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Singularidade

em 30/09/2009.
| Comentários: (5)
Américo descobriu que o tempo é infinito. Andava pelo templo de sua vila quando finalmente compreendeu: o tempo é infinito, para trás e para frente. E se assim o é, ele era um mero refém do mundo. Não podia fazer algo de novo, tudo já tinha acontecido. Sim. Tudo já tinha acontecido. Num tempo infinito para trás e para frente todo e qualquer acontecimento, em algum período da história, já se realizara. Não podia inovar, não tinha escolha. A ele restava sentar e esperar que o mundo passasse.

Voltou para casa e se acomodou em uma cadeira próxima à janela. Se fora condenado a ser um mero espectador da infinitude do mundo, pelo menos queria se reservar o direito de o fazer confortavelmente. Com olhos atentos, observava as pessoas da vila e as pequenas casas de madeira. Triste era a finalidade do homem, escravo do tempo, arrancado de toda a sua singularidade para viver a reencenação de um momento passado e indeterminável.

Américo descobrira o segredo, estava decidido a nada mais fazer. De nada adiantava se esforçar para tomar suas escolhas se elas um dia já tinham sido tomadas... sabe-se lá quando e sabe-se lá quantas vezes.

Nos dois primeiros dias, ficou parado, imóvel em sua cadeira, observando as coisas passarem a sua frente. No terceiro, viu os homens da vila saírem para caçar; uma forte chuva começou a cair. Ele permaneceu impassível, era um mero espectador. Um estrondo lhe chamou a atenção. No fundo da vila, uma das pequenas casas de madeira fora atingida por um raio, pegava fogo; nem a chuva forte era capaz de apagar as chamas.

Uma mulher saiu da casa aos gritos, chorava. Ele continuava a observar. A mulher se ajoelhou em frente à casa em chamas, berrava em desespero: sua filha pequena ficara presa lá dentro. Ele vacilou, será que devia se mexer? Será que deveria agir? Se o fizesse trairia sua mais recente descoberta. Se agisse estaria, mais uma vez, a repetir algo que já acontecera. Ele queria se livrar do mundo, desfrutar de uma liberdade real, e para isso não podia se importar com o que acontecia bem a sua frente. Todas as coisas para ele precisavam ser descartáveis e descartadas. Por outro lado, não agir também seria reencenar. E o pior, exerceria o papel de vilão. A escolha era difícil: era por isso que preferia as comédias.

Ele se levantou, saltou pela janela e correu até a casa. Este ato era ele quem definia, por mais que se tratasse de uma peça já tantas vezes reproduzida. Ele preferia ser o herói. Entrou na casa, enfrentou as chamas e salvou a criança. A mãe ainda chorava quando teve novamente sua filha em seus braços. Muito emocionada, ela o beijou: eles se apaixonaram.

Alguns dias depois, Américo se casou. Estava feliz, imortalmente feliz. No final da cerimônia, ainda deixou escapar um sorriso irônico e satisfeito. Sua felicidade naquele momento era apenas sua, era verdadeiramente singular, não podia ser repetida, nem reencenada, por mais infinito que o tempo fosse.
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Augusto dos Anjos - caso e poemas

em 29/09/2009.
| Comentários: (3)
Estava relendo o livro Eu e Outras Poesias, que contém a obra completa de Augusto dos Anjos, quando esbarrei em um poema muito interessante. O poeta do hediondo é um soneto em que autor revela ao leitor fortes características de sua obra: a sua opção por palavras incomuns à poesia, palavras que chocam, que até mesmo causam "nojo", e o tratamento muitas vezes estranho, com certa frieza excessiva, que dá a suas temáticas; como quando fala de seu filho morto e também na famosa passagem "Se a alguém causa inda pena a tua chaga, / Apedreja essa mão vil que te afaga, / Escarra nessa boca que te beija!". Inclusive, tais características levaram Olavo Bilac a fazer um comentário peculiar sobre Augusto dos Anjos. Explicarei melhor a história após o poema.


O poeta do hediondo

Sofro aceleradíssimas pancadas
No coração. Ataca-me a existência
A mortificadora coalescência
Das desgraças humanas congregadas!

Em alucinatórias cavalgadas,
Eu sinto, então, sondando-me a consciência,
A ultra-inquisitorial clarividência
De todas as neuronas acordadas!

Quanto me dói no cérebro esta sonda!
Ah! Certamente, eu sou a mais hedionda
Generalização do Desconforto...

Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto!


Comentário: Todos sabemos que Olavo Bilac era um poeta parnasiano, que logicamente presava pela beleza da forma nas poesias, mas isso incluía também a beleza das palavras. Embora Augusto dos Anjos mostrasse grande habilidade formal, sua escolha de palavras e a abordagem que dava a seus temas eram totalmente opostas à arte parnasiana. O próprio poeta assume essa sua iconoclastia no poema Vandalismo. Eis então a história que prometi - eu já a tinha escutado e consegui uma descrição melhor dela na internet.

“Dias depois de sua morte, ocorrida em Leopoldina, Órris Soares e Heitor Lima caminhavam pela Avenida Central e pararam na porta da Casa Lopes Fernandes para cumprimentar Olavo Bilac. O príncipe dos poetas notou a tristeza dos dois amigos, que acabaram de receber a notícia. – E quem é esse Augusto dos Anjos – perguntou. Diante do espanto de seus interlocutores, Bilac insistiu: Grande poeta? Não o conheço. Nunca ouvi falar nesse nome. Sabem alguma coisa dele? Heitor Lima recitou o soneto Versos a um coveiro. Bilac ouviu pacientemente, sem interrompê-lo. E, depois que o amigo terminou o último verso, sentenciou com um sorriso de superioridade: - Era esse o poeta? Ah!, então, fez bem em morrer. Não se perdeu grande coisa.”

Fonte: Blog Panorama


Bem, parece que Olavo Bilac estava errado, não é mesmo? Segue aqui o poema citado na história.


Versos a um coveiro

Numerar sepulturas e carneiros,
Reduzir carnes podres a algarismos,
Tal é, sem complicados silogismos,
A aritmética hedionda dos coveiros!

Um, dois, três, quatro, cinco... Esoterismos
Da Morte! E eu vejo, em fúlgidos letreiros,
Na progressão dos números inteiros
A gênese de todos os abismos!

Oh! Pitágoras da última aritmética,
Continua a contar na paz ascética
Dos tábidos carneiros sepulcrais

Tíbias, cérebros, crânios, rádios e úmeros,
Porque, infinita como os próprios números
A tua conta não acaba mais!

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4

Contos de Carlos Drummond de Andrade

em 28/09/2009.
| Comentários: (4)
Posto hoje um conto de Carlos Drummond de Andrade que achei simplesmente fantástico. Vale lembrar que eu sou um apreciador assumido de histórias que parecem um pouco sem pé nem cabeça, que sem problema algum ignoram nosso senso de realidade e criam um universo próprio, mas que são capazes de nos fazer refletir sobre muita coisa. Coloco hoje aqui "A beleza total", do livro Contos Plausíveis. Apreciem, pois vale a pena.


A BELEZA TOTAL

A beleza de Gertrudes fascinava todo mundo e a própria Gertrudes. Os espelhos pasmavam diante de seu rosto, recusando-se a refletir as pessoas da casa e muito menos as visitas. Não ousavam abranger o corpo inteiro de Gertrudes. Era impossível, de tão belo, e o espelho do banheiro, que se atreveu a isto, partiu-se em mil estilhaços.

A moça já não podia sair à rua, pois os veículos paravam à revelia dos condutores, e estes, por sua vez, perdiam toda a capacidade de ação. Houve um engarrafamento monstro, que durou uma semana, embora Gertrudes houvesse voltado logo para casa.

O Senado aprovou lei de emergência, proibindo Gertrudes de chegar à janela. A moça vivia confinada num salão em que só penetrava sua mãe, pois o mordomo se suicidara com uma foto de Gertrudes sobre o peito.

Gertrudes não podia fazer nada. Nascera assim, este era o seu destino fatal: a extrema beleza. E era feliz, sabendo-se incomparável. Por falta de ar puro, acabou sem condições de vida, e um dia cerrou os olhos para sempre. Sua beleza saiu do corpo e ficou pairando, imortal. O corpo já então enfezado de Gertrudes foi recolhido ao jazigo, e a beleza de Gertrudes continuou cintilando no salão fechado a sete chaves.


Comentário: Como disse mais acima, adoro este tipo de conto. Assim que comecei a ler este, achei espetacular. É uma maneira muito diferente de representar as coisas que eu, particularmente, acho muito interessante. Este é um dos quase 150 contos do livro. Se quiserem saber um pouco mais sobre esta obra em particular, podem conferir uma postagem mais antiga em que falo sobre o livro "Contos Plausíveis" aqui no blog. Reparem também no estilo narrativo de Drummond. Vejam como a sua prosa em muito é influenciada pela poesia: experimentem ler o texto em voz alta e verão do que estou falando.

Comentário 2: Continuo sem internet e correndo para casa de amigos para conseguir colocar as postagens no ar; hoje tive que recorrer a uma lan house. Melhor nem contar o que a net fez para não tirar a atenção do texto do Drummond, mas, sinceramente, eles foram patéticos, e tenho certeza de que esses "vacilos" que deram e que deixaram meu modem novo sem funcionar em muito tem a ver com fato de que vieram aqui trocar o modem por estarmos cancelando um dos serviços deles: o NetFone. Enfim, ridículo.
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3

As surpresas narrativas

em 26/09/2009.
| Comentários: (3)
Nota: Eu iria colocar esta postagem aqui ontem, mas o pessoal da net fez um monte de besteira quando veio trocar meu modem e talvez eu fique até segunda sem internet. Agora, posto da casa de um amigo. Espero que desfrutem o texto e que ele traga discussões.

Hoje faço uma postagem baseada num artigo que li do Raimundo Carrero no Jornal Rascunho. Uma vez mais, trago à discussão a oposição entre uma literatura mais voltada para a crítica e uma literatura que é consumida pelo que chamam de "massas". No artigo, Raimundo Carrero fala sobre a surpresa na narrativa, atenta para o fato de que cada vez menos os autores têm como nos supreender através do conteúdo narrativo e aponta para uma surpresa derivada do próprio texto, dos recursos estilísticos.

