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Donatelo, o escritor: A inspiração

em 30/11/2010.
| Comentários: (5)
Segue mais um conto da série do Donatelo. Eu gosto do personagem, sei que algumas pessoas gostam dos pequenos contos, enfim, decidi postar. Este eu escrevi quando estava no avião indo para Paris. Eram mais de 10h de viagem, então não tinha como não produzir alguma coisa - vale lembrar que eu não consigo dormir em viagens; ou seja, eram 12h sem nada para fazer mesmo, hehe. Enfim, para quem nunca leu um conto da série, vale checar ela inteira.


Donatelo: o escritor - A inspiração

Donatelo sempre dizia: “um livro de cada vez”. Se lia, não escrevia. Se escrevia, não lia. E sempre um livro, apenas um, até o final. Não há vida sem um pouco de metodologia, ele afirmava. Na realidade, sentia até orgulho. Extraía o máximo de cada livro, de cada projeto, antes de dá-lo por finito. Afinal, ele pensava, a paciência é um grande dom e precisa ser praticada! É como um músculo que precisamos aprender a cultivar. Se a deixarmos de lado, ela atrofia – e sem ela, a criação não passa de rabiscos apressados e aleatórios no papel; não há propósito, não há essência... e não basta apenas a inspiração.

Donatelo, então, parou; largou o caderno em que rascunhava e olhou adiante, para sua velha poltrona verde. Ah... a inspiração! Seria ela uma musa? Ou talvez apenas um rompante de atividade cerebral? Quem sabe um espasmo químico? Será que isso existia?

Mas que graça teria a inspiração se fosse algo tão prático? Quantos poetas não teriam destilado belas palavras em vão? Não podia se conformar com uma definição tão dantesca; ou melhor, científica, para ser mais preciso.

Repentinamente, levantou-se, destemido. Andou até o balcão da sala, colocou uma bela valsa para tocar em sua velha vitrola e se pôs a dançar, em transe, apenas ele e a inspiração.
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Sobre o Jabuti, Portugal Telecom e etc... (Vamos discutir!)

em 27/11/2010.
| Comentários: (15)
Já faz um tempo que queria fazer uma postagem sobre este assunto, que relaciona as últimas confusões envolvendo grandes prêmios literários brasileiros. Infelizmente, por estar viajando (estou em Paris hoje - e acho que farei umas postagens sobre a viagem por aqui, não sei se interessa aos leitores, vou pensar sobre), talvez a postagem não tenha a profundidade que deveria, afinal, é um assunto sério e importante. Para isso, conto muito com os leitores do blog. Acho que vocês podem acrescentar muito à discussão a respeito deste assunto através dos comentários (mais uma vez, pode ser que eu demore um pouco a aprová-los em função da viagem).

A idéia para o post surgiu de uma conversa com o amigo @cizenando_, colaborador eventual do blog, e também de um comentário do Marcos Nunes sobre a vitória do Chico Buarque no Jabuti e, se não me falha a memória, no Portugal Telecom. Enfim, a discussão com o Cizenando e com o Marcos tocaram neste mesmo assunto, dos prêmios literários.

Para quem não sabe direito da situação, o Chico venceu, por exemplo, a categoria Livro do Ano no último Jabuti, embora o seu livro não tenha sequer ganho a categoria da qual realmente participava: ficção. Diante dessa questão, já se colocou no ar um pouco de dúvida. Afinal, as sucessivas vitórias (acho que já é o terceiro Jabuti do Chico) se dão apenas pela qualidade literária ou também pela presença midiática do cantor? Eu, particularmente, prefiro não me posicionar efetivamente sobre o assunto por não ter lido os livros do Chico.

Por isso, trago a vocês esta discussão. E acrescento ainda algumas informações interessantes. A Editora Record, após, mais uma vez, ter visto um livro seu vencedor de uma categoria (neste ano Ficção), perder o título de Livro do Ano para uma obra que foi derrotada em uma categoria que a editora havia ganho (o livro do Chico não venceu a categoria ficção, mas foi eleito livro do ano), declarou que não pretende mais inscrever obras suas no próximo Jabuti, o que pode afetar sim a credibilidade da premiação, até por toda a discussão que esta tomada de posição da Record vem gerando.

Enfim, gostaria de ouvir um pouco a opinião de vocês sobre estes assuntos. O que me dizem? (desculpem se o texto não estiver tão claro ou com alguns erros, mas queria trazer esta discussão ao público e estava numa correria intensa – queria ter buscado uns links de matérias que li sobre o assunto e colocá-los aqui, mas ficou meio difícil).
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2

Poema: O outro

em 23/11/2010.
| Comentários: (2)
Faz algum tempo que não posto um poema meu por aqui. Nas últimas semanas tenho passado por uma correria intensa, então fica bem difícil de ter muito tempo para criação; a poesia, com isso, enfraquece por um tempo, mas uma hora ela volta - e a gente escreve! Enfim, espero que gostem. É um poema bem curto, porém, para mim, tem um grande significado. Gostaria muito de saber a opinião do pessoal que acompanha o blog!


O outro

O tempo é marcado pelas pessoas,
pelas situações de interação humana.

Sem o outro, a vida se torna plana;
não tem marco,
não tem mudança,
não tem medida.

O tempo sem o outro não tem vida.
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4

Poemas de Thiago Cervan

em 16/11/2010.
| Comentários: (4)
Hoje trago alguns poemas de um autor que entrou em contato comigo via e-mail. Achei o estilo bem interessante. Quem acompanha aqui minhas postagens sobre Drummond sabe que eu aprecio muito textos que, mesmo curtos, consigam trazer uma certa dose de ironia ou de bom-humor - e, em alguns casos, também de reflexão. Achei que esse foi o caso com os poemas do Thiago Cervan (@thiagocervan), então resolvi colocar alguns aqui. Um, inclusive, não foi colocado no e-mail; trata-se da postagem mais recente do blog do autor (confiram o blog aqui). Lá vocês poderão encontrar vários poemas bem curtos, bem focados na brincadeira com palavras e no bom-humor, interessante checar.


Depois de Quintana

às vezes acho
que sou um poeta feminino
outras, que sou poeta masculino
hoje tenho certeza
de que sou poeta pequenino.


Tabuleiro

reis e rainhas administram tudo
do alto de suas torres

bispos engordam suas contas
doutrinando seus rebanhos de cavalos

em meio a isso
peões tomam xeque especial


Quente

mormaço
derrete
o aço

passo
molhado
no paço

procuro água
caço

no sol ardente
asso


001

O esgoto a céu aberto
fede bem mais
de perto


Repito

se tudo já foi escrito

eu repito
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6

Donatelo: o escritor - A primeira pessoa...

em 11/11/2010.
| Comentários: (6)
Segue mais um conto da série sobre o Donatelo. É um projeto antigo que tenho no blog e que acho bem divertido. Trata-se de um personagem bem ligado à escrita, com uma ou outra mania estranha. Aconselho a quem ainda não leu nada sobre a dar uma olhada primeiro nos contos anteriores. Basta clicar aqui.


A primeira pessoa

Após derramar a última gota de café na pia, Donatelo logo se colocou diante da mesa de seu escritório. Ali, começava a melhor parte do dia, um momento apenas seu, um diálogo entre ele e as folhas de papel. Era até engraçado pensar na maneira como aquelas folhas em branco eram capazes de o fazer se expressar, de o fazer escrever sobre coisas que jamais comentaria com outras pessoas. Não havia, de fato, melhor psicanalista. Aliás, nem gostava muito de médicos.

Naquele dia, sentava-se para rascunhar o seu primeiro conto em primeira pessoa. Sentia-se até um pouco nervoso; afinal, como era peculiar aquele tipo de narração! Por um momento, chegou a recuar, puxou a lapiseira, deixou escapar um olhar oblícuo em direção às folhas em branco na escrivaninha. Era estranho. Como poderia ele escrever como outra pessoa? Sentia que estaria a contar uma mentira, mas também não lhe parecia confortável narrar algo sobre si. Como poderia fingir ser outro?

