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O mito nos Reality Shows

em 23/07/2009.
Observação: este é um trecho de um artigo meu, é uma parte que achei bem atual e também interessante.

Na modernidade os indivíduos liam livros de antropologia para conhecer a cultura de determinado local, aprender os seus costumes e ouvir as suas histórias. Este era um interesse de fato pelo real, pela realidade daquele povo. A curiosidade por conhecer as particularidades da cultura do outro era o que impulsionava o indivíduo moderno; a vontade de conhecer o mundo, de desbravá-lo: a busca pela verdade, única e imutável.

Hoje, entretanto, quando um nordestino, por exemplo, entra na casa de um show como o Big Brother, ninguém está interessado em observar através dele a cultura do nordeste. As pessoas querem saber o que ele fará ali dentro, que tipo de personagem irá representar, se será bom ou mal, se ficará ou não com alguém. Ou seja, todo o significado real que a cultura nordestina tem é jogado fora, porém o signo do nordestino continua presente. Ele acaba sendo reconstruído, integrado a novos significados; significados que serão absorvidos pelos indivíduos que acompanham o programa. Este é o mito do qual fala Roland Barthes.

A grande questão é que em uma sociedade em que os indivíduos se vêem perdidos, desprovidos de qualquer projeto coletivo maior a seguir (como foi o Estado e a política), este mito se torna ainda mais perigoso. Como já explicitado, os Reality Shows, assim como os produtos ficcionais em geral, tornam-se um abrigo no mundo pós-moderno, um lugar no qual as certezas podem existir com toda a sua potência. É por isso que as pessoas assistem a esses programas, para poderem se sentir, ao menos por algum tempo, em um mundo em que não há o espaço para dúvida; um lugar em que aquilo que é certo e errado tem definições claras.

O problema é que, uma vez tomando este espaço de lugar das certezas, programas como os Reality Shows se transformam em grandes armas ideológicas. Se as regras comportamentais presentes em tais programas são copiadas e importadas por cada indivíduo, a própria sociedade se modifica ou se petrifica conforme estas regras. Basta uma olhada mais meticulosa para grande parte dos Reality Shows para se perceber que, de uma maneira geral, eles apenas reproduzem a ideologia dominante. Os homens e mulheres sempre devem exibir determinados padrões de beleza, os participantes favoritos em geral possuem uma forte ligação com a família e etc...

Os Reality Shows aparecem, portanto, como grandes disseminadores de mitos, o que logicamente os torna também grandes armas ideológicas na luta por hegemonia. Como todo o mito, são também alienantes, pois retiram dos signos toda a sua história e todo o seu significado para integrarem a eles um significado novo, mais adaptado às vontades das classes dominantes.


Rapidinha - Um link não relacionado ao post, mas para uma postagem bem legal sobre o ato de escrever que contém entrevista com Raimundo Carrero. Vale a pena checar. É só clicar aqui.

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