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Dica de livro: A chave de casa, por Tatiana Salem Levy

em 8 de nov de 2010.

Escrevo hoje sobre uma autora nova, que apareceu faz poucos anos no cenário literário nacional e que já conquistou o seu espaço entre os leitores e a crítica. Na minha última postagem - Respeitando a inteligência dos leitores - cheguei a falar um pouco sobre ela no parágrafo final. Trata-se da Tatiana Salem Levy; no caso, mais especificamente, trata-se de seu livro de estréia pela Editora Record: A chave de casa.

A obra é realmente muito interessante, sendo, inclusive, a tese de doutorado da autora, algo que é incomum na academia brasileira. Aqui, raramente aceita-se uma obra ficcional como tese acadêmica. Por este motivo, já deve se imaginar que haja um forte caráter teórico por trás da obra - e, naturalmente, há. A chave de casa retrata a história de uma neta de judeus e filhas de comunistas no Brasil (o que tem uma relação com a própria autora, há uma certa mistura entre realidade e ficção) que recebe a chave da casa de seu avô na Esmirna (Turquia). O livro se desenvolve, já desde o seu início, de maneira fragmentada, numa tentativa de se trabalhar a questão da memória. Por este motivo, em alguns momentos nos deparamos com a narradora em um período anterior de sua vida, conversando com sua mãe; em outros momentos é narrada a história de seu avó, de seus pais, a sua própria relação com um namorado; enfim, a história se movimenta, passando por diversos personagens e por diversos períodos diferentes de tempo de uma maneira não cronológica, mas que vai, através dos vários fragmentos de memória, fazendo-nos compreender a história de vida de cada personagem, a maneira como a narradora chegou onde estava.

Como já devem ter notado, o livro não é de modo algum simples. A linguagem utilizada na narração é muito bem trabalhada, a trama se desenrola de maneira pouco comum para a maioria dos livros, mas constrói perfeitamente a idéia da autora de simular fragmentos de memória e tentar contar uma história mais ou menos da mesma maneira como funcionaria o pensamento humano. Deste modo, a todos aqueles que gostam de uma literatura que realmente explora os sentimentos e pensamentos humanos, uma história capaz de não só mostrar uma outra cultura (quando acontece a viagem para a Turquia) como também nos fazer refletir sobre a condição humana, fica a indicação desta obra; ela realmente deve ser lida. Inclusive, gostaria de acrescentar que estou muito ansioso para ler novos livros da autora Tatiana Salem Levy. Dentre os escritorese brasileiros, ela, na minha opinião, já merece algum destaque.

11 Comentários:

marcos nunes

Sem querer ser muito chato, mas já sendo e até em excesso, penso ser necessário dar tempo ao tempo para verificar o grau de qualidade depois de uma recepção inicial favorável, mais devido às questões de imagem e influência do que por certificação de perenidade de um obra. É bom recordar o caso Paula Parisot. Escritores que se colocam como produto principal ao complemento livro, possuem centenas de fotos na Internet, todas elas devidamente photoshopadas...

Aliás, essa coisa de escritores-celebridades não é de hoje. O melhor é que a celebridade de ontem hoje ninguém mais ouve falar, enquanto os melhores ficam, independentemente da recepção que tiveram à época de lançamento de suas melhores obras. Há pouco o Jabuti premiou Chico Buarque por um livro fraco, que penei e não consegui finalizar, e um escritor-Bozo (trabalha na Globo, etc.). Não vale a pena difundir isso.

Não posso criticar o livro da Tatiana porque não o li; tendo à mera suposição de que se trata de mais um exercício algo estéril acerca das questões da memória e identidade em um universo restrito de relações. Mera suposição, ou o já conhecido "não li, não vi e não gostei", ou "não compre o livro, não veja o filme, desconheça a pessoa". O problema é que já conheço os envolvimentos que levam aos êxitos fugazes dessas pequenas celebridades literárias. Isso não dura. Dia desses ela casa com um banqueiro (ou banqueira), arranja uma cátedra qualquer (normalmente na PUC-Rio), e volta à modorra do umbiguismo literário cultivado e lido por uma centena de iguais.

Convém abrir mão do psicologismo banal: não, não é ressentimento, não é rancor, é só de muito ter visto o mesmo do mesmo, de ter deparado com dezenas de criaturas geeniais que desceram ao abismo de si mesmas e lá não encontraram mais do que uma velha e carcomida fraude.

Nesse registro, aliás, gostei, há muito tempo atrás, de Resumo de Ana, pequeno romance escrito pelo conhecido tradutor Modesto Carone. Os Ratos, de Dyonélio Machado, é muito citado e pouco lido. Há também O nome do bispo, de Zulmira Ribeiro Tavares. O problema dessa última é que ela nunca foi bonita como a Parisot ou a Salem Levy. Ou pelo menos nunca recebeu o trato do Photoshop.

