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O preço dos livros no Brasil: algumas ponderações.

em 29/04/2010.
| Comentários: (16)
Essa é uma questão bem complexa. Decidi tocar neste assunto estimulado por uma das leitoras do blog (@travessadavida no twitter). Já li em muitos lugares pessoas reclamando do preço dos livros no Brasil e até mesmo os colocando como um dos principais motivos para que o brasileiros não leiam. Por isso, coloquei-me a pergunta: os livros no país são muito caros? A resposta é não. Mas, como disse, é uma questão muito complicada.

Se formos comparar os preços dos livros brasileiros com o de outros países veremos que eles não são tão caros como as pessoas pensam. Na realidade, mesmo comparando com os Estados Unidos, onde o mercado editorial é muito movimentado, as publicações daqui não ficam atrás: têm um preço muito parecido e, às vezes, até menor do que as de lá. Agora, caso olhemos para os best-sellers lá de fora, poderemos notar que o preço cai consideravelmente, o que se dá pelas altas tiragens. Ainda assim, a diferença não é tanta.

A questão, porém, não se resume a isso. Apesar das publicações daqui não serem tão caras e competirem, em termos de preço, com a de qualquer país lá fora, a população brasileira não tem tanto dinheiro para gastar em livros, por isso eles parecem tão caros. Enquanto aqui grande parte da população vive com um ou poucos salários mínimos, no Estados Unidos e nas potências européias mesmo o trabalhador comum tem uma qualidade de vida mais alta e pode se dar ao luxo de comprar um livro. Aqui, muita gente, mas muita gente mesmo, precisa contar o dinheiro para conseguir pagar as contas mais básicas e comprar comida.

Além disso, embora os livros brasileiros não sejam caros, eles poderiam ser ainda mais baratos. Isso não acontece por uma série de motivos - e aqui entram algumas ponderações. A primeira é que, realmente, um mercado consumidor de livros pequeno tende a inflacionar o preço. Afinal, a editora precisa, com poucos livros vendidos, pagar todos os custos de produção e ainda conseguir um lucro que sustente outros livros que venham a encalhar. Logo, se a população comprasse mais livros, os preços certamente baixariam. Agora, como isso seria possível se boa parte dos brasileiros realmente não pode ser dar ao luxo de comprá-los? É uma questão complicada.

Ainda assim, respondendo a questão que acabo de colocar, o potencial do mercado de leitores brasileiro poderia ser muito maior do que é hoje. É verdade que uma parcela da população não pode mesmo se dar ao luxo de gastar seu dinheiro com livros, mas também é verdade que há um grande número de pessoas que poderia fazê-lo. Acontece que, no Brasil, a leitura é vista, de uma maneira geral, como última opção de entretenimento, e o livro como o primeiro produto de luxo a ser cortado na hora de economizar. As pessoas preferem gastar o dinheiro em uma boate ou em uma ida ao cinema em vez de comprar um livro, mesmo que tudo custe a mesma coisa e que o filme ou a boate durem apenas umas poucas horas. Isso significa dizer que uma simples mudança de mentalidade poderia expandir muito os horizontes do mercado literário brasileiro.

Um segundo problema é a falta de livrarias no país (algo que, mal ou bem, também está relacionado ao baixo público leitor). Aqui, temos uma quantidade enorme - mas enorme mesmo - de editoras para um número extremamente reduzido de livrarias. Este gargalo acaba por dificultar ainda mais o processo de distribuição. As editoras são obrigadas a gastar um bom dinheiro com distribuidores e a ceder quantias muito altas às livrarias para conseguir uma boa exposição. Para terem uma idéia, a não ser que você seja dono de uma editora gigante (como a Record), você precisará ceder cerca de 40%, 50% do valor de capa para a livraria. Além disso, precisará aceitar vender por consignação, sendo obrigado a receber de volta os exemplares não vendidos (e lá se vai mais uma quantia alta para os distribuidores). Qual a consequência disso tudo? As editoras vão lá e aumentam o preço de vendagem do livro para que consigam um lucro razoável.

Enfim, acho que já falei o suficiente em relação ao assunto. Claro que há mais pontos a serem tocados, mas acho que isso resume bem esta questão dos preços. Como eu disse antes, apesar dos problemas que citei encarecerem um pouco a produção, no Brasil os livros continuam não sendo tão caros como as pessoas falam. Poderiam ser mais baratos? Sim, poderiam. A população daqui não tem tanto dinheiro como lá fora? Sim, isso também. Mas esta questão do preço, para mim, é de longe um dos menores problemas. Na minha opinião, a mentalidade da população em relação aos livros - o fato de os perceberem como artigos de luxo facilmente descartáveis; são a primeira coisa a ser cortada nas horas de aperto - é o principal problema a ser resolvido.

Para isso, seria necessário que houvesse uma crítica literária mais forte e também um apoio maior por parte da mídia e do governo, mesmo que isso desse algum prejuízo de início, já que o público leitor ainda é pequeno. Com o tempo, a crítica cresceria, as discussões literárias também; o mercado, então, ficaria mais aquecido e os outros problemas aqui citados seriam solucionados mais facilmente. É claro que é um trabalho difícil, ninguém aqui vai dizer que não, mas é algo que tem que ser realizado.
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Concursos Literários - Antologia de Contos (Alétheia)

em 26/04/2010.
| Comentários: (69)
Nota 1: Os banners de divulgação estão prontos. A quem quiser ajudar a iniciativa, é só pegar o seu banner nesta postagem aqui. Também é possível acompanhar mais novidades sobre a antologia no Fórum de Literatura Fantástica e também na Comunidade do Orkut.

Como já havia anunciado em uma postagem anterior, o blog organizará uma antologia de contos em parceria com a Editora Multifoco (saiba mais sobre a editora aqui). O nome da coletânea será Alétheia - Ficção Especulativa. Há um motivo específico para a escolha do nome que explicarei adiante na postagem. Aqui também poderão conferir o e-mail para onde devem enviar seus textos e a data para entrega. Também peço a todos, principalmente aos amigos blogueiros, que ajudem a divulgar a iniciativa; assim montaremos um livro de grande qualidade (tentarei providenciar, em breve, banners e botões para aqueles que quiserem divulgar em seus sites).

