Quer meu livro de graça? Assine minha newsletter e venha conversar comigo!

Além disso, a newsletter é para ser algo mais pessoal, nela vocês podem responder e conversar diretamente comigo. E eu ainda pretendo enviar uma série de textos exclusivos por lá, sendo alguns mais pessoais, alguns capítulos antecipados de livros que serão lançados, assim como alguns e-books gratuitos.

Leia Mais

7

Respeitando a inteligência dos leitores

em 4 de nov de 2010.

Hoje decidi escrever um pouco sobre uma questão que para mim é extremamente importante. Novamente, abre-se aqui uma nova discussão sobre o que seria ou não uma produção literária de qualidade. Como na última postagem sobre o assunto (Livros "bons" e livros "ruins") houve uma participação muito legal e intensa dos leitores, decidi expor uma outra idéia que tenho; agora a respeito da forma textual mesmo.

Nos comentários de uma postagem a respeito dos conectores, disse que faria um texto aprofundando mais o assunto. Considero que este seja o aprofundamento. Quero defender aqui a idéia de que os leitores não são burros, de que a massa não é burra e ignorante como a maioria das pessoas tende a julgar. Basicamente, é este tipo de preconceito que justifica a publicação, muitas vezes com grande marketing, de livros com qualidade textual mediana, exatamente porque se espera que apenas este tipo de obra agrade as grandes massas. O mesmo vale para os jornais. Quando trabalhava como repórter, constantemente precisava alterar o texto para que os períodos ficassem curtos, "assim qualquer um poderia compreender". É claro que produzir um texto altamente complexo para um jornal de alta circulação é um erro, mas há certamente um exagero na facilidade com que se quer que se escreva.

Isto tudo acontece, pois se tem uma idéia - e isso vale para o mundo todo - de que as massas são burras. Eu, por outro lado, gostaria de defender o contrário. As "massas" podem sim ter até uma tendência a gostar daqueles best-sellers sem muita qualidade literária; agora, temos certeza de que um texto de qualidade maior não poderia também ter boa aceitação? De que ele não poderia ser bem recebido e provocar reflexão em toda essa "massa" de leitores? Eu acredito que sim. E acredito que um dos maiores motivos para os livros de qualidade literária mais elevada não serem assim tão lidos é o fato de que eles não recebem um apoio financeiro para tal. Vemos diariamente um monte de cartazes e propagandas de best-sellers de qualidade duvidosa por aí, mas quantas vezes vemos o mesmo ser feito com os livros de grande qualidade literária? Será que se houvesse o mesmo investimento em altas tiragens e propaganda em cima de livros de maior qualidade eles também não teriam uma recepção melhor? E, como consequência, será que, aos poucos, não poderiam formar leitores mais engajados?

Enfim, eu acredito que sim. E, por este motivo, não utilizo esta postagem para falar de maneira macro sobre o assunto, apenas focando nos investimentos e etc... Quero também falar sobre a narrativa. O autor também pode fazer parte desse movimento, ter em sua mente o ideal de respeitar o leitor, de respeitar a inteligência do leitor. Por isso mesmo que digo para tomarmos cuidado com os "conectores bengala" sobre os quais falei numa postagem anterior. Eles não só deixam o texto mais feio, como são uma afronta à inteligência dos leitores. Boa é a narrativa que dá um ou outro salto de entendimento entre as frases, que utiliza conectores escondidos, que são naturalmente - e até mesmo inconscientemente - captados pelo leitor; isso porque o leitor também pensa, e deve ser levado a pensar. Portanto, não precisamos entregar tudo de bandeja, escrever didaticamente. É preciso, claro, produzir uma narrativa bem encaixada. Mas esta narrativa geralmente só será boa se este encaixe ocorrer de maneira inteligente, com conexões entre uma frase e outra que não sejam tão visíveis, mas que ocorram de forma natural, sempre estimulando o leitor a pensar.

Escrevo a postagem para defender a idéia de que a narrativa, mesmo em livros de entretenimento e best-seller, deve ser instigante, deve sempre partir da premissa de que a tão desvalorizada "massa" não é acéfala, mas sim inteligente. Naturalmente, nem todos se interessarão por um livro de narrativa mais intrincada. De qualquer maneira, há aqueles que gostarão e se tornarão leitores melhores. E mesmo um texto mais complexo pode sim ter uma recepção muito boa pela maior parte da população. Cito sempre como exemplo o José Saramago, que para mim tem uma escrita espetacular e, ainda assim, é um dos autores que mais vendem pelo mundo. Aqui no Brasil, inclusive, temos um outro ótimo exemplo: a autora Tatiana Salem Levy. O seu livro de estréia no país, publicado pela Record, vendeu mais de 30 mil exemplares - e falamos aqui de um livro de alta qualidade literária. Certamente, a aparição da autora na FLIP ajudou muito a vender mais exemplares; entretanto, ela somente chegou lá por ter conquistado prêmios com o seu livro.

