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20

Caminho (Conto)

em 29/03/2010.
| Comentários: (20)
Nota: é um conto bem diferente de todos que já botei aqui, com uma veia mais introspectiva. Eu realmente gostei do resultado e resolvi dividir com vocês para saber o que acham. Boa leitura!

Ele fechou a porta com delicadeza, quase que automaticamente, e colocou as chaves de casa no bolso; escutou o barulho sólido das partes de metal. Naqueles dias, naqueles exatos tipos de momento, prestava atenção a esses detalhes; aos barulhos, às texturas das coisas e dos sons, ao mundo. Era melhor olhar para fora do que para dentro de si, embora a vontade de fazê-lo fosse pouca. E assim se distraía.

Limpou com a mão direita as gotas de água que escapavam tímidas pelas extremidades de seus olhos; respirou fundo. As ruas estavam frias, como ele gostava, e vazias, como convinha ao momento. A noite, porém, era seca, atacava-lhe a garganta; era de uma acidez terrível, um incômodo que se espalhava pelas vielas e por todo seu corpo, por mais que tentasse se desvencilhar do sentimento.

Ele andava, seguia em silêncio, atento apenas aos barulhos de seus próprios passos. Tinha comprado um tênis novo, daqueles que fazem os sons mais estranhos enquanto não ficam velhos e desgastados; diria até que gostava mais das coisas velhas, elas são confortáveis. Mas o barulho agora o entretinha, tirava-o um pouco de dentro de sua própria cabeça; era disso que precisava.

Virou a primeira esquina; respirou fundo, o ar continuava ácido: como era doloroso caminhar sozinho. Não tinha quem o acompanhasse, alguém para segurar a sua mão e dizer que tudo ficaria bem. E como poderia ter? A vida lhe tinha sido tão ingrata. Como poderia voltar a sorrir, a conversar; por que se deixar envolver por outra pessoa? Era desperdício, um erro de fato; era apostar no imprevisível, naquilo que não se pode controlar, nem confiar. Entregar-se ao mundo era mais confortável do que se entregar a outra. O mundo ele sabia que estaria sempre lá.

Fechou o zíper do casaco, o frio aumentara; ou talvez fosse por causa do ambiente. Passou pelo velho portão de ferro e se sentou no mesmo pedaço de mármore de todas as noites. Levou os dedos ao seu pingente. Por que ela não estava com ele? Por que tivera de partir tão cedo? Eles ainda eram tão jovens; recém-casados, apaixonados. Talvez a felicidade fosse coisa proibida. Ele sabia que seus pais não eram felizes; mas eles continuavam juntos, por anos, e nada ameaçava separá-los. E assim era também com os amigos de seus pais... e com seus amigos... e com os amigos dela. Todos viviam tristes, mas estavam juntos, embora para eles isso de fato não importasse.

Levantou-se. Deslizou timidamente a mão pela pedra fria da lápide. Por um momento, esperou sentir de novo o calor do corpo dela, o cheiro, o tato. Ainda podia se lembrar da pele macia, do abraço, do carinho de cada gesto... e do amor. Ah, o amor... como duvidara de Shakespeare, como zombara dele enquanto estivera com ela. Agora, arrependia-se... o velho poeta estava certo. O amor é grandioso. E trágico. Talvez também fosse proibido.

Afastou-se um pouco, puxou o braço para trás em um ato reflexo, como se tivesse medo de se machucar. Voltou de novo os olhos para o mundo, para o mato que crescia ao redor, para a vida. Era tão difícil se manter atento a ela. Afinal, de que serviam todas as coisas? De que servia o mundo senão para dar sustento às pessoas? Sem elas, ele não faria sentido. Ou talvez fizesse, e ele não passasse de um bobo. O mundo estaria sempre lá, ele repetia... o mundo estaria sempre lá.

Enquanto isso, deixava o corpo cair ao lado da lápide e se entregava ao reino dos sonhos. Só precisaria encarar a vida quando nascesse o dia seguinte.
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5

(Poema) Livro Estranho, por Marcelo Vinicius

em 27/03/2010.
| Comentários: (5)
Aqui segue um poema do escritor Marcelo Vinicius. Como abri um espaço no blog para colocar textos de outros autores, para dar espaço a todos que estão começando (você pode saber mais sobre isso nesta postagem), hoje coloco no ar a primeira participação. Achei um poema interessante, com algumas rimas legais. E, como todos aqui devem saber, eu sou fã de uma boa rima com uma boa musicalidade. E vocês, o que acharam?


Livro estranho

Algum livro estranho me espera
Mas devo tê-lo perdido
Com caneta de tinta branca e papel azul
Não foi por mim reconhecido

Provocado por essa ausência
Passaram-se muitas horas
E o livro estranho a minha espera
Com tinta branca chora

Persisto em procurá-lo
Sendo autor de diversas obras
Entre desalentos e desencontros
Sempre um escrito me consola

Essa é a sina de todo escritor
Procurar o seu livro estranho
E entre pensamentos e dor
Uma história de amor com final tristonho



Marcelo Vinicius é escritor; terá seu primeiro livro, "Desafios de uma mente - Uma história real de amor e angústia", publicado pela Editora Multifoco no ano de 2010. Quem quiser saber mais sobre o autor ou conferir mais textos pode checar seu site pessoal e também o seu blog.

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8

Todos Eles

em 25/03/2010.
| Comentários: (8)
Não gosto de histórias em terceira pessoa. Nada de romances, contos, crônicas, poemas protagonizados por um ele ou por uma ela quaisquer. Eu quero a experiência sanguínea talhando as palavras que vêm dançar diante dos meus olhos e dedos.

Você, narrador, onde estava enquanto a vida trepidava entre suas mãos? Poupe-me de suas observações oniscientes sobre o tal casal; de seus comentários mordazes sobre a angústia do outro; de sua perspicaz análise da cena que acontece diante de si. Transborde!

Onde há a metódica construção do período perfeito, com sua precisão ortográfica e seus tons alaranjados, prefiro o exagero adjetivado – ali posso reconhecer um semelhante, uma pulsação que não simplesmente ressoa as teclas e letras, mas sim precede a elas.

Silêncio, sussurrará alguém. Façam com que ele encerre a derramação destas sandices melodramáticas, onde está o respeito aos cânones e à tradição? Que saída terá a não ser canalizar tamanho ímpeto para o sabor água com a açúcar da vida que se ilude?

Muitas perguntas e jamais me propus a entregar respostas, nem a mim, nem a quem por acaso as procure. Não falo de gêneros, encanta-me o modo: o texto é a varanda das experiências humanas. Pode ser grande, pequena, iluminada, mal cuidada. Pode até não existir.

Eu quero sentir os cotovelos no beiral, o sorriso invadindo o céu, as lágrimas salgando o ar. Não há outra pessoa para transviver esse mundo além da primeira. Eu sou nós e eles. Esperança e medo não se emprestam.

Cizenando Cipriano - @cizenando_ - é colaborador do Na Ponta dos Lápis; jornalista da área esportiva, com passagens por MB Press (UOL e IG), LANCE! e Rádio Nacional. Você pode encontrar mais textos do autor, com algumas pitadas humorísticas, no blog Pau Na Mesa.

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3

Sobre o novo colaborador do blog e os resultados da última promoção

em 23/03/2010.
| Comentários: (3)
Felizmente o Na Ponta dos Lápis continua crescendo, atraindo cada vez mais público, e isso me inspirou a tentar coisas novas. Para trazer um conteúdo diferente para vocês, decidi convidar um amigo meu, que escreve excelentes textos, a colaborar com o blog. Ainda não sabemos com que periodicidade isso acontecerá, mas nos comunicando por e-mail já fomos acertando as primeiras postagens. Sinceramente, acho que vocês gostarão bastante, o primeiro texto falará, de uma maneira diferente, sobre o ato de escrever. Fora isso, também utilizo a postagem para falar da promoção envolvendo o livro "UM", de Geraldo Lima (confira entrevista com o autor ou então leia um de seus contos).

Diferentemente das outras duas vezes, o vencedor da promoção foi escolhido por sorteio. Por indicação do pessoal do twitter utilizei um programa presente no site Sorteie.me e o vencedor foi Djalma Lúcio (@djalma_lucio), como podem ver no link dado pelo site. E gosto sempre de lembrar, àqueles que não viram as entrevistas anteriores, por favor, chequem. Se queremos que os novos autores brasileiros sejam valorizados, precisamos nós mesmos começar a dar valor a eles. No blog, vocês podem conferir uma entrevista com Marcela Tagliaferri (@mar_tagliaferri), autora do livro A Filha do Livreiro, e também com Fernando Torres (@novasvisoes), autor do livro de contos Ensaio sobre a leveza.

