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Um conto de Karina Aguiar: Nana

em 12 de mar de 2013.

Olá, leitores! Hoje coloco no blog mais um desses textos que me agradou nos últimos tempos. Trata-se de um conto da blogueira e escritora Karina Aguiar (@_LolaV_). Valendo lembrar que, caso gostem do que leram, vocês podem encontrar mais contos dela no blog Gaveta Writer. Além disso, há também um outro blog, mais pessoal e creio que atualizado com mais frequência, aqui. Enfim, o que tenho basicamente a dizer é que achei o conto de hoje muito interessante, principalmente pelo fato de ele se basear em uma idéia inicial  bem instigante, que se inclina bastante para o lado do surreal. E eu, como a maioria do pessoal que acompanha o blog deve saber, adoro esse tipo de histórias - não é à toa que um dos meus livros favoritos é Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago.

Portanto, achei logo de cara a história bem interessante, e confesso que fiquei positivamente surpreso quando vi que o desenvolvimento foi levado mais para um lado, de alguma forma, simbólico e introspectivo, do que para algo mais ligado à ação. Também foi muito legal acompanhar a evolução da Kari como escritora, uma vez que lia o blog dela antigo fazia um tempo.

Além disso, após a leitura do conto, animei-me em voltar a escrever alguma histórias também. Logo, podem esperar em breve por dois textos meus bem caprichados - ambos que eu já tinha na cabeça faz um tempo, mas vinha enrolando para escrever. Aproveitem a leitura abaixo (sim, sei que é um pouco mais longa que o habitual, mas é bem legal!) e deixem seus comentários para a autora!


Nana

Quando a escola entrou em quarentena, Nana sabia que todos iam morrer. Dos pequeninos do Jardim de Infância aos grandes e quase formandos do Terceiro Ano. Você quase podia sentir o cheiro da morte: um gás toxico, impossível de ver, mas com um cheiro vagamente familiar.

As pessoas já estavam ali há mais de dois dias, e a parte da histeria parecia ainda estar passando. Grupos de meninas da quarta série podiam ser encontradas em algumas salas, chorando, juntas, pedindo pela mãe. Porém, nenhum telefone funcionava. Até isso fora cortado.

Você não corta todas as linhas de uma escola contaminada cheia de crianças se você vai salvá-las. É um mundo cruel, e isso era apenas lógico.

Os veteranos começavam a fingir que tudo ia dar certo. De algum jeito, Nana sabia que muitos ali, talvez todos, soubessem que a morte estava logo atrás deles, no encalce. Mas talvez nem todos estivessem prontos para lidar com isso. Então fingir e se enganar era o mais próximo de conforto que alguns teriam, ela achava.

Nana sabia. Nana sabia, assim que ela sentiu o cheiro do gás e todas as janelas foram seladas rapidamente por fora, impedindo que os alunos saíssem. Eles nem avisaram primeiro: o professor explicava a Guerra de Waterloo e, de repente, vários homens uniformizados selavam as janelas no lado de fora.

Nana sabia. Ela parecia ter esses sentidos mais aguçados, em relação à morte e tudo o mais. Ela era quieta e sentia mais do que falava. Quando via tragédias na televisão, chorava e chorava, pensando, todas as vezes, em um ponto obsessivo: o que faria se estivesse em tal situação de terror?

E aqui estava ela, em uma tumba coletiva, e sabia o que ia fazer. Estava calma e não tinha ninguém para ficar chorando junto: simplesmente não tinha nenhum amigo na escola. Mas tudo bem, logo mais isso não teria importância.

O que ela ia fazer? Tinha decidido, após todas as tragédias vistas na TV, que ia deixar cartas, se a situação permitisse. E o quão sortuda era ela por estar presa em uma câmera de gás que calhava de ser uma escola, onde o que mais se encontrava eram papéis e canetas?

*

Alice,

Eu sei que o mundo, para você, é diferente do que para o resto de nós. Sei que você precisa de incentivos diários para enfrentar esse seu mundo da sua cabeça. E eu entendo. Sempre entendi. E eu não sei se digo para você continuar ou encarar o mundo de verdade – mas qual é o mundo de verdade? Você confia mais num mundo seu ou no que os seus olhos dizem que podem ver? Não sei, eu confiaria mais no que meus instintos me falam. Então eu te entendo. Eu te entendo.

Acima de tudo, eu te amo. Antes de fazer qualquer coisa para deixar esses mundos para trás, lembre-se que eu te amo. Antes de se ferir, lembre-se que eu te amo. Se perseguir o coelho com o relógio é necessário, tudo bem, eu te amo.

Não fique triste, porque eu fui e nem faça nada drástico demais. Vá para o seu mundo e lembre-se que eu fui para outro lugar, tranquila e aceita.

Acima de tudo, eu te amo. Obrigada por ser minha amiga, sua esquisita de merda.

Amor,

Nana.

