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Entrevista com Paulo Henriques Britto

em 9 de set de 2009.

Coloco aqui a entrevista que Paulo Henriques Britto me concedeu por e-mail. Agradeço também por sua disposição em me atender rapidamente e pelo cuidado que teve ao responder as perguntas.

Paulo Henriques Britto é, em minha opinião, um dos melhores poetas contemporâneos. Eu conheci a sua obra na FLIP 2005 e, desde então, virei leitor assíduo. Gosto muito da forma como ele trabalha as palavras e também da maneira como "arquiteta" muitos de seus poemas. Para quem não sabe, ele é também um dos mais premiados poetas brasileiros. Em 2004, recebeu o Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira e o Prêmio Alceu Amoroso Lima pelo seu livro "Macau". Ainda no mesmo ano, conquistou o segundo lugar no Prêmio Jabuti (categoria Contos & Crônicas) pelo livro de contos "Paraísos Artificiais". Conquistou também o Prêmio Alphonsus de Guimaraens na categoria Poesia pela obra "Trovar Claro", em 1997; o Prêmio Paulo Rónai na categoria Tradução de Autores Estrangeiros para o Português da obra "A mecânica das águas", de E. L. Doctorow, em 1995; e mais recentemente (2007) o Prêmio Alphonsus de Guimaraens pela segunda vez, na categoria poesia, pelo livro "Tarde", que também conquistou o terceiro lugar no Prêmio Jabuti.

Como já devem ter notado, Paulo Henriques Britto é também tradutor (já traduziu 98 livros). Além disso, ainda é professor de graduação e pós-graduação na PUC-RIO, onde desenvolve linhas de pesquisa sobre poesia brasileira contemporânea e tradução poética.

Acho que todos deveriam conferir o seu livro "Macau", até pelo prêmio que recebeu. Mas o meu favorito é o "Trovar Claro" (você pode conferir um poema do livro "Trovar Claro" na postagem "Como escrever bem poesia?"). Enfim, confiram a entrevista:



Você é um dos poetas brasileiros mais aclamados hoje pela mídia e pela crítica, tendo recebido diversos prêmios literários. O que acha que foi essencial para todo esse sucesso?

R: Muito obrigado pela avaliação. Bem, ninguém escreve poesia pensando em ganhar prêmios ou dinheiro, e sim, no máximo, em ser lido, possivelmente por mais de cinquenta pessoas e por mais de quinze minutos. Não sei se vou conseguir isso, e também não sei que tipo de resposta dar a essa pergunta. O que posso dizer é que só publico os poemas que me parecem os melhores de que sou capaz; na dúvida, é melhor engavetar.
Ser reconhecido pelos críticos e pela mídia ajuda na conquista de novos leitores?

R: Claro, pois é a praticamente a única publicidade que se faz dos livros de poesia — isso e a conquista de um prêmio.
Como você define a sua poesia? Quais as suas visões estéticas sobre o fazer poético?

R: A meu ver, a poesia que escrevo é muito marcada pelas vivências da minha geração. Minha formação literária se deu sob o impacto direto das vanguardas de meados do século XX, num momento em que os mestres do modernismo estavam sendo definitivamente canonizados. Ao mesmo tempo, o impacto da música popular dos anos 60 tornava respeitável de novo o uso do verso, da rima, da métrica, das formas fixas, de todas essas coisas que as vanguardas haviam supostamente matado e enterrado.
Vejo a poesia como uma forma de arte que tenta extrair todos os recursos da palavra — fonológicos, sintáticos, semânticos, prosódicos. A meu ver, a ideia é tentar fazer com palavras o que os músicos fazem com as notas musicais, tocar com palavras, por assim dizer, e ao mesmo tempo dizer com palavras, tal como fazem os prosadores.
Como acontece para você o processo de criação literária? Você possui algum tipo de ritual ou método? Costuma planejar o poema antes de escrevê-lo?