Bem, primeiro, explicando o título. Alétheia é a palavra do grego que indica verdade. Mas a verdade da filosofia, com todas as complexidades que isso traz. Acho um nome interessante, porque esta é a busca que este livro de contos procurará realizar. Não, claro, necessariamente uma busca pela verdade de fato, mas pela reflexão; a idéia é provocar o leitor através de histórias que não precisem ficar presas ao mundo real e convencional. Por isso a opção pela ficção especulativa. Como disse antes, o objetivo desta antologia não é só reunir um monte de contos sobre um mesmo gênero, mas produzir realmente um livro de qualidade, algo que as pessoas gostarão de ler e de indicar.

Mais um vez, peço a ajuda de todos para divulgar a iniciativa. Aviso que me disponibilizo a passar mais informações sobre a antologia e sobre o tema a quem estiver interessado: basta utilizarem o formulário para contato do blog ou falarem comigo via twitter. Vamos incentivar a produção dos novos talentos do país!


TEMÁTICA

Ficção especulativa. Os textos a serem recebidos devem gerar uma investigação, de alguma maneira, das características humanas, filosóficas ou de nossa sociedade por intermédio de suas histórias fantásticas. As histórias alternativas (aquelas que em geral surgem da expressão "E se tal coisa acontecesse", partindo para algo fantástico ou fora da realidade) provavelmente são as que se encaixarão melhor no tema, mas outros tipos de contos fantásticos também serão bem-vindos.

Aqui seguem algumas referências para os participantes: O Homem Mal-Educado, de Gonçalo Tavares, algumas obras de José Saramago (Ensaio sobre a cegueira sendo a obra mais conhecida), algumas obras de Ítalo Calvino (vejam aqui uma resenha sobre O conto do cavaleiro inexistente) e, claro, Jorge Luis Borges (editado: esqueci de outra referência importante; Metamorfose, de Kafka). Ainda podem conferir no blog O Segredo de Vinícius, texto meu que também apresenta tais características, assim como o conto O Pássaro e a Árvore.

*Vale lembrar que os textos citados são apenas referências. Se você tiver algo diferente disso, mas dentro da temática, não se acanhe em enviar o seu texto.


E-MAIL PARA ENVIO, DATAS E REGULAMENTO

As obras devem ser enviadas para o e-mail leoschabbach@uol.com.br com o assunto TEXTO ALÉTHEIA e uma mini-biografia, de no máximo 5 linhas, no corpo do e-mail. O prazo limite inicial para o recebimento dos contos será 30/06/2010. Entretanto, ele pode ser alongado em caso de necessidade ou, então, reduzido. Irei montar o livro conforme receber os contos; logo, caso o número selecionado já seja o ideal para a publicação, o prazo de inscrições pode se encerrar antes do dia 30. Por isso, apressem-se. Cada conto deve ter no máximo 10 mil caracteres e um autor pode possuir mais de uma obra na mesma antologia.

Confira mais detalhes do regulamento aqui!!
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A crítica literária se divide. De que lado você fica?

em 25/04/2010.
| Comentários: (18)
Reli uma matéria do último Jornal Rascunho - aconselho a quem gosta de literatura a assinar, é bem baratinho e você dará seu apoio a um projeto legal, além de receber um produto de qualidade - e fiz algumas reflexões sobre a crítica literária. O texto em questão falava exatamente disso, de uma divisão que começa a ocorrer no meio.

Numa postagem mais antiga, Como escrever bem?, já tratava um pouco desta questão. Ali, já apontava para a problemática da crítica literária brasileira, que cada vez mais vem sendo criticada (irônico, não?). Mas não pretendo falar mal de ninguém; tenho por objetivo discorrer sobre o assunto, principalmente no que se trata desta divisão.

Hoje, a crítica ainda é liderada por um grupo que privilegia o trabalho com a palavra, com a narrativa e assuntos que, de uma maneira geral, não são tão atraentes ao grande público. É como se a literatura se fechasse na própria literatura, sendo retrabalhada e reinventada sem que haja uma preocupação tão grande com a própria história. O prazer na leitura vem da linguagem, muitas vezes da metalinguagem, do texto.

Eu, particularmente, também gosto de livros assim, que tem essa preocupação; de autores que tem esta capacidade. Acho fantástico. Mas não posso deixar de observar que, se levarmos isto ao extremo, de alguma forma, separamos o mundo da literatura; e, para mim, ela deve é se alimentar do mundo, da vida, das coisas, e não se afastar delas. Uma produção voltada apenas para si deixa grande parte da população de fora. Confesso que eu mesmo deixo de ler um livro ou outro da produção atual por achá-los chatos, pomposos demais. O que quero dizer é que um dos bons motivos para a falta de leitores no país também passa pelas escolhas da crítica e das editoras por livros que talvez não sejam tão atrativos assim.

Entretanto, não falo aqui que devemos publicar apenas obras de entretimento - e também ressalto que não tenho nada contra elas, afinal, as pessoas precisam aprender que a leitura pode ser prazerosa. Acho que me coloco com um geração de críticos que começa a olhar com outros olhos as obras que fazem sucesso, que encantam o público por seu conteúdo, além, é claro, de sua qualidade narrativa. No Brasil, costuma-se desvalorizar os autores que fazem grande sucesso entre o público, algo que acontece por considerarem a massa burra; logo, um texto que faça sucesso entre elas não pode ser bom, afinal, elas não sabem o que é bom.