Ainda intrigado, levantou-se e se sentou em sua velha poltrona verde. Talvez os versos de Pessoa estivessem corretos - e como não estariam? -, ele pensou; talvez não restasse verdade na escrita e nem na poesia. Também era possível que estivesse exagerando, e ninguém mais do que ele sabia bem disso; era um homem muito meticuloso e pensativo.

Após algum tempo de ponderação, começou a escrever em terceira pessoa. Quando terminasse a história e seu personagem estivesse finalmente criado, poderia narrar como ele, pois só então o teria verdadeiramente conhecido.
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Dica de livro: A chave de casa, por Tatiana Salem Levy

em 08/11/2010.
| Comentários: (11)
Escrevo hoje sobre uma autora nova, que apareceu faz poucos anos no cenário literário nacional e que já conquistou o seu espaço entre os leitores e a crítica. Na minha última postagem - Respeitando a inteligência dos leitores - cheguei a falar um pouco sobre ela no parágrafo final. Trata-se da Tatiana Salem Levy; no caso, mais especificamente, trata-se de seu livro de estréia pela Editora Record: A chave de casa.

A obra é realmente muito interessante, sendo, inclusive, a tese de doutorado da autora, algo que é incomum na academia brasileira. Aqui, raramente aceita-se uma obra ficcional como tese acadêmica. Por este motivo, já deve se imaginar que haja um forte caráter teórico por trás da obra - e, naturalmente, há. A chave de casa retrata a história de uma neta de judeus e filhas de comunistas no Brasil (o que tem uma relação com a própria autora, há uma certa mistura entre realidade e ficção) que recebe a chave da casa de seu avô na Esmirna (Turquia). O livro se desenvolve, já desde o seu início, de maneira fragmentada, numa tentativa de se trabalhar a questão da memória. Por este motivo, em alguns momentos nos deparamos com a narradora em um período anterior de sua vida, conversando com sua mãe; em outros momentos é narrada a história de seu avó, de seus pais, a sua própria relação com um namorado; enfim, a história se movimenta, passando por diversos personagens e por diversos períodos diferentes de tempo de uma maneira não cronológica, mas que vai, através dos vários fragmentos de memória, fazendo-nos compreender a história de vida de cada personagem, a maneira como a narradora chegou onde estava.

Como já devem ter notado, o livro não é de modo algum simples. A linguagem utilizada na narração é muito bem trabalhada, a trama se desenrola de maneira pouco comum para a maioria dos livros, mas constrói perfeitamente a idéia da autora de simular fragmentos de memória e tentar contar uma história mais ou menos da mesma maneira como funcionaria o pensamento humano. Deste modo, a todos aqueles que gostam de uma literatura que realmente explora os sentimentos e pensamentos humanos, uma história capaz de não só mostrar uma outra cultura (quando acontece a viagem para a Turquia) como também nos fazer refletir sobre a condição humana, fica a indicação desta obra; ela realmente deve ser lida. Inclusive, gostaria de acrescentar que estou muito ansioso para ler novos livros da autora Tatiana Salem Levy. Dentre os escritorese brasileiros, ela, na minha opinião, já merece algum destaque.
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Respeitando a inteligência dos leitores

em 04/11/2010.
| Comentários: (7)
Hoje decidi escrever um pouco sobre uma questão que para mim é extremamente importante. Novamente, abre-se aqui uma nova discussão sobre o que seria ou não uma produção literária de qualidade. Como na última postagem sobre o assunto (Livros "bons" e livros "ruins") houve uma participação muito legal e intensa dos leitores, decidi expor uma outra idéia que tenho; agora a respeito da forma textual mesmo.

Nos comentários de uma postagem a respeito dos conectores, disse que faria um texto aprofundando mais o assunto. Considero que este seja o aprofundamento. Quero defender aqui a idéia de que os leitores não são burros, de que a massa não é burra e ignorante como a maioria das pessoas tende a julgar. Basicamente, é este tipo de preconceito que justifica a publicação, muitas vezes com grande marketing, de livros com qualidade textual mediana, exatamente porque se espera que apenas este tipo de obra agrade as grandes massas. O mesmo vale para os jornais. Quando trabalhava como repórter, constantemente precisava alterar o texto para que os períodos ficassem curtos, "assim qualquer um poderia compreender". É claro que produzir um texto altamente complexo para um jornal de alta circulação é um erro, mas há certamente um exagero na facilidade com que se quer que se escreva.

Isto tudo acontece, pois se tem uma idéia - e isso vale para o mundo todo - de que as massas são burras. Eu, por outro lado, gostaria de defender o contrário. As "massas" podem sim ter até uma tendência a gostar daqueles best-sellers sem muita qualidade literária; agora, temos certeza de que um texto de qualidade maior não poderia também ter boa aceitação? De que ele não poderia ser bem recebido e provocar reflexão em toda essa "massa" de leitores? Eu acredito que sim. E acredito que um dos maiores motivos para os livros de qualidade literária mais elevada não serem assim tão lidos é o fato de que eles não recebem um apoio financeiro para tal. Vemos diariamente um monte de cartazes e propagandas de best-sellers de qualidade duvidosa por aí, mas quantas vezes vemos o mesmo ser feito com os livros de grande qualidade literária? Será que se houvesse o mesmo investimento em altas tiragens e propaganda em cima de livros de maior qualidade eles também não teriam uma recepção melhor? E, como consequência, será que, aos poucos, não poderiam formar leitores mais engajados?

Enfim, eu acredito que sim. E, por este motivo, não utilizo esta postagem para falar de maneira macro sobre o assunto, apenas focando nos investimentos e etc... Quero também falar sobre a narrativa. O autor também pode fazer parte desse movimento, ter em sua mente o ideal de respeitar o leitor, de respeitar a inteligência do leitor. Por isso mesmo que digo para tomarmos cuidado com os "conectores bengala" sobre os quais falei numa postagem anterior. Eles não só deixam o texto mais feio, como são uma afronta à inteligência dos leitores. Boa é a narrativa que dá um ou outro salto de entendimento entre as frases, que utiliza conectores escondidos, que são naturalmente - e até mesmo inconscientemente - captados pelo leitor; isso porque o leitor também pensa, e deve ser levado a pensar. Portanto, não precisamos entregar tudo de bandeja, escrever didaticamente. É preciso, claro, produzir uma narrativa bem encaixada. Mas esta narrativa geralmente só será boa se este encaixe ocorrer de maneira inteligente, com conexões entre uma frase e outra que não sejam tão visíveis, mas que ocorram de forma natural, sempre estimulando o leitor a pensar.

Escrevo a postagem para defender a idéia de que a narrativa, mesmo em livros de entretenimento e best-seller, deve ser instigante, deve sempre partir da premissa de que a tão desvalorizada "massa" não é acéfala, mas sim inteligente. Naturalmente, nem todos se interessarão por um livro de narrativa mais intrincada. De qualquer maneira, há aqueles que gostarão e se tornarão leitores melhores. E mesmo um texto mais complexo pode sim ter uma recepção muito boa pela maior parte da população. Cito sempre como exemplo o José Saramago, que para mim tem uma escrita espetacular e, ainda assim, é um dos autores que mais vendem pelo mundo. Aqui no Brasil, inclusive, temos um outro ótimo exemplo: a autora Tatiana Salem Levy. O seu livro de estréia no país, publicado pela Record, vendeu mais de 30 mil exemplares - e falamos aqui de um livro de alta qualidade literária. Certamente, a aparição da autora na FLIP ajudou muito a vender mais exemplares; entretanto, ela somente chegou lá por ter conquistado prêmios com o seu livro.
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Cap. 9 - O Segredo das Montanhas (Parte II)

em 01/11/2010.
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Os três caminharam pelo estranho túnel de terra por algum tempo. James continuava levemente incomodado. Tinha se certificado de que a caverna não tinha uma saída quando ali fora jogado; mas, então, como explicar aquele túnel? Estava confuso. Também lhe incomodava o fato de que Lanir conhecesse aquele ser medonho e esquisito, que, de algum modo, demonstrava conhecer as montanhas com uma perícia sobrenatural. Os dois pareciam ter alguma espécie de rixa, algum motivo que os levava a brigar.