*

Daniel,

É esquisito escrever essa carta em especial. Dizer que eu sempre fui apaixonada por você é redundante, porque é impossível te conhecer e não se apaixonar. Todos esses anos de comer nossos sanduíches e jogar fora as cascas por nossas mães simplesmente não nos ouvirem, todos esses anos de começar a jogar fora a maçã (sério, fruta não é sobremesa!), de comer os lanches cheios de gordura da cantina. De ir tomar banho na sua piscina com as boias nos braços, com você me afundando, às vezes, mas tudo bem, porque meninos são assim.

Quando você começou com aquela mania de que conseguia ver seu esqueleto, lembra? Quando todo mundo dizia que não, que você estava pirando, mas você não estava. Não para mim. Porque meu amor por você era e é tão grande que eu posso ver as camadas do seu corpo até a sua alma.

Amar tanto alguém assim e nunca dizer... eu digo agora. E vai ser a última lembrança que você vai ter de mim, indo embora, cada vez mais. E essa carta fica, sólida, para que você a carregue sua vida toda e saiba o quanto você foi amado, até quando enfiou uma caneta na sua perna e ficou aqueles meses internado.

Amor,

Nana.

*

O ar começou a ficar mais rarefeito. O gás podia ser sentido, agora, por qualquer um. Algumas das crianças mais pequenas começaram a dormir: dormir para nunca mais acordar. A Hora da Soneca Imortal.

Nana não sentia nada ao ver isso tudo. Como já dito, ela sabia que isso ia acontecer. O bom, pelo menos, dessa morte, é que não havia nenhum sofrimento. Ela não sabia que tipo de gás era aquele e nem buscava saber. Só ia ficando cada vez mais tonta e sonolenta. E cada vez mais ciente de que seu tempo acabava e de que ela precisava escrever mais cartas.

Em cada sala, podia-se ouvir choros, gritos, pessoas batendo nas janelas e jogando cadeiras para quebrá-las. Mas não adiantava. Nada ia adiantar. Nana queria falar isso para eles, mas eram seus últimos minutos, oras. Eles deveriam passar do jeito que lhes coubessem.

Ninguém se preocupou em chamar Nana para algum grupo de choro ou para tentar achar soluções. Ela era a garota mais quieta da escola e, francamente, era provável que tivesse algum problema. O problema dela era ver o que todo mundo não via.

O problema dela era ver que, em algumas horas, todos estariam mortos.

*

Maria,

Eu te odeio. Essa sua sensação de não sentir nada é invejável. De passar pelo mundo e não ser afetada por nada, isso é uma benção. Eu sei que você já se foi, mas eu te odeio, te odeio por ter feito isso.

Enquanto todos nós passamos por aqui tendo que lidar com todo tipo de merda e você aí, reclamando que não sentia nada para toda a turma e se cortando, e se dando, e se machucando. Seria até aceitável, mas não com os seus motivos. Você não procurou ajuda e eu te odeio, te odeio.

Nana.

*

Mãe,

Deixo para você o infinito que essa carta em branco traz, porque esse é o tamanho do meu amor por você.

Nana.

*

Faltava só mais uma carta. Nana já estava sentada, quase dormindo na mesa em frente a ela. Mas faltava uma carta, só uma.

Ela levantou o lápis e seu braço pesava quilos. Seus olhos, para ficarem abertos, requeriam o maior esforço do mundo. Seus pensamentos iam lhe deixando, assim como o sonho ia chegando. Tinha pego uma das criancinhas, uma pequena de Maria Chiquinha que provavelmente já dormia para sempre, e fazer qualquer coisa lhe requeria um esforço monumental.

“Só mais uma”, pensou.

*

Queriddo, inffnito

Esprero que você não sbeja um babacs cimoleto e me orepapaprepare

*

Quando a escola foi enfim evacuada, três semanas depois, o cheiro de podridão estava tão forte que tomou conta da cidade. Todos os 800 alunos estavam deitados em cadeiras, no chão, em mesas. Todos haviam dormido e não mais acordado. Suas peles já soltavam do corpo, e os vermes caminhavam por eles como se fossem seu habitat natural.

As cartas de Nana foram encontradas, cada uma em uma sala, como se fosse um caminho ao redor do desastre. A última estava em sua sala, em cima da mesa e em baixo de seu corpo decomposto, que segurava uma criança de oito anos.

Por muito tempo, falariam da tragédia da Escola Joaquina, mas pela eternidade ainda comentariam sobre as cartas de Nana, que acabaram se tornando documentos históricos. Por muitos e muitos anos, aquelas cartas iriam mexer com gerações.

7 Comentários:

Tiffany Noélli

Uau, que belo conto!!! Forte, porém sensacional! Essa moça que escreveu Karina Aguar, é talentosa. Bem desenvolvido, impactante!! Daqueles que dariam um belo roteiro, que Hollywood ama. Nunca tinha visto algo parecido. Legal que postou aqui Leo

Leonardo Schabbach

Legal que curtiu. Minha sensação foi a mesma, de que daria um excelente roteiro para filme, hehe. Pensei a exata mesma coisa.

Anônimo

show de bola, muito bom mesmo. Imagino toda essa história retratada em um filme...

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