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Conto - O segredo de Vinícius

em 27 de out de 2009.

Vinícius era sempre expulso de sala. E sua mãe toda a vida reclamava: meu filho, você não tem caderno, não faz os deveres, veja só, desenhos e mais desenhos! Ela gritava enquanto apontava para as folhas inteiramente preenchidas pelo garoto com traços exatos, curvas perfeitas e milhares de truques de perspectiva.

Mas ninguém parecia ligar para a qualidade do que Vinícius desenhava: focavam-se nos desvios, sim, nos desvios de comportamento, como sempre faziam. Uma criança não pode se afastar dos padrões estabelecidos para a sua idade, precisa aprender da exata mesma maneira que seus colegas de escola ou será considerada um objeto estranho, uma fruta podre capaz de contaminar toda uma sexta de prodígios.

O que ninguém sabia era que Vinícius guardava um segredo: não via os traços da mesma maneira que as outras pessoas. Cada linha de um desenho para ele continha informações, ou melhor, um mundo que se abria em sua frente; os traços eram a chave para a sua memória, faziam-no reviver os momentos de modo muito mais intenso do que com qualquer outro tipo de anotação. Diante de uma imagem, Vinícius lembrava-se de tudo, Vinícius sabia. E, com as informações, criava e registrava o mundo por códigos secretos que somente ele podia ler. Mal sabiam os professores que, ao fazer desenhos mais cheios de detalhes, ele desenvolvia teorias tão complexas que só podiam ser codificadas em traços, curvas e imagens; não havia palavras que pudessem explicá-las, a lógica não as abrangia.

Aos poucos, Vinícius se adaptou, aprendeu a escrever longas dissertações em vez de resumir tudo em uns poucos traços. Sabia que precisava jogar de acordo com as regras da sociedade se quisesse sobreviver: tivera uma infância conturbada, marcada pela violência social. Os meninos de sua rua caçoavam dele, os pais e professores não conseguiam o compreender e, por isso, consideravam-no inapto.

Todos eles, entretanto, estavam enganados. Vinícius era muito melhor do que eles; sabia de coisas que eles sequer imaginavam. E com o passar dos anos, ele cresceu e aprendeu a usar o seu dom em benefício próprio. A única vez que teve dúvidas na vida foi quando teve de decidir entre publicidade e arquitetura.

No final das contas, tornou-se arquiteto: imaginou que poderia trazer o bem-estar às pessoas utilizando o seu dom. E realmente conseguiu. Por muitos anos, projetou prédios magníficos, colocou em cada traço das plantas que desenhava secretas mensagens de sucesso e felicidade. Quem morava em suas construções tinha sempre uma vida boa, sem estresse, sem inveja, sem grande parte das doenças que nos impõe a convivência nas grandes metrópoles.

Mas a vida nunca fora fácil para Vinícius, e não seria agora que ele poderia finalmente relaxar. Assim que terminou a construção de seu décimo prédio, veio a notícia: ele estava sob investigação. A sociedade inteira estava em alvoroço. Como podiam as pessoas que moravam nos prédios projetados por ele viver de maneira tão feliz? O que ele fazia para que isso pudesse acontecer?

As pessoas ficaram com medo, pois é assim que acontece, nós temos medo daquilo que não conseguimos compreender. E o medo nos torna estúpidos, arrogantes. Acusaram Vinícius de bruxaria, sim, muitos anos após a inquisição tal punição voltou a ser considerada. Não havia outra explicação. Só poderia ser algum tipo de poder maligno que tornava as pessoas tão felizes; tinha de ser algum tipo de ilusão.

E foi assim que, aos 29 anos, Vinícius teve decretado o seu fim: foi condenado a queimar na fogueira. Quem sabe não teria se saído melhor se tivesse optado pela publicidade?

14 Comentários:

Michelle

"A pessoas ficaram com medo, pois é assim que acontece, nós temos medo daquilo que não conseguimos compreender." Isso é muito o que a gente vive hoje, com relação a qualquer coisa, qualquer corpo estranho. Não paramos para escutar, se nos parece diferente desligamos o rádio, viramos a cara e permanecemos os mesmos...

Muito bom, Leo... Muito bom mesmo...

O bEM viVER

Olá, Leo, prazer.