O caminho era convenientemente reto, sem desvios ou relevos, quase como que construído para levar diretamente a algum lugar. James, desconfiado e curioso como sempre, sentia-se quase sufocado pelas sucessivas perguntas que tomavam conta de sua cabeça. O que era aquele ser? Como ele e Lanir se conheciam? Onde eles estavam? Enfim, como o maldito túnel tinha aparecido? Mas, por precaução, preferiu não perguntar. Era novo, ainda pouco corajoso; sentia mais medo do que curiosidade e, por isso, optou por se manter calado.

- Cheghamosh... é aquí que discansamos hoche, voxcês prexcisam dormir. – afirmou a criatura, assim que os três entraram em uma espécie de salão subterrâneo, não muito extenso, mas capaz de abrigar com algum conforto o pequeno grupo. No centro, havia uma mesa de pedra com cinco pequenos bancos.

- Ele tem razão. – disse Lanir enquanto se sentava num dos cantos do salão, com as costas apoiadas na parede. – É melhor dormirmos mesmo por aqui. Procure um canto para você, James. Eu ainda tenho um pouco de água e alguns suprimentos comigo, pegue o que quiser, mas não em muita quantidade, precisaremos economizar o que restou.

O garoto se sentou ao lado de Lanir, preferia se manter próximo ao mensageiro; ainda não confiava naquela estranha criatura. Timidamente, pegou um pouco de pão e tomou alguns goles de água do cantil que ele mesmo carregava.

- Tem certeza de que estamos seguros? As criaturas podem nos seguir até aqui.

Lanir o olhou lateralmente, já com a cabeça apoiada na parede de pedra, em uma posição bem relaxada, como a de quem se prepara para dormir.

- Como? Eles não têm como chegar até aqui, o túnel foi fechado.

James franziu a testa e virou o rosto automaticamente para fitar o caminho por onde tinham chegado. Para sua surpresa, o salão formava um círculo perfeito, sem uma caverna sequer por onde alguém pudesse entrar – ou sair, era o que ele pensava, com uma certa aceleração nos batimentos cardíacos que lhe causava uma sensação muito estranha, uma agonia que começava no estômago e terminava em um nó na garganta.

- Mas... mas... como? Como? O qu... O que é-é vo-cê? – James gaguejou enquanto apontava incrédulo para a criatura, que agora estava sentada em um dos cinco bancos do salão e o fitava com curiosidade, mais uma vez se esforçando para deixar todos os seus dentes amostra; era como se tentasse exibir um sorriso simpático, ou ao menos assim parecia.

- Irgh ri! Menino curiosso. Só pedi pra montanhia um caminho e a montanhia nos deu.

James balançava a cabeça negativamente.

- É bem difícil de acreditar que é só isso. Me diz: quem você é realmente?

A criatura alargou os lábios o máximo que pôde, mostrando ainda mais dentes; parecia rir da situação, embora sua expressão pudesse também causar certo temor.

- Eu qsou Lhrianhorviktiziz.

- O quê? – o garoto perguntou, sem compreender quase nada do que a criatura falara.

Lanir deixou escapar um riso alto e deu um tapa de leve na perna de James.

- O nome dele é Lianor Vikti, o rei do Povo das Fadas. É uma pena que ele não consiga falar nem o próprio nome direito. – o mensageiro gargalhou enquanto a criatura lhe lançava um olhar de irritação.

- Rei do Povo das Fadas? Fala do povo que vive depois do Grande Rio, por trás daquelas cadeias montanhosas?

- Maxxx é claro! – exclamou Lianor Vikti, ao dar um salto do banco em que estava para a mesa. James recuou, temendo que ele finalmente atacasse.

- Você não vai começar a cantarolar, não é mesmo? – perguntou Lanir, sem muitas esperanças, ao deixar escapar um longo suspiro de cansaço.

A criatura imediatamente começou a recitar alguns versos, em um ritmo épico de balada; a voz era belíssima, muito diferente do som agudo e incômodo utilizado nas conversas; a dicção era precisa e imponente, melhor do que a dos mais grandiosos bardos.


Nas colinas rochosas,
na Cidadela Encantada,
nasce Lianor Vikti,
o destino a sua jornada.

Ele é o Rei dos Reis,
que carrega um nome passado.
Transmitido de rei para rei,
a quem comanda o nosso Reinado.

Poderoso e destemido!
Temido, bem-aventurado!
É Lianor Vikti,
o rei do Povo Encantado.


Neste momento, ecos surgidos de toda a parte do salão pareciam invocar uma música pesada, quase como uma marcha de milhares de pessoas a recitar com a criatura. As paredes vibravam. A música crescia e diminuía conforme o ritmo dos versos, causando um efeito que provocou calafrios por todo o corpo de James.


Criado pelo destino.
Marcado logo menino.
Treinado desde nascido:
incrível menino-prodígio!

Marcado por Deuses Sagrados.
Tem origem desconhecida.
Seu poder é sacramentado
e seu controle é sobre a Vida!


De repente, um silêncio total tomou conta de todo o salão e tudo ficou na mais completa escuridão. Aos poucos, uma luz amarelada de tochas retornou, ainda fraca, permitindo que James vislumbrasse uma sombra tênue de pé sobre a mesa. A apresentação fora incrível – os sons pareciam ter se multiplicado – e a entonação dos cânticos era, ao mesmo tempo, perfeita e assustadora, quase como numa grande marcha de guerra.

- Exste sou eu.

O garoto continuou calado, ainda sem reação. Como esperar uma canção tão bela e assustadora de uma criatura que até ali mostrava grandes dificuldades em sequer falar? Pior ainda era pensar no que dizia a letra. Rei dos Reis... poderes sobre a vida... aquilo de fato era estranho... até um pouco absurdo.

- Isso tudo que contou... é verdade? – James sibilou, sem muita confiança.
Lanir, que escutara a música ainda recostado na parede de pedra, com uma expressão cansada, como a de quem já a ouvira por mais vezes do que gostaria, novamente deixou escapar um riso alto antes de tomar a palavra.

- Bem... não fique assustado. Em parte é verdade sim, mas não se deixe enganar por essa conversa de controlar a vida!

Lianor Vikti saltou para o banco por mais uma vez, sentou-se e cruzou as pernas. Depois, passou a mão no queixo enquanto analisava o garoto.

- Ele é mesmo o rei do Povo das Fadas. – continuou Lanir. – Na realidade, nem sei o que ele faz aqui, tão longe do reino deles. Deve estar aprontando algum golpe...

- O quê?! Max que absudo! Eu os ajudo e ganho isso em troca. – retrucou a criatura enquanto soltava um longo suspiro e sacudia os ombros.

James se levantou, um pouco ansioso; as perguntas que passavam por sua cabeça o tinham deixado muito agitado.

- E por que vocês brigam tanto?

Lanir e Lianor Vikti se olharam por um bom tempo, indicando que a história, definitivamente, deveria ser grande. Após alguns segundos, o mensageiro se levantou e começou a andar pelo salão enquanto falava.

- Bem... acho que você é muito novo para saber disso mesmo, é coisa antiga. Digamos que... uhm... o Povo das Fadas não é muito confiável. Desde tempos remotos que eles tentam acabar com todos os dragões. Não sei, devem pensar que poderão tomar o continente todo assim.

- Irgh ri! Issso é menthira. Nem thodos zomos assim.

- Nem todos? – perguntou James, ainda mais curioso do que anteriormente.

A criatura saltou do banco e começou a andar pela sala; as mãos novamente no queixo, como se pensasse. O silêncio completo imperava, uma vez que Lanir também ficara quieto, esperando por uma resposta de Lianor Vikti, que caminhava de um lado para o outro bem lentamente, em ritmo quase hipnótico.