Acho que não preciso dizer o quão ridículo isso soa. É claro que tem muita coisa ruim que é apoiada e comprada pelas massas, sim, mas isso não significa que elas sejam burras; também não significa que devamos julgar as suas escolhas. Mas encarar um livro de um autor que faz grande sucesso com preconceito - já de antemão o definindo como ruim - apenas porque a sua história também entretém é algo que considero muito errado. Portanto, fico com esse lado da crítica, que percebe a possibilidade de termos obras de grande qualidade narrativa e também com grande apelo ao público, com histórias realmente instigantes (e sempre cito Saramago como o exemplo).
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Divulgue seu livro e publique de graça: uma análise do Bookess

em 22/04/2010.
| Comentários: (19)
Esta postagem é para fazer uma rápida análise do serviço oferecido pelo site Bookess e também para trazer uma novidade que ele apresentará. O Bookess é um site em que você pode colocar o seu livro para que as pessoas leiam: é possível optar por colocá-lo já pronto ou então seguir escrevendo nele ao longo dos dias para que seus leitores possam acompanhá-lo. Devo admitir que a segunda proposta é mais interessante, ainda mais porque a ferramenta deles de leitura é muito agradável e pode ser embutida em seu blog. Desta maneira, fazendo uma boa divulgação e contando também com a própria divulgação do site, é viável alcançar um bom número de leitores e os fidelizar, com atualizações constantes. Mas agora tem mais!

A partir do mês que vem, o Bookess também permitirá que os livros lá apresentados sejam vendidos por intermédio do site, da mesma maneira que o Clube de Autores e a AG Books (Editado: há uma diferença. Por serem editora, na Bookess todos os livros disponibilizados para a venda possuirão ISBN). Aqui no blog, vocês podem conferir duas postagens em que falo sobre este tipo de serviço (Publique seu livro de graça e Usos possíveis do Clube de Autores). Agora, o Bookess fornece um serviço diferenciado, por sua origem vir justamente da possibilidade de você colocar o livro no site - através de uma ferramenta muito legal em que o texto é visualizado como "livro físico" - e divulgá-lo. Isso significa dizer que, além de publicar a obra por lá, você poderá promovê-la. Além disso, tal possibilidade pode ainda vencer um dos principais problemas que eu apontava na venda de livros literários pelo Clube de Autores: a falta de credibilidade. Como qualquer um pode colocar sua obra à venda no site, ninguém tem como garantir que a qualidade do texto é boa, que as idéias são originais. Com a ferramenta do Bookess você poderá criar um arquivo com parte de sua obra para que os compradores visualizem, leiam, confiram por eles mesmo a qualidade e comprem.

Esta nova fase do site deve entrar no ar no início do próximo mês, quando haverá a montagem de uma loja virtual. Assim como os outros sites do gênero, o autor ficará com uma porcentagem por obra vendida e receberá seu dinheiro quando atingir o valor de 100 reais. É algo que não é tão fácil, como ponderei nas postagens anteriores sobre o assunto. Porém, sabendo planejar e pensar em quais são seus objetivos, pode ser uma ferramenta útil, ainda mais com a maior facilidade de divulgação. Para terem uma idéia, o livro mais visualizado por lá tem mais de 12 mil visitas. E há muitos outros com mais de 5 mil. Naturalmente, essa possibilidade de divulgação acabará por gerar um número maior de vendas. Vale checar!
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Novidades literárias, novidades do blog e Drummond

em 20/04/2010.
| Comentários: (7)
Hoje faço uma postagem para falar de um apanhado de coisas. Primeiro sobre um bom site que fala de concursos literários e sobre um concurso promissor. Segundo, sobre as novidades do blog, como a parceria com a Editora Record (@Editora_Record). Terceiro, para trazer a vocês um poema de Drummond indicado por uma leitora do blog no artigo Quem sou eu?, publicado pelo Cizenando, nosso colaborador. Então vamos lá!

Ficção de Gaveta - é um site basicamente a respeito de concursos literários. Sempre procuro os melhores concursos para trazer aos leitores do blog, mas é claro que muita coisa, muita coisa mesmo, escapa. Aqui vocês poderão se inteirar melhor (é mais um bom site). Lá, de muito interessante, há um concurso para obras completas; isto é, você pode concorrer com o seu livro. O ganhador leva 1.000 exemplares da obra e mais uma quantia em dinheiro - 3 mil reais na categoria contos/crônicas/poesia e 5 mil na categoria romance (confira aqui).

Novidades do blog - para quem ainda não percebeu, fiz algumas mudanças no Na Ponta dos Lápis. Implementei uma ferramenta para dar destaques a determinadas postagens, de maneira a facilitar a visualização de vocês, além de ter modificado também os comentários (se olharem os outros posts verão como eles ficaram mais bonitos e organizados). Enfim, espero que as mudanças agradem, são para tornar o blog mais interativo (algo muito importante, confiram este artigo); espero que gostem e deixem suas opiniões. Também gostaria de anunciar aqui a parceria firmada com a Editora Record (@Editora_Record). Acredito que ela trará muitos benefícios ao conteúdo do blog, trata-se da maior editora do país, que produz conteúdo de qualidade, e proporcionará ações interessantes (uma delas o sorteio eventual de livros, o que deve agradar muitos).

Poema de Drummond - por último, segue o poema Eu, etiqueta, de Carlos Drummond de Andrade. A leitora Márcia Luz lembrou dele ao ler o artigo Quem sou eu?, postado pelo Cizenando. Embora a obra não fale exatamente das mesmas coisas que o artigo, ela certamente o completa. Sem sombra de dúvida, fala de uma questão muito contundente de nossa sociedade; questão que já era crítica na época de Drummond e que, hoje, certamente é ainda mais aguda. Confiram!


Eu, etiqueta

Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome... estranho
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, premência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-lo por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer, principalmente.)
E nisto me comprazo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar,
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo de outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mar artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome noco é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.
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Quem sou eu?

em 19/04/2010.
| Comentários: (6)
O valor da joia está em sua beleza ou na grife que a produz? O brilho é característica da pedra boa ou da luz que se lança sobre ela? O ditado adverte que nem tudo que resplandece é ouro – mas o que fará o tom amarelado ser mais ou menos atraente?