Retornando à questão do colaborador.
Espero em breve colocar um texto dele por aqui. Trata-se do Cizenando Cipriano (@cizenando_), que atualmente trabalha como jornalista esportivo, com passagens pelo UOL, Lance! e Rádio Nacional. Assim como eu, além da veia esportiva, ele também tem uma acentuada veia literária.

E vocês, o que acharam da novidade?
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2

Spectrum - um selo para novos autores voltado para o sobrenatural

em 22/03/2010.
| Comentários: (2)
Hoje, apresento a vocês um selo editorial razoavelmente novo, ligado também à editora Multifoco, voltado para histórias que envolvam o sobrenatural (com alguma preferência ao estilo suspense/terror, provavelmente algo que agradará aos fãs de autores como o Stephen King, ao menos foi o que se passou em minha cabeça). Além disso, na postagem falarei também de dois concursos literários excelentes promovidos pela editora Monica Sicuro, que cedeu a entrevista ao Na Ponta dos Lápis.

Sobre o Spectrum. Como eu já disse, a entrevista com a Monica irá revelar mais aspectos sobre o selo, o que posso adiantar é que me parece ser uma proposta interessante, uma vez que o interesse por livros que tratem da questão do sobrenatural é cada vez maior. Além disso, as editoras daqui ainda dão muito pouco espaços aos autores brasileiros do gênero. O que pode interessar ao pessoal que já tem um livro neste estilo pronto é a incrivelmente rápida análise dos originais (ver na entrevista), já que o selo ainda não é muito conhecido. Vale lembrar também que o autor, caso publique com o Spectrum, não precisará gastar dinheiro algum, pois este é o objetivo da Multifoco, lançar autores novos sem cobrar nada deles (você pode ver uma entrevista com um representante da editora aqui).

Sobre os concursos. A editora Monica Sicuro também está realizando dois concursos literários. Um deles já foi mencionado no blog, trata-se de um concurso de contos medievais (Cruzada). O outro segue o exato mesmo estilo, mas abrange a temática da bruxaria, o nome da antologia será O Caldeirão da Bruxa. Os autores selecionados receberão 15 livros para vender por consignação e, caso não consigam vender todos, basta devolvê-los a editora; não haverá qualquer tipo de cobrança ou exigência em termos de venda.


Cruzada, prazo: 30/06 - confira aqui o blog do concurso.
O Caldeirão da Bruxa, prazo: 31/05 - confira aqui o blog do concurso.


Entrevista com Monica Sicuro (editora do selo Spectrum)

Quanto tempo tem o selo?
R: O Spectrum é um selo da Multifoco desde que ela está no mercado editorial, mas eu estou no comando dele desde de Janeiro de 2010


Quais os gêneros literários o selo Spectrum pretende abrangir?
R: Procuramos Romances de terror, suspense, mistério... O Spectrum é o selo da Editora que se volta para a produção do sobrenatural.


Me fale um pouco das idéias por trás do selo Spectrum. Quais são seus objetivos e ideais?
R: O terror está em ascensão no Brasil. Antes tínhamos uma grande produção vinda lá de fora, mas a idéia do Spectrum é dar aos autores que escrevem terror, e que são daqui, visibilidade e oportunidade de mostrar seu trabalho. Tem alguns autores que trabalham com mitos brasileiros e isso é muito bom. Nossa cultura é rica demais para ficarmos importando. Estamos com um projeto para a Bienal de São Paulo, onde alguns autores participarão do mini stand da Spectrum (que será todo voltado ao sobrenatural). E assim vamos divulgar ainda mais esse gênero literário.


Assim como o restante da Multifoco, o Spectrum também será voltado mais especificamente para novos autores?
R: Sim, está. Os novos autores bebem de diversas fontes e por isso a escrita deles está ficando cada vez mais rica.


Como funciona o processo de seleção de originais? Quanto tempo leva em média?
R: Em primeiro lugar, os autores me enviam o original deles em arquivo de Word (norma da Editora). Então vou analisar. Eu faço a leitura do original completo, saio com diversas anotações, às vezes elogios ou criticas. Tem momentos que vou sugerir uma mudança aqui ou ali... Enfim, tudo para melhorar o original.

A Seleção leva, em média, de 30 a 45 dias (dependendo de quantos eu estiver na fila de leitura).
Depois que ele é selecionado, existe todo outro processo para que ele possa ser publicado. (envio de originais para o e-mail: spectrum@editoramultifoco.com.br)


Vocês estão de olho nos autores que se destacam pela internet também ou se dedicam mais à análise dos originais que lhes são enviados?
R: Infelizmente não temos tempo de ficar em busca de talentos na internet. Quando apenas organizava coletâneas eu o fazia, buscava os melhores. Mas agora tenho um trabalho mais minucioso a fazer, e ainda estou envolvida em alguns concursos. Então, temos que nos dedicar aos originais que chegam até nós. Aqui eu os coloco numa fila por ordem de chegada. Trato todos com a mesma atenção. E existem também os “indicados”. Fulano se destacou na internet e algum conhecido meu o viu. Então essa pessoa geralmente me manda um email perguntando se pode indicar Fulano. Ai Fulano envia seu original e como todo mundo vai para a fila por ordem de chegada. =D
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3

Uma mulher à beira da estrada, por Geraldo Lima

em 19/03/2010.
| Comentários: (3)
Segue um conto de nosso entrevistado da semana, Geraldo Lima, autor do romance "UM" (clique aqui para ver a entrevista e concorrer a um exemplar). Achei o conto muito legal e, como já disse em minha resenha, mostra toda a capacidade do autor com a língua. É realmente um texto prazeiroso de ser lido. Confiram! E, claro, opinem!

*** Vocês podem conferir também um trecho do romance UM clicando aqui.

****************

Os vidros fechados quase o impedem de ouvir o chiado das rodas deslizando sobre o asfalto molhado, o repenicar dos pingos da chuva fina (mas persistente) no vidro dianteiro. Entrevê apenas, através dos vidros respingados, tiras de vegetação rasteira, úmida, devorada quase toda pelas mansões do Park Way / e o empreendimento imobiliário se amplia, estendendo-se, cada vez mais, em direção a Valparaíso, a Luziânia, ao sítio que mantém pros lados de Cristalina, num entremeado de condomínios, cidades, cidadelas, assentamentos // desordem de casas casebres casarões, motéis postos de gasolina prédios ruínas /// súbito, uns resquícios de cerrado resistindo heroicamente aos avanços do homem e suas máquinas.

Que ninguém se iluda: não se trata de um ecologista — o ser ao volante apenas constata friamente esses rasgos no corpo do cerrado, sem que isso possa, no entanto, desviar-lhe a atenção, acelerar-lhe os batimentos cardíacos, inundar-lhe a alma de angústia e revolta. Com o mesmo olhar com que analisa um processo, registra agora essas alterações lentas e progressivas na paisagem. Tudo isso seria mesmo inevitável, sentencia: o crescimento populacional, a ausência de uma política habitacional séria, a esperteza de alguns vigaristas desaguando no mar da desordem, no loteamento desenfreado de cada palmo de terra nos arredores da Capital...

Mas que fastio pensar em tudo isso! Que perda de tempo se desgastar tentando encontrar solução para esse caos. No futuro, vaticina, tudo isso aqui será uma megalópole, de Planaltina a Luziânia, um mundo só. Talvez cheguem até o seu sítio, na ânsia de se juntarem também a Cristalina. Depois, premidos pela necessidade ou pela ganância, perguntar-se-ão com ar de desbravadores, — E por que não emendar com Paracatu?

Ah, como é difícil esvaziar a mente! A todo instante, assalta-o a imagem do tribunal, arrastando-o para o julgamento, para a reflexão. E ele aproveita essa ida ao sítio exatamente para se desvincular desse universo de leis e sentenças. Do conceito de certo e errado. Sentir-se livre, quase outro, é tudo o que almeja.

A chuva persiste. Persiste, também, a prudência, a falta de pressa de chegar ao sítio. Não fosse isso, nem teria notado a figura esguia de uma mulher pedindo carona, perto da entrada do Catetinho, protegida apenas por um pedaço de plástico. Devia estar com metade do corpo encharcada. Devia estar congelada sob aquelas roupas mínimas. Devia estar ali há horas tentando comover os carros.

Sempre se orgulhou de ser um homem prudente, incapaz de agir por impulso, daí quase não se reconhecer na súbita decisão de frear o carro e dar carona à mulher.