7 Comentários:

Leitor

Não sei se julgaria o Saramago como exemplo de alta qualidade literária, digo, no aspecto formal da composição, ele é um grande contador de histórias e tal; ganhou o nobel por isso; mas o tom fabular de ponta a ponta, em todo livro, meio que cansa...
Ficou meio vago a questão da construção complexa; um livro, por exemplo, de construção complexa é O paraíso é bem bacana, do André Sant' Anna, é quase o grande sertão veredas, formalmente falando, se fosse escrito hoje, mais complexo ainda porque a narrativa é construída à partir de múltiplos narradores, oscilando em diversas vozes e momentos; com uma linguagem escatológica; é sensacional. E quase passou batido, por exemplo, em relação a Filho Eterno, do Tezza, de qualidade literária duvidável.

O leitor não quer obviedades, claro, mas antes de qualquer coisa, leitor não quer complicações inúteis; não quer um suposto gênio exibindo aparente domínio de técnica narrativa;leitura tem que ser fluente, tem que valer a pena tomar o tempo do sujeito; literatura é medida, não adianta querer exibir capacidade formal se não levar o leitor a lugar nenhum com o livro.

Leitor ideal, não existe. Costumam dividir os leitores em dois: o suposto leitor comum, esse que gosta de ler pra se entreter, e o leitor especializado, que busca algo há mais além de entretenimento. Pra qual você escreve? É possível agradar os dois?

É complicado.
Mais complicado ainda é vencer o leitor, terrivelmente exigente, que existe dentro da cada escritor. Esse sim, é como diabo.

marcos nunes

A recepção de livros é algo que ocupa o campo do mistério. Tem um monte de cretino que escreve e/ou publica livros visando o retorno financeiro, e dá com os burros n'água; outros escrevem e publicam o que querem e, um dia, nãao conseguem atender o volume massivo de vendas.

A questão é que a indústria cultural possui objetivos comuns; a indústria editorial é um braço dessa indústria; a estratégia do mercado é vender produtos que corroboram com as ideias dominantes; a literatura de consumo, melhor ou pior escrita, tem o compromisso com a conservação dos valores dominantes. A síntese é esta: literatura de consumo (ou de "entretenimento", argh!), leve, legível e adorável que seja, é um subproduto industrial veiculado para manutenção do status quo.

Bons livros, é claro, são perfeitamente vendáveis, mas não há interesse em veicular massivamente escritos que questionam as convenções e ordens dominantes; eles são publicados, bem resenhados, seus autores ganham prêmios, mas esses livros dificilmente passam de 10.00 exemplares vendidos, no Brasil, ou 100.000 em países como França, Inglaterra e Alemanha, onde Paulo Coelho vende milhões de exemplares. Paulo Coelho não contesta a ordem dominante, mas lança o seu leitor na busca do "autoconhecimento" para que, conquistado esse patamar, ele passa para outro, o do automóvel importado.

Tatiana Salem Levy escreveu um livro, A Chave de Casa, cuja Chave de Vendagem está em sua figura, no fato de ser mulher, e ser lida massivamente por mulheres jovens e em busca de sentidos para a vida. Numa palavra, literatura de mulherzinha, por melhor que seja seu fraseado. Será uma Clarice Lispector rediviva ou reciclada?

Esta foi uma amostra do método que ensino em meu livro "Ria de seu mau humor e divirta os outros com ele". Será que vende?

Luis Narval

Mais uma vez um tema pra lá de pertinente (e instigante), Leonardo, sobretudo nestes tempos de escassa seara (de qualidade) literária.