As palavras dançam na tela, no papel ou no ar e o que importa, mais do que aquilo que elas dizem, é quem as diz. Sob uma realidade social em que o status de celebridade perverte o entendimento da produção cultural, ser alguém é mais relevante do que produzir algo.

O mundo gira cada vez mais rapidamente, os focos de interesse são vários e as linhas se atenuam. Diante deste enorme vão que se abre todos os dias sob os pés, a tendência é buscar referências que transmitam uma sensação de segurança, por menor que seja – o conhecido.

Por exemplo, quantos são os textos que correm a rede assinados por personagens do meio artístico como Luis Fernando Veríssimo e Herbert Viana e contém mensagem absolutamente banais? Ou, por outro lado, de conteúdo interessante, mas por ser de um autor pouco conhecido, é reassinado?

Você, leitor, experiente ou não: o nome antes ou depois do amontoado de letras formando frases, períodos, sentidos, molda sua avaliação? Como sussurram os românticos, quem vê autoria não vê texto?

Esta predisposição pela segurança do que já foi referendado explica em parte a dificuldade de envolvimento com novos criadores – seja para elogiar, criticar, interagir. Avançar no oceano sem boias e guias tem seus riscos.

Uma palavra prévia, o reconhecimento público (em maior ou menor escala), é como a autorização obrigatória para adentrar no universo daquelas palavras que estão em uma corrente, em um site, em um livro, em uma voz. Sem ela, é como estar infringindo a lei da sobrevivência na atualidade.

Quem é aquele que escreve e o que a assinatura diz sobre o texto. O risco do filtro ser calibrado sob estas medidas é o leitor seguir, em plena era digital, refém do século passado.



Cizenando Cipriano - @cizenando_ - é colaborador do Na Ponta dos Lápis; jornalista da área esportiva, com passagens por MB Press (UOL e IG), LANCE! e Rádio Nacional. Você pode encontrar mais textos do autor, com algumas pitadas humorísticas, no blog Pau Na Mesa.

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O Contador de Histórias (conto)

em 16/04/2010.
| Comentários: (6)
Nota: cá vai mais um conto. Acabei postando ele assim que o terminei, sem ter muito distanciamento da obra para saber a real qualidade. Mas gostei muito dele depois de acabá-lo, por isso acabei cedendo e postando logo. Espero que a leitura seja interessante, que seja mais do que uma leitura, mas uma experiência!

Ele passou o braço direito pela testa e limpou o suor que escorria por seu rosto; trabalhara o dia inteiro em sua pequena plantação. O sol brilhava forte, castigava, como costumava fazer no início de todos os verões. Quando levantou a cabeça, sorriu. O ônibus que trazia as crianças finalmente chegara, era hora de iniciar a colônia de férias, o momento de se dedicar àquilo que mais gostava, à atividade para a qual se preparava durante o ano inteiro.

Dona Maria mandou lhe chamar, queria vê-lo limpo e arrumado para encontrar com as crianças. Osvaldo obedeceu prontamente, afinal, também queria causar uma boa impressão. A experiência que ganhara nos últimos anos tinha lhe ensinado que era preciso causar um efeito positivo nas pessoas assim que fosse apresentado.

Ele seguiu para o seu quartinho, uma pequena construção que ficava ao lado da casa principal da fazenda. Tomou um banho, penteou o cabelo e se encaminhou em direção à biblioteca. As crianças já o esperavam, algumas por já conhecê-lo de outros verões. Osvaldo era excelente contador de histórias. Ou melhor, talvez excelente seja um adjetivo inapropriado. Osvaldo era incrível, mágico; aquele tipo de pessoa a que normalmente não damos atenção, mas que se transforma quando se envolve com as coisas de que realmente gosta. E assim era com ele, sempre uma surpresa. As palavras encantavam, a voz as recitava com precisão, no tom certo para envolver quem o ouvia.

A tensão na sala era nítida, mas um tipo de ansiedade boa... e boba, de criança. Elas fitavam Osvaldo com os rostos iluminados; os olhos divagavam, perdidos num mundo de sonhos, de histórias. E o dia passava sem que ninguém ousasse se mexer. Impérios eram construídos e depois se acabavam. Grandes heróis percorriam a biblioteca, atiravam-se contra moinhos e gigantes, partiam em aventuras, salvavam donzelas e, claro, cumprimentavam as crianças. Elas podiam sentir; o cheiro das fábulas, o toque das histórias, o sabor das palavras, dos sons, o gosto pelo livro.

E Osvaldo prosseguia verão adentro. Quem precisava brincar lá fora quando na biblioteca penetravam em um mundo novo? O mundo de Osvaldo, os mundos de Osvaldo. E ele sorria. Não tinha outro momento na vida em que se sentisse tão completo. Desde pequeno, sempre fora criativo, imaginativo, uma criança por demais sonhadora, seus pais diziam. Mas ele não ligava. Fazia os trabalhos no campo e depois se sentava no mato; perdia-se por horas com o olhar fixo nos céus e nas plantas, criava histórias ao ar livre, como sentia que elas mereciam ser criadas. Amava todas as coisas, em especial as crianças, aqueles seres novos e ainda tão cheios de potencial que visitavam a fazenda a cada verão. Podia notar nos olhos delas o encantamento, em umas mais do que em outras; mas todas embarcavam, partiam com ele em viagens homéricas, empreitadas secretas, fugas alucinadas. Cantavam com os menestréis e exploravam os vales, desvendavam crimes e capturavam bandidos, depois comemoravam com o Saci. Como eram bons aqueles verões!