Contrai a barriga murcha, dando passagem à mão desvairada que busca, com a ponta dos dedos, tocar-lhe os pêlos pubianos, ralos, ásperos. Mas que sensação primordial essa de adivinhar pelo tato o vão úmido entre as coxas! E a mão vai deslizando com muito custo até tocar uma carne magra, grudada aos ossos, tão grudada aos ossos que parece não haver ali cavidade alguma. A mulher, incomodada com a pressão dos dedos, retira a mão que a escava abaixo do ventre em busca de reentrâncias, — Você está dirigindo, recrimina-o com uma voz inexpressiva, exausta, — Não tem problema, ele retruca, consigo fazer as duas coisas ao mesmo tempo, e tenta desabotoar-lhe a calça, procura avidamente por um zíper, mas a mulher retira-lhe novamente a mão trêmula, — Tô é com fome, moço, andei a noite toda. Só então ele se dá ao trabalho de observar atentamente a figura ao seu lado, muito diversa agora daquela que ele vislumbrou ao lado da pista sob a chuva rala (que persiste), uma ninfeta, pensou de chofre, a calça de cós baixo e o bustiê deixando à mostra uma barriguinha com piercing e tudo. Nota, no entanto, sua barriga magra, sem piercing, o rosto seco e a boca meio puxada para um lado, o olhar embaçado, denunciando uns resquícios de álcool ou droga, — O que você fez durante a noite pra ter andado tanto assim? A mulher se tranca numa frágil redoma de cansaço e tristeza, deixando escapar apenas um leve sorriso de deboche e mistério. Mas aos poucos, com enfado, vai revelando fragmentos da sua vida: mora no Jardim Ingá, com a mãe e o filho de dois anos, — Como você se chama? Hesita, como se revelar o nome fosse se desnudar ou se desarmar de vez, — Nara. Talvez nem seja o nome verdadeiro, mas, de qualquer forma, é um belo nome, — O que faz na vida? — Nada. Mente, deduz, deve fazer programa, sabe-se lá como, em que condições, com que espécie de gente. Agora, desvencilhando-se do desejo cego do início, ele, um quase-ministro do STF, um homem de notável saber jurídico e reputação ilibada, começa a sentir nojo ao imaginar que ela nem se lavou ainda, — Transou muito?, indaga, e ela continua a olhar para fora, deixando-se evadir para o interior da paisagem molhada, melancólica. Parece que falar rouba-lhe energia, esfacela sua pobre existência. Enfado e gelo. Seu corpo, então, se deixa violentar, permite que as mãos brancas e trêmulas rompam seus limites. Os dedos, grossos e lisos, tentam alcançar, por dentro do bustiê, seu peito murcho, — Me paga um lanche?, pede, impondo à voz um tom de sedução. A melodia dessa voz, ainda que mutilada pelo cansaço e pela fome, arrasta a presa para os seus labirintos. Ávido, o homem procura envolver, na concha da mão, os seios flácidos, mínimos. A mulher, embora esteja fraca, sem couraça, amplia os seus recursos: acaricia-lhe o rosto, despenteia-lhe os cabelos brancos e ralos. A razão, porém, começa a se impor novamente, restabelecendo a conexão entre os neurônios, plugando-se ao que ele considera sua fonte de sabedoria: os preceitos da justiça. Então vai parar numa lanchonete qualquer e correr o risco de deparar com um advogado conhecido? Mas meritíssimo, o senhor aqui, nesse fim de mundo?!, e no outro dia toda a magistratura estaria sabendo, todos os acólitos, toda a plebe, mas que alegria dos adversários, que farra pelos corredores dos tribunais (suspendam os julgamentos, suprimam os artigos, ignorem os acórdãos, os mandados de busca e apreensão, neguem habeas-corpus, todos os recursos, arquivem os processos), ih, o riso avassalador dos técnicos e analistas judiciários, o palavrório dos advogados nos debates públicos, transmitidos ao vivo pela TV, o promotor, ah, aquele promotorzinho que o odeia, um iniciante ávido para se expor na mídia, ah, canalha (homo homini lupus ), aqui tens o meu ser abatido, aviltado, destroce ainda mais a minha alma, arraste o meu nome para o lamaçal! — Quer que eu faça um boquete?, — O quê?!, ele deixa escapar num susto, — Um boquete, não sabe o que é isso? Começa a se sentir ridículo: que faz ali, escavacando aquela mulher sem eira nem beira? Ainda que estejam só os dois no interior do carro, sob o cerco da chuva rala, não pode furtar-se à pressão de uma consciência que não o abandonará jamais. Pode parar o carro e pedir que ela desça. Exigir que ela desça, se for preciso. Mas por que não o faz? Por que não lhe dá um pé na bunda ali mesmo, logo depois de Valparaíso? Como se estivesse adivinhando-lhe os pensamentos, a mulher desliza a mão sobre sua braguilha, despertando o que já estava quase adormecido. O incêndio, que parecia controlado, volta a se alastrar. Ainda não está livre do desejo insano, por isso lhe indaga com voz abafada, vacilante, — E você tem camisinha? — Não, ela responde lacônica, e, depois de um breve silêncio, pergunta, — será que posto de gasolina vende? Ah, então ele vai parar agora num posto de gasolina para comprar camisinha e correr o risco de ser surpreendido por um dos colegas de tribunal ( nos limites já do estado de Goiás!), logo aquele que anda de olho numa das vagas do STF, — Mas meu caríssimo, que fazes aqui a esta hora? e quem é aquela no carro? a tua filha? mas ela não se encontrava nos Estados Unidos? e continuaria a falar assim, uma interrogação após a outra, quase um inquérito inteiro, tentando minar o seu futuro, canalha!, e no outro dia toda a magistratura estaria sabendo, as manchetes dos jornais, sensacionalistas, arrastando a sua imagem de homem público, íntegro, ( e repete para si mesmo, de notável saber jurídico e reputação ilibada) para o lixo, ele, o mais cotado para assumir uma das vagas no STF, dono de um trabalho intelectual expressivo, voltado para o engrandecimento da justiça, para o bem do Estado, ad majorem Dei gloriam, e de repente o escândalo, o linchamento em praça pública, que chance lhe dariam de se defender? de justificar seu ato absurdo? os princípios da lei seriam suficientes para julgá-lo? Dura lex sed lex, parece ouvir a própria voz sentenciando, e Pôncio Pilatos, lavando mais uma vez as mãos, oferece-o enfim à sanha da multidão ignara, e a filha mais velha vindo de Nova York, acompanhada do noivo ianque, de cara rosada e gorda (um típico filho do Tio Sam), só para indagar-lhe atônita, — Mas pai, que loucura foi essa?! & as socialites, com as quais sua esposa sempre toma chá, joga gamão, promove eventos beneficentes, todas todas negando ( uma, duas, três vezes até) fazerem parte do círculo de amizade da sua família, e imagine ser surpreendido em plena felação, como aquele ator norte-americano ( ou inglês, não se recorda bem), acusado de atentado ao pudor ao ser pego fazendo sexo oral com uma prostituta (como é mesmo o nome dela? só se lembra de que era negra), um escândalo em escala mundial, a noiva dele, coitada, tão bonita e sofrendo tanto!, a esposa dele esvaindo-se em lágrimas, a filha vindo dos Estados Unidos (o noivo de cara gorda e rosada a tiracolo, sem entender bulhufas do que está acontecendo, — What’s the problem? ) só para lhe jogar na cara, — Mas pai, o senhor não pensou no mal que faria à sua família?, e a farra então nos corredores do tribunal, os jornais escancarando seu nome, com foto e tudo, jogando anos e anos de um laborioso trabalho intelectual no lixo, no esgoto.

