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O Contador de Histórias (conto)

em 16 de abr de 2010.

Nota: cá vai mais um conto. Acabei postando ele assim que o terminei, sem ter muito distanciamento da obra para saber a real qualidade. Mas gostei muito dele depois de acabá-lo, por isso acabei cedendo e postando logo. Espero que a leitura seja interessante, que seja mais do que uma leitura, mas uma experiência!

Ele passou o braço direito pela testa e limpou o suor que escorria por seu rosto; trabalhara o dia inteiro em sua pequena plantação. O sol brilhava forte, castigava, como costumava fazer no início de todos os verões. Quando levantou a cabeça, sorriu. O ônibus que trazia as crianças finalmente chegara, era hora de iniciar a colônia de férias, o momento de se dedicar àquilo que mais gostava, à atividade para a qual se preparava durante o ano inteiro.

Dona Maria mandou lhe chamar, queria vê-lo limpo e arrumado para encontrar com as crianças. Osvaldo obedeceu prontamente, afinal, também queria causar uma boa impressão. A experiência que ganhara nos últimos anos tinha lhe ensinado que era preciso causar um efeito positivo nas pessoas assim que fosse apresentado.

Ele seguiu para o seu quartinho, uma pequena construção que ficava ao lado da casa principal da fazenda. Tomou um banho, penteou o cabelo e se encaminhou em direção à biblioteca. As crianças já o esperavam, algumas por já conhecê-lo de outros verões. Osvaldo era excelente contador de histórias. Ou melhor, talvez excelente seja um adjetivo inapropriado. Osvaldo era incrível, mágico; aquele tipo de pessoa a que normalmente não damos atenção, mas que se transforma quando se envolve com as coisas de que realmente gosta. E assim era com ele, sempre uma surpresa. As palavras encantavam, a voz as recitava com precisão, no tom certo para envolver quem o ouvia.

A tensão na sala era nítida, mas um tipo de ansiedade boa... e boba, de criança. Elas fitavam Osvaldo com os rostos iluminados; os olhos divagavam, perdidos num mundo de sonhos, de histórias. E o dia passava sem que ninguém ousasse se mexer. Impérios eram construídos e depois se acabavam. Grandes heróis percorriam a biblioteca, atiravam-se contra moinhos e gigantes, partiam em aventuras, salvavam donzelas e, claro, cumprimentavam as crianças. Elas podiam sentir; o cheiro das fábulas, o toque das histórias, o sabor das palavras, dos sons, o gosto pelo livro.

E Osvaldo prosseguia verão adentro. Quem precisava brincar lá fora quando na biblioteca penetravam em um mundo novo? O mundo de Osvaldo, os mundos de Osvaldo. E ele sorria. Não tinha outro momento na vida em que se sentisse tão completo. Desde pequeno, sempre fora criativo, imaginativo, uma criança por demais sonhadora, seus pais diziam. Mas ele não ligava. Fazia os trabalhos no campo e depois se sentava no mato; perdia-se por horas com o olhar fixo nos céus e nas plantas, criava histórias ao ar livre, como sentia que elas mereciam ser criadas. Amava todas as coisas, em especial as crianças, aqueles seres novos e ainda tão cheios de potencial que visitavam a fazenda a cada verão. Podia notar nos olhos delas o encantamento, em umas mais do que em outras; mas todas embarcavam, partiam com ele em viagens homéricas, empreitadas secretas, fugas alucinadas. Cantavam com os menestréis e exploravam os vales, desvendavam crimes e capturavam bandidos, depois comemoravam com o Saci. Como eram bons aqueles verões!

E quando tudo passava, Osvaldo voltava ao trabalho na fazenda, retornava aos animais e às plantas. Eram meses na lavoura, suando e capinando. Mas ele não reclamava. Sabia que tudo valeria a pena no verão seguinte. Enquanto isso, cuidava de tudo na fazenda com muito carinho; conversava com as flores, brincava com os animais. Tinha um cuidado especial com cada cantinho de natureza, pois tinha a consciência de que suas histórias nada seriam sem tudo aquilo que ela lhe contava.

6 Comentários:

Lídia Michelle

Depois de tanto tempo, me deparo com esse conto lindo. Me lembrou o filme "Mensagem pra você", no qual Meg Ryan faz o papel de uma dona de livraria que lê aos domingos, se não me engano, para as crianças. Além de lembrar a minha infância, minha mãe com aqueles livros Uma História por Dia, ou o tio Jeso, de minas, hehehe.
Outra coisa que me fez lembrar também foi do livro Meu Pé de Laranja Lima, ainda era criança quando o li e me lembro de como senti aquele livro. Apesar de ninguém ter lido para mim, me sentia como essas crianças do conto, foi por sentir isso que comecei a ler... hehe...
gostei muito...

Leonardo Schabbach

Valeu mesmo pelo comentário, fico muito feliz que tenha gostado do texto. Eu, particularmente, gostei muito dele também, por uma série de motivos. Tive uns comentários bem positivos via twitter. Mas já estava tristinho que um conto tão bom não tivesse recebido um comentário sequer no blog, hehehe.

Leonardo Schabbach

Valeu! Dá um trabalhão mantê-lo, mas tem sido prazeroso. Muita gente participando e, agora, a organização da antologia, mais a parceria com algumas editoras. Tá ficando cada vez melhor!

Mairy

É a mágica da simplicidade! Adorei, diga a verdade Leonardo vc é o Osvaldo né?

Um abração!!!

Leonardo Schabbach

Não. Mas, claro, tenho sim um pouco de Osvaldo, hehe, como vários outros contadores de histórias pelo mundo. Todos temos um pouquinho de Osvaldo =)

Fico feliz que tenha gostado!

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