Eu concordo com ele. Inclusive é incrível poder ler textos que sabem utilizar este recurso - Guimarães Rosa sabia fazer isso como ninguém. É uma surpresa de alto valor literário. Para exemplificar melhor, irei retirar do artigo do Raimundo Carrero a citação de um trecho de "Perdoando Deus", conto de Clarice Lispector.

"Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo. Por puro carinho mesmo, sem qualquer prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe... E foi quando quase pisei num enorme rato morto. Em menos de um segundo, eu estava eriçada pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-me toda em pânico, e controlava como podia o meu mais profundo grito".

Este é um trecho que, ao menos a mim, incomoda, provoca. Notem como a autora trabalha, por intermédio do estilo narrativo, todo um clima de conforto materno, cria um ambiente agradável e, então, muda drasticamente a situação através do uso de palavras fortes, da mudança da própria "voz narrativa". Como nos diz Raimundo: "Clarice preparou a surpresa tornando-se carinhosa e, de certa forma, divina, por assim dizer. Criou um efeito de ternura e afeto, para só depois levar o terrível ao leitor".

Acho que com este exemplo fica claro o que significa esta surpresa derivada do trabalho com o texto. Entretanto, uma vez mais, tal observação de Raimundo Carrero me faz pensar na relação entre a literatura mais artística e a chamada literatura comercial. Isso porque, por mais que os escritores mais conceituados e também leitores mais sofisticados estejam abandonando a surpresa nervosa, aquela que vem da curiosidade de saber o que irá acontecer, ela ainda está de fato muito viva. Todos os últimos "super best-sellers" mundiais trazem este tipo de surpresa: os livros de Dan Brown, Harry Potter e etc... todo mundo quer saber como vai terminar a história.

Na minha opinião, o próprio Raimundo Carrero faz uma observação neste sentido, quando diz que a "surpresa nervosa", é claro, ainda existe e não pode ser ignorada. Afinal, é o que a realidade nos mostra. Não há como ignorá-la quando vemos livros alcançando um sucesso tão grande se baseando apenas nela, se baseando apenas em uma boa trama, sem tanta complexidade linguística e trabalho literário. Isso significa que o leitor quer sim ser surpreendido, ter a curiosidade aguçada, ter aquela vontade de saber o que vai acontecer, e não apenas se deleitar com as pequenas surpresas narrativas, que tem, claro, um valor literário maior e, até mesmo por isso, são menos valorizadas pelas massas, que muitas vezes não as captam.

Creio que o equilíbrio seja peça-chave aqui novamente. Não devemos descartar a surpresa nervosa e nem depreciar as obras que se baseiam nela. Criar uma boa trama, uma história boa o suficiente para provocar estas sensações, é um processo que certamente deve ser valorizado. Numa época em que já se viu e leu quase de tudo, ter a capacidade de inventar algo que ainda surpreenda é uma tarefa extremamente complicada, algo que deve ser definitivamente creditado. Resta aos escritores definir o seu próprio estilo, seja equilibrando as duas supresas ou não. A própria Clarice Lispector é uma escritora que utiliza muito as pequenas surpresas narrativas e poucas vezes as surpresas nervosas das grandes tramas. Alguns desgostam de suas obras por isso, outros a veneram. Na minha opinião, quem escreve deve ser seu maior crítico e criar sua própria maneira de contar histórias. E cabe a nós, leitores, é claro, ler aquilo que gostamos.

O que quero dizer, portanto, é que a capacidade de inventar uma grande trama, em geral, não é valorizada pela crítica - e há realmente algum sentido nisso, uma vez que o trabalho literário com a palavra independe da história que está se contando. Por outro lado, é notável que boa parte das grandes obras da literatura mundial tem como seu ponto mais forte justamente uma idéia original, como vemos no caso de "Dom Quixote", "A Divína Comédia" e, mais recentemente, "A metamorfose", "O Aleph" e o próprio "Ensaio sobre a cegueira" do Saramago. É claro que a habilidade literária em todas essas obras também é impressionante, mas o que mais as marca é de fato a sua originalidade. Por isso, não devemos desprezar a já tão surrada surpresa nervosa, mas pensar em uma forma de utilizá-la com precisão.
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Dicas para blogs, Submarino e mais

em 25/09/2009.
| Comentários: (0)
Esta postagem é para falar basicamente de três assuntos. 1) Sobre dois blogs que têm me ajudado muito a tornar o Na Ponta dos Lápis melhor, portanto postarei aqui uma homenagem a eles e incluirei o botão deles abaixo dos sites indicados - trata-se do Ferramentas Blog e do Dicas Blogger. 2) Para falar dos banners do Submarino que alguns de vocês devem ter notado por ai e explicar como a coisa funciona. 3) Para os informar sobre a promoção que farei do meu livro - você poderá receber em casa um exemplar com dedicatória de graça.

1) O talento e a dedicação são duas coisas que muitas vezes faltam no Brasil, especialmente a dedicação, até mesmo porque ela é raramente premiada e valorizada. Os donos dos dois blogs que agradeço hoje possuem ambas as virtudes, por isso darei a eles o destaque merecido. O Ferramentas Blog e o Dicas Blogger são lugares excelentes para aquele que quer melhorar o seu espaço virtual e oferecer uma melhor navegabilidade aos seus leitores. Sempre os visito para ver o que há de novo e venho por aqui aconselhar que todos aqueles que possuem um blog próprio também o façam.

2)
Os leitores mais assíduos devem ter notado que agora coloquei um Banner do Submarino abaixo dos títulos das postagens (quando elas estão abertas) e um botão quadrado na barra lateral da direita. Não tenho muitas pretensões de ganhar dinheiro blogando, mas conseguindo arrecadar uma quantidade significativa pelo Submarino e por outros meios, pretendo investir no blog, tanto em propaganda como em promoções. O que queria pedir em relação ao Submarino é: se você é um leitor do Na Ponta dos Lápis e já compra normalmente livros, cds e etc... pelo Submarino, peço que quando for comprar alguma coisa, entre no site por um dos banners do meu blog. Não custa nada e, caso você o faça, estará me ajudando com uma comissão. Aos que se despuserem a ajudar, fica aqui meu eterno agradecimento e também a promessa de tornar o Na Ponta dos Lápis ainda melhor.

3)
A noite de autógrafos do meu livro "A nova posição da ficção na pós-modernidade e a mídia" acontecerá no dia 13 de outubro, no Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, na Urca, de 18:30 às 21:30. Na próxima segunda-feira, farei uma postagem anunciando uma promoção. Irei sortear um exemplar (ou mais, caso tenhamos muitos inscritos) do livro com dedicatória. Portanto, fiquem ligados caso queiram garantir o seu.

Enfim, é isso. Hoje o dia será um pouco mais cheio, mas irei tentar postar aqui sobre a relação entre a surpresa nos textos narrativos, a literatura de massas e a literatura mais artística, uma postagem que foi inspirada por um texto que li do Raimundo Carrero no Jornal Rascunho, de Curitiba.
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Desencanto - poema de Manuel Bandeira

em 24/09/2009.
| Comentários: (2)
Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústica rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.


Comentário: Poema fantástico, não é mesmo? Bandeira realmente tem um jeito musical muito marcante, volta e meia também recorrendo às rimas. Acho que isso torna ele um poeta muito atraente, e talvez por isso ele seja um dos mais populares. Suas poesias - e esta não foge à regra - são excelentes de serem lidas em voz alta; são bonitas, leves e sinceras, sempre sinceras. Esta em particular trata de uma temática parecida com a obra Testamento que coloquei aqui na postagem Poemas de Manuel Bandeira, deixa clara a intensa preocupação que o poeta tinha com a morte por causa da doença que desde jovem o afligia (tuberculose).

- O poema acima foi retirado da obra "Antologia Poética", da editora Nova Fronteira. É um dos melhores livros de poesias que tenho.
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Poemas de Carlos Drummond de Andrade

em .
| Comentários: (20)
Nota: esta é uma postagem mais antiga que resolvi "ressucitar" por ter um conteúdo legal e ser de um período em que o blog não era tão visitado. Nela vocês poderão conferir dois poemas de Carlos Drummond de Andrade e um terceiro declamado pelo próprio poeta. E não se preocupem, hoje mais tarde ainda colocarei um do Manuel Bandeira por cá.

Seguem dois poemas de Drummond. Ambos são curtos. Escolhi exatamente por isso. Além de serem extremamente famosos, são curtos - e assumo, realmente tenho um certo apreço por este tipo de poema. Os dois aqui colocados evidenciam a grande qualidade do poeta: a sua capacidade de fazer poesias simples, porém ainda assim profundas e belas, com frases aparentemente comuns. Naturalmente, é justamente esta capacidade que o tornou quase unanimidade entre críticos e público - quase unanimidade, pois, como sabemos, toda a unimidade é burra. A postagem também inclui um áudio de Carlos Drummond de Andrade lendo uma de suas obras. Desfrutem!





O mundo é grande


O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.






Poesia


Gastei uma hora pensando em um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.





Carlos Drummond de Andrade declama poema





Rapidinha 1 - Sempre aconselho a quem gosta de Drummond comprar o livro "Farewell". Para mim é o melhor livro que se pode comprar do autor. Além de ter poemas que a maioria desconhece, há também os mais famosos. No geral acho que é o livro com os melhores poemas do autor. Vale a pena conferir!

Rapidinha 2 - Em breve, provavelmente semana que vem, tentarei fazer uma postagem grande sobre a Cecília Meireles, com poemas, links e comentários. Prometo que tentarei fazer isso, veremos se irei conseguir. Editado - Você já pode conferir uma visão sobre a obra de Cecília Meireles aqui.

Rapidinha 3 - Vocês podem estar interessados também em conferir alguns contos de Carlos Drummond de Andrade - aqui no blog sempre seleciono alguns, especialmente do livro Contos Plausíveis, que é excelente.

Rapidinha 4 - Confira no blog também alguns  poemas de Fernando Pessoa e uma postagem explicando um pouco mais sobre as características dos poemas de Manuel Bandeira.