Raiva e nojo. Todos os sentidos parecem funcionar agora. Há um cheiro forte, denso, quase irrespirável no interior do carro. Vê, nitidamente, os pés sujos, encardidos, de quem vagou a noite inteira em busca de nada, deixando marcas incriminadoras. Corpo seco, vazio. Olhar arrasado, sem sol. Quando chegar ao sítio, vai lavar as mãos milhares vezes, na ânsia de se livrar da presença desse ser na sua pele. Vontade de pedir que a mulher desça, mas, dominado ainda por sentimentos e sensações contraditórios, vacila: sente pena ( a chuva ainda persiste), sente raiva (nunca fez nada parecido assim na vida), sente medo (deseja tanto que nada dê errado, que é bem capaz de acontecer um acidente por puro escárnio do destino: o carro derrapar, sair da pista, bater numa árvore, e, no outro dia, os jornais estamparem: ACIDENTE DE CARRO MATA JUIZ E PROSTITUTA. Vexame para a família! Passaporte para o inferno!), sente vontade de escancarar os vidros e respirar ar puro, pois o interior do carro, embora o ar-condicionado esteja ligado, tornou-se sufocante. Parece faltar-lhe espaço. A vida, submetida assim a uma convivência tão estreita com o oposto, torna-se insuportável. Irrespirável! Mas, apesar de tudo isso, inexplicavelmente não se liberta do desejo, e arrasta-o ainda a vontade de bolinar na mulher, tocar de novo na sua vulva seca, hermética, fria, como se durante todo esse tempo estivesse tentando seduzir um cadáver. Contra todas as leis da prudência, decide: vai até o fim. E, apartado ainda do homem sensato que sempre foi, acelera o carro, ignorando a pista molhada, a irregularidade das construções, a melancolia da paisagem úmida e devastada.
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[Novos Autores] Um, romance de Geraldo Lima

em 17/03/2010.
| Comentários: (22)
Como terceiro entrevistado na campanha de apoio aos novos autores, trago ao blog Geraldo Lima, autor do romance UM (que participa do excelente site literário O Bule e também tem um blog pessoal). Trata-se de um autor não tão novo assim, uma vez que já teve alguns outros livros publicados, incluindo um de contos, O Baque, pela LGE (sua editora atual). Ainda assim, é um novo escritor que se coloca no mercado e busca seu espaço. O romance em questão me chamou muita atenção; primeiro pela profundidade da história e da personagem principal e, segundo, pela grande habilidade narrativa demonstrada pelo autor. O trabalho com a linguagem em UM é realmente atrativo e, algumas vezes, mistura um pouco de prosa com características da poesia.

O livro retrata a história de Paulo, que nos relata seus pensamentos e reflexões, uma vez que foi escrito na primeira pessoa. O cenário é basicamente um, a casa do protagonista, onde ele relembra passagens de sua vida enquanto contempla uma solidão incômoda. Ao atingir o fundo do poço e afastar todas as pessoas de que gostava, ele acaba entrando em um processo reflexivo intenso. E é justamente por isso que a veia poética presente na narrativa tem um forte apelo. Além do prazer estético, somente uma linguagem poética pode passar com precisão o sentimento de angústia que às vezes domina Paulo, um ex-seminarista, agora sozinho e confuso.

Apesar do cenário ser basicamente a sua casa, a história acaba por nos levar a outros lugares. Isso acontece, porque Paulo relembra os momentos que passou com Ana, a mulher com quem morou por algum tempo, e sua amiga Ariadne, além de outros acontecimentos e pessoas presentes em sua vida, como o padre Artur, que lhe foi uma espécie de mentor. Desta maneira, o autor nos convida a mergulharmos na vida de seu protagonista e passarmos, junto com ele, por uma experiência transformadora, que nos causa, vez ou outra, certos incômodos (positivos, claro, provocam reflexão). Na entrevista mesmo, vocês poderão perceber como o próprio autor revela ter sido obrigado a entrar de cabeça nesse "momento revelador" de Paulo para escrever a história.

Enfim, de uma maneira geral, o livro é muito bom. Tem uma leitura muito agradável, conta com algumas passagens narrativas e formais excelentes e ainda provocará muitas reflexões. É um tipo de livro que eu gosto e que, creio, muitos também gostarão. Lembrou-me, em alguns momentos, um pouco de Clarice Lispector, como poderão conferir na entrevista.

Caso queiram conhecer mais a obra, especialmente o que falei em relação à qualidade do texto, podem checar aqui no blog um trecho disponibilizado pelo autor: clique aqui e confira.


CONCORRA A UM EXEMPLAR

Desta vez, o processo da promoção será um pouco diferente. Irei sempre variar um pouco. Desta vez irei sortear o vencedor do livro dentre as pessoas que participarem via blog e twitter. Leia com atenção as regras para saber como concorrer.

- Poste um comentário no blog dizendo o que achou da entrevista, da resenha ou do trecho disponibilizado do livro. No final, assine com o seu nome do twitter: no meu caso, por exemplo, @leoschabbach.

- Vá ao twitter e poste a seguinte mensagem: RT @leoschabbach concorra a um exemplar do livro "UM", do autor entrevistado Geraldo Lima! - http://migre.me/pdPa

***A promoção é válida até meia-noite de domingo, resultado na segunda***


ENTREVISTA COM GERALDO LIMA

Primeiro, sempre acho interessante perguntar: Como percebe este seu romance? O que ele significa para você?

R:   Percebo-o como a minha mais ousada aventura pelo universo literário, tanto em termos de linguagem quanto de forma.  Mesclar a prosa e a poesia é uma busca constante no meu fazer literário, mas creio que  no UM  alcancei um resultado que me deixou bastante satisfeito. Essa fusão entre a linguagem da prosa e a da poesia não dificultou a compreensão da história, pelo menos a resposta dada pelos leitores tem demonstrado isso. E a presença da linguagem poética  amplia o sentido do texto, cria  surpresas no percurso de leitura que só encontramos na leitura de poemas. Brinquei com a forma (digo brinquei porque, nesse sentido, é assim que consigo gostar do texto que estou escrevendo), pois lidar com ela é um ato lúdico para mim. Mas há o mergulho no drama existencial do protagonista, e isso exigiu de mim um esforço redobrado, ou seja, precisei descer junto com o personagem ao inferno que o atormenta. Com esse romance, consegui dar corpo a algumas das minhas inquietações, entre elas o questionamento das certezas religiosas  e a solidão do indivíduo na urbe moderna. Dessa forma, o UM é, para mim, o que de melhor consegui fazer em termos de literatura até agora. Sinto-me satisfeito com o trabalho de cinco anos na sua elaboração.


O romance parte de uma personagem, trata de sua história, mas fala principalmente de relações humanas. O que você acha que ele transmite neste sentido? Do que realmente fala?

R: Paulo, protagonista da história, conseguiu, ainda que involuntariamente,  afastar da sua vida todas as mulheres com as quais conviveu mais estreitamente: sua mãe, sua amiga Ariadne e Ana Paula, com quem morou durante algum tempo. Sua relação com Ana Paula é a mais intensa e a que se desgasta mais, até a ruptura definitiva. Assim, podemos observar que essa incapacidade de manter intactas as relações interpessoais é que gera a solidão na qual ele se encontra. O livro nos mostra que, na maior parte das vezes, nós mesmos somos responsáveis por estarmos sozinhos. Mas esse estar sozinho pode significar um encontro mais intenso com nós mesmos. Só nesse estado de completo abandono é que Paulo consegue mergulhar fundo na própria existência e se pôr  à procura de uma verdade mais duradoura e radical. Desse modo, o livro nos fala sobre solidão, mas uma solidão que é o caminho para uma busca mais intensa da própria espiritualidade e do estar no mundo. Mas há muitas coisas aí que me escapam, e, com certeza, o leitor as perceberá com mais clareza do que eu.


O livro tem um caráter bem introspectivo, centrado na personagem principal, em seus anseios, medos, histórias e, principalmente, reflexões. Tem um estilo que caminha na direção, a meu ver pelo menos, de Clarice Lispector, no que se trata de se aprofundar nos sentimentos e pensamentos da personagem. Gostaria de saber como se deu o processo criativo do livro, como você construiu a história, pois é, sem dúvida alguma, um árduo trabalho de investigação das relações humanas.

R:  Quando comecei a escrever a história, não tinha ainda, bem definido,  o enredo. Comecei, na verdade, a partir do poema que abre o texto: domingo, domingo/finda a obra/ merecido descanso. A ideia da epifania já estava definida em minha mente: o personagem teria esse contato divino, ou suposto contato divino, e depois mergulharia numa espécie de devaneio e reflexões sobre sua existência. Só um pouco mais adiante é que a imagem do protagonista se delineou por inteiro, e aí fui correr atrás de informações sobre o seu universo intelectual e espiritual. Nesse percurso, li mais sobre Santo Agostinho. Li, principalmente, a sua obra Confissões. Por que Santo Agostinho?  O personagem Paulo tem um embate com a mãe que o quer padre num primeiro momento  e pastor assim que se converte ao Protestantismo. Isso se assemelha um pouco à luta da mãe de Santo Agostinho para vê-lo convertido ao Cristianismo. Não cheguei a algumas ideias e situações dramáticas da história assim de uma hora para outra. Isso levou cinco anos. Às vésperas de publicar o livro, ainda estava tentando ajustar algumas passagens do texto que não me agradavam. Como disse Luiz Costa Lima no seu Por que Literatura: “Ora, a criação sempre envolve um esforço árduo, muitas vezes penoso”. E a  busca da visceralidade ao narrar a história do problemático Paulo é que exigiu mais de mim. Como eu disse antes, é preciso descer junto com o personagem ao inferno existencial que o atormenta. É preciso se atormentar também. Nisso me sinto próximo de Clarice Lispector e de Dostoiévski.