E quando tudo passava, Osvaldo voltava ao trabalho na fazenda, retornava aos animais e às plantas. Eram meses na lavoura, suando e capinando. Mas ele não reclamava. Sabia que tudo valeria a pena no verão seguinte. Enquanto isso, cuidava de tudo na fazenda com muito carinho; conversava com as flores, brincava com os animais. Tinha um cuidado especial com cada cantinho de natureza, pois tinha a consciência de que suas histórias nada seriam sem tudo aquilo que ela lhe contava.
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Antologia de contos a ser organizada e lançada pelo blog

em 14/04/2010.
| Comentários: (7)
Tenho uma excelente notícia a dar a todos os leitores, principalmente aos que escrevem, do Na Ponta dos Lápis. Firmei uma parceria com a Editora Multifoco (saiba mais sobre a editora aqui) para organizar uma antologia de contos pelo blog e também pelo meu Fórum de Literatura Fantástica. Muitos detalhes ainda precisam ser definidos - como prazos de entrega, nome da coletânia e etc... -, mas já posso adiantar qual será a temática e também como funcionará todo o processo.

Primeiramente, gostaria de ressaltar que a minha idéia com esta antologia não é de apenas criar um livro de contos com um "bando de autores dentro" e ficar por isso mesmo. Quem acompanha o blog sabe: venho sempre buscando maneiras de valorizar a cultura literária, os escritores, os bons livros. Portanto, com a antologia pretendo criar um livro de contos de qualidade, que faça alguém comprar e até indicar para amigos por gostar do que leu. Será um processo longo de análises e seleções, mas espero conseguir um resultado final muito bom e prometo divulgar a antologia da melhor maneira possível.

As datas e o próprio nome serão definidos em breve, mas já posso adiantar aqui qual será a temática. A antologia se focará em contos ligados à literatura especulativa, mas que tenham a intenção de investigar, de alguma maneira, características humanas, filosóficas ou de nossa sociedade. É um gênero pelo qual me interesso, faz parte de minhas pesquisas acadêmicas, e que tem crescido muito. Querem alguns exemplos? O escritor português Gonçalo Tavares, que sempre elogio muito aqui, tem alguns contos neste sentido (leiam O Homem Mal-Educado), o José Saramago (Ensaio sobre a Cegueira sendo a obra mais conhecida), o Ítalo Calvino (vejam aqui uma resenha sobre O conto do cavaleiro inexistente) e, claro, o Jorge Luis Borges. Geralmente, este tipo de literatura parte de uma idéia absurda (fora de nossa realidade) ou do famoso "E se.." (característica das histórias alternativas) para provocar reflexões e, de alguma forma, fazer uma "investigação" de determinado assunto (meu conto O Segredo de Vinícius é um outro exemplo que podem conferir).

Os textos devem ter no máximo 10,000 caracteres. Além disso, é possível que um mesmo autor tenha mais de uma obra selecionada. Como todas as antologias da Multifoco, os selecionados irão receber 15 exemplares para vender por consignação, para ajudar na divulgação da antologia. Os livros não vendidos serão devolvidos a editora sem custo algum para o autor. Ou seja, quem souber divulgar a obra ainda pode lucrar com seus exemplares.

Enfim, espero que tenham gostado do projeto!
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A importância dos blogs e das redes sociais para os escritores

em 12/04/2010.
| Comentários: (13)
Hoje falarei um pouco da importância das diversas redes sociais literárias (clique aqui e visite o fórum de Literatura Fantástica para conhecer algumas) e dos blogs para os escritores. Entretanto, não pretendo - ainda - bater na tecla de que esses espaços na internet podem ajudar o novo autor a conquistar alguns leitores, ou até muitos, e com isso conseguir uma publicação. Isso é algo extremamente raro. Por isso, hoje me dedicarei a explicitar a importância desses meios como maneiras de se manter o seu público.

Vejamos o que quero dizer com essas palavras. Imagine que você conseguiu publicar o seu livro por uma editora comercial, mesmo que pequena. Alguns leitores podem esbarrar com resenhas sobre ele na internet, encontrá-lo por um acaso em uma livraria (dependendo da editora que você arrumou) ou até mesmo se deparar com um texto seu publicado em algum site por ai. Eles podem gostar do que você criou, se interessar pela obra, comprá-la, lê-la e apreciá-la. Agora, a não ser que seja um livro que tenha de fato os deixado completamente impressionados, há uma boa chance de você ser esquecido no futuro. E, então, num segundo livro, teria de recomeçar quase do zero.

Os blogs e as redes sociais aparecem como uma solução a este problema. Um leitor seu casual, vendo algum endereço eletrônico para visitar dentro de seu livro, provavelmente o fará, lerá mais coisas sobre você, mais do que você está publicando e acabará se envolvendo. E escrever é exatamente isso, se envolver com o leitor. E caso seja possível manter este contato mais "pessoal" através dos espaços gerados pela internet, melhor.

Veja um exemplo com as próprias entrevistas e promoções que eu tenho feito no blog. Caso o autor tenha uma conta no twitter, facebook e etc... e ainda um espaço próprio para colocar os seus textos, é claro que uma resenha sobre a sua obra terá um efeito muito mais positivo. Isso acontecerá, porque alguns leitores do Na Ponta dos Lápis se interessarão em manter um contato com o autor, conhecer mais do que ele está produzindo; procurarão trocar experiências. E, naturalmente, de uma relação deste tipo, é muito mais fácil que se mantenha o bom leitor e, o que é ainda melhor, torna-se possível fazer algumas boas amizades.

Enfim, o que queria defender aqui é a idéia de que todo o autor, em especial aquele que foi publicado (mesmo os que estão nas grandes editoras), deve se manter acessível nas redes sociais e publicar uma coisa ou outra em sites e blogs. Sem sombra de dúvidas, esta será uma excelente maneira de conquistar cada vez mais espaço, mesmo que de forma lenta, a cada livro publicado.

