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Game of Thrones e O Senhor dos Anéis: histórias guiadas pelos personagens ou pelo mundo (trama)?

em 8 de jul de 2015.

Escolho, hoje, fazer uma análise de algumas obras diferentes para poder dissertar sobre um tema que muito me interessa - especialmente agora, em que voltei a ler literatura de fantasia (estudando e refletindo sobre) e iniciei meu novo projeto de livro, uma aventura épica de fantasia medieval. Até mesmo por isso, pretendo fazer uma série de postagens a respeito do gênero, a respeito de narração, criação de histórias, etc. Tenho certeza de que serão temas bem agradáveis para quem acompanha o blog; são algumas reflexões bem interessantes a respeito de literatura, de criação de mundos e das razões pelas quais uma obra atinge mais ou menos sucesso.

Nesta postagem, devo tratar mais diretamente de Game of Thrones, mas farei também um comparativo com O Senhor dos Anéis. Tudo para falar sobre um tema muito interessante: algo muito legal de se observar quando lemos um livro ou criamos uma história. Trata-se, como nos revela o título da postagem, da diferença entre uma história guiada pelos personagens (character driven) e uma guiada pelo mundo e pela trama (plot driven).

Talvez nem todos tenham reparado nesta pequena diferença, mas é algo realmente muito interessante. Na maioria das obras que lemos, podemos notar uma inclinação para um ou para o outro lado – no entanto, normalmente, qualquer obra terá algumas tramas guiadas pelos personagens e algumas guiadas pelo mundo.

No caso de O Senhor dos Anéis, por exemplo, temos claramente uma obra guiada pelo mundo, algo que acontece com a maioria dos livros de alta fantasia. Como todos sabem, Tolkien criou uma enorme mitologia para o seu universo; e este universo acaba por guiar os personagens. Em O Senhor dos Anéis isso é ainda mais fácil de ser visualizado, porque os personagens, de fato, modificam-se muito pouco com o tempo – e há muito pouca informação a respeito do passado de cada um. O texto é bem mais descritivo em torno do que acontece e muito menos focado no psicológico e na relação entre os personagens.

A trama, portanto, é simples: há um anel mágico que precisa ser destruído para banir o mal (Sauron) da Terra-Média. Se Frodo fosse retirado da história, outra pessoa teria que executar a missão. Além disso, Frodo não é quem faz a escolha de deixar o condado e partir numa aventura. Ele é forçado a isso por toda uma trama grandiosa e épica. O mago Gandalf, inclusive, atua o tempo inteiro como uma ferramenta para que a história siga em frente da maneira como foi determinada, guiando os personagens e a comitiva como Tolkien gostaria.

Todavia, mesmo em O Senhor dos Anéis, há ainda alguns conflitos internos e algumas tramas secundárias que poderiam ser consideradas character driven: como a transformação dos personagens de Frodo e Aragorn, a relação de Gimli com Légolas, de Frodo com Sam, etc. De todo modo, nada disso afeta tão profundamente assim a trama. Inclusive, a decisão de Frodo não matar Gollum é, talvez, a maior indicação disso. Numa história guiada pelo mundo, algumas das decisões dos personagens principais são feitas justamente para dar prosseguimento à história. A misericórdia de Frodo, que acontece quase que por uma intuição dele (e por uma sugestão dada por Gandalf muito anteriormente), serve justamente para que Gollum seja o responsável por jogar, acidentalmente, o anel nas lavas do vulcão. Ou seja, é quase como se toda a história já estivesse escrita, e os personagens apenas embarcassem numa aventura. Não é à toa que uma das frases mais clássicas da recente trilogia de O Hobbit (que, cronologicamente, vem antes de O Senhor dos Anéis) é a de o Bilbo dizendo: “estou embarcando em uma aventura”. Notamos, portanto, na mitologia de Tolkien, uma sequência de histórias claramente guiadas pelo mundo e pela trama por ele criados previamente.

Já em Game of Thrones (ou, corrigindo, nas Crônicas de Gelo e Fogo), as coisas já são mais nebulosas e diferentes. Porém - e esta é a razão para a postagem -, ao contrário de muitos, eu vejo a obra de G.R.R. Martin também como uma história movida pelo mundo e pela trama.