Gostou do blog? Gostou dos textos? - o autor Leonardo Schabbach, que produz o conteúdo do Na Ponta dos Lápis lançou recentemente sua primeira obra literária, O Código dos Cavaleiros. Ajude-o a continuar produzindo! Informações sobre a obra (como comprar - autografada -, capítulos para degustação, capa, sinopse e muito mais) podem ser encontradas neste super hotsite (clique para acessar).

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7

Humanidade

em 23/09/2009.
| Comentários: (7)
Esta é mais uma poesia que coloco aqui um pouco receoso - e também curioso para saber o que vocês irão achar. A questão é que a escrevi hoje mais cedo e, ao menos para mim, é bem difícil determinar se um poema é realmente bom ou não logo que o faço. Se não gostarem dele, fica aqui um pedido de desculpas antecipado, hehe.

Humanidade

O ódio é um ode aos outros,
homenagem àquele que se odeia,
a valorização da imbecilidade alheia;
erro; equívoco;
criação.

O ódio não existe, não,
não é coisa do coração.
Não passa de uma qualidade besta,
um sentimento inventado na cabeça.

Portanto, dêem as mãos!
A humanidade só anda de mãos dadas,
assim não fosse, nós não teríamos mãos:
nasceríamos com dois pares de patas.
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3

Trailer do novo filme de Sherlock Holmes e mais informações

em 22/09/2009.
| Comentários: (3)
Eu sou um grande fã das obras de Sir Arthur Connan Doyle, o homem por trás de um dos mais conhecidos personagens da ficção mundial, nosso querido detetive Sherlock Holmes. Os livros foram tão populares e os contos tão bem feitos que muitas pessoas chegaram a realmente acreditar que Holmes existia, inclusive mandando milhares de cartas para onde ele supostamente morava.

Enfim, retornando ao assunto da postagem, todos sabemos que no próximo natal será lançado nos EUA (e no dia 8 de janeiro no Brasil) o novo filme do Sherlock Holmes, com o ator Robert Downey Jr na pele do detetive. Colocarei primeiro aqui algumas informações que colhi a respeito do filme e também o trailer para que vocês possam conferir. Depois, falarei um pouco da minha visão dos livros de Sir Arthur Connan Doyle e do que gostaria de ver na telinha.



Confira o trailer do novo filme de Sherlock Holmes






Segundo os produtores, o novo filme será o mais fiel até hoje entre todos já produzidos sobre o detetive. A versão propagada principalmente pelos filmes com o ator britânico Bassil Rathbone, em que Holmes aparecia como um "almofadinha" que usava praticamente apenas o seu intelecto e muito poucas vezes entrava realmente em ação, será totalmente modificada. A idéia do novo filme é justamente acabar com a imagem de cavalheiro britânico, transformando Sherlock Holmes em um legítimo herói de ação (como pode ser visto no trailer).

Outra grande prova desta mudança de objetivo foi a escolha de Guy Ritchie, conhecido por produzir histórias muito movimentadas, marcadas também por um ritmo bem acelerado, como diretor.

Para quem quer conhecer o detetive, há um livro da L&PM Pocket, "As Melhores Histórias de Sherlock Holmes" bem interessante. Custa menos de 10 reais e traz bons casos, como o que apresenta Irene Adler, personagem que será representada no filme por Rachel MacAdams (de "Penetras bons de bico").



Minha opinião sobre Holmes e o Trailer


Confesso que estou muito animado com a chegada do filme, mas também um pouco receoso. Acho importante que os produtores tentem resgatar um Sherlock Holmes que ainda não foi retratado na telinha. De interessante já aponto a importância que deram a características do detetive que foram esquecidas por boa parte das produções anteriores, como a sua grande habilidade como boxeador e também esgrimista.

Sim. Nos livros, Holmes é também um homem de ação. Ele luta boxe, corre atrás de bandidos e executa diversas proezas físicas. Esse é um ponto que será abordado por este novo filme, o que é altamente interessante. Entretanto, espero que não exagerem neste aspecto. As ações físicas cometidas por Sherlock em seus livros geralmente são pontuais, são importantes para fechar determinado caso, isto é, não acontecem a toda hora, muitas vezes sequer acontecem. Como trailers em geral são feitos para ajudar a "fazer vender" o filme, vou manter a esperança de que as cenas de ação sejam pontuais e importantes para trama, que o trailer as mostre o tempo todo por uma questão de marketing.

Outra coisa que me preocupa é que Holmes não chega a ser um herói, ele é apenas um detetive. Ele resolve casos, é uma máquina de solucionar mistérios, mas os casos nunca passam de casos: são roubos, assassinatos, leves conspirações. O que me preocupa é que, ao menos o trailer, vende a idéia de que o mistério a ser solucionado poderá salvar toda a Grã Bretanha, quem sabe o mundo. Não gosto desta abordagem. Como disse, Holmes não é um herói, é um detetive.

Também acho estranho terem o colocado como um mulherengo. Isso é tudo o que Sherlock não é. Ele é uma máquina extremamente racional, qualquer envolvimento amoroso, qualquer tipo de paixão é visto por ele como algo que pode prejudicar a sua capacidade de julgamento. Acho que o seguinte trecho de abertura do conto "Escândalo na Boêmia" (o caso que apresenta Irene Adler) deixa claro este aspecto:

"Para Sherlock Holmes, ela é sempre a mulher. Poucas vezes eu o ouvi referir-se a ela de outra maneira. Aos seus olhos, ela ofusca e predomina no seu sexo. Não é que ele sentisse uma emoção parecida com amor por Irene Adler. Todas as emoções, e esta em particular, eram abomináveis para a sua mente fria e precisa, mas extraordinariamente equilibrada. Ele era, na minha opinião, a máquina mais perfeita de raciocínio e observação que o mundo já viu - mas, como amante, ele estaria numa posição falsa. Nunca se referia às paixões sem zombar e escarnecer delas. Eram coisas admiráveis para o observador, excelentes para arrancar o véu que encobre as motivações e ações do homem. Mas para um raciocinador treinado, admitir essas intromissões em seu temperamento delicado e bem ajustado seria o mesmo que introduzir um fator perturbador que poderia pôr em dúvida todas as suas conclusões racionais".

Por fim, creio que devo elogiar a escolha de Robert Downey Jr para o papel principal. Embora ele não tenha as características físicas do Holmes do livro, a personalidade, o tom irônico e os trejeitos que o ator apresentou no filme O homem de ferro se encaixam perfeitamente com os do detetive inglês. Já o Jude Law como Watson, só vendo, pode dar muito certo ou muito errado.

E vocês? O que esperam do filme?
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Rapidinhas Literárias e Brumas de Avalon

em .
| Comentários: (0)
Observação: Se você tiver alguma postagem literária interessante do seu blog ou que tenha visto em algum lugar e quiser dividí-la conosco, mande um e-mail que eu faço outra postagem como esta no futuro.

- O Ofício Literário está promovendo um concurso literário desde o início de Setembro. Não percam o prazo, pois só será válido até o dia 30 deste mês. Como diz o blog: "Inspire-se em declaração de Lygia: 'Para Lygia, o escritor precisa cultivar três atributos: a insatisfação, a percepção, a intuição' (O Globo, 23 maio 2009)". Os contos considerados de qualidade e portanto vencedores do concurso ganharão livros como premiação.

- O blog Versos Brancos tem postado material coletado na Bienal 2009. Vocês podem conferir as leituras de grandes obras feitas por diversas personalidades (os áudios e vídeos foram colhidos no evento "Livro em Cena"). São leituras poemas de Mario Quintana. Confira aqui a Parte I e também a Parte II.

- O blog Fio de Ariadne postou o vencedor de seu concurso de contos. Entretanto, é válido entrar no blog e checar todos os anteriores, os contos finalistas eram muito bons.

- Tudo bem, não é um assunto literário, mas a postagem é espetacular. Garanto que quem ler dará boas risadas. É a postagem do Santas Sátiras, cheia de bom-humor e ironia, "Como criar um fiasco de blog".

- E agora aos interessados em um clássico da literatura, excelente mesmo: um amigo meu me alertou para um promoção incrível da coleção Brumas de Avalon. São todos os quatro livros por um excelente preço, mas muito baixo mesmo. Normalmente não vou ficar colocando promoções de livros por aqui, mas essa vale muito muito muito a pena (não vou colocar o valor aqui porque depois ele é modificado no site da submarino e eu me prejudico). Confiram aqui.
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Curiosos causos de grandes autores - Mario Quintana

em 21/09/2009.
| Comentários: (4)
Uma das coisas que constrói o ambiente literário é, sem dúvida, a personalidade dos grandes autores, as histórias que aguçam a curiosidade e a simpatia dos leitores. Eu, particularmente, gosto muito dessas histórias; conheço algumas, embora nunca se saiba o quão verídicas são. De qualquer maneira, há uma certa mística que elas trazem que é muito interessante. Inspirado numa postagem do blog "Café e Direito", que conta uma história bem legal do Rui Barbosa, resolvi postar "causos" curiosos dos grandes autores. Começo com Mario Quintana.

E começo com ele por ter comprado na Bienal 2009 um livrinho baratinho e muito interessante, chama-se "Ora Bolas - O humor de Mario Quintana". Nele, encontram-se 130 historinhas protagonizadas pelo poeta, sempre trazendo características peculiares. Normalmente, colocarei apenas uma história aqui por vez, mas hoje selecionei duas. Se você conhecer "causos" como esses dos grandes escritores, por favor, envie pelo formulário de contato. Desde já, agradeço.


BOATO

SAGUÃO do Hotel Presidente, na Avenida Salgado Filho, um dos tantos endereços do poeta. O dono do hotel encontra Mario com as mãos no bolso do paletó, parado daquele seu jeito, olhando sem olhar, à espera de nada. E resolve interferir com uma brincadeira.

- Seu Mario, me disseram que o senhor vive dando em cima das moças que se hospedam no hotel...

Foi o que bastou para animar-se o velho sorriso ao mesmo tempo malicioso e ingênuo, quase adolescente:

- Olha, Pedrinho, não é verdade. Mas pode espalhar.