Então, o que se percebe nos tempos atuais (e infelizmente não só em literatura) é a falta de referências por parte dos leitores, e até mais, diria, dos novos e não tão novos autores, do que seja uma escrita de alta qualidade e de indiscutível relevância. A maioria esmagadora, creio eu, já ouviu falar dos Clássicos, e até mesmo, eventualmente, tomou contato com algum deles. Contudo não o suficiente, lamentavelmente, para permitir que a experiência o tocasse no cerne, naquela região (intelectual, talvez, espiritual, quem sabe, moral, possivelmente) onde temos o grande vislumbre do que seja de fato o Conceito de Verdade, Liberdade, Justiça e Grandeza humana, comum às nossas categorias de pensamento desde que nos demos e nos conhecemos por gente, isso já faz milhares de anos. Conceito esse que, a par de nos capacitar para a solidariedade, para a empatia com o semelhante, nos individualiza fortemente e, se não nos põe no controle absoluto de nossas vidas, ao menos nos encaminha para tanto. Conceito esse, diga-se, que carece sempre de ser lembrado, sublinhado, frisado; com o risco, se não o fizermos, de cairmos novamente na indiferença e na ignorância mais brutal. A literatura séria, nesse quesito, como instrumento provedor de saber é exemplar, pois trata de questões e trafega em instâncias que nem uma outra via de acesso ao autoconhecimento é capaz de oferecer, seja ela a Filosofia, a Ética ou mesmo a Religião (quando essa, naturalmente, está desvinculada de todo rastro de sectarismo e de fatalismo teológico).

A indústria editorial, ou grande parte dela, como se sabe, vai na contramão do que ficou exposto acima. Mas em muitos casos, acredito, por pura e simples contingência, menos de mercado, arriscaria a dizer, do que de produção. Pois onde garimpar obras e autores de qualidade em número bastante para alimentar o insaciável Moloch de suas rotativas e de atender a crescente demanda de um público ávido por novidades, não importando muitas vezes, nesse afã devorador, sua efetiva relevância?

A contaminação perniciosa de todas a formas baratas de entretenimento, é duro admitir, chegou, e não é de hoje, à literatura, que se converteu em mais um passatempo inócuo, como de resto o são a televisão, o cinema, a pornofrafia, a politicagem, o esporte "profissional", e atualmente, em grande parte, a internet.

É preciso que todo aquele que ainda acredita na suprema Arte da Escrita Criativa, que não desanime, e lute para resgatar seu nobre Conceito, e de levá-lo, na medida exata de suas convicções, de seus textos e de suas leituras, adiante.

Paul Law

Bem, concordo com você de que os leitores não são burros. Mas acho que textos de qualidade exagerada não são feitos necessariamente para serem compreendidos pela maioria dos leitores seja pela cultura deficiente dos leitores, seja pelo ego dos autores.

Penso que o leitor é quem deve decidir o que quer ler e como quer ler.

Rogério Amorim

O escritor de contos, romancista, ou como lhe queiram chamar, e que não é mediático, é travar uma das maiores batalhas para se alcançar apenas uma meta: «Os meus textos terão em si algum talento?» Tenho um livro publicado numa das maiores editoras portuguesas, Europa América onde tive de assinar um contacto de dez anos. Ou seja, durante este tempo tinha de lhes enviar tudo o que escrevia, claro que eles reservavam o direito de publicação, ou, não. Como não me dei bem com esta editora, por motivos que não vou referir aqui, durante estes dez anos escrevi sete romances de ficção. Por estar vinculado ao tal contracto, nunca os mandei para qualquer editor. Os meus livros já foram lidos pelas mais diversas camadas sociais e faixas etárias. Recebi sempre o apoio dessas para continuar a escrever. Mas fica sempre um grande ponto de interrogação na nossa cabeça, será que tenho algum talento? Com os meus 71 anos de idade, será que vou saber isso, algum dia?

Leonardo Schabbach

Pois é, essa é uma pergunta que acho que todos fazemos, temos talento? E se temos, até que ponto? Essa é uma questaozinha complicada mesmo.

Sybylla

Esse mito de que a massa não lê é bobagem. Lê sim, apenas não tem contato com certas obras de apelo mais popular. Sou professora no Ensino Médio público de SP e quando entrei, pensei que veria jovens mais desestimulados, e fiquei felizmente surpresa ao ver alunos no pátio no intervalo, com livros no colo, lendo. Eu não sou fã da série Crepúsculo porque não gosto do modo como ela escreve. Mas a molecada gostou e é interessante vê-los procurar outras obras. Tolkien, Jô Soares, Saramago, Brown. Eles estão subindo de nível. Acho que chega um ponto em que os livros rasos são muito básicos e eles próprios buscam novos desafios literários.

Postar um comentário

Participe você também. Sinta-se convidado a postar as suas opiniões. Com a sua ajuda, o blog se tornará ainda melhor!

 
Copyright© 2010 Na Ponta dos Lápis
Apoio: Literatura Fantástica
Tema original "Solitude" Modificado por Mundo Blogger