Essa é uma opinião não muito popular, pois vemos, ao longo do livro, que vários personagens, que muitas vezes pareciam desimportantes, de repente passam a ter grandes funções. Vemos personagens importantes tomarem uma decisão errada e acabarem tendo suas vidas completamente modificadas (isso quando não morrem). Deste modo, é natural se pensar que Game of Thrones seria totalmente guiada pelos personagens ou, então, guiada igualmente por personagens e pela trama.

No entanto, não é assim que eu analiso. Obviamente, há uma quantidade enorme de tramas  importantes que são completamente movidas pelas vontades dos personagens e centradas neles. Por outro lado, na minha visão, a trama principal é totalmente movida pelo mundo, algo que é até fácil de se perceber.

Quando Martin escreve, ele utiliza-se de personagens e de seu ponto de vista para fazer a narração. Dois personagens extremamente importantes, porém, não possuem capítulos próprios. Estes são Mindinho (Littlefinger) e Varys. E, coincidentemente, são os dois que movem tudo por trás dos panos e fazem a trama andar (como fazia Gandalf em O Senhor dos Anéis). É exatamente por este motivo que não há capítulos específicos deles, já que eles são ferramentas do autor para fazer a trama caminhar como deve. Ned Stark, por exemplo, nunca teria saído de Winterfell caso Mindinho não tivesse planejado a carta enviada a Catelyn Stark e a morte de Jon Arryn. Logo, Ned, como Frodo e Bilbo, foi jogado na trama, junto com toda a família Stark.

Como todos devem saber também, a “Guerra dos Tronos” não é, de fato, a trama principal do livro (tanto que é apenas o nome do livro 1). O grande final se dará, com toda a certeza, na batalha contra Os Outros (White Walkers).

Logo, mesmo que hajam profundas diferenças entre os livros de Martin e os de aventura de fantasia mais tradicionais, no fundo, ele escreve também um livro de aventura de fantasia épica medieval. Por trás de todas as questões políticas que ele coloca, há ali a ameaça do fim do mundo, além de algumas pessoas que podem surgir como heróis, como Jon Snow, Daenerys, Tyrion e Arya.

Naturalmente, nestes personagens, nota-se uma maior influência do mundo e uma menor influência própria, como personagens, em suas tramas. Jon Snow, por exemplo, é basicamente forçado a ir para a muralha. E Arya encontra, assim, por acaso, um dos “homens sem face” e inicia sua jornada, após ser forçada a fugir por causa da morte de seu pai.

A trama de Daenerys, então, é ainda mais cercada de coisas desse tipo. Primeiro, é forçada a se casar. E, depois, toma muitas e muitas decisões na base da pura intuição – como quando simplesmente se joga no fogo e faz chocar os ovos de dragão –, fazendo com que a trama siga o andamento planejado pelo autor.

Somando-se a tudo isso, há ainda a lenda de Azor Ahai, pouco falada na série, que diz respeito a um grande herói que irá retornar, após milhares de anos, para salvar o mundo da Longa Noite, batalhando contra os White Walkers. Ele seria, naturalmente, algum personagem do livro (a maioria acredita que Daenerys ou Jon Snow).

Por estes motivos, considero Game Of Thrones uma história altamente guiada pelo mundo, embora haja, por trás da trama principal, da batalha contra os White Walkers, uma série de outras tramas, também muito importantes, que são mais centradas em personagens – como a decisão de Joffrey de decapitar Ned Stark. Ainda assim, mesmo no jogo de tronos de Westeros, Varys e Mindinho, ferramentas do autor para dar prosseguimento à trama, são os personagens que mais geram grandes modificações. Por isso, embora haja muitas outras coisas acontecendo ao mesmo tempo, Game Of Thrones se aproxima muito de O Senhor dos Anéis em alguns aspectos, já que tem, em sua trama principal, um arco de aventura épico, intrinsecamente guiado pelo mundo e pela mitologia criada por Martin.