- Bem, garoto, vou lhe contar – iniciou ele, novamente falando em tom de balada, com uma voz grave e cativante, que crescia conforme a melodia seguia seu desenvolvimento. – uma história sobre o meu povo.


A cada lua que passa,
depois de vinte oito anos,
nasce um ser novo,
na terra encantada das Fadas.

Alguns nascem com asas,
Outros mesclados com touros,
Alguns guardam tesouros,
Outros buscam jornadas.

Somos muitos que andam no mundo.
Somos tantos em número e raça.
Somos um povo intranqüilo e difuso.
Nos espalhamos feito a fumaça.


Lanir colocou as mãos nos ombros de Lianor Vikti, como indicando que ele parasse, e olhou para James:

– Compreende? Chamamos todos de O Povo das Fadas, mas são muitas raças, muitos seres diferentes. Acontece que todos nasceram no mesmo lugar, o Lago Azul. Todos são criaturas mágicas, alguns de raças muito antigas, mais antigas do que a própria cordilheira que hoje cerca aquela terra.

O garoto fitou o mensageiro e a criatura por algum tempo, ainda espantado com todas aquelas informações; a aventura tinha finalmente começado, ou pelo menos era isso que ele sentia.

- Mas... é... por que dizem ser só um povo, então?

- Eles sentem uma forte ligação por causa do lago, por causa de sua origem. Há uma língua que todos falam também, embora cada raça também possua uma língua própria. Mas, como deve imaginar, todo rei de um povo como este, tão fragmentado, enfrenta grandes problemas...

- Xsim, há aquheles que querem uma coixsa e outros outras. – interrompeu Lianor Vikti enquanto novamente saltava para um dos bancos do salão. – É terrível! Terrível!

Lanir se aproximou de James lentamente e se sentou novamente ao seu lado.

- Mas ainda não lhe contei o que há de pior nisso tudo...
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Cap. 9 - O Segredo das Montanhas (Parte I)

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 James acordou assustado com o barulho da porta de madeira sendo escancarada por Lanir. O mensageiro estava sério, parecia nervoso e até mesmo um pouco descontrolado. Sem emitir sequer uma palavra, pegou o garoto pelo braço e o levou para fora da pequena casa. James apenas o seguia, como que por instinto, ainda muito confuso para compreender o que estava acontecendo. A chuva, do lado de fora, caía de forma extremamente violenta, o mundo repousava numa completa escuridão. E o que ainda era pior, o ar frio e as pesadas gotas de água golpeavam a sua face, deixando-o cada vez mais confuso; uma série de trovões destroçava o silêncio sagrado das montanhas.

- O que está acontecendo? – perguntou James enquanto tentava proteger o rosto.

- Venha, venha, precisamos ter pressa! – disse Lanir, ao retirar sua capa de viagem para cobrir o garoto.

Os dois seguiram caminhando pelas montanhas, em direção a um enorme paredão rochoso, certamente o caminho mais complexo para se alcançar a Grande Torre de Vigia, de onde poderiam tentar vislumbrar o garoto que precisariam encontrar na Floresta Escura.

A chuva não parava, continuava a cair torrencialmente, ampliando ainda mais a escuridão. James, inclusive, ficara um pouco desconfiado. Lanir parecia ignorar quase que completamente o poder e a violência da tempestade, que, de uma maneira estranha, não impunha aos dois sequer a mais leve dificuldade de movimentação. Na realidade, ela parecia até servir de cortina para que eles se movimentassem despercebidos; uma cortina capaz de apagar rastros.

- O que aconteceu?! – perguntou James, ainda protegendo os olhos.

- Uma criatura estava caminhando pelas montanhas, ela me viu... precisamos enganá-las. Com essa chuva, elas não nos verão escalando o paredão rochoso.

O garoto encarou Lanir com alguma surpresa.

- Mas também, quem ousaria escalar um paredão rochoso em meio a uma tempestade como essa?

O mensageiro apertou o passo, como se mal tivesse escutado a pergunta.

- É nossa única saída. Mas fique tranqüilo, nós vamos conseguir – ele respondeu, de maneira rápida e direta, sempre olhando em todas as direções para se certificar de que não estavam sendo seguidos.

- E você consegue enxergar nesse escuro? – reiniciou James. - Eu não consigo ver nada.

Lanir, desta vez, não respondeu, apenas acelerou ainda mais o seu passo e fez um sinal para que o garoto ficasse em silêncio; era importante que eles passassem despercebidos.

Em pouco tempo, chegaram até o paredão rochoso. Os clarões provocados pelas constantes trovoadas permitiram que James vislumbrasse a extensão do que precisariam escalar; eram muitos metros, e as pedras pareciam extremamente escorregadias, definitivamente seria um caminho tortuoso.

- Espera aqui. Conforme eu consiga avançar, vou te puxar por esta corda, está certo? – indagou Lanir enquanto entregava ao garoto uma das pontas da corda que acabara de amarrar em sua cintura.

- Tudo bem, tudo bem. Mas por que estamos fugindo se você já matou a criatura?

- O quê?!

- Há alguns fragmentos de escama no seu bastão e um pouco de sangue na sua roupa, achou que eu não fosse notar?

James agora gritava para Lanir, que já conseguira escalar alguns metros do paredão rochoso. Além da distância e da forte tempestade, as sucessivas trovoadas impediam uma comunicação eficiente.

- É claro que eu sabia que você ia notar, como não notaria? – Às vezes as observações até o incomodavam, Lanir pensou. – Mas esqueceu que esses seres se comunicam?! Provavelmente muitos deles virão atrás de nós. Vamos! – O mensageiro deu um grito potente, tentando superar o barulho de uma nova trovoada. – Comece a subir!

James colocou a perna direita em uma pequena deformação da parede rochosa, deu um impulso forte e começou a escalada. Os dois seguiram se movimentando, de forma bem lenta por um bom tempo; não trocavam sequer uma palavra. Todo o foco e todos os músculos de seus corpos se voltavam para uma única atividade: escalar, por mais que a água atrapalhasse, por mais difícil que fosse enxergar, para James pelo menos.

Após algum tempo, aproximaram-se de uma grande caverna, situada mais ou menos no centro do paredão rochoso. Lanir desviou dela e continuou subindo. A chuva continuava forte; os trovões castigavam os olhos e os ouvidos. Subitamente, um estrondo, um barulho ainda mais alto do que o da tempestade. Do alto da montanha, pedras rolavam violentamente, multiplicando-se conforme acertavam o paredão rochoso em sua queda. James quase não as via. Não fosse a luz de mais um relâmpago, teria sido acertado em cheio.

- Tome cuidado! – gritou Lanir. – Segure firme na corda, irei lhe balançar até a caverna.

James apenas fez um sinal de afirmativo com a cabeça; estava extremamente assustado. Os barulhos, o vento, os trovões e a poeira trazida pela enxurrada de pedras provocaram um efeito ameaçador terrível. E ele era apenas um garoto, um jovem que sonhava com a glória, que ansiava por novas aventuras, mas ainda assim um jovem, um menino despreparado; um novato, como muitos se apressariam em dizer.

Lanir o balançou com força e perícia, fazendo-o aterrissar sem muita dificuldade no interior da caverna. Foi quando um segundo estrondo ecoou por toda a montanha. Um novo deslizamento estava a caminho. Desta vez, muito maior do que o anterior. James colocou a cabeça para fora, curioso para saber o que estava acontecendo, sem notar que havia uma pequena criatura ao seu lado. Lanir foi atingido por um fragmento de rocha e despencou alguns metros, conseguindo se segurar pouco abaixo de onde o garoto estava, embora não estivesse próximo o suficiente para ser puxado.

- Irgh ri! Parece que o mensageiro tem problemas. – ironizou a criatura, que falava com uma dicção estranha, como se tivesse dificuldade em articular as palavras. – Cuidado que lá vem más zuma.