Leonardo Schabbach

Quero ler o segundo livro também, só não sei se já foi publicado ou não.

Agora, Marcos, gostei muito dos seus comentários nas últimas postagens, mas preciso dizer que este último comentário foi, na minha opinião, muito infeliz, de um grau de preconceito enorme. Sem ter sequer lido o livro, você está julgando a autora e a obra como ruins somente pelo fato de que ela apareceu na mídia e de que é considerada "bonita".

Isso para mim é um absurdo. Antes de se pronunciar de um modo assim, aconselharia a ler o livro. Porém, tendo em vista que você já tem uma opinião formada, acho difícil que a mude mesmo após a leitura. De qualquer forma, é um absurdo julgar a obra como ruim e dizer que a autora será esquecida sem ter sequer lido uma página de sua narração; é um absurdo, simples assim.

Agora, devo concordar que devemos esperar um tempo. Acho que ela já merece seu espaço, mas logicamente precisaremos de mais obras de qualidade para verificarmos se será ou não uma grande autora. Também concordo com o que falou sobre o Chico, faz 2 dias discuti isso com um amigo meu, sobre os méritos do Jabuti, sobre a escolha em nossa opinião errada em relação ao Jabuti no caso do Chico (todos os livros dele foram premiados).

Um outra crítica que poderíamos fazer, indo mais ou menos ao encontro do que você colocou, é que autoras consideradas "bonitas" tendem a ganhar uma espaço muito maior na mídia e nas livrarias. Infelizmente, é difícil hoje - e mesmo antigamente - vermos surgir, com apoio de críticos, editores e da mídia, autoras novas que não tenham um certo grau de beleza; isso foi algo que já comentei com algumas pessoas que conheço, e é algo que demonstra um intenso grau de machismo no mundo editorial.

Agora, criticar de antemão o livro somente por ele ter aparecido na mídia (e nem tanto assim) e por considerarem a autora bonita (já ouvi isso de outras pessoas, eu particularmente nunca vi muita coisa sobre ela, somente artigos e a mesa da FLIP; além de ter lido o livro, claro) é uma postura extremamente preconceituosa, como se qualquer autor que venha a ter reconhecimento midiático seja automaticamente ruim.

Leonardo Schabbach

Só algo que esqueci de dizer também. Não é um exercício algo estéril em relação à memória, nem há de fato a citação de que se trabalha com isso dentro da história. A obra inteira, da maneira como é estruturada a narrativa e o próprio livro, é que simulam fragmentos de memória, de modo que o livro, como inteiro, possa tentar recriar o modo humano de pensar através de memórias e etc...

A obra trata essa questão da memória em sua forma, a história não necessariamente, nem as personagens.

MarcosReis

Uma da mais notáveis características na literatura da Tatiana Levy é a abordagem de questões filosóficas - e até psicanalíticas- de forma muito sutil. A sua escrita delineia um tema central, ou seja, a busca pela identidade. No caso deste livro "A chave de casa", esta busca se dá na volta ao passado de sua família, e com isto, integrar partes que se encontravam desconexas em si mesma.
Qdo se pensa em autores pop, como o Carpinejar, há quem coloque a Tatiana Levy nesta mesma prateleira, mas esta história de buscar a si mesma, a sua identidade e tentar assimilar um sentimento de se sentir fora de sua própria casa (como foi abordado na sua primeira publicação "Experiência do fora:Blanchot, Foucault e Deleuze"), são características que farão a autora se diferenciar no meio literário e mostrar qual é a sua verdadeira identidade. O engraçado é que vejo a Tatiana Levy como uma futura Lya Luft, não sei por qual razão...hehe.
Abraços Leonardo.

marcos nunes

Pô, Leonardo, mas eu mesmo me critiquei naquele parágrafo do "não li e não gostei", etc. O problema está como o que também está escrito no mesmo parágrafo, e em todo o aparato (se você não acompanhou, bem, eu acompanhei - ela e Parisot recebem tratamento de filhinhas diletas de nosso mercado editorial "maduro", etc.) que cercou o lançamento do livro - pela editora Record, que costuma trabalhar comercialmente o material que lança, pois o objetivo deles é fazer dinheiro, não cultura, ou melhor, cultura sim: cultura do dinheiro.

No mais, só comentei algo pelos vestígios da minha própria memória acerca do que li sobre a jovem. Que tem, insisto em dizer, possibilidade para ser apenas mais uma em meio a tantas que já fizeram a delícia de nossos, ahn, cadernos de literatura, mas depois terminaram posando para a Playboy, apresentando programas de tevê, escrevendo humorísticos para a TV Globo, esse tipo de coisa.

Se daqui a dez anos ainda existir essa Tatiana, bem, aí devo ler um livro dela. Atualmente tenho uma fila imensa de coisas pra ler, e não me convenço de que isso tudo não passa de uma efeméride que se sustenta, sobretudo, pelas boas relações sociais e acadêmicas em conjunto com publicidade conduzida por um departamento de marketing com bons fotógrafos e programas de edição de imagens.

