Quer meu livro de graça? Assine minha newsletter e venha conversar comigo!

Além disso, a newsletter é para ser algo mais pessoal, nela vocês podem responder e conversar diretamente comigo. E eu ainda pretendo enviar uma série de textos exclusivos por lá, sendo alguns mais pessoais, alguns capítulos antecipados de livros que serão lançados, assim como alguns e-books gratuitos.

Leia Mais

12

Estranhos e A Queda

em 12 de ago de 2010.

Coloco hoje dois contos não muito grandes no blog, um deles é bem curtinho, quase como uma brincadeira, não sei se fará muito sucesso, mas gostei muito dele, é um conto antigo que achei em um caderno velho meu. Já o texto Estranhos é bem recente, terminei de escrevê-lo hoje e é, digamos assim, o conto "principal" desta postagem. Enfim, como sempre, espero que gostem.




Estranhos


Ele iria se matar, já tinha se decidido. Estava cansado da rotina, das milhares de obrigações e da vida solitária que levava; nem no trabalho lhe davam atenção. Ele se esforçava, muito, tentava ser o melhor empregado, o melhor amigo, mas todos estavam sempre muito apressados. Quem era aquele chato que queria puxar assunto a toda hora? Deveria ser meio louco. Onde já se viu? Parar para conversar? Certamente não dava atenção ao seu trabalho como deveria.

Mas isso não era verdade. João – um João qualquer – se esforçava, como todos os outros. Trabalhava a duras penas para receber o seu merecido salário mínimo – ou melhor, se fosse o merecido, receberia muito mais; afinal, era um excelente empregado. Acontece que João gostava da humanidade em demasia, amava todas as pessoas, talvez por conta de seus pais. Sua avó sempre lhe dissera que eles eram criaturas santas. Estranhamente, também tinham se matado. Talvez fosse esse o seu destino e também o de sua família.

Estava sentado no metrô, olhando pela janela escura, que refletia apenas o nada dos túneis rochosos e eletrificados. O ambiente era frio, o vagão estava razoavelmente cheio e algumas pessoas já se punham de pé; os assentos, como sempre, não eram suficientes. Naturalmente, como quase tudo lhe parecia, eram reservados àqueles que tinham mais pressa e menos educação.

Num determinado momento, uma senhora muito idosa passou lentamente pela porta e adentrou o vagão. João se levantou, quase que automaticamente – para isso, ele e muitos outros eram bem treinados – e deu lugar a mulher. Ficou de pé, as mãos no corrimão de ferro frio destinado às pessoas lentas demais para garantir o seu lugar ou para aquelas que tiveram o azar de se verem próximas a um idoso ou deficiente.

João não se importava, não se sentia obrigado a ceder o seu assento, o fazia realmente com muito prazer e gosto, talvez por culpa do sangue de seus pais. Ainda assim, tinha a consciência de que, na maioria dos casos, as pessoas só demonstrassem aquele tipo de “gentileza” por se sentirem acuadas diante dos severos olhares de reprovação. Tudo acontecia de forma natural e, ao mesmo tempo, falsa. No fundo, não havia conexão e, muito menos, preocupação, era tudo minuciosamente ensaiado.

Um toque quente e áspero desviou a atenção para o seu braço, alguém o segurava. João abaixou a cabeça e percebeu que a senhora falava com ele. Lentamente, ela abriu a bolsa e lhe ofereceu um pacote de balas, jujubas ao que lhe parecia. João a encarou com estranheza. A senhora sorria e, com um tênue movimento com a cabeça, incitava-o a aceitar o presente. Você é um bom menino, ela dizia.

João aceitou o pacote de jujubas, abriu-o, ainda um pouco incrédulo e surpreso. As balas começaram a derreter em sua língua, o gosto lhe pareceu muito mais saboroso do que o normal, muito mais doce e reconfortante. Não era o sabor do confeite em si que lhe agradava, mas o prazer da situação, a retribuição daquela senhora, a conexão feita entre um ser humano e outro, por mais inesperado que aquilo pudesse lhe parecer.

Na estação seguinte, João desceu do vagão já um pouco mais aliviado. Da janela, a senhora lhe fitava e, discretamente, ameaçava um aceno simpático. Ele retribuiu o sinal, colocou mais uma jujuba na boca e caminhou para fora da estação. De algum modo, sentia suas esperanças reacenderem, podia notar um sentimento bom renascendo em seu corpo. Definitivamente, não via mais motivos para se matar, talvez o mundo não fosse assim tão ruim. Quem diria que meras jujubas pudessem o modificar tão profundamente, que dirá então salvar a sua vida? Era irônico, porém doce, como eram aquelas balas.

Dois passos adiante, João caiu, subitamente, morto: o pacote estava envenenado.




A Queda


Um homem caía de um prédio. Como o caminho era longo, resolveu aproveitar. Antes do primeiro pensamento, morreu. Nunca imaginara que as quedas fossem tão rápidas.