Outra coisa que chama a atenção é a qualidade do texto, a maneira como trabalha a narrativa, às vezes até mesmo tomando algumas liberdades formais. Qual a importância que você vê nesse empenho ao trabalhar a língua? Houve a intenção e criar algum tipo de efeito?

R:  Meu texto tem algo de barroco. Minha prosa busca espelhar esse labor em relação à linguagem e à forma. A  Língua Portuguesa é de uma riqueza imensa, e creio que, como escritor, devo garimpar-lhe todas as possibilidades. Guimarães Rosa é quem foi mais longe nessa exploração das riquezas expressivas da língua. Daí a prosa se aliar à poesia, pois esta significa, antes de tudo, o trabalho incessante com a linguagem. Saramago disse, certa vez, que todo prosador deveria ser, primeiramente, um poeta. Concordo. Há um bom tempo não escrevo poemas, mas levei para a ficção toda a  minha experiência com a poesia. E o efeito que busco é este: que o leitor perceba, de um golpe só, tanto a carga poética do texto quanto o drama do personagem.
  

Embora eu costume entrevistar no blog novos autores, você já não é tão novo assim no mundo da literatura, uma vez que teve já algumas publicações, o que inclui um livro de contos, também pela LGE Editora, em 2004. Por isso, creio que os leitores do blog estariam interessados em saber de você o que acha importante para um autor conseguir conquistar seu espaço no mercado editorial brasileiro. Alguma dica?


R: Apesar de estar na estrada há um bom tempo, ainda não conquistei de fato meu espaço no mercado editorial brasileiro. Estou na luta como tantos outros. O livro de contos a que você se referiu, o Baque, foi publicado pela LGE Editora com a ajuda do Fundo de Apoio à Arte e à Cultura, da Secretaria de Estado da Cultura do DF. O UM, da mesma forma. Ambos tiveram uma distribuição razoável, podendo ser encontrados em algumas livrarias, em lojas virtuais ou no site da editora (clique aqui se quiser comprar via Saraiva). Agora, após postar meus microcontos no blog O Bule, do qual sou um dos colunistas, recebi o convite do editor Wilson Gorj para publicar  o  livro de microcontos Tesselário pela Editora Multifoco, no selo 3X4, destinado às microficções. Assinamos, inclusive, o contrato de publicação. Já existe uma primeira informação sobre esse projeto na página da editora. Estou apostando na proposta de trabalho da Multifoco, que me parece bem prática. Assim, só posso dizer que o único meio para se conquistar um espaço no mercado editorial é procurar ocupar todos os espaços possíveis. Quando se alcança uma certa notoriedade, creio que isso fica mais fácil. Ainda não cheguei lá.  Para mim, no entanto, o mais importante é poder escrever de acordo com a minha natureza, sem mudar o estilo para agradar a quem quer que seja. Se isso me levará ao sucesso, não sei; sei, porém, que a satisfação é enorme ao finalizar o texto.
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O envio de originais para editoras ainda é válido?

em 16/03/2010.
| Comentários: (11)
Num futuro próximo, provavelmente farei uma postagem falando de maneiras boas de se enviar um original para uma editora. Hoje, tocarei um pouco neste assunto também, procurarei falar de uma ou outra editora sobre a qual sei um pouco mais, além de dar algumas dicas e opiniões. Entretanto, de uma maneira geral, nesta postagem pretendo colocar primeiro o seguinte questionamento: o envio de originais é realmente válido?

A questão surge pelo seguinte fato: a quantidade de obras recebidas por grande parte das editoras é assustadora, tão grande que a maioria não lê boa parte dos livros que lhes são enviados. Isso significa dizer que há uma boa chance de que sua obra seja enviada, sequer lida e, em alguns meses, você receba um não. Esta é uma questão séria, pois, após meses de espera, a negativa pode desestimular um bom escritor. É por isso que é preciso ser muito criterioso na hora de selecionar para onde você enviará a sua obra. Além disso, é sempre bom ter a certeza de que o seu livro é realmente bom, de que você é de fato talentoso (temas abordados nesta postagem e nesta postagem), para que assim você continue confiante e saiba que, se não houve aprovação, foi por motivos estruturais e/ou comerciais.

De qualquer maneira, como disse anteriormente, é sempre necessário fazer uma pesquisa séria antes de sair mandando o seu livro para qualquer editora. Procure descobrir aquela que tenha selos que envolvem a temática de sua obra e, para os escritores iniciantes, aquelas que também costumam dar espaço aos novos autores. Aqui no blog, já mostramos o bom trabalho executado pelo pessoal da Multifoco (leia aqui uma entrevista com a editora), que publica escritores de primeira viagem sem lhes cobrar sequer um centavo, algo raro no mercado hoje. Também sempre menciono a 7Letras (leia aqui uma entrevista com o dono da editora) que, apesar de cobrar para publicar o trabalho, faz uma divulgação muito boa e é respeitadíssima no mercado - isso significa dizer que, publicando por ela, você automaticamente receberá um "selo de qualidade" para o mercado editorial e poderá iniciar uma carreira como escritor reconhecido pela crítica caso a obra seja bem recebida (tentarei uma entrevista com eles em breve).

Sobre as editoras maiores, não tenho muito conhecimento. A Rocco, porém, parece se empenhar em procurar novos autores, uma vez que coloca um banner sobre o assunto no local mais visível de sua página principal. Além disso, eles prometem uma resposta em 2 meses (basta seguir as indicações deles), um prazo no mínimo 3x mais curto do que o da maioria.

Enfim, o envio de originais para editoras pode sim dar certo, ainda mais se você tiver uma obra de qualidade nas mãos. O segredo é realmente pesquisar pelas melhores opções e, então, esperar... esperar muito... pois o processo é realmente longo (grande parte das editoras demora de seis meses a um ano em suas análises).


OUTROS CAMINHOS

Além do envio de originais, há outras formas de ser publicado. Elas envolvem contatos e agentes literários. Você pode, por meio de muito trabalho (como sempre digo), procurar por contatos e encontrar alguém que te indique a um editor, sendo esta pessoa um profissional ou um amigo - infelizmente, o mercado editorial brasileiro ainda se baseia muito neste clima de "camaradagem", o que permite que muitos livros sem tanta qualidade assim acabem em posições privilegiadas. A outra opção são as agências e os agentes literários, que, de uma maneira geral, irão se encarregar de apresentar o seu livro às editoras, negociar contratos e etc... Procurarei fazer postagens e entrevistas aqui no blog sobre o assunto, para torná-lo mais claro aos leitores. Só adianto que, quanto mais influentes e numerosos se tornarem os agente literários, melhor as coisas ficarão para os novos autores. Por enquanto, devido ao pequeno número de profissionais, poucos se arriscam a representar os escritores de primeira viagem.



Gostou do blog? Gostou dos textos? - o autor Leonardo Schabbach, que produz o conteúdo do Na Ponta dos Lápis lançou recentemente sua primeira obra literária, O Código dos Cavaleiros. Ajude-o a continuar produzindo! Informações sobre a obra (como comprar - autografada -, capítulos para degustação, capa, sinopse e muito mais) podem ser encontradas neste super hotsite (clique para acessar).

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Energia (poema)

em 14/03/2010.
| Comentários: (6)
Comentário: Volto aqui com uma veia um pouco mais musical nos poemas. Eu, particularmente, gostei muito do ritmo desse. Espero que vocês gostem dele também. Bom domingo!


Energia

No silêncio frio de uma manhã,
ou no silêncio ardente de um beijo,
numa troca de olhares
ou numa maçã
energia é aquilo que eu vejo.

No sorriso infantil,
no jogo-criança,
numa ingênua ciranda
e nos passos de dança.

Num jogo viril
e na vizinha que canta,
num toque sutil
e nas folhas das plantas.

Energia,
Contato,
ignoremos os fatos!
O que é esta coisa que tanto encanta?
Essência pura e forte
que habita o mundo
dividida por todos
em uma eterna aliança.
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Bendito Seja o Mesmo Sol (por Fernando Pessoa)

em 13/03/2010.
| Comentários: (0)
Hoje decidi colocar este poema de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, aqui no blog para que desfrutem. Acho que é um poema bem simples, e que traz uma mensagem igualmente simples e bonita. Gosto muito dos poemas de Alberto Caeiro por valorizarem a vida e a natureza, como veremos a seguir. Então, neste início de final de semana, que todos aproveitemos bem as coisas a nossa volta!