Nota: num futuro não sei quão próximo, pretendo fazer mais uma postagem falando deste assunto. É interessante entrar em mais detalhes sobre esta relação entre autor e leitores por intermédio das redes sociais.
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Prêmio OFF-FLIP e mais Concursos Literários

em 10/04/2010.
| Comentários: (4)
Como encontrei algumas novidades em relação a Concursos Literários e também alguns sites interessantes em termos de novidades sobre literatura, decidi fazer uma postagem com todas essas informações. Claro que dou destaque ao Prêmio Off-Flip de Literatura, um concurso cuja premiação ocorrerá na Festa Literária Internacional de Paraty. O primeiro colocado recebe uma bolada de 2.000 reais, ingressos para as mesas da FLIP, hospedagem para o evento com acompanhante e etc...

Vocês podem conferir todo o regulamento - prazos para inscrição, taxas e mais informações sobre as categorias a concorrer - no site do concurso (clique aqui e confira).


Outros concursos

Tarja Editorial - a editora abriu uma série de concursos voltados para a Literatura Fantástica. É de fato uma excelente oportunidade para conseguir uma publicação. (clique aqui e confira)


Câmara Brasileira de Jovens Escritores - como já tinha apontado aqui antes, eles sempre trazem uma série de concursos, antologias e etc... Vocês podem conferir mais informações aqui.


Alguns blogs com promoções

Confiram esta lista com alguns blogs que, além de trazerem resenhas e notícias que envolvam literatura, também realizam promoções. Para o pessoal que quiser concorrer a exemplares de alguns livros, visitem o Viagem Literária e o Criando Testrálios.
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Como divulgar seu livro: Entrevista com Felipe Pan

em 08/04/2010.
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Para trazer mais informações a respeito do mercado literário, fiz uma entrevista com Felipe Pan (@FelipePan), o autor do livro Rede de Sonhos, que pretendo sortear em breve no site O Legado (por uma coincidência bem agradável, você pode concorrer a um exemplar do livro no Viagem Literária, da Fernanda Assis @nandaassisbh). Escolhi este autor para a entrevista pelo fato de ele ter lançado seu livro pelo selo Novos Talentos da Literatura Brasileira, da editora Novo Século, um selo em que você precisa custear a própria produção.

Rede de Sonhos, Felipe PanAcho que a entrevista, por este motivo, traz à tona a idéia já trabalhada aqui de que o escritor deve sim gastar dinheiro para investir em si; deve pensar nisso como um investimento em sua própria imagem, em seu currículo. Agora, devo admitir que este selo da Novo Século em questão, apesar de dar muito mais visibilidade para seus autores, o que gerará uma maior vendagem e também credibilidade, pelas informações que obtive, acaba exigindo um dispêndio muito grande por parte do autor; dinheiro esse que só será recuperado caso se consiga vender mais ou menos metade da tiragem exigida pela editora. A 7Letras tem um processo parecido, mas permite que a tiragem inicial seja menor, o que diminui MUITO os custos para o autor.

Também gostaria de lembrar que este selo da Novo Século é mais voltado para livro mais comerciais, de uma maneira geral, claro, há exceções, enquanto o da 7Letras se volta mais para livros que serão mais bem aceitos pela crítica, procura uma literatura menos de "entretenimento" (embora eu odeie essa diferenciação) e mais "reflexiva". Enfim, no caso específico do Felipe Pan, seu livro foi muito falado pela blogosfera, bem recebido pelo público, e ele conseguiu vender os exemplares que precisou comprar. Por isso, faço a entrevista para que ele possa passar algumas dicas de divulgação que ele conseguiu.

- Veja o livro na Saraiva -


Primeiro, gostaria de que você me falasse um pouco sobre este selo para "Novos Autores" da Novo Século, para o pessoal saber como ele funciona.
R: A coleção "Novos Talentos da Literatura Brasileira" é um projeto muito bacana da editora Novo Século que tenta abrir o mercado nacional para autores brasileiros que estão em seu início de carreira. O processo todo é bem simples de entender - o autor envia seu livro para a editora e, caso a obra possua a qualidade e potencial de mercado desejados, é feita uma proposta contratual que seja boa para ambas as partes. É perfeitamente compreensível que, enquanto empresa, a editora não queira correr o risco de ter prejuízo ao lançar uma obra proveniente de um autor totalmente desconhecido e, devido a isso, a parceira entre autor e editora depende da aceitação do autor em arcar com certos custos de produção do livro.


Neste selo, é preciso desembolsar um bom dinheiro para a publicação. O que o levou a ter a convicção de pagar essa quantia?

R: O primeiro passo para qualquer autor que quer ver seu livro publicado é acreditar em sua própria obra, e eu sempre acreditei em Rede de Sonhos. É engraçado, mas quando criei o conceito do Sonífero e da própria Rede de Sonhos, tive a grata sensação de que tinha algo legal em mãos. É claro que o momento que vivo pesou bastante em minha decisão. Ainda não sou casado, tampouco tenho filhos. Trabalho desde os 16 anos de idade e posso dizer que consigo me virar bem por enquanto, por isso pude investir em meu sonho. Além disso, tenho bem claro que, na pior das hipóteses, a experiência pode pelo menos fazer com que eu me exprema para dentro do mercado literário do país, o que pode facilitar a publicação de alguma obra futura que eu queira lançar. Não faltam planos, isso eu posso garantir!


Uma das coisas que acho interessante é o fato de você ter conseguido vender todos os exemplares de que dispunha. Como foi feito o processo de divulgação? Tanto da parte da editora como da sua parte.
R: Não foi nada fácil, isso posso afirmar. O que me ajudou muito foi o fato de algumas escolas terem demonstrado interesse pela obra, o que rendeu vendas grandes de uma só vez. Desde o lançamento do livro, em novembro do ano passado, tenho feito o possível ao divulgar o livro em blogs, sites e meios pessoais. Ainda falta um número considerável de edições a serem vendidas pela editora para que a primeira tiragem se esgote, e essa é a parte mais difícil. Infelizmente, mesmo em sua época de lançamento, Rede de Sonhos nunca foi parar na bancada de novidades de qualquer livraria. Isso teria ajudado bastante, uma vez que a capa e a sinopse do livro são elementos bem chamativos.