Um novo estrondo tomou conta da montanha e uma nova enxurrada de pó e pedra acertou Lanir, que agora se agarrava da maneira que podia a um pequeno arbusto que crescia em meio ao paredão rochoso.

- Vo-cê... – o mensageiro sibilou, fazendo muita força para sustentar o peso de seu próprio corpo. – Pare de brincadeiras, vamos!

James, que caíra sentado após a eclosão do terceiro estrondo, olhou para a criatura a sua frente com medo e curiosidade. O que seria aquilo? Um ser pequeno, do tamanho de uma criança, com a pele queimada, como que castigada pelo sol, e envelhecida. Tinha poucos fios de cabelos – três ou quatro, se estivesse enxergando bem – e os dois dentes da frente levemente projetados. As mãos tinham apenas três dedos, finos e compridos.

- É você que está fazendo isso? – perguntou o garoto, um pouco assustado.

A criatura se virou para encará-lo, seus olhos eram verdes e esbugalhados.

- Thhhhsim, talfex, quem sabisse. É a monthania, nem thudo é t-tão ssimples, meu caro.

- Como assim? Se você sabe o que está acontecendo, pare, por favor, pare, ou Lanir irá morrer! – James se pós de pé, talvez com alguma esperança de intimidar a estranha criatura, que era consideravelmente menor do que ele.

- Acho que não. Nada de problema pra ele.

No momento em que a criatura acabou de dizer sua última palavra, Lanir firmou a mão no arbusto que o dava apoio, pisou com força numa pedra do paredão rochoso e deu um salto incrível para aterrissar dentro da caverna. James o olhou até com certa incredulidade. Como um homem tão velho conseguira executar uma manobra tão complicada? Talvez nem o grande Gabriel, o cavaleiro mais capaz de todo o continente, conseguisse realizar uma proeza como aquela.

- Eu não dhisse. – a criatura resmungou.

Assim que colocou os pés no chão, Lanir puxou uma faca de sua bota e olhou ameaçadoramente para o estranho ser.

- Maldito! Eu devia matá-lo.

A criatura riu, emitindo um som estranho, quase como o barulho de um cuspe.

- Voxcê é que é mal agradezido.

- Isso é o que você diz...

A criatura murmurou algo inaudível por alguns segundos.

- Voxcês e sua eterna desconfhiança. Voxcê sabe que eu posso tirar voxcês daqui.

Lanir não respondeu, apenas encarou em silêncio a criatura por algum tempo; pensava. Talvez fosse a hora de confiar nela, pelo menos naquele instante; talvez ela realmente pudesse ajudá-los a fugir com segurança... quem sabe até não reduzisse o tempo daquela jornada, afinal, a montanha a obedeceria.

- Uarrati. O que decide? – a criatura perguntou.

O mensageiro continuou quieto por mais um tempo, ainda ponderando, até que baixou a sua arma. Naquela situação, seria melhor negociar; talvez também fosse hora de os dois terem uma conversa, uma oportunidade de esclarecer algumas situações do passado.

- Vamos com você.

- Ah... – a criatura sorriu, fazendo um esforço enorme para mostrar todos os dentes. – Então me shigam. Tem uma saída por ali. – ela andou para um pequeno túnel a sua direita enquanto fazia um lento gesto com os dedos para que James e Lanir a acompanhassem.

- Tenho certeza de que essa caverna não tinha saída quando fui jogado aqui. – disse o garoto, um pouco desconfiado.

- Érré, eu dhisse, asss coixsas mudam.
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Cap. 8 - Conspirações no Escuro

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A chuva caía forte na noite escura, anunciava momentos tempestuosos. Lia esperava em sua casa, estava ansiosa, precisava de uma confirmação. Ouviu três batidas aceleradas na porta, era o código combinado. Finalmente, poderia saber se estava certa, ter a certeza de que sua intuição não lhe enganara; algo, definitivamente, estava prestes a acontecer.

Assim que abriu a porta, uma figura esquia e esbelta entrou nos aposentos enquanto retirava a capa de viagem já encharcada pela tempestade: era Anita Nhyria, a mais habilidosa de suas batedoras, uma espiã implacável e eficaz, que sabia desaparecer quando necessário e seduzir quando conveniente. Era também uma amiga de infância, uma mulher sábia e leal.

- Você estava certa, Lia. – ela iniciou enquanto colocava sua capa sobre uma cadeira. – Segui alguns dos nobres durante os últimos dias, eles têm se encontrado com Malenberg, um de cada vez. O general provavelmente quer conquistar o apoio deles, é mais fácil convencê-los individualmente. Se não me engano, ele já deve ter a maioria ao seu lado, pelo menos dentre os nobres que possuem exércitos.

Lia olhou lentamente pela janela, observava em silêncio, o vento castigava as árvores do lado de fora.

- E quando acha que eles irão agir?

Anita engoliu em seco.

- Vi três nobres indo em direção à catedral. Provavelmente algo acontecerá ainda hoje.

- Hoje? - Lia pareceu nervosa e surpreendida. - Então precisamos ser rápidas. Pegue minha capa de viagem, precisamos ir até o castelo.
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Cap. 7 - O Primeiro Posto de Vigia

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Ele tinha deixado para trás sua cidade-natal. Cavalgava agora pelos ermos, acompanhado de um homem que mal conhecia; uma pessoa misteriosa que tinha a aprovação total de seu Rei; enfim, alguém que conhecera o seu pai. Para James, isso já bastava, já era o suficiente para confiar naquele homem, naquele mensageiro, como ele mesmo se descrevia.

Os dois seguiram num trote manso por alguns dias, sem avançar tão rapidamente em direção às cadeias montanhosas. A atitude era até um pouco estranha, uma vez que fariam, naquela velocidade, o percurso no dobro do tempo costumeiro. Mas, de alguma forma, tudo parecia meticulosamente planejado. Lanir fitava as imensas cordilheiras rochosas a sua frente com alguma constância; pensava, olhava para as montanhas como se quisesse enxergar algo mais, como se pudesse enxergar algo mais.

James apenas observava. Aquele homem parecia mesmo estranho. Tinha uma aparência simples, utilizava uma arma quase caseira, quase improvisada, mas ainda assim transmitia a sensação de que era muito mais do que deixava transparecer, de que via as coisas por um prisma diferente; para ele, o mundo deveria ser outro.

A viagem seguiu a passos lentos pelos três primeiros dias, Lanir quase não falava. Ele podia sentir que havia algo de estranho, algo de anormal ocorrendo nas montanhas; os ventos lhe sopravam os gritos de augúrio, vindos de longe. Havia algo de errado mais à frente... talvez as criaturas estivessem mais próximas do que ele inicialmente imaginara. Talvez fosse melhor esperar, atrasar em alguns dias a entrada nas montanhas, até que o perigo se afastasse. E foi o que fez.

Apenas no quarto dia, o chão verde das planícies foi se modificando e sendo trocado pelas encostas rochosas. Grama já quase não existia. Ao cair da noite, alcançariam o primeiro posto de vigilância; e, assim, o primeiro objetivo que James tinha se imposto seria, finalmente, conquistado. Era desta maneira que o menino pretendia trabalhar: um passo de cada vez. Não estava acostumado a sair para aventuras, sabia que sentiria saudades de casa, de sua família. Nada lhe parecia melhor do que se focar sempre em um objetivo próximo, palpável; talvez assim conseguisse se manter longe de todos os pensamentos ruins.

- Quer descansar agora ou acha que podemos continuar o nosso caminho até o primeiro posto? – perguntou Lanir enquanto diminuía o trote de seu cavalo.

James sorriu.

- Não, não, podemos continuar sim. Nem sei qual o motivo que te faz ir tão devagar. Temos alguma razão para estarmos atrasando assim a nossa viagem?

Lanir olhou para o garoto por algum tempo: ele definitivamente sabia fazer as perguntas certas.

- Não se preocupe... se quer continuar, vamos. Apresse o passo!