INTIMIDADES

RECITAL de poemas de Mario Quintana no belo Salão Mourisco da Biblioteca Pública do Estado, durante as comemorações pela passagem dos seus setenta anos. Ele escolheu os poemas que seriam apresentados. O poeta Armindo Trevisan, velho amigo, e a professora Tânia Carvalhal, do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, foram convidados para comentar a leitura e a obra.

Finda a cerimônia, paparicações daqui e dali, uma senhora faz efusivas festas para Quintana. Ninguém a conhece. O poeta César Pereira (ainda injustamente pouco conhecido) quer saber quem é.

- Um íntima desconhecida - esclarece Mario.


Comentário: Espero que tenham gostado das histórias, achei-as bem legais. Inclusive, convido-os a ler uma postagem bem antiga que fiz sobre o Quintana, numa época em que não levava o blog muito a sério. Eu a reli recentemente e achei bem interessante as coisas que coloquei sobre inspiração, até porque coincidiram com o poema "Inspiração" que postei aqui faz pouco. Por isso, retiro o link para o post "Poemas de Mario Quintana" da obscuridade e o trago a vocês, acho que vão gostar.
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O caso da sociedade secreta (Final)

em 19/09/2009.
| Comentários: (5)
Observação: Esta é a parte final do segundo caso da minha série de contos policiais - lembrando que ela foi iniciada pelo conto policial "O caso Robert Pratt" e faz parte do projeto "O senhor das pistas". Para compreender a parte final do caso sugiro que leiam também a Parte I e a Parte II.

Na manhã seguinte me encontrei novamente com o senhor Fawcets, pai de Natanael. Seguimos para o mesmo escritório da noite anterior, onde poderíamos conversar com mais calma. Ele parecia nervoso, suas mãos tremiam: algo de ruim tinha definitivamente acontecido.

- Mais uma vítima? – perguntei, assim que entramos na sala.

- Sim... mais uma, o mesmo veneno, já entregamos o corpo para a polícia. Você deve imaginar que não trazemos eles aqui, não é? Criamos uma outra cena de crime e levamos a mulher para lá.

Fawcets caminhou até a cadeira que ficava atrás de sua mesa e se sentou.

- Uhm... isso com certeza vai atrapalhar o trabalho deles – comecei. –, mas não se preocupe, enviarei uma carta. É muito provável que eles percebam a marca novamente, desta vez chegarão mais perto da sociedade nas investigações.

Ele se debruçou sobre a mesa.

- Não se preocupe com isso. Não temos o que esconder, o importante é saber quem está cometendo os assassinatos, okay?

Concordei com a cabeça e prossegui.

- Então vou precisar perguntar algumas coisas para você, imagino que não vá se incomodar.

- De maneira alguma. – ele riu. – Já me adiantei, fui atrás de umas informações que achei que você ia precisar.

Apenas sorri. Era interessante ver como um homem sério como era o senhor Fawcets podia ficar tão excitado com uma investigação. Creio que a curiosidade e a vontade de viver aventuras seja algo que esteja dentro de todos nós. Imagino que você, minha cara Mary Ann, há de concordar, afinal, foi provavelmente por isso que escolheu a profissão de investigadora. Eu sou apenas um amador.

- Bem, as garotas vivem aqui com a esperança de se casar com algum dos clientes, essa é a idéia, não é? Corrija-me se eu estiver errado.

Fawcets permanceu quieto.

- Então. Essas que foram assassinadas, tinham algum pretendente em especial, talvez um pretendente em comum?

Ele riu.

- Tinham sim. Já me adiantei a você, meu amigo, já me adiantei! O conde Barnes costumava sair com todas elas.

- Interessante... e ele possui algum membro da família, amigo, amiga, enfim, que possa ter algum motivo para matar suas preferidas?

- Não... sua esposa morreu faz alguns anos, ele não tem filhos, os pais também já faleceram.

- Uhm... – me levantei e comecei a andar pela sala, faço isso quando preciso pensar. – Nos restam apenas as meninas daqui, então. Creio que nenhum de seus criados teria motivos para assassinar as mulheres com quem Barnes poderia se casar, logo, só sobram as garotas.

Ele riu ainda mais alto.

- É, amigo detetive, parece que já fiz o seu trabalho.

Eu parei.

- Como assim?

- Barnes tinha uma outra pretendente, uma que ainda não foi assassinada, a única que se beneficiaria com a morte das outras três.

- E quem seria esta?

- Ludmilla, caro Michel, ela foi selecionada para cá poucos dias antes da primeira morte, veio a pedido de Barnes. Só começou a trabalhar aqui de fato alguns dias depois, depois da festa de iniciação de meu filho, você estava lá, ela ficou com você, não foi?

- Ahm... Ludmilla? – cheguei a vacilar. – Não, creio que não foi ela, você deve estar errado, ou melhor, está errado.

- Mas só pode ser! Os fatos se encaixam perfeitamente!

- Uhm... não. Já investigo essas mortes faz um tempo, foi ela quem me avisou da segunda, não faria sentido que ela contasse isso a um estranho, alguém que nem conhecia o bordel. Não foi ela, tenho certeza. Mas preciso investigar melhor isso. Me espere aqui, logo estarei de volta.

Fui até a minha casa o mais rápido que pude. Não estava tão certo assim de que Milla era inocente, eu gostava dela, tinha medo de que meus sentimentos atrapalhassem minha capacidade de julgar. Agora que escrevo a carta, percebo o quão tolo fui; era lógico que não podia ser ela, realmente não fazia sentido. Mas na hora não consegui pensar assim tão friamente, um erro que não pretendo voltar a cometer. Quando cheguei em casa, ela me esperava, tomava ainda o café da manhã. Eu não perdi tempo, logo parti para o interrogatório:

- Você era uma das pretendes do conde Barnes, não era?

- Sim. – ela me fitou com um olhar surpreso, porém sincero, profundamente sincero. – Ele me pediu em casamento uns dias atrás.

Eu fiquei atônito, a resposta tinha me desarmado, apenas ela tinha essa capacidade.

- Como assim?

- Ele me pediu em casamento, eu recusei, temos o direito de recusar.

- Mas por quê?

Ela desviou o olhar, nunca o fazia, sempre me olhava nos olhos; aquilo me deixou feliz, mas feliz do que eu esperava.

- Preciso lhe contar algo sério. – disse enquanto me sentei ao seu lado.

- O que aconteceu?

- Mais uma mulher foi assassinada.

Ela baixou a cabeça.

- Todas elas mantinham relações com Barnes. Fawcets acha que foi você quem as matou, para eliminar a competição.

Ela se levantou assustada, apertou os braços contra o peito.

- Não! Mas não fui eu, você sabe, eu estava aqui. Barnes pode confirmar que me pediu em casamento. Eu não tinha motivo para matar ninguém.

Eu sorri.

- Calma... calma... eu sei. Isso que você acaba de me dizer é muito importante, já sei como podemos resolver o caso, é muito simples. Venha comigo, preciso te levar até o senhor Fawcets.

Não demorou muito e chegamos ao bordel. Eu segui até o escritório e pedi para que o pai de Natanael chamasse o mordomo e o restante dos criados da casa. Só tomei a palavra quando todos estavam presentes.

- O assassino está aqui, dentro desta sala. – fiz uma longa pausa e encarei todos a minha volta, pareciam assustados, e deveriam estar, pelo menos eu ficaria.

- Como assim?! – retrucou Fawcets.

Eu sorri.

- Me desculpem, me desculpem... foi só uma brincadeira; sempre quis fazer isso.

Alguns riram comigo, a maioria ficou irritada.

- Por favor, senhor Moulen, ou seja lá qual for seu verdadeiro nome, diga logo o que você quer. – falou Fawcets.

- O crime se resolve facilmente. Ninguém nesta sala matou aquelas mulheres, isso posso garantir. Basta que olhemos quarto por quarto, pertence por pertence, de cada uma das mulheres que trabalham aqui e certamente acharemos o veneno. Mas podemos fazer isso de uma maneira mais rápida!

- E como? – perguntou Fawcets, voltando a mostrar um tom de entusiasmo em sua voz.

- Ludmilla. No dia em que você foi escolhida para trabalhar neste lugar, talvez alguns dias depois disso, alguma das mulheres que trabalham aqui pareceu irritada com a sua escolha? Quem sabe inconformada?

Ela respondeu quase de imediato.

- Sim! Teresa! Quase brigamos no meu primeiro dia. Ela dizia que todas tinham trabalhado muito para chegar onde chegaram e que era ridículo eu ser escolhida por ser a preferida de um conde.

Eu sorri. Estava satisfeito, confesso, sou orgulhoso, muito orgulhoso, foi um prazer notar que minha teoria estava correta.

- Ah, caros amigos, está ai nossa resposta! Os crimes não foram cometidos por alguém que queria casar com Barnes, não, de maneira alguma. Foram cometidos para ferir Ludmilla. A criminosa sabia que matar as mulheres vinculadas ao conde deixaria nossa querida Milla assustada. Sabia também que o senhor Fawcets aqui iria fazer sua investigação particular e deduziria, inevitavelmente, que ela tinha cometido os crimes. Foi o que aconteceu, não foi?

- É, sim, foi. – respondeu Fawcets, um pouco desconsertado.

- E você a entregaria às autoridades, não é? Daria a eles as pistas de que precisavam.

- Sim.

- Bem, se formos agora olhar os pertences da senhorita Teresa, garanto que encontraremos nossa arma do crime, o veneno.

- Por que ela simplesmente não me matou? – perguntou Milla.

- Ela não queria a ver simplesmente morta, queria que você sofresse.

Como já pode deduzir, cara Mary Ann, fomos todos até os aposentos de Teresa e encontramos o veneno. Em anexo a esta carta, seguem outras informações que comprovam o que aqui disse (as fichas de algumas testemunhas, alguns depoimentos assinados e etc...). Vá até o endereço anexado e encontrará não só Teresa como Fawcets e os criados da casa, eles lhe darão o resto das evidências de que necessita. Espero poder entrar em contato em breve.

Um abraço,
M.M., colaborador.



- Então foi assim que você prendeu a mulher? – perguntou o inspetor-chefe.

- Exato. Tudo estava pronto, só precisei ir buscá-la. – respondeu Mary Ann.

- Você checou todas as evidências?

- Claro!! Ora... foi a primeira coisa que fiz. Não confio neste colaborador, você sabe.

