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Da xícara e do café - por Bruna Maria

em 15 de mai de 2010.

Volta e meia, abro o espaço do blog para alguns autores que me enviam contos e poemas via e-mail. Hoje, publico um texto bem legal enviado pela Bruna Maria, que costuma comentar por aqui. É um conto muito interessante e, definitivamente, muito bem escrito, com um bom valor literário, pelo menos em minha opinião. Espero que vocês apreciem. E quem quiser me enviar os seus para divulgar (caso não se enquadrem em nossa antologia) é só enviarem suas obras para meu e-mail (leoschabbach@uol.com.br). Abaixo segue o uma breve biografia da autora, com links para seu blog e twitter, e o conto. Confiram e comentem!

Bruna Maria é carioca, mas não chega a ser muito fã de dias de sol. Formada em Letras, já cultivou uma média de três blogs pela rede, deletando os dois últimos por ter embirrado com a escrita. Para ela, o ato de escrever pode ser muito cruel e pouco redentor e, por isso, vive tentando desistir de se meter com as palavras. Mas não consegue. Confiram o seu blog. Sigam-na no twitter.


Da xícara e do café


Vou jogar pela janela o café que ainda resta na xícara. Doce, extremamente doce, naquela ânsia, angústia anterior e extremada pelos torrões de açúcar. Vou jogar, então, as gotas derradeiras, as gotas restantes e negras, a precedência do borrão revelador no fundo da louça branca, alva, claríssima. Virando a xícara com um leve gesto de quem cumpre um movimento de dança... Assim darei fim ao líquido já frio. Agora intragável. E posso imaginar a sua queda, de olhos abertos imagino a sua queda livre e líquida, direta e sem escalas, até o mórbido nível do mar.

Talvez este restante café caia sobre algum veículo; ou, ainda, sobre um transeunte desavisado. Tendo sorte, o líquido cairá sobre o cachorro irritante e implicante da vizinha, que por essa hora, geralmente, está passeando pelo jardim frontal do prédio. E se isso realmente acontecer, se a coincidência se mostrar ativa neste universo, eu lamentarei, silenciosamente, que o teor do café já esteja tão frio, e não pelante na queda por sobre o pelo do bichano insuportável.

Mas apesar de todas as fabulações, ações, gestos e descrições, me mantenho aqui, segurando esta xícara com seu conteúdo macilento, nauseante, velho. Nada faço, por mais que tenha todo o plano formado.

Nenhum passo dou em direção à janela. Meus músculos estão parados, meus ossos não ensaiam nenhum movimento. Minhas mãos sustentam a louça fina e meus olhos se debruçam congelados como que para um abismo, entrando pela xícara, vencendo sua borda e caindo, caindo, caindo... caindo lá para dentro do negrume adocicado, frio, detestável.

Então creio que sei que é hora de agir, e intenciono – apenas intenciono – sair da estática contemplação do precipício e me dirigir ao fim, ao defenestrar derradeiro. Sim, seria hora. Finalmente seria a hora. No entanto. No entanto.

Acho que não quero, acho que não quero nenhum movimento. E fico parada aqui, segurando, cheia de palavras que se substituem umas às outras, formando anomalias da ação, me prendendo como correntes e cadeados bem arranjados, de cuja chave ninguém nunca teve ou terá notícia.

Se eu não pensasse tanto, talvez por essa hora eu tivesse afinal um cachorro de vizinha chamuscado, e tudo seria diabolicamente risível.

Mas tudo o que faço, por fim, é apenas levar covardemente a xícara aos meus lábios e virar o desprezível e intragável conteúdo todo em minha boca.

E sorvo. Sorvo como se fosse sangue de um corpo de verdade, esperando reter alguma origem ou DNA que justifique esse estar aqui tão condescendente, tão obscenamente imóvel e, simultaneamente, movediço.

Sorvo. E também como se fosse seiva ou veneno – uma das duas; porque, por um lado mais palavras teimam em borbulhar e, por outro... morre, definitivamente, a ação.

12 Comentários:

M.F.

Que intenso e... não sei. inquietante. Fiquei meio sem palavras, não sei o que comentar, rs. Mas gostei muito. Vou passar no blog dela :)

Bruna Maria

Olá, M.F.!

Obrigada pela leitura. Acho que nem sempre é preciso ter o que comentar e que outras reações, como a inquietação, por exemplo, respondem também ao propósito do texto, além de palavras que falem sobre ele.

=)

Lívia

Também achei bem intenso, todo o conto é sobre uma pequena passagem de tempo, talvez alguns minutos ou segundos e então parece que é uma análise sobre esse minuto tão cheio de emoções. Muito bom =)

Leonardo Schabbach

Deixando aqui também meu comentário, já que não falei tanto na postagem, para ser mais breve. Eu gostei muito do conto. O trabalho com a linguagem e a maneira de narrar foram muito bons, a leitura ficou muito agradável mesmo.

E acho que também trata de um assunto legal, causa um incômodo, provoca a pensar sobre algumas coisas, como a própria incapacidade de agir, tomar escolhas e etc...

Bruna Maria

Oi, Lívia! Sim, sim, suas observações são bem pertinentes. Tudo acontece num estalar de dedos mesmo. O desafio acaba sendo conseguir captar de uma forma não tão prolixa, mais sintética, a carga que um acontecimento assim pode ter.

Acredito que o que a gente escreve pode tomar outras direções bastante coerentes a partir do olhar do outro que lê. E essa dinâmica é muito legal.

Mas, no caso do comentário do Leonardo, em especial, foi o que mais se aproximou da motivação inicial que tive para escrever esse conto. A questão da incapacidade de agir que, particularmente, me pega muitas vezes. Quis trabalhar um pouco com isso.

O mais legal é que descobri, segundo a leitura de vocês, que o conto causa incômodo. E isso eu jamais imaginei que poderia surgir na leitura. Fico feliz de poder constatar isso.

Obrigada pela leitura! =)

Marcela

Gostei muito do conto. É inquietante mesmo. Me fez sentir, e pensar tbm.

Bruna Maria

Oi, Israel! E olá, Marcela!

Como eu disse, a inquietação de vocês me parece um ótimo sinal.
Obrigada pela leitura e comentário!

=)

Leonardo Schabbach

A inquietação é sempre um bom sinal. É uma das qualidades que mais aprecio num conto. Tem de mexer com a gente, fazer pensar. Eu gosto disso =)

carlos alberto affonso

carregamos por uma vida inteira casamentos, empregos, amizades, situações, que nos causa náuseas; mas na hora H do dia D... morre, definitivamente, a ação.
Parabens, Bruna. Da xícara e do café ao lápis, você nos escreveu um profundo conto que sorvemos com inquietação.

Bruna Maria

Muito obrigada pela sua leitura, e por esse bonito comentário, Carlos.

Um abraço!!

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