Os dois aumentaram um pouco a velocidade de deslocamento. Naturalmente, o solo mais tortuoso impediu que se movimentassem muito rápido, afinal, era necessário cuidar bem dos cavalos; a viagem poderia ser longa.

Quando o sol já se punha atrás das cordilheiras rochosas, alcançaram o primeiro posto de vigia. Era uma pequena casa de madeira, de três cômodos, situada nas proximidades de um grande paredão rochoso. Em frente à porta de entrada, um soldado dormia, sentado em um banco de pedra.

- Humrum... – pigarreou Lanir. – Parece que alguém não anda fazendo o seu trabalho direito.

O soldado levantou assustado, sacando a espada, em um ato reflexo, enquanto fitava as duas pessoas a sua frente.

- E... eu... não estava dormindo, não estava. – negou, inutilmente.

- Tudo bem, isso não importa, não agora, pelo menos. – iniciou Lanir. – Eu e o garoto precisaremos descansar aqui nesta noite.

- Apenas soldados e homens do Rei podem descansar aqui, senhor. E, por favor, identifiquem-se. Sou um protetor do reino e tenho permissão para atacar! – o soldado, agora recuperado do susto, tentava intimidar os visitantes com o intuito de controlar a situação.

Lanir se aproximou calmamente e empurrou a espada, que estava apontada para seu pescoço. Depois, seguiu em direção à pequena casa de madeira.

- Fique mais atento. Olhe para o garoto, ele carrega as armas de Thomas Brickmond. Estamos aqui a mando do Rei, em missão mais do que secreta!

O soldado olhou para James e notou o famoso escudo preso as suas costas. A espada permanecia escondida pela capa de viagem.

- O... hein... o... quê? As... armas... ele está mesmo com as armas... mas é apenas um garoto...

Lanir olhou para James enquanto entrava na casa de madeira.

- Venha, vamos descansar. Quando ele processar o que viu, a gente explica as coisas.

- Ei... não pense que sou algum tipo de idiota! – disse o soldado, ao elevar o tom de voz e entrar na casa atrás de Lanir. – Só não esperava por isso. E quem garante que vocês não roubaram o escudo?

James seguiu os dois. O posto de vigia não parecia ser bem equipado. Havia alguns lugares para guardar comida, algumas camas feitas com palha e umas poucas armas espalhadas pelos cantos.

- Está certo. – Lanir sorriu, simpaticamente. – Me desculpe. Agora, acha mesmo que conseguiríamos entrar no castelo e roubar as armas, logo essas armas?

O soldado deu de ombros e se sentou em uma velha cadeira de madeira situada bem no meio da sala. A sua frente, na mesa, havia uma garrafa de aguardente e algumas fatias de pão.

- É. Eu sei, agora eu que peço desculpas. Querem comer alguma coisa? Ou beber?

- Não, iremos apenas descansar.

- Tudo certo, então. Descansem ali. – disse o soldado ao apontar para as camas feitas de palha. – Irei fazer minha ronda. Daqui a algumas horas estarei de volta.

- Obrigado, você foi muito prestativo.

O homem novamente deu de ombros, pegou a garrafa de aguardente e deixou a casa. Odiava quando esses enviados reais chegavam por ali. Eram todos uns arrogantes.



*******************


Lanir acordou assustado, a pequena casa de madeira estava vazia... silenciosa... escura. Só se escutava o barulho da fina chuva que caía do lado de fora; era suave e repetitivo: tenso. Ele se levantou, tomando muito cuidado para não acordar James, e foi até a lareira. O soldado ainda não tinha voltado, já era tarde. Provavelmente algo de ruim tinha acontecido; era preciso investigar.

Pegou uma tocha que estava encostada em um canto, acendeu-a cautelosamente e saiu na ponta dos pés. A noite do lado de fora era fria e escura; a lua se escondia por detrás das nuvens. Lanir caminhou por um tempo, tentando seguir as pegadas deixadas pelo soldado do pequeno posto de vigia. A terra molhada o ajudava, os rastros eram bem visíveis.

Enquanto caminhava, porém, muito sutilmente, podia escutar o barulho de passos: alguém o seguia. Mais à frente, avistou um vulto caído no chão; uma tocha repousava semi-acessa ao seu lado. Era o soldado, morto; o corpo dilacerado em muitos pedaços, com cortes profundos no peito e no pescoço.

De repente, um som agudo e aterrorizante começou a se espalhar por todos os cantos, sendo multiplicado pelo eco que as montanhas proporcionavam. Da escuridão, uma das criaturas espreitava; ameaçava Lanir com o som estridente que a garra produzia contra a rocha. Ela cercava, provocava, mas se mantinha escondida. Gritava, aterrorizava, mas não aparecia. Em meio ao breu, era como um fantasma; sorrateira, quase invisível.
Lanir esperava junto ao corpo do soldado, a tocha em sua mão esquerda e seu longo bastão de madeira, com uma navalha em cada ponta, na mão direita.

A criatura se movimentava, de pedra em pedra, os olhos fixos no alvo. Sentia prazer em matar, em apavorar, em tirar dos seres humanos até o último fio de dignidade antes de trucidá-los. Que homem tolo era aquele que viera buscar um soldado morto? Que seres patéticos eram os homens, com suas preocupações banais. À noite, eram presas fáceis. A luz das tochas os identificava, o breu noturno os cegava; quanta infantilidade!
Mais dois passos: já estava bem próxima, podia ver claramente o homem abaixado ao lado do corpo do soldado que acabara de assassinar. Chegava pelas costas, furtiva. Era a hora do ataque. Saltou.

Foi neste momento que o homem se pós de pé, ainda de costas, e largou a tocha no chão, fazendo com que se apagasse. No mesmo momento, virou o corpo, girando o seu bastão no ar. A criatura se surpreendeu. Como podia? Estava escuro... como podia? O bastão veio em sua direção. O homem a sua frente a fitou, pouco antes de atingi-la; os olhos levemente opacos pareciam refletir a quase inexistente luz do luar. A criatura engoliu em seco, sentiu medo. Aquele homem... aquele homem... era... o mensageiro!

O golpe foi mortal, certeiro, cortando e esmagando o crânio ao mesmo tempo. Lanir ainda se abaixou e se certificou de que a criatura estava realmente morta. Depois, levantou-se apressado e correu em direção ao posto de vigia. Ela o tinha visto, tinha o reconhecido. Certamente, neste exato momento, todas as outras criaturas já estavam sabendo. Ele precisava agir imediatamente, precisava pegar o garoto e sair dali o mais rapidamente possível.
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Cap. 6 - Observações no Escuro

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Lia Tharathon olhava para a movimentação no pátio do castelo da janela do alto da torre onde Sir Brickmond descansava. Com muito cuidado, fazia com que as cortinas escondessem quase todo seu corpo, só os olhos espreitavam para saber o que os outros generais poderiam estar tramando. Atrás dela, Thomas Brickmond repousava, deitado em sua cama. A doença continuava a se espalhar, a comida, que antes conseguia o revigorar, agora já não mais fazia efeito, como se o próprio corpo tivesse desistido da luta.

Lia cuidava dele, com toda atenção, todos os dias, como Gabriel gostaria que ela fizesse. Ainda assim, tinha outras preocupações. O general Malenberg continuava muito quieto, deixara de se opor a tudo que ela dizia como fizera no início; provavelmente tramava alguma coisa, ela podia sentir.

Do alto da torre, observava, todas as noites. Mensageiros percorriam a cidade inteira, visitavam a casa de vários nobres e depois retornavam ao castelo; reportavam-se diretamente a Malenberg. Definitivamente, um golpe era preparado; ela precisaria reagir, ou melhor, teria de entrar em cena antes que tudo estivesse perdido.
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Cap. 5 - A Estrada dos Reinos (Parte II)

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- Bem na hora, cavaleiros! – disse o general enquanto já colocava Duna em uma marcha lenta e imponente. – Não esperava nada de diferente de soldados treinados por Robert.