O inspetor-chefe bateu com os papéis na mesa, esboçou um sorriso.

- Ele é muito bom.

Mary Ann o fitou um pouco irritada.

- Mas é verdade, ele é. Você procurou falar com esta tal de Milla? Eles pareciam íntimos.

- Ela desapareceu antes que eu chegasse na casa, ninguém soube me dizer o paradeiro. Não encontrei nada sobre ela também. Ou ele apagou as informações ou Ludmilla não era o verdadeiro nome dela.

O inspetor riu.

- Bem... caso encerrado. Parece que você e seu amigo fazem uma bela dupla.

Mary Ann não respondeu, apenas se virou e andou até a porta. O inspetor a chamou novamente, desta vez soava sério.

- Tem certeza de que não quer proteção especial? Este colaborador parece querer nos ajudar, mas não tenho como negar que ele parece especialmente interessado em você, pode ser perigoso.

Ela não chegou a se virar, apenas fez um sinal de negativo com a cabeça e saiu.

-------------------

Já era madrugada, Mary Ann continuava em seu escritório. Lia e relia as cartas enviadas pelo tal colaborador, pesquisava na internet, revisava anotações; precisava descobrir alguma coisa. Levantou-se para pegar um café. Quando voltou, tomou um susto: no computador, ela ainda não sabia como, havia um pedido de chat. Numa janela, haviam as seguintes informações:

Michel Moulen deseja iniciar uma conversa com você:
"Finalmente podemos nos comunicar com eficiência!"
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Ao amor antigo - por Carlos Drummond de Andrade

em .
| Comentários: (2)
O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.


Comentário: Essa postagem tem dois motivos. 1) Para testar a ferramenta do blogger e programar os posts e 2) Achei o poema realmente incrível. Acho que Carlos Drummond de Andrade é o poeta que melhor consegue falar de amor evitando cair no senso-comum e no brega. Ele fica ali, bem próximo da linha, mas fala de amor com uma originalidade incrível. E mais tarde hoje, quando eu acordar (hoje é dia de dormir até tarde), coloco a parte final do segundo caso de minha série de contos policiais.

Lembrete: você pode conferir o poeta declamar uma de suas obras na postagem "Poemas de Carlos Drummond de Andrade". (contém também dois poemas curtos)

Rapidinha 1 - Sempre aconselho a quem gosta de Drummond comprar o livro "Farewell". Para mim é o melhor livro que se pode comprar do autor. Além de ter poemas que a maioria desconhece, há também os mais famosos. No geral acho que é o livro com os melhores poemas do autor. Vale a pena conferir!
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Inspiração

em 18/09/2009.
| Comentários: (7)
Fiz este poema ontem a noite, achei bem diferente e gostei, não sei qual será a opinião de vocês, estou curioso para saber como ele será recebido. De qualquer maneira, achei que era legal dividir, ele é muito divertido, deu algum trabalho também. Ainda fico devendo a última parte do conto policial, mas prometo que coloco aqui amanhã. Achei interessante colocar o poema hoje, o conto fica para o final de semana. Enfim, espero que gostem!


Inspiração

A inspiração entrou pela janela
assim que decidi tomar um ar.
Sentei e conversei com ela,
perguntei se podia me inspirar.

A tarefa, disse ela, é complicada,
me pediu dois bolinhos e um chá.
A noite foi, então veio a madrugada;
a inspiração e eu a conversar.

Metódica, do chá tomava um gole
a cada dois pedaços de bolinho.
É preciso primeiro matar a fome,
para depois descobrir o seu caminho.

Gesticulava e com os gestos desenhava
poemas concretos, poemas-bastão,
como aqueles da química escolada;
fórmulas, carbonetos, combustão.

Me surpreendeu, também era matemática,
se transformou em números na minha frente.
Assustado, gritei "Senhora?" de repente,
ela virou-se para mim e disse "fática"!

Corri e rabisquei no meu caderno
ela leu e olhou com reprovação.
Tinha escrito poemas de inverno,
ela queria poemas de verão.

Irritado, a coloquei para fora,
ela nada tinha a ver com os meus poemas.
E hoje quando escrevo tenho problemas
por causa de uma inspiração que chora.
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Poemas de Cecília Meireles - Murmúrio

em 17/09/2009.
| Comentários: (3)
Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.

Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.

Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!


Comentário: É um poema lindo, não é? Acho que não tenho nada a dizer, apenas agradeço a Cecília Meireles, apenas isso. É um poema para ler e reler e ler em voz alta. Espero que gostem dele tanto quanto eu. Aos que gostam da autora, podem conferir um pouco mais dela aqui no blog - inclusive uma postagem falando de algumas características da obra de Cecília Meireles - e também no excelente blog Literatura em conta-gotas, há um poema dela por lá.

Rapidinha - infelizmente, aos que esperavam a terceira e, espero, última parte do segundo conto policial da série que faço aqui, informo que deverei postá-la amanhã.
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Resenha do livro Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago

em 16/09/2009.
| Comentários: (5)
Hoje falarei um pouco sobre o livro Ensaio sobre a cegueira, do autor português José Saramago. Imagino que alguns estejam pensando que o tema já é meio batido, o que não deixa de ser verdade, já que há milhares de resenhas sobre o livro pela internet. Acontece que eu não irei falar tanto do livro em si, mas de algumas coisas que pensei a respeito e, principalmente, de como a obra se encaixa na pesquisa que desenvolvo no mestrado sobre ficção - quem estiver interessado em mais detalhes, pode conferir esta postagem ou ler as postagens da série "Notas sobre a ficção".

Primeiro, vou falar sobre o livro em si, uma rápida resenha. Como quase todo mundo já sabe, a obra começa quando uma doença misteriosamente deixa as pessoas cegas, uma cegueira branca altamente contagiosa. No decorrer do livro, a sociedade aos poucos se dissolve, assim como os princípios morais (a começar pelo lugar onde as personagens principais da história são isoladas). A partir dai se desenvolve um cenário apocalíptico em que todas as pessoas daquela sociedade ficam cegas e passam, por isso, a precisar se relacionar de maneira diferente, seguindo princípios diferentes dos anteriores, outras regras, outras noções de verdade, logo, como diria Foucault, também outras relações de poder. No final, as pessoas voltam a enxergar e o livro termina.

Como prometi mais acima, não vou entrar em detalhes, não vou falar das características da escrita do Saramago ou de peculiaridades na construção das personagens (o fato do autor não lhes atribuir nomes e etc...). O que quero ressaltar é que o livro, através da criação de uma outra realidade, de uma produção de realidade, portanto, consegue nos fazer questionar as relações de verdade e poder da nossa sociedade. Isto é, Saramago cria uma outra realidade por meio da ficção, uma realidade em que todos começam a ficar cegos sem qualquer explicação científica, e nós, ao a observarmos, ao lermos o livro, somos capazes de refletir sobre as nossas condições de vida.

O que se destaca então é que, normalmente, os diversos discursos (histórico, político, jornalístico e etc...) costumam falar da nossa sociedade, costumam representá-la, e por isso carregam as noções ideológicas, de verdade e poder, presentes nela. Por este motivo, é muito difícil para estes discursos não produzir algo que poderia ser chamado de "alienante", mesmo que com boas intenções. Já a ficção, por meio da produção de um realidade segunda - e é o que faz o livro Ensaio sobre a cegueira -, é capaz de se despir dessas noções de verdade e poder e criar outras, afinal, é capaz de criar outros mundos. O que Saramago faz é justamente isso: nos apresenta outra realidade. Nós é que, ao a observarmos, fazemos uma reflexão através de processos metafóricos e analógicos, até porque é assim que se forma a nossa consciência.

Quando eu li o livro, pensei já em uma crítica à sociedade da informação. Em um mundo em que todos pensam apenas "em seu umbigo" nos tornamos cada vez menos capazes de ver os outros. E mesmo quando queremos, somos bombardeados por tanta informação que acabamos "cegos". Talvez seja até por isso que a cegueira seja branca (como uma amiga minha, a Lídia, bem observou), pois o branco é justamente o excesso de informação, a união de todas as cores. Inclusive, pensar no livro como uma crítica à sociedade da informação nos faz compreender também o fato de a mulher do médico não ter ficado cega. Afinal, ela é a única que desde o início se preocupou muito mais com os outros do que consigo, sem temer de maneira alguma que a doença a cegasse.

Enfim, acabei falando um pouco da minha visão do livro, mas acho que deixei claro a questão da produção de realidade que queria ilustrar. Espero que tenham gostado da leitura, se tiverem alguma dúvida é só comentar. E também deixo uma provocação. O que vocês pensaram ao ler (ou assistir no cinema) a obra?

Observação: Quem não leu o livro pode encontrá-lo com um bom desconto no submarino.




Gostou do blog? Gostou dos textos? - o autor Leonardo Schabbach, que produz o conteúdo do Na Ponta dos Lápis lançou recentemente sua primeira obra literária, O Código dos Cavaleiros. Ajude-o a continuar produzindo! Informações sobre a obra (como comprar - autografada -, capítulos para degustação, capa, sinopse e muito mais) podem ser encontradas neste super hotsite (clique para acessar).

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Contos Policiais - O caso da sociedade secreta (Parte 2)

em 14/09/2009.
| Comentários: (1)
Observação: Decidi dividir este segundo caso em mais do que duas partes. Provavelmente colocarei aqui no blog a parte três na quinta ou sexta-feira. Enfim, espero que gostem e fiquem curiosos para ler o restante. Quem não leu o primeiro caso, sugiro que leia "O caso Robert Pratt", pois esses contos fazem parte da série de contos policiais "O senhor das pistas".

Leia a Parte I do "Caso da sociedade secreta".

Quase dois meses depois, apareceu o segundo corpo. Talvez vocês da polícia ainda não tenham o conectado ao anterior, não há a presença de qualquer marca no pulso. Eu mesmo não tinha percebido qualquer ligação entre os dois homicídios até que ela me fez uma visita, a mulher com quem dormia desde a minha noite de iniciação.

- O que houve, Milla?

Ela chorava.

- A mulher que morreu, ela trabalhava comigo, trabalhava comigo. É a segunda que foi assassinada onde eu trabalho.