Bendito seja o mesmo sol

Bendito seja o mesmo sol de outras terras
Que faz meus irmãos todos os homens
Porque todos os homens, um momento no dia, o olham como eu,
E, nesse puro momento
Todo limpo e sensível
Regressam lacrimosamente
E com um suspiro que mal sentem
Ao homem verdadeiro e primitivo
Que via o Sol nascer e ainda o não adorava.
Porque isso é natural — mais natural
Que adorar o ouro e Deus
E a arte e a moral...
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A importância dos blogs para escritores: Certeza e Confiança

em 11/03/2010.
| Comentários: (12)
Achei interessante criar uma série de postagens para falar um pouco sobre a importância dos blogs na vida de um aspirante a escritor. Não vou começar dizendo, porém, que é interessante pela possibilidade de montar uma grupo de leitores inicial que pode ajudar o autor a ter um alcance significativo já no seu primeiro livro lançado. Falarei mais na questão da certeza e da confiança que um blog pode nos dar. Mas, lembre-se bem, tome cuidado para que estas duas qualidades não venham de maneira ilusória, pois somente adquirindo confiança em seu trabalho, um escritor terá motivação suficiente para trabalhar muito na direção de se tornar conhecido e conquistar seu público (veja a postagem: Se tornar um escritor dá trabalho). Somente com estas certezas, o autor será capaz até mesmo de investir dinheiro em seu trabalho, possuindo a plena consciência de que se trata de um investimento no futuro.

Antes é necessário esclarecer, entretanto, que dinheiro não deve ser gasto sem muita consciência do que se está a fazer, é preciso tomar cuidado com uma série de pessoas que querem apenas se aproveitar dos escritores menos avisados (veja "Editoras" que não são editoras, por exemplo). Em breve, tentarei falar também um pouco sobre esta questão do dinheiro, de como pode ser útil gastá-lo caso se faça com o cuidado devido.

Agora, retornando à questão dos blogs. Para que sequer se cogite gastar um centavo ou então horas de seu tempo com o intuito de se tornar um escritor minimamente reconhecido, é preciso, primeiro, ter a certeza de que se é bom. Isso pode parecer uma afirmação boba, mas garanto a vocês que pelo menos 70% das pessoas que reclamam do mercado editorial, de como não conseguem publicar e tudo mais, são pessoas que produzem textos de péssima ou apenas razoável qualidade. Claro que o mercado é muito fechado e que, muitas vezes, somente com indicações é possível ser analisado por grandes editoras, mas há outros meios de se conquistar o seu espaço, especialmente se você estiver disposto a brigar por ele e se seu texto possuir real qualidade.

Por isso, a primeira dica que dou a qualquer um que pense em ingressar no campo literário é que realmente se empenhe em ter certeza absoluta de que sua produção tem real qualidade. Os blogs, com a sua devida divulgação, podem ser muito importantes para isso. Ali, você poderá ter um feedback dos mais variados públicos. Mas não se contente apenas com isso, por intermédio do blog e das redes sociais, procure gerar comentários não só de leitores casuais como também de gente que trabalha com o meio. Às vezes, você pode receber muitos elogios de um grupo de pessoas que, talvez, não entenda tanto assim sobre o que é boa literatura, não note erros gramaticais ou de estrutura. Por meio do seu blog e das ferramentas certas da internet, você pode conseguir que pessoas mais envolvidas com o meio literário e com o mercado editorial acabem dando uma olhada nos seus textos. No final, juntando todos os feedbacks, será possível, então, ter uma idéia de se vale mesmo investir seu tempo e dinheiro em sua produção. Tendo a certeza e a confiança necessárias, você poderá trabalhar com tranqüilidade e motivação, pois saberá que não está correndo atrás de um objetivo ilusório.


CURSO PARA ESCRITORES (manual em PDF)

Ainda não dei uma olhada com a devida atençao a ele, mas baixei um Manual para Escritores bem interessante. Trata-se do Gotham Writer's Workshop, um dos cursos mais renomados dos EUA para escritores. Creio que, na pior das hipóteses, deve haver uma boa quantidade de exercícios interessantes a se fazer para melhorar nossas capacidades narrativas; mas, é sempre bom lembrar, que cada um desenvolva seu próprio estilo de escrita. Clique aqui e vá ao blog onde pode baixá-lo.
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Multifoco, uma editora que publica novos autores

em 09/03/2010.
| Comentários: (18)
Como tinha prometido em um dos comentários da postagem Como publicar seu livro de graça, apresento a vocês leitores a Multifoco (no twitter - @edmultifoco). É uma editora que tem um projeto bem legal, sabe explorar um mercado até então praticamente abandonado e, como conseqüência, acaba dando espaço aos novos escritores brasileiros. O grande diferencial deles é que, diferente de grande parte das editoras que se prestam a ajudar os novos talentos (umas fazendo um trabalho realmente sério e respeitado, como a 7Letras, e outras simplesmente enganando os clientes: leia "Editoras" que não são editoras), a Multifoco nada cobra de seus autores, os custos são 100% dela, desde a revisão, a capa e a impressão dos livros (confira uma entrevista com um autor da editora aqui no blog, o Fernando Torres).

Ao saber disso, fiquei interessado em conhecer melhor o seu processo de funcionamento, até porque pretendo entrevistar dois editores de dois selos diferentes (independentes) vinculados a ela. Inclusive, como perceberão no restante da matéria, a editora tem uma maneira de trabalhar com estes selos indepedentes que lhes permite publicar mais livros e com maior qualidade, um sistema bem inteligente. Como uma última informação, a editora está promovendo um excelente concurso de contos medievais por intermédio de seu selo Anthology. Enfim, confiram agora uma entrevista com Raphael Santos, diretor de marketing da Multifoco. Espero que as informações sejam úteis a todos os aspirantes a escritores que acompanhem o Na Ponta dos Lápis.


Se possível, fale mais um pouco sobre o projeto e os ideais da editora.

R: A Multifoco é uma editora que apresenta uma nova forma de pensar o mercado editorial. Conseguimos publicar nossos autores sem repassar a eles nenhum custo, do contrário, assegurando-lhes os direitos autorais respectivos e, ainda assim, como é exigência de qualquer empresa, lucrar e crescer. Tudo isso porque entendemos o mercado, seus mais diversos segmentos e temos o objetivo de proporcionar ao público leitor o máximo de títulos possível, tentando atender aos nichos de leitores que demandam os mais variados gêneros.


Vocês têm a idéia de publicar novos autores sem que isso lhes custe nada. Para uma editora que se inicia agora e, portanto, ainda é pequena, essa é uma tarefa bem complicada. Como vocês conseguem tornar isso possível?

R: É um equilíbrio entre o planejamento estratégico e a utilização das tecnologias atuais. Trabalhamos com tiragens baixas nos lançamentos, tentando manter o estoque próximo de zero. Depois disso, repomos os exemplares de acordo com a demanda de cada título. Com o expertise que adquirimos ao longo desses três, quase quatro anos, aprendemos a identificar alguns tipos determinados de autores, que para nós são parceiros, cujas informações são fundamentais para definirmos a tiragem inicial do livro (uma prerrogativa da editora). Minimizamos os riscos e maximizamos as possibilidades quando temos tiragens pequenas de um número grande de títulos.


Sei que vendem os livros através do site da Multifoco. Mas, em geral, como são os lançamentos? Sei que utilizam o casarão da editora: isso significaria que o autor teria de vir para o Rio?

R: Os lançamentos do Rio contam com a nossa sede como uma ótima opção para acontecerem. Em nosso espaço na Lapa, um ponto nobre da cidade, contamos com estrutura para lançamentos que vai desde uma noite de autógrafos até lançamentos mais "ousados", com apresentações musicais, performances teatrais ou recitais. Entretanto, lançar em nossa sede não é uma obrigação. O autor pode lançar em outros lugares também. Lançamos muitos livros em outros estados, como São Paulo, Minas Gerais, Paraná, dentre outros, e até mesmo em outros países, como nos EUA (Nova Iorque). Pelo nosso modelo, podemos lançar livros em qualquer lugar do mundo.


Como vocês consideram a evolução da editora até hoje? Como ela evoluiu?

