Essa é uma questão bem complexa. Decidi tocar neste assunto estimulado por uma das leitoras do blog (@travessadavida no twitter). Já li em muitos lugares pessoas reclamando do preço dos livros no Brasil e até mesmo os colocando como um dos principais motivos para que o brasileiros não leiam. Por isso, coloquei-me a pergunta: os livros no país são muito caros? A resposta é não. Mas, como disse, é uma questão muito complicada.
Se formos comparar os preços dos livros brasileiros com o de outros países veremos que eles não são tão caros como as pessoas pensam. Na realidade, mesmo comparando com os Estados Unidos, onde o mercado editorial é muito movimentado, as publicações daqui não ficam atrás: têm um preço muito parecido e, às vezes, até menor do que as de lá. Agora, caso olhemos para os best-sellers lá de fora, poderemos notar que o preço cai consideravelmente, o que se dá pelas altas tiragens. Ainda assim, a diferença não é tanta.
A questão, porém, não se resume a isso. Apesar das publicações daqui não serem tão caras e competirem, em termos de preço, com a de qualquer país lá fora, a população brasileira não tem tanto dinheiro para gastar em livros, por isso eles parecem tão caros. Enquanto aqui grande parte da população vive com um ou poucos salários mínimos, no Estados Unidos e nas potências européias mesmo o trabalhador comum tem uma qualidade de vida mais alta e pode se dar ao luxo de comprar um livro. Aqui, muita gente, mas muita gente mesmo, precisa contar o dinheiro para conseguir pagar as contas mais básicas e comprar comida.
Além disso, embora os livros brasileiros não sejam caros, eles poderiam ser ainda mais baratos. Isso não acontece por uma série de motivos - e aqui entram algumas ponderações. A primeira é que, realmente, um mercado consumidor de livros pequeno tende a inflacionar o preço. Afinal, a editora precisa, com poucos livros vendidos, pagar todos os custos de produção e ainda conseguir um lucro que sustente outros livros que venham a encalhar. Logo, se a população comprasse mais livros, os preços certamente baixariam. Agora, como isso seria possível se boa parte dos brasileiros realmente não pode ser dar ao luxo de comprá-los? É uma questão complicada.
Ainda assim, respondendo a questão que acabo de colocar, o potencial do mercado de leitores brasileiro poderia ser muito maior do que é hoje. É verdade que uma parcela da população não pode mesmo se dar ao luxo de gastar seu dinheiro com livros, mas também é verdade que há um grande número de pessoas que poderia fazê-lo. Acontece que, no Brasil, a leitura é vista, de uma maneira geral, como última opção de entretenimento, e o livro como o primeiro produto de luxo a ser cortado na hora de economizar. As pessoas preferem gastar o dinheiro em uma boate ou em uma ida ao cinema em vez de comprar um livro, mesmo que tudo custe a mesma coisa e que o filme ou a boate durem apenas umas poucas horas. Isso significa dizer que uma simples mudança de mentalidade poderia expandir muito os horizontes do mercado literário brasileiro.
Um segundo problema é a falta de livrarias no país (algo que, mal ou bem, também está relacionado ao baixo público leitor). Aqui, temos uma quantidade enorme - mas enorme mesmo - de editoras para um número extremamente reduzido de livrarias. Este gargalo acaba por dificultar ainda mais o processo de distribuição. As editoras são obrigadas a gastar um bom dinheiro com distribuidores e a ceder quantias muito altas às livrarias para conseguir uma boa exposição. Para terem uma idéia, a não ser que você seja dono de uma editora gigante (como a Record), você precisará ceder cerca de 40%, 50% do valor de capa para a livraria. Além disso, precisará aceitar vender por consignação, sendo obrigado a receber de volta os exemplares não vendidos (e lá se vai mais uma quantia alta para os distribuidores). Qual a consequência disso tudo? As editoras vão lá e aumentam o preço de vendagem do livro para que consigam um lucro razoável.
Enfim, acho que já falei o suficiente em relação ao assunto. Claro que há mais pontos a serem tocados, mas acho que isso resume bem esta questão dos preços. Como eu disse antes, apesar dos problemas que citei encarecerem um pouco a produção, no Brasil os livros continuam não sendo tão caros como as pessoas falam. Poderiam ser mais baratos? Sim, poderiam. A população daqui não tem tanto dinheiro como lá fora? Sim, isso também. Mas esta questão do preço, para mim, é de longe um dos menores problemas. Na minha opinião, a mentalidade da população em relação aos livros - o fato de os perceberem como artigos de luxo facilmente descartáveis; são a primeira coisa a ser cortada nas horas de aperto - é o principal problema a ser resolvido.
Para isso, seria necessário que houvesse uma crítica literária mais forte e também um apoio maior por parte da mídia e do governo, mesmo que isso desse algum prejuízo de início, já que o público leitor ainda é pequeno. Com o tempo, a crítica cresceria, as discussões literárias também; o mercado, então, ficaria mais aquecido e os outros problemas aqui citados seriam solucionados mais facilmente. É claro que é um trabalho difícil, ninguém aqui vai dizer que não, mas é algo que tem que ser realizado.