- Calma, calma. Fique tranqüila, eu posso te ajudar. – disse enquanto a abraçava. – Entre, pode sentar no sofá, vou pegar alguma coisa para bebermos.

Ela aceitou o convite e andou vagarosamente até a sala, soluçando. Parecia muito abalada. Pelo que me dizia, era o segundo assassinato, o segundo em um mesmo lugar. Quando falamos de crime, você bem sabe, Mary Ann, não há coincidências, era óbvio que havia algo importante por trás desta segunda morte. Eu preparei um drink e levei para ela.

- A primeira mulher que foi assassinada possuía uma marca como a sua, não é?

- Sim, tinha sim. Como você sabe?

- Bem, eu li sobre o caso nos jornais. Como você também tem uma, achei que podia ter alguma coisa a ver.

Ela pegou o drink com as mãos e se sentou no sofá. Eu me coloquei ao seu lado.

- É... tinha... quer dizer... tem. Todas nós temos a marca, lá, onde trabalho.

- Uhm... e essa garota... o que aconteceu com ela?

Milla baixou os olhos por algum tempo, fitava o copo já vazio. Pude perceber que tinha certo receio em falar sobre o assunto. Não era de se estranhar também. O tipo de sociedade em que ela tinha se envolvido exigia completo sigilo, ameaçava quem sequer cogitasse revelar qualquer segredo.

- Fique calma. – peguei em sua mão enquanto fitava seus olhos. – Pode ficar tranqüila. Prometo que pode confiar em mim, ninguém vai lhe fazer mal. Eu sou da sociedade também.

Ela olhou para baixo novamente, ponderava, as mãos tremiam.

- É... essa mulher... a que morreu... era nova, mal tinha sido escolhida.

- Uhm... nova? Então ainda não tinha a marca? Se tivesse creio que a polícia já teria ligado o primeiro ao segundo caso.

Ela apenas concordou com a cabeça.

- Estranho. E você tem medo de quê?

- Eu não sei... e se acontecer a mesma coisa comigo?

- Você sabe de algum motivo que possa ter levado alguém a matar essas suas colegas?

- Ah, não sei... é melhor não falar mais sobre isso, melhor não... melhor não, é muito arriscado...

Eu respondi com um sorriso. Ela tinha passado por uma situação de grande estresse, era compreensível que preferisse evitar o assunto, ainda mais se houvesse detalhes que não devessem ser revelados, detalhes perigosos.

- Tudo bem, vamos descansar. Mas eu quero te ajudar, se puder me dizer o lugar onde você trabalha talvez eu possa investigar isso melhor. Fique tranqüila, não vou revelar como descobri o endereço. Só preciso que você entenda que é importante pra mim e pra você que eu possa saber mais sobre esses assassinatos. Só assim vou poder te proteger.

Ela relutou um pouco, mas acabou escrevendo o endereço em um pedaço de papel. Depois, levei-a para minha cama. Ela estava muito nervosa, assustada, precisava descansar. Esperei até que ela adormecesse e segui para o endereço indicado. Tratava-se de uma casa, grande e luxuosa, as luzes estavam acesas e uma música suave emanava das janelas. Aproximei-me confiante, passos firmes, coluna reta; precisava convencer quem quer que encontrasse de que tinha sido convidado a estar ali.

Logo, atravessei os jardins da casa e me encaminhei à entrada. Um homem mais velho, de cabelos brancos, vestido como mordomo, abriu a porta da frente.

- Senhor, será que pode se apresentar?

- Sim, claro. – falei com falsa timidez. – Sou Michael Moulen, a sociedade me mandou vir até aqui, não sei muito bem o porquê, falaram que era uma surpresa.

O homem riu discretamente.

- Sim, claro, meu senhor. Garanto que ficará positivamente surpreendido. Acompanhe-me, por favor, e irei lhe mostrar as instalações.

Apenas concordei com a cabeça e entrei. Não esperava por uma recepção daquele tipo, ainda mais sabendo se tratar de um bordel, mas continuei a andar confiante, deixando transparecer apenas um leve ar de curiosidade.

- Como pode ver, a casa está cheia de mulheres. Elas são belas, tem uma boa formação cultural, creio que não irá ficar desapontado. Pode escolher qualquer uma, quantas quiser, espero que, em breve, possa selecionar sua futura esposa, mesmo ainda sendo tão jovem.

Eu me virei para o mordomo um pouco surpreendido. Esposa? Depois sorri.

- Ah... claro, claro. Obrigado por sua recepção. Agora vou, ah, conhecer melhor as mulheres.

O homem assentiu com a cabeça e retornou vagarosamente até a porta de entrada. Eu parei por alguns instantes para olhar melhor o lugar. Estava surpreso. Esposas... era estranho. Já tinha ouvido falar de sociedades que faziam algo parecido, mas confesso que não esperava por isso. Pela casa, mulheres andavam semi-nuas, sempre sorrindo, havia alguns homens também, eram tratados como reis. Para aquelas moças, representavam o futuro, um futuro mais seguro, quem sabe mais feliz. Era uma cena triste, poderia ficar horas descrevendo o que passou por minha cabeça, mas não acho que isso seja de alguma relevância para o caso. Em determinado momento, senti um leve tapa em meu ombro e me virei.

- Michel?!

Era o pai de Natanael, o único amigo dentro da sociedade que eu tinha até então.

- Ah, senhor?

- O que você faz aqui? Como chegou até aqui?

Ele parecia irritado.

- Ahm... segui o senhor!

- Me seguiu? – retrucou ele um pouco desconsertado.

- Sim... queria saber mais sobre sociedade, então o segui.

Ela não respondeu, apenas me encarou por um longo tempo. Continuei.

- Quer dizer que nós temos que escolher nossas esposas aqui?

- O que você acha?

- Foi o que o mordomo me disse.

Andei vagarosamente para o lado, deslizando a mão por uma das mesas da casa.

- Você não é um garoto qualquer, é?

- Claro que não. Se fosse um garoto qualquer, vocês não tinham me escolhido para entrar na sociedade, não é mesmo?

- Isso não foi o que eu quis dizer. Por favor, me siga até o meu escritório.

- Você trabalha aqui?!

Ele riu discretamente.

- O que você acha?

Não respondi, senti que não devia. Nós caminhamos até um quarto no terceiro e último andar da casa. Ele se sentou em uma poltrona confortável, atrás de uma luxuosa mesa de madeira. Eu fiquei de pé. Era melhor escolher uma posição em que pudesse me movimentar rápido caso fosse necessário.

- Quem é você? Sei que não é uma pessoa comum, não pode ser. Não estava mesmo interessado em entrar para a sociedade, não é?

Eu o fitei por um longo tempo. Tomei uma decisão muito arriscada. Disse-lhe a verdade. Contei que era o famoso homem que ajudava os investigadores de polícia de que tanto falavam no jornal, revelei alguns detalhes do que sabia sobre o caso e da ligação entre os dois assassinatos. Achei que dar tais informações me ajudaria a saber qual era a posição do pai de Natanael diante do que havia acontecido. Naturalmente, eu estava armado; seria loucura revelar tudo que revelei se não estivesse, afinal, poderia muito bem estar falando com o assassino.

Ao contrário do que pode ter imaginado, ele não reagiu com rispidez, pareceu até mesmo aliviado. Disse que era importante para ele poder contar com alguém como eu, que podia o ajudar a resolver os crimes sem envolver a polícia de fato. A conversa então se prolongou por um bom tempo, entramos em detalhes que não posso revelar aqui, ele me pediu, imagino que compreenda, mas saí da casa mais confiante, sabia que agora tinha um aliado. Fiquei algumas horas andando pelas ruas, estava frio, um clima agradável para se pensar. Os crimes se complicavam, mas pelo menos agora eu tinha alguns possíveis suspeitos. Os arquivos da polícia indicavam que as duas mulheres tinham sido envenenadas: em ambos os casos o veneno utilizado fora o cianureto, a morte era rápida e inevitável. Como fazer as vítimas digerirem o veneno não era tarefa para qualquer estranho, os suspeitos se reduziam ao mordomo – e como poderíamos descartá-lo, não é mesmo? -, às outras mulheres que trabalhavam no lugar e, claro, aos membros da sociedade. A lista ainda era grande, mas reduzí-la seria uma tarefa razoavelmente fácil.
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Poemas de Manuel Bandeira

em 13/09/2009.
| Comentários: (4)
Mais um dos poetas consagrados que decidi colocar no blog. Manuel Bandeira é espetacular, não só por sua habilidade poética, mas também por sua história. Como talvez fosse até mesmo previsível, faço de minha primeira postagem o poema "Testamento". Além de ser um poema belo - e também triste - é de fato uma obra que marca a vida de Manuel Bandeira. Ela traz todo um tom de confissão e de humildade, além de ser uma espécie de auto-biografia. Explicarei mais abaixo.


Testamento

O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros — perdi-os...
Tive amores — esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.

Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.

Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!... Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.

Criou-me, desde eu menino
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!

Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei!


Comentário: Para quem não sabe, Manuel Bandeira descobriu, quando ainda muito jovem, que possuía tuberculose. Naquela época, a doença era considerada fatal, portanto ele não esperava viver por muito tempo (e se enganou, só morreu aos 82 anos). Foi por este motivo que largou os estudos, pretendia se formar como arquiteto, para cuidar da doença, o que acabou também o levando a se dedicar à poesia. A obra acima reflete justamente isso, não só as oportunidades que perdeu por causa da doença, mas também o medo e a impossibilidade de seguir o caminho que o pai queria para se embrenhar no meio poético. E assim o autor se auto-proclamou um "poeta menor", o que todos sabemos não ser verdade. Inclusive, uma das homenagens que foi feita ao autor pelo poeta José Paulo Paes (valeu Adriano!) - dizia assim:

Poeta menormenormenormenormenor
Menormenormenormenormenorenorme

Acho que é uma das homenagens mais bonitas e inteligentes que eu já vi. Mas, enfim, falando de Bandeira, o que destaco é a sua enorme capacidade de criar poemas musicais e de se conectar com o público. Talvez por causa de toda a sua história de vida, ele tenha desenvolvido uma sinceridade que nos atrai. Afinal, nos dias de hoje é extremamente difícil de se encontrar alguém assim, sincero.