R: A Multifoco vem crescendo de forma muito acelerada. Terminamos nosso primeiro ano com cerca de 40 livros e no segundo ano já triplicamos este número. Atualmente, já temos mais de 200 títulos lançados e temos a expectativa de lançar mais 300 livros até o final de 2010. Isto só é possível devido a demanda de autores que temos e que, conforme cresce a nossa visibilidade, não para de crescer e nos procurar. E, a cada dia que passa, nos preparamos para atender um número maior possível de autores, aumentando, treinando e melhorando nossa equipe.


Qual o planejamento de lançamentos para o ano?

R: Nossa expectativa é chegar a 50 lançamentos mensais. Atualmente, estamos em torno de 20 lançamentos mensais. Aumentamos recentemente nossa equipe e temos certeza de que, futuramente, iremos render ainda mais forte em nossos lançamentos.


Quantos selos vocês têm (já conheci dois editores de selos diferentes)? Já há selos fora do Rio? Algum para poesias?

R: Temos selos que fazem parte da editora e são específicos para determinados gêneros (Futurarte > Poesias, Luminária > literatura acadêmica, Download > blogs que viram livros, Redondezas > contos, Anthology > Ficções científicas, dentre outros). Esses selos são controlados por nosso editor-chefe, que recebe os originais, os analisa e define aqueles que serão publicados. Além disso, contamos com selos comandados por editores independentes, que não são funcionários da editora. Temos selos em Minas Gerais (Terceira Margem), na região de Volta Redonda e adjacências (Médio Paraíba) e em outros estados do Brasil. Os responsáveis por estes selos são os editores, que têm total liberdade para publicar qualquer livro, de qualquer gênero que tenha passado pelo seu crivo e esteja em linha com as diretrizes da editora.


Algum livro que tenha alcançado um sucesso surpreendente ou maior do que o esperado?

R: Há livros que, dados seus temas, naturalmente têm um apelo maior junto a um determinado nicho de público. É o caso, por exemplo, dos livros O Retorno do Gigante e A virada do século, que tratam de histórias sobre o Vasco da Gama, um clube de futebol que, em sua história recente, passou por momentos delicados e que aproximaram bastante o clube e a torcida, deixando-a ávida por produtos que tenham relação com o clube. Outros, eventualmente, aparecem bastante na mídia sem muito esforço, como é o caso de A segunda Cinelândia Carioca, cuja procura não chega a nos surpreender porque já conhecemos a qualidade do material. Mas desperta a atenção o interesse da mídia em cima de títulos como esse, visto que livros acadêmicos nem sempre encontram muito espaço na imprensa.


Como é o processo de análise de originais de vocês? Quanto tempo leva, o que é levado em consideração e etc...

R: O processo de análise é feito ou pelo editor-chefe da editora ou pelos editores de selos independentes. O que é levado em consideração é a qualidade do livro, mediante o nicho de leitores para o qual ele é proposto. Por isso a importância de termos editores independentes. Um editor que edita apenas livros de literatura fantástica, por fazer parte deste nicho, é capaz de identificar um título que possa fazer sucesso entre leitores deste gênero com mais facilidade do que um editor "comum". O tempo de espera, atualmente, gira entre seis e oito meses, dada a demanda que você deve imaginar que recebemos, visto que fazemos um trabalho único no mercado, até o momento, sem nenhuma outra editora que faça um trabalho igual ao nosso, pelas minhas mais recentes pesquisas. Entretanto, estamos aumentando nossa equipe, para diminuir esse prazo, aumentando o número de lançamentos por mês.


Fora o envio de originais, vocês têm outras maneiras de encontrar bons novos autores?

R: Basicamente, a demanda que recebemos, que não para de crescer, é o local de onde vem os nossos escritores. Entretanto, temos um forte trabalho de marketing, via redes sociais, por exemplo, para atender o nosso principal objetivo, que é fazer com que, ao pensar em escrever um livro, o autor pense sempre na Multifoco como a primeira opção para publicação.
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Chegamos ao fim dos blogs?

em 05/03/2010.
| Comentários: (3)
Darei uma paradinha hoje nos assuntos literários e falarei um pouco sobre a blogosfera (na realidade, até continuarei falando de literatura, pois saber como se encontra o panorama para os blogs pode ser importante aos escritores que queiram usar esta ferramenta como divulgação). Nos últimos tempos, tenho lido muito frases como o twitter irá acabar com os blogs; ou, pesquisas indicam que a blogosfera diminuiu em X%. Sinceramente, eu discordo de tudo isso. Os blogs, de fato, não irão acabar; e o twitter nada mais é do que uma ferramenta extremamente útil a eles (por sinal, para quem quiser me seguir: @leoschabbach).

Creio que o erro em tais afirmações é olhar somente para as estatísticas. Infelizmente, todos temos essa mania, olhamos para os números e tiramos algumas conclusões precipitadas. O número de blogs pode ter caído 20, 30, 40, 50 porcento que isso não é necessariamente um indicador de que o surgimento de novas mídias como o twitter, o facebook, o orkut e outras decretará o fim deles. Pensemos bem: quem, de fato, migrou da plataforma dos blogs para, vamos dizer, o twitter? Foram as pessoas que os utilizavam como um diário virtual, certo? Afinal, se posso dar pequenas atualizações rápidas para meus amigos via twitter ou facebook, para que perderei tempo escrevendo textos longos? E para que um amigo meu irá querer ler aqueles textos longos e chatos se pode acompanhar tudo com uma rápida olhada no celular?

Sim, foram estes tipos de blogs que viram a sua morte com o surgimento de novas redes sociais. Mas, como o Marcos Lemos, do Ferramentas Blog, sempre diz, algo próximo a 95% dos blogs criados acaba abandonado logo nos primeiros meses de vida. Isso é normal, acontece justamente com as pessoas que não tinham alguma intencionalidade ao criá-lo, queriam apenas publicar uma coisa ou outra sua de vez em quando. Para isso, realmente as redes sociais são mais eficientes e vão, sem sombra de dúvida, diminuir o número total estatístico de blogs. Agora, a quantidade real, aqueles que realmente são sempre atualizados, divulgados, produzem informação de qualidade, estes continuarão existindo, com ou sem as novas redes sociais. Na realidade, redes como o twitter, por exemplo, só facilitam a perpetuação dos blogs. Antes poderia parecer impossível trazer novas pessoas para o seu site, mas com o twitter (e outros) tal divulgação se torna muito mais acessível e possível, basta saber encontrar as pessoas certas. Aqui mesmo, grande parte dos leitores mais fiéis que tenho, vieram de um bom uso do twitter.

Enfim, creio que os blogueiros não precisam se preocupar. Aqueles que realmente se esforçarem, continuarão a ter visitas e comentários. A única coisa que as redes sociais diminuem nos blogs, por sinal, é o número de comentários. Não que as pessoas participem menos, mas muitas vezes preferem deixar seu recado via twitter, facebook, orkut, Dihitt e etc... a comentar na própria postagem.
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O Cavaleiro Inexistente - por Ítalo Calvino

em 03/03/2010.
| Comentários: (8)
Faz um bom tempo, quando fiz a promoção de sorteio de meu livro acadêmico, pedi que as pessoas falassem do que mais gostavam no blog via e-mail. Uma das participações, a do Marcos Paulo (@marcospsreis), um dos leitores mais ativos daqui, foi muito legal, pois veio com uma série de sugestões por parte dele. Uma delas foi a questão de trazer mais entrevistas e matérias mais voltadas para a literatura, como comecei a fazer recentemente. A segunda idéia que ele deu também resolvi aplicar, e pretendo fazer isso de vez em quando. Ele sugerira que eu falasse de alguns de meus livros favoritos e indicasse ao pessoal do blog. Hoje falo aqui de um livro muito bom e muito importante para mim: O Cavaleiro Inexistente, de Ítalo Calvino.

Para quem acompanha meus textos e opiniões, a escolha por este livro não deve ser assim tão surpreendente. Primeiro por ele trazer elementos fantásticos, misturar as fronteiras entre ficção e realidade, um tipo de literatura que realmente me agrada. E segundo por ter sido o principal inspirador da história na qual tenho trabalhado (O Código dos Cavaleiros). Hoje, porém, entrarei em mais detalhes e procurarei mostrar a razão pela qual considero O Cavaleiro Inexistente um "livro de cabeceira".

A história já começa com algo completamente fora do normal. Quando uma série de cavaleiros começa a se apresentar, eis que um difere de todos os outros: Agilulfo, o cavaleiro inexistente. É um diálogo cômico, logo de início, em que passamos a conhecer um cavaleiro que não passa de sua armadura: uma armadura sem corpo. É desta situação surreal que parte a história de Ítalo Calvino.