Li seu conto...confesso que esperei outro final. Claro, sempre esperamos um final de acordo com o que nos convêm.
Mas é que eu sou professora, sabe...Atualmente na coordenação, estamos dia d dia, minutos a minuto, nos deparando com alguns vinícius. Mas sabe de outra coisa? Os professores não têm culpa se não "entendem". As vezes deparamos com um Vinícius, encaminhamos para a equipe de inclusão, mas pára por ai, porque muitas vezes marcamos com os pais (que convivem de perto com a criança) e eles não vão ou não levam os filhos às consultas. E o tempo passa...e vai "empurrando pro próximo ano".
Alguns Vinícius ficam anos na mesma série. Mas é isso, o que não podemos é cruzar os braços. Precisamos ter esperança.

Até mais,

Lena

Leonardo Schabbach

Bem, o Vinícius do texto em si, é alguém ainda mais especial, né, já que o texto é mais para o lado do fantástico. Mas no aspecto em que lhe chamou a atenção, até por ser professora, a mensagem é justamente essa, de que temos de aprender a lidar com as diferenças, coisa que raramente sabemos, coisa que gera brigas, guerras, preconceitos e etc... Quem nos garante que os Vinícius dos quais você falou não têm simplesmente uma maneira diferente de absorver as coisas, de aprendê-las, em vez de serem apenas incapazes como muitos pensam.

E obrigado pela participação, espero que tenha gostado do blog!

Abraço,
Leo.

Anônimo

Muito bom o conto! Como temos Vinícius neste Brasil mundo! E comos aber lidar com eles! É aprender a aprender! Abraços. Solidade

Camila Alves

Nossa. Adorei o Vinícuis.
E adorei o jeito de retratar o que acontece na nossa sociedade. O fato é que as pessoas têm medo de ser feliz. Eu também tenho.
E também não estamos acostumados com a felicidade e outras coisas boas.
Por isso 'matam' os Vinicius da vida.

Parabéns.

SileneMaximus

Leo, vc acaba de me ajudar. Tenho um aluno que chama Vinicius que esta com problemas serios. Vou imprimir pra ele ler.

Leonardo Schabbach

Fico feliz mesmo em ter ajudado. Só espero que ele não fique assustado com o final não tão feliz, hehehe.

Márcia Luz

Tão estranhos os mecanismos de identificação! Como o seu "fantástico" é tão real! Meu filho mais velho, excelente aluno, resolveu desistir da escola - ele está (estava) no 2º ano do Ensino Médio. Eu não esperava por esse "desvio de comportamento". Ele quer agora só as aulas de música e de desenho. E eu estou tentando aprender com ele "teorias tão complexas que só podiam ser codificadas em traços, curvas e imagens; não havia palavras que pudessem explicá-las, a lógica não as abrangia." Como mãe, com o coração nas mãos, não querendo vê-lo a caminho da fogueira. Mas sabendo que há experiências necessárias para cada caminho escolhido.

Leonardo Schabbach

Valeu. E realmente é esta a idéia. Uma ficção que, por mais que seja fantástica, nos traga de volta à realidade e nos faça pensar ainda mais sobre ela. Este é o objetivo que tentarei alcançar com a antologia de contos.

Luiz dreamhope

Perfeito esse conto, Léo. Gostei bastante e compreendi a temática dos contos da antologia.
Estou com um aqui, não sei se encaixa, mas vou mandar assim mesmo.
Vou tentar escrever outros.

Angela Nadjaberg Ceschim Oiticica

Adorei o conto. O personagem é lindo.


Leo, adorei este seu comentário sobre a questão de se ser diferente:

"Bem, o Vinícius do texto em si, é alguém ainda mais especial, né, já que o texto é mais para o lado do fantástico. Mas no aspecto em que lhe chamou a atenção, até por ser professora, a mensagem é justamente essa, de que temos de aprender a lidar com as diferenças, coisa que raramente sabemos, coisa que gera brigas, guerras, preconceitos e etc... Quem nos garante que os Vinícius dos quais você falou não têm simplesmente uma maneira diferente de absorver as coisas, de aprendê-las, em vez de serem apenas incapazes como muitos pensam."

Leonardo Schabbach

Legal, legal. É basicamente um pouco disso que quis trazer no conto mesmo, além de muitas outras coisas, claro, mostrar que às vezes julgamos errado alguma coisa simplesmente por desconhecermos, por não pararmos para tentar compreender aquilo ou aquela pessoa. Às vezes é preferível julgar e se afastar a de fato se aproximar e compreender, ainda mais nesses tempos velozes de hoje.

Cilas Medi

Irônico o final. Quem sabe a publicidade? Será que eles tem traços, curvas e meandros que nos enganam e nos fazem felizes. Afinal os produtos são sempre excelentes, de ótima qualidade e nunca fazem mal, só o bem, apesar de todos os conteúdos químicos. Parabéns pelo conto.

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