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14 Comentários:

Maria Eduarda

Dos dois só conheço Senhor dos Anéis, mas gostei de saber dos jeitos de montar uma historia

Leandro Freire

No primeiro livro de As Crônicas de Gelo e Fogo, temos uma impressão de que a trama gira em torno dos personagens, uma vez que a magia é quase inexistente e que traições, politicagens e acordos são bem definidos.

No entanto, no decorrer dos livros seguintes, entendi que o mundo de Westeros é o personagem principal. O inverno é a peça-chave, porém algumas das características de cada família e seus lemas históricos e imutáveis começam a dar as caras. Os Greyjoy sempre foram um pouco excluídos e querem se aparecer, os Lannister sempre "pagam as dívidas", os Tully e os Stark sempre se preocupam mais com a honra do que todos os outros e por aí vai. Dentro dos escopos pré-determinados das famílias existem as diferenças de personalidade dentro de cada um deles, obviamente. [SPOILER] Por exemplo, Cersei e Jaime perdem as coisas mais valiosas que possuem (o filho e a mão da espada, respectivamente) e cada um reage de uma maneira (ela se torna mais vingativa e ele procura um novo sentido na vida). [/SPOILER]

Dentro disso tudo, a eterna disputa entre as famílias e a "mais eterna ainda" disputa entre os deuses e as crenças, nos faz crer que estamos acompanhando um pequeno trecho de uma história que sempre foi sangrenta e cheia de grandes atos. Talvez o que estamos acompanhando nem seja as coisas mais grandiosas que estamos vendo em Westeros, pois tudo dá a entender que esta região está em decadência há muitos anos.

Assim, considero realmente que o personagem principal da trama é Westeros e como as famílias, cada uma com seu estilo de vida e modo de pensar reagem diante de cada situação.

Ótimo texto que pode render mais aprofundamentos no futuro.

Leonardo Schabbach

Sim. Também considero que o Martin está mais preocupado em contar a história de Westeros. E mais agora pro final, vemos que, aparentemente, alguns mitos e lendas, assim como religiões, devem se confrontar, dando uma inclinada bem mais forte mesmo pra uma história world driven e de épico de fantasia.

Aliás, esse detalhamento grande do Martin me fará criar mais pra frente outra postagem sobre ele. Pra mostrar aí algumas chaves pro sucesso dele e do Tolkien

Isie Fernandes

Oi, Leo.

Não li nenhum dos dois, mas achei interessante a sua explicação. Era algo que eu desconhecia.

Beijos!

Leonardo Schabbach

É. Nem todo mundo nota. É algo que gosto muito de observar. E nos faz pensar na hora de escrever nossos próprios mundos.

Anônimo

Muito bem observado,já li o 5º livro,e sabe...muita coisa passa "batido" rs. Excelente
Faz outras postagens referentes a série:As crônicas de gelo e fogo!

Leonardo Schabbach

Posso fazer. Tenho umas pensadas sobre mitologia de senhor dos anéis. E uma sobre GOT e Senhor dos Anéis. Tenho lido muitas das teorias sobre GOT também. Podem valer postagens.

Danilo Moisés de Mendonça Pereira

Ótimo post! Com respeito a ASOIAF tô mais intrigado em ver como o Martin vai entrelaçar a ameaça do sobrenatural com as intrigas políticas do que propriamente com o final, e em como a HBO pretende adaptar isso.

Leonardo Schabbach

Sim. Eu realmente estou curioso pra saber como ele vai lidar com isso tudo, principalmente no livro. Ele criou algo muito, muito grande, com muiiito personagem. Quero ver como vai conseguir fechar a coisa toda com os White Walkers

Anônimo

Muito interessante essa sua colocação. Olhando desse ponto de vista dá pra se ver claramente que Martin está realmente contando a historia de um lugar que em outros tempos foi muito importante e grandioso. Toda essa trama pode até mesmo ter seu fim com uma Velha Ama contando essa longa Historia para um moleque qualquer deitado em uma cama com um pouco de insonia.

Maria Lucia Trejo

Este livro conta uma história extraordinária, por isso quando soube que estrearia Game Of Thrones soube que devia vê-la. Gostei muito do #GameOfThrones considero que a historia foi bem narrada pelos diretores. Li os livros e encantaram-me, vejo a série e encanta-me.

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