Interessante que, com o decorrer da obra, o autor nos mostra Agilulfo como oposto aos cavaleiros de sua época. Ele era honrado, limpo, organizado e incorporava todos os atributos de um homem de cavalaria ideal; o herói das fábulas. Nisso, já se faz uma crítica a uma certa sociedade de aparência, a uma mistificação que envolvia o ideal dos cavaleiros, algo que, por uma série de analogias e metáforas, também poderia ser levado à época em que Calvino escreveu o livro, crítica esta ainda muito atual.

A obra, porém, ainda traz muitas outras reflexões. Agilulfo não passa de um invólucro movido pela vontade de ser um cavaleiro, pela crença naquilo que ele é: isso o torna real. Como muitos homens daquela época - e como muitas pessoas hoje - ele se definia pelos seus objetivos, e não necessariamente por aquilo que poderia ser sua essência. A crítica do autor vem da seguinte forma, metaforicamente pensando: Agilulfo era um cavaleiro por fora (tinha o título, seria imortalizado), mas exatamente por colocar os seus objetivos, aquilo que ele fazia e realizava, acima daquilo que ele era, passou a se tornar unicamente o seu objetivo, a sua própria existência se esvaziou e, então, deixou de existir.

Enfim, é um livro escrito de uma maneira próxima até das fábulas, a própria descrição da versão de bolso, por exemplo, classifica-o como um "conto de cavalaria às avessas". Creio ser uma obra extremamente irônica, bem escrita, claro, e de um elevadíssimo valor não só literário como conceitual. Não é uma obra grande e há versões por preços acessíveis. Por isso, fica aqui a dica, espero que apreciem!

Obs: Cliquem aqui e confiram uma versão muito boa e muito barata do livro da Companhia das Letras.



Gostou do blog? Gostou dos textos? - o autor Leonardo Schabbach, que produz o conteúdo do Na Ponta dos Lápis lançou recentemente sua primeira obra literária, O Código dos Cavaleiros. Ajude-o a continuar produzindo! Informações sobre a obra (como comprar - autografada -, capítulos para degustação, capa, sinopse e muito mais) podem ser encontradas neste super hotsite (clique para acessar).

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Publique seu livro de graça (análise)

em 01/03/2010.
| Comentários: (27)
Hoje pretendo fazer uma análise de algumas ferramentas digitais muito interessantes aos novos escritores. Falarei especialmente da possibilidade de se publicar seu livro (fisicamente) sem gastar nada por intermédio do site Clube de Autores, mas também tratarei de outros assuntos relacionados.

Para quem não sabe, o Clube de Autores é um site no qual você monta o seu livro, com capa e tudo, e coloca para vender. Eles possuem uma máquina para impressão digital, então só imprimem seu livro quando alguém executa a compra; eles cuidam da entrega. Isso significa dizer que basta você montar seu livro, colocar no site e divulgá-lo para que possa ver sua obra publicada e comercializada. Dentro das opções do site, dependendo do número de páginas, a lombada será mais tradicional (colocada para livros com mais de 70 páginas) ou grampeada (com menos de 70 páginas). Faz uns dias, recebi o livro Mistérios em Floripa (do Rodrigo Capella). Posso afirmar que ele tem um bom acabamento, apesar de, por ter menos de 70 páginas, ter a lombada grampeada. Realmente a impressão deles é de qualidade, e o produto final não fica abaixo de grande parte das publicações que vemos por ai.

Logo, posso afirmar que é uma opção bem interessante publicar o seu livro por lá, ainda mais sabendo como é difícil conseguir uma boa editora nesses dias. Como já falei em outra postagem, o mais difícil para um novo autor é justamente - mais até do que publicar - conseguir promover e divulgar sua obra. Normalmente, um novo escritor nunca conseguiria um espaço considerável nas livrarias; ou seja, precisaria buscar por intermédio da internet e também de outros meios alcançar o seu público alvo. Partindo deste princípio, se pensarmos que o Clube de Autores disponibiliza a impressão do seu livro, não haveria muita diferença entre este sistema e o de uma editora pequena tradicional. Se você conseguir promover o seu livro com eficiência, conseguirá vender e atingir determinado público. Isso, porém, não funciona tão facilmente como parece.


Algumas desvantagens

A primeira é o preço das publicações. Embora já seja possível produzir apenas uma unidade do livro por um bom preço, ainda não se consegue baratear tanto a produção. Especialmente quando se trata de livro de poucas páginas, a publicação pelo Clube de Autores ainda sai muito cara. Isso significa dizer que será mais atrativo a quem quiser utilizar o site disponibilizar livros um pouco maiores (não gigantes, ou ninguém compra), mas com um bom número de páginas.

A segunda desvantagem é que, apesar de parecer, publicar no site não é a mesma coisa que publicar por uma editora pequena tradicional; leia-se tradicional como uma editora que irá procurar dentre os originais que recebe obras de qualidade. É justamente isso que diferenciará a recepção do público. Enquanto qualquer um pode colocar uma obra no site dos autores - e, por isso, ninguém garante que o livro lá posto tem qualidade literária -, numa editora pequena, porém comercial, sabe-se que o autor passou por ao menos algum tipo de seleção. Da mesma forma, dificilmente você irá conseguir espaço na grande mídia ou até mesmo entre muitos blogueiros por não ter esse "selo de qualidade" que ser selecionado por uma editora, por menor que seja, dá.

Além disso, muitas editoras médias e pequenas promovem noites de estréia para seus escritores - coisa que não será feito via Clube de Autores. Esses eventos às vezes atraem um pouco de atenção e podem gerar uma boa quantidade de leitores casuais. Estes leitores, gostando do livro, podem indicá-los a outros e sua obra pode ganhar mais importância.


As vantagens

Você não gasta sequer um centavo. Então, literalmente, não custa nada tentar. Fora isso, você pode ainda, por intermédio de blogs ou participações em redes sociais, chamar a atenção de uma boa quantidade de leitores; pessoas que irão acompanhar seus textos por gostarem deles e também de você. A partir desses leitores e da relação que  você mantiver com outras pessoas importantes das redes sociais, será possível, quem sabe, vender uma boa quantidade de exemplares, fazer algum "barulho" e chamar a atenção do mercado editorial. Como eu disse em outra postagem: ser escritor dá muito trabalho!

Lembro também que no Clube de Autores seu livro continua seu. Se  vier a fechar  com alguma editora, é só retirá-lo do ar. A parte ruim é que eles só lhe pagam quando você somar 100 reais em direitos autorais.

Um bom lugar para chamar a atenção dos leitores na internet é o Recanto das Letras. Além disso, o autor pode - e deve - manter um blog bom e atualizado com seus trabalhos. Abaixo seguem algumas postagens que podem interessar:


Ser escritor dá trabalho

A importância dos blogs para os escritores: Certezas e Confiança

A importância dos blogs e das redes sociais para os escritores



Gostou do blog? Gostou dos textos? - o autor Leonardo Schabbach, que produz o conteúdo do Na Ponta dos Lápis lançou recentemente sua primeira obra literária, O Código dos Cavaleiros. Ajude-o a continuar produzindo! Informações sobre a obra (como comprar - autografada -, capítulos para degustação, capa, sinopse e muito mais) podem ser encontradas neste super hotsite (clique para acessar).

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Vencedor da promoção do livro "Estudos sobre a leveza"

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| Comentários: (1)
Novamente, chegamos ao fim de mais uma promoção. E, como sempre, falo que a participação de todo mundo que acompanha o blog foi essencial para o seu sucesso. Também aproveito para ressaltar a importância de mudarmos nosso próprio comportamento diante de novos autores nacionais; precisamos dar mais chances a eles e se gostarmos do que lemos indicar para amigos, dar de presente, enfim. No caso do Fernando, vocês, caso se interessem pela obra (podem conferir o conto O Corpo aqui), devem entrar em contato com eles mesmo (no twitter @novasvisoes ou em seu blog), devido à forma como foi negociado o livro com a Editora Multifoco - o autor explica na entrevista.

Indico novamente por cá o livro A filha do livreiro, da Marcela Tagliaferri (@mar_tagliaferri), que foi a nossa última entrevistada. É um livro muito bom. Vocês podem saber como comprá-lo (via autora, Martins Fontes ou 7Letras) aqui.

O vencedor da promoção, pela segunda vez consecutiva, foi o @crosshackl (por escolha do autor entrevistado). Inclusive, aproveito para adiantar que a próxima entrevista + promoção ocorrerá também por RT no twitter, mas dessa vez a premiação se dará por sorteio (é bom variar o esquema de premiação sempre, é mais democrático).
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