- O poema postado foi retirado do livro "Antologia Poética".
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Contos policiais - O caso da sociedade secreta (Parte 1)

em 11/09/2009.
| Comentários: (5)
Observação: Este conto policial faz parte da série "O senhor das pistas" que comecei aqui no blog. É o segundo. Aconselho a quem não leu, ler o primeiro conto policial da série: O caso Robert Pratt. Além disso, quero avisar que esta segunda história será dividida em duas ou três partes, assim evito que o volume de leitura seja muito grande na postagem. Na segunda ou terça-feira coloco a parte dois deste caso. Leiam e, por favor, dêem suas opiniões!

Ela foi golpeada por uma chuva de flashes e perguntas tão logo deu sua última palavra na coletiva de imprensa. Tornara-se uma investigadora popular. Acabara de anunciar o fechamento de um caso que se desenrolava por meses; assassinatos que inicialmente pareciam não ter qualquer relação um com o outro, mas que tinham sido praticados por um assassino serial.

Também era muito bonita, o que agradava os olhos da mídia. Ela, é claro, não ligava para isso. Muito pelo contrário, estava irritada. Não pelo assédio, mas por levar crédito por algo que de fato não realizara. Entrou no gabinete de seu chefe a passos pesados, precisava tirar aquilo a limpo.

- Eu não posso assumir esse caso como meu, não fui eu que o resolvi. Eu não fiz nada, você sabe. Foi ele.

- Eu sei, eu sei, Mary Ann. Mas também sei que, embora você não tenha resolvido esse caso, você é uma excelente detetive. A mídia a adora, as pessoas também, isso é muito bom para nós. E qual é o problema, não custa nada levar o crédito. Foi você quem fez a prisão, não foi?

Ela se calou, teve algum trabalho em conter a raiva que sentia. Não adiantava discutir. Era assim que as coisas funcionavam. Teria de aceitar aquilo que seu chefe determinara.

- Mas não pense que irei fazer um relatório. Tome aqui. Fique com a carta dele e leia, os detalhes do caso estão ai. – disse enquanto jogava algumas folhas de papel sobre a mesa.

Seu chefe apenas riu, parecia se divertir com sua revolta. Depois, pegou lentamente as folhas com as mãos e começou a ler.


Cara inspetora Mary Ann Becket,
Venho, por meio desta carta, falar do caso mais difícil em que me envolvi até hoje. Me perdoe por não ter me correspondido com você nesses últimos meses, mas tenho trabalhado diariamente neste último caso.

Também não tive a oportunidade de dizer o quanto me sinto triste pelo que aconteceu ao seu mentor. Sei que deve ter sido muito difícil para você, mas a lei deve ser cumprida por todos. Espero que já se sinta um pouco melhor.

Agora vou falar sobre o nosso último caso, surpreendentemente cansativo, eu diria. Você deve saber do que falo. Os últimos homicídios que investigou começaram a apresentar características semelhantes, não é mesmo? As marcas de queimado nos pulsos das vítimas logicamente indicam alguma coisa, certo?

É claro que sim, como não indicariam? Acontece que você nunca soube de algo que eu sei. Não sabe sobre sociedades secretas. Sim, elas existem, estão por toda parte. Algumas formadas por loucos, outras nem tanto. Algumas são muito poderosas, inclusive.

O símbolo feito com uma ponta de cigarro acesa no pulso das vítimas é marca de uma dessas sociedades. Como eu sei disso? Talvez faça parte dela, talvez você deva investigar isso melhor: pode ser uma pista sobre minha identidade. Quem sabe não cometi um erro ao colocar esta informação aqui?

Enquanto isso, prossigo com a minha história. Tenho aparência jovem, por isso resolvi me infiltrar. É mais fácil quando somos escolhidos ainda quando universitários, as suspeitas sobre nosso passado são quase nulas. Preparei meus disfarces, criei uma história familiar, consegui alguns documentos, nada que me custasse muito tempo ou dinheiro.

Três meses atrás, mais ou menos quando o caso do primeiro corpo encontrado com a marca foi arquivado, fui aceito dentro da sociedade. As notas que apareciam nos meus históricos, o dinheiro de minha suposta família e minhas habilidades atléticas me tornaram uma escolha certa para eles.

Já no primeiro dia de iniciado, fiz amizade com um jovem chamado Natanael. Era também de família rica, de bom porte atlético, mas era tímido, andava um pouco curvado, gaguejava diante de mulheres bonitas. Achei este comportamento estranho para um rapaz atraente como ele, ainda mais para um atleta, um nadador, como me disse. Ele fazia direito, estudava em minha sala. Era o único da sociedade que eu conhecia. Afinal, uma sociedade secreta não é uma fraternidade, quase ninguém sabe quem são os membros. Eu precisava encontrar alguma lista
ou alguém – que pudesse me levar a identificar alguns suspeitos. Um membro tinha cometido o crime, isso era fato. Eu só precisava descobrir quem era.

Recebi uma mensagem no terceiro dia como iniciado, dizia que eu devia ir a um bordel de luxo não muito longe de minha casa. Quando cheguei, Natanael já estava lá, a sociedade tinha contratado algumas mulheres para nos entreter. Era um presente de boas-vindas.

Antes de ter com elas, sentei com Natanael para beber e conversar. Ele parecia precisar da bebida para tomar coragem, mesmo se tratando de mulheres pagas para tratá-lo bem.

- E então? Gostando de ter sido iniciado? – perguntei.

- Ah, eu não sei. Espero não fazer nada de errado, sabe. Meu pai ficaria muito decepcionado.

- Sim, entendo. Você é muito apegado aos seus pais, não é? Eles devem ser pessoas muito boas, cuidadosas.

Esta pergunta era crucial. Natanael vinha de família rica, tinha um bom porte físico. A única coisa que poderia explicar seu excesso de timidez era a sua criação. Uma família exageradamente protetora certamente prejudicaria suas habilidades sociais, sua capacidade de enfrentar o mundo de frente, com naturalidade.

- É, eles são. Mas meu pai agora quer que eu seja como ele. – Natanael tomou um longo gole de cerveja – Disse que preciso seguir o caminho dele, o caminho de meu vô também, começar a me tornar independente.

- Uhm... e seu pai também faz parte da sociedade?

- Faz sim, mas é melhor fingir que eu não te falei isso. Não sei se eu já podia ter comentado.

- Não, tudo bem. Pode confiar em mim – arrisquei um sorriso enquanto levantava meu copo. – Vamos brindar e nos divertir! É hora de conhecermos melhor as mulheres.

Natanael pareceu engolir em seco, ainda um pouco amedrontado. A bebida, porém, já tinha o deixado um pouco mais relaxado, ele se levantou. As mulheres logo nos cercaram, começaram a dançar a nossa volta, eram boas, mas prefiro não entrar em muitos detalhes, imagino que você, cara Mary Ann, não vá se interessar muito por isso. O importante mesmo é que uma delas possuía uma marca no pulso, a marca da sociedade. Achei um pouco estranho, era definitivamente algo incomum: resolvi me aproximar. No final da noite, paguei uma quantia extra e a convenci a ir até a minha casa. Nós nos deitamos e você pode imaginar o que fizemos por algum tempo. Na manhã seguinte, tentei colher algumas informações.

- Você foi incrível. – sussurrei em seu ouvido.

Ela apenas sorriu.

- Queria saber se a gente pode fazer isso mais vezes, digo, outras noites.

- Eu não posso. Ontem foi minha última noite naquele lugar. De hoje em diante, vou trabalhar num lugar diferente.

- Lugar diferente?

- É. Mas não posso contar onde. Eles pedem exclusividade, não vou poder fazer trabalhos por fora.

- Ahm, entendo. E isso tem a ver com essa marca? – perguntei enquanto tocava carinhosamente o seu pulso com o dedo indicador, não queria assustá-la. – É da nossa sociedade, não?

Ela se encolheu um pouco.

- Eu não posso falar, me desculpe. É a minha chance de mudar de vida.

- Não, não, tudo bem. Eu entendo. Só quero poder continuar te vendo. Eu prometo que pago bem, ninguém precisa ficar sabendo.

Ela sorriu novamente e me olhou nos olhos, era uma mulher doce, gentil.

- Tudo bem, mas vamos ter que ser cuidadosos.

- Não se preocupe, ninguém é mais cuidadoso do que eu. – disse enquanto a abraçava e lhe dava um beijo na testa.

-- Continua --

Pequeno trecho da parte seguinte: Quase dois meses depois, apareceu o segundo corpo. Talvez vocês da polícia ainda não tenham o conectado ao anterior, não há a presença de qualquer marca no pulso. Eu mesmo não tinha percebido qualquer ligação entre os dois homicídios até que ela me fez uma visita, a mulher com quem dormia desde a minha noite de iniciação.
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Entrevista com Paulo Henriques Britto

em 09/09/2009.
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Coloco aqui a entrevista que Paulo Henriques Britto me concedeu por e-mail. Agradeço também por sua disposição em me atender rapidamente e pelo cuidado que teve ao responder as perguntas.

Paulo Henriques Britto é, em minha opinião, um dos melhores poetas contemporâneos. Eu conheci a sua obra na FLIP 2005 e, desde então, virei leitor assíduo. Gosto muito da forma como ele trabalha as palavras e também da maneira como "arquiteta" muitos de seus poemas. Para quem não sabe, ele é também um dos mais premiados poetas brasileiros. Em 2004, recebeu o Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira e o Prêmio Alceu Amoroso Lima pelo seu livro "Macau". Ainda no mesmo ano, conquistou o segundo lugar no Prêmio Jabuti (categoria Contos & Crônicas) pelo livro de contos "Paraísos Artificiais". Conquistou também o Prêmio Alphonsus de Guimaraens na categoria Poesia pela obra "Trovar Claro", em 1997; o Prêmio Paulo Rónai na categoria Tradução de Autores Estrangeiros para o Português da obra "A mecânica das águas", de E. L. Doctorow, em 1995; e mais recentemente (2007) o Prêmio Alphonsus de Guimaraens pela segunda vez, na categoria poesia, pelo livro "Tarde", que também conquistou o terceiro lugar no Prêmio Jabuti.