Os guardas da cidade olharam para Gabriel com orgulho. Receber elogios de um lendário combatente como ele não era coisa que acontecesse todos os dias.

- E por que veio até aqui? – perguntou um dos homens.

- Meu Rei me enviou, tenho uma mensagem para Sir Lance.

- Oh... certo, então é melhor levarmos você logo para dentro da cidade. Venha, venha.

Naturalmente, os soldados tinham algumas dúvidas sobre como Gabriel encontrara aquelas criaturas, não esperavam que elas já estivessem tão próximas dos dois reinos, mas preferiram não fazer mais perguntas. Primeiro, por se tratar de um general, alguém que não lhes devia satisfação. E segundo, por saberem que a mensagem que ele trazia devia ser de suma importância. Se Sir Brickmond tinha enviado o seu braço direito, seu principal amigo e guerreiro, era porque a situação deveria realmente ser muito delicada.

A pequena milícia rapidamente retornou à cidade, o imenso portão de ferro fora novamente fechado. O reino de Sir Lance era uma fortaleza, a cidade humana mais bem guarnecida de todo o continente. As muralhas eram altas e largas, feitas de puro concreto; as casas dos nobres e o castelo ainda ficavam em um nível separado, também por de trás de espessas fortificações.

Os soldados escoltaram Gabriel, que era observado com olhos atentos por toda a população: era a primeira vez que o Cavaleiro Negro pisava naquela cidade, algo de muito ruim deveria ter acontecido. A população, àquela altura, já sabia bem do ataque feito pelas criaturas; o medo, portanto, crescia a cada segundo, ainda mais quando notavam o braço de Gabriel, que ainda exibia cortes profundos, apesar de todo o seu esforço em costurar corretamente os ferimentos.

Em pouco tempo, o general já se via em frente a Sir Robert Lance, que, assim como ele, fora um dos heróis e sobreviventes da batalha na Planície da Grande Guerra. Apesar de muitos anos terem se passado, ele ainda mantinha um vigor físico impressionante. Os músculos ainda proeminentes, os cabelos negros e fartos. Os anos tinham sido muito mais gentis com Robert do que com Sir Brickmond.

- O que o traz aqui? – perguntou ele, sentado em seu trono, enquanto Gabriel lhe fazia uma reverência respeitosa. – Vejo que está machucado.

- Sim, fui atacado por algumas criaturas enquanto vinha para cá. – respondeu o general, um pouco vacilante; este era exatamente o tipo de informação que poderia atrapalhar os seus planos. Thomas queria convencer Robert de que fugir do continente era uma escolha ruim. Admitir que as criaturas já estavam tão próximas certamente não traria benefícios.

Sir Lance se levantou imponente. Era um homem grande, forte, sempre vestindo a sua armadura; uma cota de malha toda feita em prata e perfeitamente conservada. Ele parecia, de algum modo, satisfeito.

- Eu falei a vocês. Elas já estão muito perto, muito perto, não podemos arriscar nosso povo assim, você sabe disso, garoto.

- Senhor, - iniciou Gabriel, com muita cordialidade. – será que pode dispensar os outros guardas, acho que devemos discutir este assunto sozinhos.

Sir Lance aceitou a sugestão e fez um gesto para que todos se retirassem.

- Com todo o respeito, senhor, acho que está enganado.
Robert se sentou.

- Por que diz isso? – seu tom de voz era calmo, como se realmente quisesse escutar o que Gabriel tinha a dizer.

- Foram, no total, cinco criaturas que me atacaram. Três me emboscaram no cânion, as outras me alcançaram depois, provavelmente sabendo que eu escapei. Você sabe como elas funcionam.

Robert apenas assentiu com a cabeça.

- São muitas, criaturas demais, mesmo se elas já estivessem de fato próximas. Se estivessem próximas o suficiente para que cinco delas me avistassem, já teríamos sido avisados pela Grande Torre Vigia, o senhor sabe disso.

- Sim... é verdade, não tinha pensado nisso...

- Pois então, eram batedores, vieram investigar. Acho até muito estranho que tenham me pego sozinho.

- De fato... de fato... então... elas não estão assim tão próximas. – iniciou Sir Lance enquanto se levantava e andava vagarosamente na direção de Gabriel. – Mas isso não significa que mudarei minha posição. – disse, ao passar pelo general e continuar caminhando até o centro do salão.

Gabriel suspirou.

- Thomas está morrendo, senhor... talvez já tenha até morrido.
Sir Lance parou abruptamente, não arriscou mover um músculo sequer.

- Mo... morrendo?

- Sim, senhor. – o general se virou.

- Como assim?

- Ele está doente já faz algum tempo, imagino que já saiba disso. As coisas pioraram, por isso ele me enviou.

Robert se virou para fitar Gabriel.

- E ele está tão mal assim?

- Infelizmente, senhor.

- Eu não esperaria por isso, não agora, num momento como esses, não Thomas, logo ele... – Sir Lance parecia desnorteado; tateava o ar inutilmente como se procurasse por alguma coisa em que se apoiar.

- Ele quer ver você. Me enviou aqui, porque ele quer vê-lo por uma última vez. – o general soava sério, procurava conter a própria tristeza. – Não pode atrasar um pouco seus planos de partida para vê-lo?

Robert fitou o nada por um tempo, ainda sem saber como reagir; pensava. Sir Brickmond talvez fosse o único verdadeiro amigo que tivera em toda a sua vida. Era muito triste saber que em breve ele poderia morrer, ou que já até tivesse morrido; era a pior notícia que recebera em anos.

- É claro, como não. As... criaturas... elas... não estão tão próximas... acho que posso sim... ou melhor... eu vou. Mandarei que preparem a escolta real e partiremos, o quanto antes! – afirmou Sir Lance, convicto, ao se recuperar do baque causado pela notícia e tomar a sua decisão.

- Como quiser, senhor. – respondeu Gabriel, não conseguindo esconder um sorriso de satisfação, enquanto novamente cumprimentava o rei com uma reverência tradicional. – Parto junto com seu exército assim que ordenar.
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Cap. 5 - A Estrada dos Reinos (Parte I)

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Gabriel cavalgava. Cortava as montanhas feito o vento; mais rápido do que qualquer cavaleiro, mais sábio e destemido do que qualquer general. Corria por seu povo e, principalmente, por seu mestre e amigo, o homem que tudo lhe ensinara, que lhe acolhera como um pai que ele nunca tivera. O rosto permanecia resoluto. Viajara por cinco dias na estrada que conectava o reino de Thomas ao de Sir Lance; passava agora por um imenso cânion que perfurava as cordilheiras rochosas. Não pretendia descansar, sabia que poderia ganhar um pouco mais de terreno, confiava em Duna, a égua negra em que montava, um animal magnífico que lhe fora dado por um membro do Povo das Fadas. Teríah-Duna era o seu nome completo, significava a “beleza do lago”. Nunca conhecera égua tão forte e tão rápida. Com ela, participara de inúmeras batalhas, mesmo sozinho, sem que as tropas inimigas o derrubassem.

Quando se aproximava do final do cânion, uma surpresa. Uma figura negra caiu do alto de um dos lados dos paredões rochosos poucos metros a sua frente. Gabriel puxou as rédeas de Duna, a égua empinou e parou. O vulto negro se levantou e tomou forma: era uma das criaturas. O corpo de cerca de dois metros e meio se curvava levemente para frente; os braços compridos, os músculos proeminentes, sólidos como pedras, e as garras expostas e afiadas. A criatura andou alguns passos para frente, as pernas, três vezes mais largas do que os braços, levemente friccionadas, como se um ataque pudesse acontecer a qualquer momento; o longo rabo negro, com uma espécie de navalha na ponta, balançava vagarosamente.

Gabriel recuou um pouco, puxou as rédeas para a direita e se virou para o lado oposto. Atrás dele, outras duas criaturas fechavam o caminho da volta, também em posição de ataque. O general permaneceu calmo. Desceu do cavalo e puxou a espada que estava embainhada na sela; bateu o pé três vezes no chão e Duna recuou para perto do paredão rochoso à esquerda dos dois.