Numa conversa com você, fiquei sabendo que conseguiu que escolas adotassem seu livro como material didático (um feito extremamente interessante e positivo). Pode nos falar um pouco sobre essa experiência?

R: Foi algo que tenho que descrever como mágico. Não sabia que a aproximação do autor com seus jovens leitores poderia fazer tanta diferença. A maioria dos adolescentes não tem o hábito de ler, por isso fiquei realmente espantado ao ver que todos, sem exceção, leram Rede de Sonhos de cabo a rabo depois que apresentei uma pequena palestra sobre a obra. Acredito que, ao ter me aproximado deles, acabei mostrando as consequências positivas de se adquirir o hábito da leitura e de se ter uma boa formação acadêmica, fatores que podem levar qualquer um a fazer algo tão legal quanto criar seu próprio mundo. O resultado disso tudo foi tão bom que alguns alunos chegaram até a encenar cenas do livro e gravá-las em vídeo posteriormente. Posso dizer que fiquei muito contente ao ver o legado positivo que minha conversa com eles deixou. No fim deste mês tenho outro encontro com uma das escolas que adotaram Rede de Sonhos, e estou bem ansioso para ver qual foi a aceitação do livro.


Qual a importância que você vê no fato das escolas adotarem livro de fantasia como material didático?

R: Acredito piamente que as escolas deveriam adotar livros que instiguem os jovens a ler, independente do gênero de cassificação da obra (é claro que o conteúdo tem que ser minimamente decente). Se fantasia é o melhor caminho, ótimo. Se for romance, também não há mal algum. O que tem de haver é a conscientização de que ler faz bem e é divertido.


Como você vê o mercado para o novo autor nacional?

R: Extremamente fechado, numa visão bem realista da coisa. Falta investimento e incentivo aos escritores brasileiros. É muito mais fácil lançar, perdoem-me pelas palavras, uma porcaria oriunda de um ex-bbb ou celebridade qualquer do que uma obra bem estruturada de um romancista nacional. Tenho esperanças de que isso mudará um dia, e contribuir para tal é uma de minhas maiores metas na carreira.


Que dicas você teria para os novos autores?

R: Não tenham pressa em escrever e ver o próprio livro publicado. Trabalhem forte com suas ideias e as desenvolvam ao máximo, até atingir o nível ideal. Editoras recebem pilhas e pilhas de livros incoerentes, sem objetivo ou escritos precariamente, por isso acabam por eliminar obras que até têm grande potencial. Levando isso em conta, sejam também originais. Criem, inovem, abram novos horizontes para conquistar os leitores. O maior prazer em escrever é justamente saber o quanto você pode cativá-los.
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Conto (Sem Título)

em 07/04/2010.
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Saiba, se você for preto, você é suspeito. Cuidado, se você for preto, pois você é suspeito. Atenção, se você for preto, sua alcunha é suspeito. De costas, mão na parede, é coisa de rotina.

Não sorria, o negócio é sério – o som oco da cabeça no concreto. Tórax, cintura, bolsos, entre as pernas, tornozelos, de frente. Olha pra baixo, seu preto – o barulho do destravamento da arma é límpido.

Quem é você, seu preto, que passa por essa rua como se nada devesse? Escuta aqui, seu preto, se entrar na minha mira de novo não tem perdão.

O preto vê na parede a mancha vermelha sobre o acinzentado do muro e passa a mão na testa úmida. O preto recolhe do chão suas coisas em um ritual religiosamente silencioso. O preto firma os passos tentando se lembrar do caminho.

Saiba, se você não é preto: eu sou. Cuidado, se você não for preto: eu sou. Atenção, se você não for preto: eu sou.



Cizenando Cipriano - @cizenando_ - é colaborador do Na Ponta dos Lápis; jornalista da área esportiva, com passagens por MB Press (UOL e IG), LANCE! e Rádio Nacional. Você pode encontrar mais textos do autor, com algumas pitadas humorísticas, no blog Pau Na Mesa.


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Usos possíveis do Clube de Autores

em 05/04/2010.
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Faz algum tempo, fiz uma postagem falando da possibilidade de publicar seu livro de graça com o Clube de Autores. Como era de se esperar, uma série de questões em relação à validade ou não da ferramenta disponiblizada pelo site foi levantada. É realmente necessário se pensar muito bem no que se quer fazer antes de publicar um livro por lá, para se ter o sucesso desejado. Por isso, hoje faço uma postagem com algumas idéias.

Em primeiro lugar, não tenha em mente que um livro colocado no Clube de Autores irá lhe tornar um autor famoso. Se isso já é extremamente complicado de se fazer quando se está em uma grande editora, imagine sozinho? É claro que pode acontecer... pode... mas definitivamente não conte com isso. Ainda assim é possível alcançar algum sucesso com a venda de seu livro para pessoas desconhecidas. Entretanto, é necessário primeiro conquistar alguma credibilidade. Como falei na postagem anterior sobre o clube, qualquer um pode colocar o livro que quiser por lá. Deste modo, é muito difícil que o leitor tenha a convicção de que determinado livro é de fato bom e de que é válido comprá-lo. Nesta configuração, entram os blogs e também os formadores de opinião.

Ter seu próprio espaço na internet para divulgar seus textos é crucial,não só por alcançar novos leitores como para ter confiança de que você pode ser um escritor. É através da prática e do contato com outros escritores e leitores que você construirá sua credibilidade, tanto para você mesmo como para seus visitantes. De mesmo modo, funciona o envio de seu livro a críticos com alguma expressão no mundo literário ou então na blogosfera. Um opinião favorável de quem entende do assunto certamente tornará mais fácil a venda de seu livro.

Enfim, após dissertar um pouco sobre o assunto divulgação, coloco aqui três maneiras diferentes que vejo de um bom uso da ferramenta que nos é fornecida pelo Clube de Autores.