O resto, no futuro, será silêncio. Cara, sou capaz de apostar nisso.

O caso é que cada vez que me deparo com essas coisas eu acho engraçado. E me divirto escrevendo sobre a coisa, mesmo perpetrando algumas barbaridades evidentes. Algo sempre sobra.

Rubia

Conforme o atual nível (mediano) da literatura contemporânea, acho justo o Prêmio São Paulo de Literatura. Justo mas também (in) certo. O livro possui todos os elementos necessários: busca pela identidade versus religião, juadaísmo, imigração, miscigenação, ditadura, morte, violência contra a mulher, toques eróticos e leves insinuações (é claro, como não teria de ser?) de homossexualismo feminino.

Minhas expectativas aumentaram ao ler na orelha do livro que Tatiana escreveu "Experiência do fora: Blanchot, Foucault e Deleuze". Talvez por isso, também, certi certa decepção. Não que o livro seja ruim, é bom, mas acho que muitas vezes esbarra em uma linguagem simplista que não condiz com tanta formação. E não é uma questão de estilo, percebe-se claramente que lhe falta algo.

Resumindo, o livro é interessante, mas não traz aquela senação de frescor que sentimos com a identificação, nem é tão pouco um soco no estômago (apesar de certas passagens pesadas) que nos fazer acordar.

bruno cardoso

Caros blogueiros,

entre os prognósticos pessimistas de um Marcos e os elogios rasgados sobre nossos jovens autores e autoras que a mídia gosta de difundir, acho que fico com o primeiro. Li o romance da Tatiana Salem Levy e achei um pouco desanimador. Tem alguns bons momentos é verdade mas ela se contenta com efeitos emotivos... vá lá, um pouco fáceis. sinceramente o livro não conseguiu me transportar para esses "outros" lugares. e as descrições achei frouxas. não me passam aquela sensação da presença das coisas que gosto de sentir quando leio um romance. também tem umas escorregadelas nos exotismos, da mulher judia (tudo bem pode ser interessante mas...) da exótica Turquia etc. o melhor que pode acontecer no futuro é a autora ter coragem de... se superar. como poucos autores jovens e promissores conseguem isso, faço par com o pessimismo do Marcos.
abraços

bruno cardoso

Esqueci de dizer que foram principalmente as passagens de sexo do a chave de casa que menos me agradaram, e que me fizeram ir desanimando ao longo da leitura. muito clichê (e um quê de pretensão) pra pouca força na linguagem. há coisas que são uma prova de fogo pro escritor (jovem ou velho) e narrar o cenas de sexo é uma delas.

Aproveito para parabenizar os criadores deste excelente espaço literário!

Leonardo Schabbach

Valeu pelos elogios ao blog! E po, engraçado. Boa parte das coisas que você citou como ruins são as que achei legais no livro.

É um livro introspectivo. Então, as cenas de sexo por exemplo, não vi nada de clichê e nem de apelação, mas mais o sentimento de uma mulher naquele momento, achei essas passagens bem femininas, assim como a relação dela com a mãe. Já ouvi de muitas mulheres que leram o livro que elas se identificaram muito com essas partes.

O mesmo vale para a Turca exótica. Na realidade, o foco ali não é na Turca exótica, mas na reação da personagem, em como ela se sente em relação a diferença, a Turca apenas faz com que essas sensações aflorem. Não é uma exploração da Turquia exótica, mas sim da personagem, algo introspectivo.

Neste sentido, o livro me lembrou muito os de autoras que tem uma veia "feminina" de literatura, que contém sim muita emoção (o discurso mais emotivo de que você falou) e esse lado introspectivo. Entre elas, Clarice Lispector (guardada todas as proporções).

bruno cardoso

Caro Leonardo,

grato pela resposta. Pois é, talvez nosso gosto literário seja muito diferente e distoante Eu falava da Turquia exótica e não da personagem turca. E discordo de vc mais uma vez, acho que esse feminino que ela oferece está representado do jeito mais batido, e carregado de sentimentalismo (que é diferente da literatura que trabalha a força dos sentimentos femininos ou masculinos fora dos modelos já convencionados). o feminino sobretudo aparece na historia amor não correspondido, da mulher que sofre violências etc etc, a vitima do amor em suma. isso é velho e só vai ser interessante se a lingugagem for muito boa. acho que ela tenta aproveitar isso do amor infeliz pra insertar a relação seuxal, sem conseguir grandes coisas na minha opinião. acho essa a pior parte do livro. as descrições do sexo que ela faz você vê isso em todo filme comercial que tenta insertar cenas picantes numa estorinha de amor, afastar a calcinha, jogar cerveja no seio... eu como leitor acho ruim.
um abraço e desde já muito grato pela resposta.

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