso divertido no rosto. – Um dia você chegará lá, pode acreditar.

Dizendo isso, ele se retirou, para me deixar um tempo sozinho com os outros visitantes presentes no jardim. Era hora de eu conhecer um pouco mais sobre aquele lugar e aquelas pessoas.

4 Comentários:

Anônimo

Muito, muito bom! Pois é. ..."Poderá fazer todas essas perguntas que estão a inundar os seus pensamentos."

Vale a pena a leitura! :)
Abraços,
Solidade
Do Twitter. :)

Isie Fernandes

Olá, Leo.

Amei! Comecei lendo pelo e-mail e näo consegui mais parar. Interessante como nossas ideias se cruzam, hoje mesmo escrevi um trecho do meu livro em que duas questões são abordadas aqui. Uma delas é a fantástica mudança da cor dos olhos de um personagem - mas tudo nesse meu projeto tem um motivo, um ponto de partida, científico - e a outra é a questão da real existência daquilo que parece - ou é considerado - fantástico. Show de bola!

Só tenho uma crítica a fazer... Não demore tanto a postar a continuação. ;)

Leonardo Schabbach

Legal, Isie. E é justamente disso que falarei no próximo texto, sobre a questão da real existência não daquilo que parece, mas daquilo em que se acredita =)

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