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Se formos comparar os preços dos livros brasileiros com o de outros países veremos que eles não são tão caros como as pessoas pensam. Na realidade, mesmo comparando com os Estados Unidos, onde o mercado editorial é muito movimentado, as publicações daqui não ficam atrás: têm um preço muito parecido e, às vezes, até menor do que as de lá. Agora, caso olhemos para os best-sellers lá de fora, poderemos notar que o preço cai consideravelmente, o que se dá pelas altas tiragens. Ainda assim, a diferença não é tanta.
A questão, porém, não se resume a isso. Apesar das publicações daqui não serem tão caras e competirem, em termos de preço, com a de qualquer país lá fora, a população brasileira não tem tanto dinheiro para gastar em livros, por isso eles parecem tão caros. Enquanto aqui grande parte da população vive com um ou poucos salários mínimos, no Estados Unidos e nas potências européias mesmo o trabalhador comum tem uma qualidade de vida mais alta e pode se dar ao luxo de comprar um livro. Aqui, muita gente, mas muita gente mesmo, precisa contar o dinheiro para conseguir pagar as contas mais básicas e comprar comida.
Além disso, embora os livros brasileiros não sejam caros, eles poderiam ser ainda mais baratos. Isso não acontece por uma série de motivos - e aqui entram algumas ponderações. A primeira é que, realmente, um mercado consumidor de livros pequeno tende a inflacionar o preço. Afinal, a editora precisa, com poucos livros vendidos, pagar todos os custos de produção e ainda conseguir um lucro que sustente outros livros que venham a encalhar. Logo, se a população comprasse mais livros, os preços certamente baixariam. Agora, como isso seria possível se boa parte dos brasileiros realmente não pode ser dar ao luxo de comprá-los? É uma questão complicada.
Ainda assim, respondendo a questão que acabo de colocar, o potencial do mercado de leitores brasileiro poderia ser muito maior do que é hoje. É verdade que uma parcela da população não pode mesmo se dar ao luxo de gastar seu dinheiro com livros, mas também é verdade que há um grande número de pessoas que poderia fazê-lo. Acontece que, no Brasil, a leitura é vista, de uma maneira geral, como última opção de entretenimento, e o livro como o primeiro produto de luxo a ser cortado na hora de economizar. As pessoas preferem gastar o dinheiro em uma boate ou em uma ida ao cinema em vez de comprar um livro, mesmo que tudo custe a mesma coisa e que o filme ou a boate durem apenas umas poucas horas. Isso significa dizer que uma simples mudança de mentalidade poderia expandir muito os horizontes do mercado literário brasileiro.
Um segundo problema é a falta de livrarias no país (algo que, mal ou bem, também está relacionado ao baixo público leitor). Aqui, temos uma quantidade enorme - mas enorme mesmo - de editoras para um número extremamente reduzido de livrarias. Este gargalo acaba por dificultar ainda mais o processo de distribuição. As editoras são obrigadas a gastar um bom dinheiro com distribuidores e a ceder quantias muito altas às livrarias para conseguir uma boa exposição. Para terem uma idéia, a não ser que você seja dono de uma editora gigante (como a Record), você precisará ceder cerca de 40%, 50% do valor de capa para a livraria. Além disso, precisará aceitar vender por consignação, sendo obrigado a receber de volta os exemplares não vendidos (e lá se vai mais uma quantia alta para os distribuidores). Qual a consequência disso tudo? As editoras vão lá e aumentam o preço de vendagem do livro para que consigam um lucro razoável.
Enfim, acho que já falei o suficiente em relação ao assunto. Claro que há mais pontos a serem tocados, mas acho que isso resume bem esta questão dos preços. Como eu disse antes, apesar dos problemas que citei encarecerem um pouco a produção, no Brasil os livros continuam não sendo tão caros como as pessoas falam. Poderiam ser mais baratos? Sim, poderiam. A população daqui não tem tanto dinheiro como lá fora? Sim, isso também. Mas esta questão do preço, para mim, é de longe um dos menores problemas. Na minha opinião, a mentalidade da população em relação aos livros - o fato de os perceberem como artigos de luxo facilmente descartáveis; são a primeira coisa a ser cortada nas horas de aperto - é o principal problema a ser resolvido.
Para isso, seria necessário que houvesse uma crítica literária mais forte e também um apoio maior por parte da mídia e do governo, mesmo que isso desse algum prejuízo de início, já que o público leitor ainda é pequeno. Com o tempo, a crítica cresceria, as discussões literárias também; o mercado, então, ficaria mais aquecido e os outros problemas aqui citados seriam solucionados mais facilmente. É claro que é um trabalho difícil, ninguém aqui vai dizer que não, mas é algo que tem que ser realizado.