1. Para livros de poesia. Como todos sabem, o mercado para os poetas é escasso, isso se não for inexistente. Neste cenário, publicar pelo clube pode ser muito favorável; mas sempre tendo a consciência de que isso não o fará um escritor nacionalmente reconhecido. Ainda assim, com a publicação, seus amigos poderão ter acesso aos seus livros de poemas (o que já basta para muitos poetas) e você ainda terá a possibilidade de conquistar alguns novos leitores e, aos poucos, construir seu nome como escritor. Basta uma blog realmente bem feito, bem pensado, ao qual você se dedique muito, para que uma ou outra pessoa entre em contato com seu trabalho, se interesse e acabe comprando um exemplar. Vai ser assim, devagar e com muito trabalho, mas assim é a vida de quem quer ser escritor no Brasil (ver esta postagem).

2. Para livros de não-ficção. Creio que aqui está uma das melhores utilidades para o Clube de Autores, embora não envolva de fato a criação literária. Uma rápida olhada nos livros mais vendidos irá revelar que a maioria deles é de obras de não-ficção. Um livro sobre um tema de interesse coletivo, bem estruturado, terá muito mais facilidade de vendas. Com poucas indicações e uma sinopse bem feita, já é possível conquistar alguns leitores; as pessoas estão dispostas a comprar livros de não-ficção para aprender. É aqui onde vejo a maior probabilidade de haver a vendagem de um grande número de livros, o que poderia levar a um interesse por parte de uma editora comercial.

3. Para livros de ficção (romances). Este é uso mais complicado de todos. É preciso ter muito cuidado. Um romance é algo que demoramos a escrever, dá trabalho, consome muito do escritor; por isso sempre se tem uma relação mais íntima com essas obras mais longas. Mas é preciso ser realista; é essencial que se tenha certeza de que o livro produzido é de real qualidade, de que tem a capacidade de verdadeiramente cativar os leitores. Já vi muitos romances que sequer bem escritos estavam... e mesmo assim os autores reclamavam que ninguém os dava atenção. Enfim, ao se comercializar uma obra ficcional no Clube de Autores, é necessário saber que será apenas mais um passo no árduo caminho que tem o escritor. Mesmo com uma grande promoção via internet será difícil vender muito (o mais provável é que você não acumule os 100 reais necessários para que você receba os direitos autorais), mas aos poucos você irá criar laços com novos leitores e começar a montar sua credibilidade como escritor. Imagine que você consiga vender 30 livros, para 30 pessoas desconhecidas... isso já é um passo enorme, pois se elas gostarem do livro, o boca a boca irá começar.

Como sempre digo, o Clube de Autores é mais uma ferramenta da qual escritores podem fazer uso para alcançar mais leitores e estruturarem o seu nome. O pensamento que devemos ter quando a utilizamos é de que ela não substitui - e nem poderia - uma publicação tradicional por uma editora; mas pode nos trazer credibilidade, pode testar a recepção de nosso livro (seu poder de vendagem e etc...) e até mesmo ajudar a chamar a atenção de editoras comerciais. Além disso, há outras utilizações possíveis, como a citada para livros de poesia (caso o autor queira apenas deixá-los disponíveis a conhecidos).

Por hora, acho que já falei de muita coisa neste artigo, mas no futuro devo falar mais da ferramenta, até mesmo entrevistando gente que a tem utilizado e alcançado algum sucesso. Espero que as ponderações ajudem vocês em alguma coisa!
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Um conto de Drummond e um poema de Bandeira

em 02/04/2010.
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Estamos no feriado, temos mais tempo para ler, então coloco duas obras de dois dos grandes escritores brasileiros. O conto Bom Tempo, Sem Tempo de Carlos Drummond de Andrade (do livro Contos Plausíveis - um dos melhores livros do gênero que já li, aconselho a compra) e o poema A estrela, bem musical, de Manuel Bandeira (do livro Antologia Poética). Normalmente eu costuma dissertar um pouco sobre as obras que coloco aqui, mas hoje deixo-as mais para apreciação mesmo, para tornar a sexta mais literária.

Também aproveito para avisar que para domingo prepararei um outro artigo falando sobre o Clube de Autores, tentando demonstrar algumas utilizações eficientes da ferramenta. E estou preparando mais uma entrevista com um autor, não para apresentar sua obra, mas para falar um pouco sobre as dificuldades de divulgação e como fazê-la bem, já que ele obteve sucesso. Quem sabe, também não faço um outro conto e coloco no ar semana que vem, o último ficou tão bom que fiquei com vontade. Enfim, espero que a leitura dos textos selecionados lhes seja agradável!


Bom tempo, sem tempo

Não chovia, meses a fio. Ou chovia demais. As plantas secavam, os animais morriam, os moradores emigravam. As plantas submergiam, os animais morriam, as pessoas não tinham tempo de emigrar. Assim era a vida naquele lugar privilegiado, onde medrava tudo para todos, havendo bom tempo. Mas não havia bom tempo. Havia o exagero dos elementos.

O mágico chegou para reorganizar a vida, e mandou que as chuvas cessassem. Cessaram. Ordenou que a seca findasse. Findou. Sobreveio um tempo temperado, ameno, bom para tudo, e os moradores estranharam. Assim também não é possível, diziam. Podemos fazer tantas coisas boas ao mesmo tempo que não há tempo para fazê-las. Antes, quando estiava ou chovia um pouco - isto é, no intervalo das grandes enchentes ou das grandes secas -, a gente aproveitava para fazer alguma coisa. Se o sol abrasava, podíamos fugir. Se a água vinha em catadupa, os que escapavam tinham o que contar. Quem voltasse do êxodo vinha de alma nova. Quem sobrevivesse à enchente era proclamado herói. Mas agora, tudo normal, como aproveitar tantas condições estupendas, se não temos capacidade para isto?

Queriam linchar o mágico, mas ele fugiu a toda.


A estrela

Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão frita!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.

Nota: vocês podem conferir mais sobre o livro Contos Plausíveis em Contos de Carlos Drummond de Andrade. Também há uma rápida explicação sobre algumas características de Bandeira na postagem Poemas de Manuel Bandeira.
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