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A pausa e o percurso - por Luis Narval

em 22 de set de 2010.

Trago um outro conto aqui que me foi enviado por e-mail por um dos leitores do blog. Gostei do ritmo narrativo, das palavras escolhidas na narração. Creio que o conto, apesar de não conter muita ação, traz um tipo de narrativa interessante, com um pulso interessante, quase como uma conversa entre leitor e narrador. O final acaba esclarecendo o conto e traz, como na maioria dos pequenos textos, alguma surpresa. Enfim, achei interessante.

Além disso, o autor lançou também um livro com os seus textos. Este, inclusive, faz parte da obra, que se chama A Mansão da Rue Lafayette (saiba mais sobre o livro aqui). No caso, o autor me passou somente a capa, o conto e falou sobre o livro, mas não sei exatamente onde comprá-lo. Como sei que algum leitor do blog pode ficar interessado, entrarei em contato com o Luis Narval por e-mail para obter mais informações. Bom, agora, segue o conto.


A pausa e o percurso

Fazia um tempo abafado. Mesmo assim, um vento inesperado, que não aliviava em nada a opressiva sensação de calor, deslizava pelas sinuosidades da noite, como que a procura de planícies amplas, de céus abertos, de uma convergência que a face multifacetada do concreto, que a convulsa simetria da fachada urbana lhe negava. Estrépitos, vociferações, gargalhadas; sons aparentemente desordenados preenchiam de rumores os passadiços, as calçadas, as avenidas, os estabelecimentos comerciais.

Uma multidão que a pressa animava conduzia-se rumo a seus afazeres e preocupações com espantosa diligência, como encarregada fosse, dir-se-ia, de prestar informes urgentes acerca de questões capitais, nas quais estaria em jogo nada mais nada menos que a vida e a morte. “É sempre assim”, refletia um homem alto, jovem, de boa aparência, elegantemente trajado, que cortava como uma barbatana de tubarão o mar encapelado. “É sempre assim. Em meio à multidão, o indivíduo isolado atribui a si mesmo uma importância extraordinária; e talvez não de todo absurda. Pois que espetáculo oferece a turba! Oh, esse pobre-diabo arrastando os trastes numa mala; com certeza não tem onde dormir esta noite; contudo, vejam que ar insolente, que autossuficiência magnífica exalam essas fuças de asno! E essa garota à minha frente, com seu traseiro e peitos pontiagudos; subjugando pela sensualidade o que sua ciência e candura não alcançam cativar; mas reparem que arrogância, que desprendimento lhe empresta a atmosfera encantatória da massa anônima! Esse sujeito que lá vai, gingando os quadris estreitos, compenetrado de sua esperteza. Provavelmente um inseto, sem mais iniciativa que uma pedra. E essa velhota... Mas oh, basta! Sinto que poderia continuar para sempre. O espírito humano revela-se pródigo quando se trata de enumerar equívocos. No entanto, como tudo isso me parece medonhamente estúpido!”

O homem que se entretinha com essas singulares e ácidas observações, não obstante o fato de se concentrar na pessoa variegada que a multidão compunha, era presa de terríveis pensamentos e sombrias deliberações, que nada tinham a ver com o colorido patético e divertido, ingenuamente coquete, ostentado pelas multidões em suas frivolidades coletivas.

Ele sabia, com clarividente certeza, que se arrependeria pelo resto de seus dias da resolução que acabara de tomar. Entretanto, após indizíveis tormentos, aflições e mesmo horrores de uma encarniçada luta interior, que o levara ao desespero e quase a loucura, parecera-lhe providencial e maravilhosamente reconfortante a trégua que afinal adviera de sua decisão.

Era breve a paz, não o ignorava. Sabia-se suspenso por um fio invisível sobre um turbilhão disforme e inapelavelmente caótico, que fatalmente o engolfaria no minuto exato em que executasse seu projeto; postergá-lo, porém, estava fora de questão.

Parecera-lhe, a princípio, estupidez submeter deliberadamente a cadeias futuras sua vontade e energia – sua liberdade, por força de uma ação tresloucada no presente. Ciente, todavia, dos acidentes que pontuam a malha rota com a qual se trama a existência de um homem. Sabedor de que é a pausa, não a duração do percurso que o homem persegue. Consciente da duração como prerrogativa da pausa, não hesitou mais que um segundo em se arrojar no abismo...



A recepcionista – uma solteirona azeda – saudou-o com um sorriso significativo, e com passo rabugento se afastou, pensando maldosamente na figura desdenhosa e artificial do novo vigia noturno. Um bon vivant, forçado pela falência a trabalhar.

6 Comentários:

Ricardo Fróes

Gostei do ritmo, da "música" das ideias. Está cada vez mais raro encontrar isso hoje em dia. Digo: a solenidade, a sobriedade, o tom sério e introspectivo que revela, não apenas domínio formal, mas conhecimento da complexa/patética condição humana. E a "ação", a que faz toda a diferença em arte, não devemos nos esquecer, é sempre aquela interna, sempre aquela que se passa no nível do pensamento, das emoções, sensações, etcétera. Parabéns ao autor e ao criador do blog. Grata surpresa.

Juliano de Souza

"Inesperadamente, porém, para seu desassossego, julgou perceber qualquer alteração no ambiente. Um tipo de eletricidade, embora sensorialmente indiscernível, parecia se alastrar, impregnando tudo em torno com uma perturbação nova; que era uma espécie de contágio desafiador. Diante do qual nenhuma imunidade, quer por natureza, quer por princípio, permanecia indiferente. A imensidão pulverizada do solo arenoso, a própria solidez granítica das construções rochosas, como que se tornaram permeáveis a uma personalidade estranha que, todavia, dava mostras de ser propriamente a força primordial daquelas formas em estado latente. Sob tal influxo poderiam florir, liquefazer-se, evolar-se, se desejassem. Mas para todo o sempre seriam pedra e areia insensíveis; e isto, absolutamente, não anulava o efeito de uma milagrosa transformação." Encontrei este trecho na internet, que faz parte do conto "A Beleza e o Ideal", constante, segundo informações, do livro do sr. Luis Narval e fiquei impressionado. E lendo agora esse conto, fiquei ainda mais interessado pelo livro. Como faço para adiquiri-lo?

Leonardo Schabbach

Legal que gostaram do conto. Eu entrei em contato com o autor para saber como conseguir comprar o livro. Assim que souber, posto aqui nesta página, então fiquem ligados!!

Abraço.

André Conrrado

Cara! Que começo interessante prum romance! Imaginei o protagonista à caminho de um atentado à bomba (no congresso, por exemplo, ré, ré), ou então, no mínimo a caminho de um vingança por adultério. Mas sendo um conto breve, mesmo assim surpreendeu. A propósito, que estilo ineressante, ainda não vi coisa parecida. E olha que to sempre atento a novidades.Valeu!

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