R: Não tenho nenhum método. O ponto de partida mais comum é alguma coisa que li — um verso, um trecho de letra de música ou mesmo uma passagem de prosa — mas pode ser um ritmo, mas raramente uma imagem. Ou seja: quase sempre parto de palavras, um trecho de frase, um sintagma. Normalmente a forma se define ainda no começo do processo — quando ainda estou nos primeiros versos já sei se vai ser um soneto, uma sucessão de estrofes em redondilha maior, um poema em verso livre. Mas como entre o verso inicial e a forma final do poema podem se passar até anos, muita coisa pode acontecer, e a forma inicial pode acabar sendo substituída por outra.
João Cabral costumava dizer que seus poemas eram feitos de 90% de transpiração e 10% de inspiração. Como você vê a questão da “inspiração” de que tanto se fala na poesia?

R: Ué, essa frase não é do Picasso? Bom, seja quem for o autor, faz sentido. “Inspiração” é isso: acaso, irrupção do inconsciente, o que não é planejado. Apenas dez por cento do total, mas é claro que esses dez por cento são importantíssimos.
(Procurei no google para saber de quem era a frase e achei resultados interessantes. Picasso disse que compor é 90% transpiração e 10% inspiração. Thomas Edison que o gênio é feito de 1 % de inspiração e 99% de transpiração. Não sei se João Cabral citava Picasso ou se simplesmente pensou da mesma forma, mas também seguia a linha de que o seu processo poético ocorria mais por meio do transpirar)
Muitos poetas hoje mostram um certo desdém em relação a utilização das formas tradicionais de poesia. Já os seus poemas costumam se aproveitar muito delas, tanto no que se refere à métrica quanto à rima. Como você vê esta questão?

R: Hoje em dia não vejo esse desdém, não. Há trinta, quarenta anos, sem dúvida, mas isso mudou. Hoje em dia, de modo geral o poeta que usa basicamente verso livre tem consciência de que o verso livre é apenas mais uma forma tradicional, que aliás já tem mais de 150 anos de existência — nem melhor nem pior que as outras. Pessoalmente, acho o verso livre uma das formas mais difíceis, e tenho uma admiração imensa pelos poetas que o utilizam de maneira magistral.
Quais os poetas que mais o influenciaram?
R: Muita gente. Em inglês — a língua em que descobri a poesia, por volta dos 12 anos, quando morava no estrangeiro — Shakespeare, Whitman e Emily Dickinson num primeiro momento, Eliot e Stevens um pouco depois. Em português, acima de tudo Pessoa, o poeta que mais me marcou de todos, mas também Bandeira e Drummond, e um pouco mais tarde Cabral, mais ou menos na época em que descobri Stevens. A partir daí — por volta dos vinte e poucos anos — li muitos outros poetas e aprendi muito com eles, mas esses que mencionei, os que descobri entre os 12 e os vinte e poucos anos, foram os que me marcaram mais. Eles e também os grandes cancionistas dos anos 60 — Caetano, Chico, Gil, Dylan, etc.



Em seu poema "Um pouco de Strauss", do livro "Trovar Claro", você faz uma crítica ao excesso de subjetividade na poesia (que leva ao egocentrismo). Há também quem critique o excesso de objetividade, de falar apenas de coisas concretas. O que você acha que é necessário para encontrar um equilíbrio entre o subjetivo e o objetivo nos poemas?

R: Bem, o poema que você menciona parece ao mesmo tempo criticar e dizer, mais para o final, que é inevitável, não é? O ideal é encontrar um certo equilíbrio — melhor ainda, como dizia Eliot, tentar escrever sobre coisas que sejam os “correlativos objetivos” de estados mentais.


A poesia é uma das formas literárias mais populares na internet. Existem milhares de blogs e sites que divulgam poesias. Você acompanha esta produção poética espalhada pelo meio virtual? Tem alguma concepção formada sobre ela?

R: Não, realmente não tenho acompanhado blogs. Mal consigo dar conta dos livros que leio por obrigação e por interesse. O tempo é escasso.

Que poetas da língua inglesa você sente falta de ver traduzidos no Brasil?

R: Muitos. Para só citar os mais recentes que me ocorrem no momento, faltam boas antologias de James Merrill, Philip Larkin, Frank O’Hara e John Ashbery. Se formos pensar no passado, aí é poeta que não acaba mais. A poesia em língua inglesa é riquíssima.

2 Comentários:

Anônimo

sinto-me um pouco envergonhado em dizer isso, mas não conhecia o poeta. lendo o que ele falou fiquei interessado em conhecer um pouco melhor, o poema do outro post é muito bom.

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