Como já devem ter notado, Paulo Henriques Britto é também tradutor (já traduziu 98 livros). Além disso, ainda é professor de graduação e pós-graduação na PUC-RIO, onde desenvolve linhas de pesquisa sobre poesia brasileira contemporânea e tradução poética.

Acho que todos deveriam conferir o seu livro "Macau", até pelo prêmio que recebeu. Mas o meu favorito é o "Trovar Claro" (você pode conferir um poema do livro "Trovar Claro" na postagem "Como escrever bem poesia?"). Enfim, confiram a entrevista:



Você é um dos poetas brasileiros mais aclamados hoje pela mídia e pela crítica, tendo recebido diversos prêmios literários. O que acha que foi essencial para todo esse sucesso?

R: Muito obrigado pela avaliação. Bem, ninguém escreve poesia pensando em ganhar prêmios ou dinheiro, e sim, no máximo, em ser lido, possivelmente por mais de cinquenta pessoas e por mais de quinze minutos. Não sei se vou conseguir isso, e também não sei que tipo de resposta dar a essa pergunta. O que posso dizer é que só publico os poemas que me parecem os melhores de que sou capaz; na dúvida, é melhor engavetar.
Ser reconhecido pelos críticos e pela mídia ajuda na conquista de novos leitores?

R: Claro, pois é a praticamente a única publicidade que se faz dos livros de poesia — isso e a conquista de um prêmio.
Como você define a sua poesia? Quais as suas visões estéticas sobre o fazer poético?

R: A meu ver, a poesia que escrevo é muito marcada pelas vivências da minha geração. Minha formação literária se deu sob o impacto direto das vanguardas de meados do século XX, num momento em que os mestres do modernismo estavam sendo definitivamente canonizados. Ao mesmo tempo, o impacto da música popular dos anos 60 tornava respeitável de novo o uso do verso, da rima, da métrica, das formas fixas, de todas essas coisas que as vanguardas haviam supostamente matado e enterrado.
Vejo a poesia como uma forma de arte que tenta extrair todos os recursos da palavra — fonológicos, sintáticos, semânticos, prosódicos. A meu ver, a ideia é tentar fazer com palavras o que os músicos fazem com as notas musicais, tocar com palavras, por assim dizer, e ao mesmo tempo dizer com palavras, tal como fazem os prosadores.
Como acontece para você o processo de criação literária? Você possui algum tipo de ritual ou método? Costuma planejar o poema antes de escrevê-lo?

R: Não tenho nenhum método. O ponto de partida mais comum é alguma coisa que li — um verso, um trecho de letra de música ou mesmo uma passagem de prosa — mas pode ser um ritmo, mas raramente uma imagem. Ou seja: quase sempre parto de palavras, um trecho de frase, um sintagma. Normalmente a forma se define ainda no começo do processo — quando ainda estou nos primeiros versos já sei se vai ser um soneto, uma sucessão de estrofes em redondilha maior, um poema em verso livre. Mas como entre o verso inicial e a forma final do poema podem se passar até anos, muita coisa pode acontecer, e a forma inicial pode acabar sendo substituída por outra.
João Cabral costumava dizer que seus poemas eram feitos de 90% de transpiração e 10% de inspiração. Como você vê a questão da “inspiração” de que tanto se fala na poesia?

R: Ué, essa frase não é do Picasso? Bom, seja quem for o autor, faz sentido. “Inspiração” é isso: acaso, irrupção do inconsciente, o que não é planejado. Apenas dez por cento do total, mas é claro que esses dez por cento são importantíssimos.
(Procurei no google para saber de quem era a frase e achei resultados interessantes. Picasso disse que compor é 90% transpiração e 10% inspiração. Thomas Edison que o gênio é feito de 1 % de inspiração e 99% de transpiração. Não sei se João Cabral citava Picasso ou se simplesmente pensou da mesma forma, mas também seguia a linha de que o seu processo poético ocorria mais por meio do transpirar)
Muitos poetas hoje mostram um certo desdém em relação a utilização das formas tradicionais de poesia. Já os seus poemas costumam se aproveitar muito delas, tanto no que se refere à métrica quanto à rima. Como você vê esta questão?

R: Hoje em dia não vejo esse desdém, não. Há trinta, quarenta anos, sem dúvida, mas isso mudou. Hoje em dia, de modo geral o poeta que usa basicamente verso livre tem consciência de que o verso livre é apenas mais uma forma tradicional, que aliás já tem mais de 150 anos de existência — nem melhor nem pior que as outras. Pessoalmente, acho o verso livre uma das formas mais difíceis, e tenho uma admiração imensa pelos poetas que o utilizam de maneira magistral.
Quais os poetas que mais o influenciaram?
R: Muita gente. Em inglês — a língua em que descobri a poesia, por volta dos 12 anos, quando morava no estrangeiro — Shakespeare, Whitman e Emily Dickinson num primeiro momento, Eliot e Stevens um pouco depois. Em português, acima de tudo Pessoa, o poeta que mais me marcou de todos, mas também Bandeira e Drummond, e um pouco mais tarde Cabral, mais ou menos na época em que descobri Stevens. A partir daí — por volta dos vinte e poucos anos — li muitos outros poetas e aprendi muito com eles, mas esses que mencionei, os que descobri entre os 12 e os vinte e poucos anos, foram os que me marcaram mais. Eles e também os grandes cancionistas dos anos 60 — Caetano, Chico, Gil, Dylan, etc.



Em seu poema "Um pouco de Strauss", do livro "Trovar Claro", você faz uma crítica ao excesso de subjetividade na poesia (que leva ao egocentrismo). Há também quem critique o excesso de objetividade, de falar apenas de coisas concretas. O que você acha que é necessário para encontrar um equilíbrio entre o subjetivo e o objetivo nos poemas?

R: Bem, o poema que você menciona parece ao mesmo tempo criticar e dizer, mais para o final, que é inevitável, não é? O ideal é encontrar um certo equilíbrio — melhor ainda, como dizia Eliot, tentar escrever sobre coisas que sejam os “correlativos objetivos” de estados mentais.


A poesia é uma das formas literárias mais populares na internet. Existem milhares de blogs e sites que divulgam poesias. Você acompanha esta produção poética espalhada pelo meio virtual? Tem alguma concepção formada sobre ela?

R: Não, realmente não tenho acompanhado blogs. Mal consigo dar conta dos livros que leio por obrigação e por interesse. O tempo é escasso.

Que poetas da língua inglesa você sente falta de ver traduzidos no Brasil?

R: Muitos. Para só citar os mais recentes que me ocorrem no momento, faltam boas antologias de James Merrill, Philip Larkin, Frank O’Hara e John Ashbery. Se formos pensar no passado, aí é poeta que não acaba mais. A poesia em língua inglesa é riquíssima.
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O que você gostaria de ver no blog? (E mais notícias)

em 08/09/2009.
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Conversava com um amigo meu outro dia sobre as coisas do blog e ele me deu uma ótima sugestão: criar colunas semanais ou quinzenais sobre determinado tema. Achei uma idéia muito boa e comecei a pensar no que poderia transformar em coluna fixa. Decidi que irei colocar aqui toda terça ou quarta (ainda vou definir) um novo caso da minha série de contos policiais "O senhor das pistas" - vocês já podem conferir a história da semana passada que iniciou a série: o caso "Robert Pratt". Mas gostaria de ouvir também as idéias de quem lê o blog. Gostaria de saber de vocês, leitores, o que acham interessante colocar aqui.

Inicialmente, pretendo tentar produzir duas colunas semanais, uma será a série de contos policiais e a outra ainda está em aberto. Queria ouvir algumas idéias de quem lê o blog, saber o que vocês acham interessante, mesmo que seja algo que eu já venha postando por aqui. Lembro apenas que a série sobre Aletheia ficará parada por um tempo; era um experimento e acho que não obtive uma resposta muito positiva, vou postar coisas relacionadas a ela apenas de vez em quando agora. Uma das idéias que tenho para a segunda coluna é a de analisar livros e filmes de acordo com as minhas idéias apresentadas na série Notas sobre a ficção - quem quiser saber mais ou menos como funciona, pode ler a postagem sobre o filme Bee Movie.

Enfim, peço a ajuda de vocês, se tiverem alguma idéia legal e diferente, é só falar! (Podem deixar suas mensagens por comentário ou - para aqueles que se sentem desconfortáveis em comentar aqui - pelo formulário de contato no topo da página à direita)

Alguns números - Gostaria também de agradecer às muitas pessoas que têm entrado no blog e comentado. Por isso, fico feliz em dividir alguns números com vocês. Neste último mês (de 8 de agosto a 7 de setembro) , o Na Ponta dos Lápis recebeu 5.402 visitas, sendo 4.478 visitas únicas, e 8.558 visualizações de página. Além disso, os números aumentaram muito nas duas últimas semanas, o que signigfica que teremos números bem maiores no mês que vem. Uma vez mais, fica um agradecimento aqui a vocês leitores, que ajudam a tornar o blog ainda melhor.
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Poema de amigo - Desejo de deriva

em 06/09/2009.
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De vez em quando gosto de postar uma coisa ou outra de algum amigo aqui pelo blog. Hoje, coloco um poema do mesmo autor de "Sobre a Estrutura". Considero um poema muito bom, com um estilo que eu, particularmente, aprecio muito. Como disse anteriormente, lembra-me um pouco de Cecília Meireles e Fernando Pessoa.


Desejo de deriva

Do céu tiro um pedaço,
Um sonho puro e branco,
Em minhas mãos o amasso,
E suas lágrimas tranco.

Conto-as uma por uma,
lagos do céu que guardei,
como uma branca pluma,
Vejo o sonho que roubei.

Traço metas,caminhos
Onde a água despejo.
Viaja formando rios,
seguindo aonde desejo.

No horizonte convexo,
azul do céu ou do mar?
Entre planos reflexos,
à deriva a viajar.

Sonhos,não mais no céu,
enchem agora o oceano.
Com este custo tão cruel,
o que por sonhos trocamos?

E na escura noite afundo,
Viajando sem certezas.
Me guio pelo meu mundo,
Seguindo as estrelas.

-Por Igor Fernandes
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