12 Comentários:

Isie Fernandes

Seres estranhos mesmo, e quanto fundo de verdade nessas entrelinhas... As pessoas geralmente agem "com gentileza" por obrigação mesmo, no automático, e sem prazer nenhum.
O que posso dizer da doce velhinha? Talvez ela tenha mesmo o salvado, ao menos, de dar continuidade à maldição de sua família - o suicídio.
Nesse mundo ninguém sabe quem é o verdadeiro psicopata; se aquele que aparenta ser, ou se aquele que age como tal.

Sobre o microconto, amei! Contos pequenos são realmente os meus favoritos, pois conseguem o nocaute já nos primeiros instantes do único round.

Parabéns!

Paul Law

Leonardo,

Seu primeiro conto fez-me refletir muito sobre a vida e as pessoas.Confesso que fiquei um pouco triste quando João morreu, pois achei que ele iria encontrar a razão para continuar vivendo, apesar de tudo. Queria que acabasse assim, mas isso não vem ao caso. Parabéns, por nos surpreender.

O segundo é muito interessante também. Curto, mas carregado de significado.

Um abraço

marcos nunes

Lonardo,

Não precisa publicar, mas dê uma lida no conto a seguir, escrito por mim há algum tempo e que, de certa forma, agrega questões apontadas nos seus dois contos. Divirta-se. Ou não.

Estado de coisas

Percebendo seu corpo paralisado e seu olhar mirando um ponto específico do teto, vislumbrou a possibilidade do conhecimento absoluto, perfeito, sobre o objeto determinado, a saber, o teto com suas pequenas fissuras, desbotados da cor acinzentada da pintura, bolotas de possíveis infiltrações de ar ou água... Anotava mentalmente os detalhes, mas a experiência não durou o tempo necessário para provê-lo desse ajuste preciso sobre uma realidade determinada, pois o acidente vascular cerebral que o vitimara acabou por matá-lo em cerca de dez segundos.

A mulher, que saíra para buscar um café de que estava necessitada, encontrou-o com uma expressão beatífica, mas olhar vidrado em direção a um ponto preciso do teto; observou-o por alguns segundos, pensando que talvez ele estivesse morto, levando-a a perguntar “Osvaldo, você também quer um pouco de café?”, mas ele não respondeu, o que a fez pensar que ele talvez estivesse vivo.

Walisson Lopes Barreto

Inocente João,
tão ciente da vida,
tão crente no amor.
Coitadinho, será?
O que fazer diante de tal situação,
entregar-se a desilusão?
Pois é, com balas de Jujuba,
morreu João ao sabor de uma sublime decisão:
Amar, não tem para a vida
outra solução!
Amar é um risco,
um rasgo no egoísmo.
Assim, diante da brevidade da vida,
por que não fazer como João e afirmar:
Amar, não tem para a vida outra solução!

Abraços...

Muito bom!

Tarcísio Mello

Não sei do que gostei mais: dos contos ou do comentário da Isie Fernandes.

Adoro contos! Nesse caso, gostei muito dos dois por motivos diversos. Do primeiro por ter um final surpreendente, aprecio muito isso. O segundo por ser, como de forma ímpar a Isie comentou, me levou ao nocaute.

Quanto à Isie, vireu seu fã.

Isie Fernandes

Olá, Leo, será que eu posso?

Tarcísio, muito obrigada pela gentileza (sei que não é fingida). Já fui ao seu blog e gostei bastante das suas postagens, nos comunicamos por lá.

Grande abraço!

Anônimo

Em primeiro lugar eu gostaria de parabeniza-lo pelos contos, sempre pertinentes e intrigrantes. Em segundo lugar eu gostaria de perguntar-lhe a quantas anda o processo da antologia Alétheia. Estou muito ansioso e não vejo a hora dela ser publicada.

Grato, Pedro G.

Bruna Maria

Adorei o "Estranhos"! Assim que me aliviei por João ter encontrado uma parcelinha que seja de paz e contentamento, veio o parágrafo seguinte fatal, certeiro e direto. Um ironia danada; quando ele quis morrer, não morreu, foi levado a trocar de ideia, pelas circunstâncias da vida. E, quando decidiu viver, foi morto.

O "A Queda"... bem, vou pensar melhor nele. Comento depois!!

Abç!!

Anônimo

muito bom , com ese conto podemos perceber que nem todo mundo esta disposto a mudar o mundo! e ele acabo se iludindo com aquela senhora... Mostra bem anossa realidade... gostei muito.

Pastor Goethe

A existencialidade de suas palavras se tornam cosmicas para interação de sua intencionalidade.
Parabéns pelos contos, principalmente pelo segundo, que adentrou minha mente, com sua significação.

Abraços

Pastor Goethe
http://palavrasdesdeuses.blogspot.com/

claudinha

Você me surpreendeu, na verdade me prendeu até ... a queda .Ahhhhhhhhh, isso não se faz a uma leitora apaixonada pelo palavrar cadenciado e por vezes itinerante de um bom conto.

Postar um comentário

Participe você também. Sinta-se convidado a postar as suas opiniões. Com a sua ajuda, o blog se tornará ainda melhor!

 
Copyright© 2010 Na Ponta dos Lápis
Apoio: Literatura Fantástica
Tema original "Solitude" Modificado por Mundo Blogger