As criaturas se aproximavam, avançavam a exata mesma distância no exato mesmo tempo, os passos em simetria. Gabriel sabia desta característica, da espécie de sintonia que havia naquela raça; tinha a consciência de que os ataques seriam simultâneos: bateu duas vezes o pé, Duna raspou a pata direita no chão.

As três criaturas saltaram, seu potencial atlético era impressionante: cada uma delas foi capaz de sair cerca de um metro e meio do chão. Duna se atirou na direção da criatura que fechava o caminho da frente e atacava sozinha, acertando-lhe as pernas. Ao receber o impacto, a criatura se desequilibrou e deu um giro no ar; foi quando Gabriel desferiu um golpe mortal com a espada em seu pescoço.

A batalha, porém, estava longe de terminar. O general sabia que precisaria ser muito rápido. Podia sentir a aproximação dos outros dois monstros. Os ataques seriam simultâneos, disso ele sabia; precisava pensar em como evitar recebê-los ao mesmo tempo. Em uma fração de segundos, girou o corpo, deu um pulo para a direita e cravou a espada no coração da segunda criatura. Depois, ainda teve tempo de defender o terceiro ataque; aparou a garra de seu último inimigo ainda vivo.

Por alguns segundos, ele e Gabriel se encararam, medindo forças: a espada ainda em contato com as garras do monstro. De repente, o rabo se enrolou no punho do general e, então, desceu. A navalha fez um corte profundo. Gabriel soltou a espada e curvou o corpo, levando a mão ao braço ensangüentado. A criatura trincou os dentes, que se estendiam pela boca levemente deslocada para frente, e depois pronunciou algo em um tom gutural; a frase soava mais ou menos como “Ahk ín ahk ankra”.

Gabriel a fitou com raiva, ela levantou a mão para o golpe final. Quando abriu a guarda, o general puxou um punhal de sua bota e, num movimento extremamente rápido, cravou-o no peito da criatura, que logo caiu para trás, ainda semi-viva. Gabriel a observou por um tempo, o sangue pingava de seu braço direito. Sabia que tinha escapado por muito pouco. Era considerado quase impossível se livrar de uma emboscada como aquela, com aqueles monstros. Pior ainda era saber que eles já andavam pelas montanhas, que já estavam tão perto das cidades, tão próximos aos habitantes indefesos. Tinha de ser rápido: não havia mais tempo para descansar.

Quando a criatura finalmente deu seu último suspiro de vida, o general arrancou o punhal de seu peito e foi até Duna. Pegou uma camisa velha, agulha e linha para costurar o ferimento no braço. Assim que terminasse, partiria sem descansar até que completasse a sua missão.


*******************


Os guardas olhavam para o horizonte. Na planície que cercava o forte de Sir Lance, três figuras negras se aproximavam em grande velocidade, ainda longe demais para serem identificadas. A movimentação dos exércitos já se iniciava na muralha; o portão de ferro, a única entrada para a cidade, fora selado. As três figuras continuavam a se aproximar, aos poucos se tornavam mais identificáveis; os guardas as fitavam atentos, a tensão crescia.

- Capitão!! É o Cavaleiro Negro, capitão! O Cavaleiro Negro sendo perseguido por duas das criaturas.

- O quê? Tem certeza? Tem certeza de que é Gabriel?

- Positivo, senhor. Veja! – exclamou o homem enquanto entregava uma pequena luneta ao seu superior. O capitão a pegou prontamente e a direcionou aos três vultos que se aproximavam; logo deixou escapar uma expressão de espanto.

- Sim, é ele, é ele! Guardas, montem em seus cavalos, há um homem se aproximando que precisa de nossa ajuda.

Os portões da cidade se abriram. Gabriel olhou a cena com prazer, esperava por aquilo desde o momento em que precisara cavalgar com as criaturas a seu encalço. Fazia quase dois dias que era perseguido, estava cansado e preocupado com as forças de Duna. Por mais que ela fosse uma égua excepcional, deveria se sentir cansada. Por isso, ainda não tinha se livrado de seus perseguidores, para poupá-la; poupá-la justamente para esse momento, o instante em que abririam os portões.

Cinco guardas montados e armados partiram em alta velocidade em auxílio ao general. Eram homens destemidos; novos, porém inspirados pelo fato de que ajudariam o grande Cavaleiro Negro, um dos maiores combatentes daquele continente; talvez até mesmo o maior, uma vez que seu rei, Sir Robert Lance, e também Thomas Brickmond já haviam abandonado os campos de batalha.

Assim era conhecido Gabriel por todos os outros povos: era aclamado com o Cavaleiro Negro, um pouco pelas vestimentas que costumava a usar nos combates – a capa escura e a armadura preta – e um pouco por sua montaria. E ele cavalgava, agora, destemido e seguro, mantendo as criaturas a uma distância considerável. Enquanto olhava os homens de Sir Lance se aproximarem, pensava em suas possibilidades. Além se sua espada, ainda poderia contar com uma pequena besta e uma lança que prendera na sela de Duna.

As criaturas continuavam a perseguição; corriam lado a lado, os passos, como sempre, simétricos, marcados. Estavam um pouco confusas, porém. Nunca tinham imaginado que um cavalo pudesse cavalgar tão rápido e por tanto tempo; nunca um soldado conseguira fugir deles em um campo aberto.

Gabriel as olhava com alguma preocupação, mas não tinha medo de que elas o alcançassem, confiava plenamente em Duna, sua fiel companheira. Tinha mesmo era de pensar em um modo de distraí-las, quem sabe até separá-las; precisava fazer com que elas não notassem a movimentação da pequena milícia de Sir Lance que agora se aproximava.

Sacou a besta e reduziu a velocidade de sua cavalgada. As criaturas chegaram mais perto. A égua deveria estar cansada... finalmente... finalmente poderiam atacar, já não agüentavam mais a perseguição... humano insolente. De repente, o tiro. A criatura da esquerda deu um salto para frente, por sobre Duna e Gabriel, para desviar da seta da besta. Agora, elas tinham o general onde queriam: cercado. E como eram tolas. A milícia de Sir Lance tinha chegado. As flechas zuniram, atingindo as costas da criatura que saltara por cima de Gabriel. Pouco tempo depois, vieram as lanças, arremessadas à distância com extrema precisão: a segunda criatura estava morta.

- Bem na hora, cavaleiros! – disse general enquanto já colocava Duna em uma marcha lenta e imponente. – Não esperava nada de diferente de soldados treinados por Robert.
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Cap. 4 - Partidas (Parte III)

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Após deixar os aposentos reais, Gabriel ordenou a um de seus mensageiros que coordenasse uma reunião da cúpula do exército antes de seguir rapidamente para a sua casa, onde sua esposa provavelmente estaria. O general tinha consciência de que sua partida para o reino de Sir Lance tornaria as coisas muito mais fáceis para aqueles que se opunham às decisões de Thomas. Infelizmente, seu velho mestre parecia cada dia pior, cada vez mais debilitado. Era por isso que precisava ter certeza de que tudo ficaria bem, de que todos os opositores seriam colocados em seu devido lugar.

- Lia, preciso falar com você. – disse o general, assim que entrou em sua casa e encontrou com sua mulher na carpintaria.

Lia Tarathon também era uma figura conhecida em todo reino. Era uma mulher destemida e habilidosa, a melhor arqueira que a cidade já vira. Em geral, as mulheres que se envolviam em guerras preferiam combater com o arco; as armas e armaduras utilizadas por cavaleiros e por soldados de infantaria eram muitas vezes pesadas demais para a estrutura física feminina. E Lia era definitivamente extraordinária: comandava os arqueiros que serviam ao rei e estava a poucos passos de também se tornar um general.

- O que foi? Algum problema com Sir Brickmond? – ela perguntou, enquanto prendia habilmente uma ponta de metal a uma das flechas que construía.

Gabriel se sentou ao seu lado, apoiando-se na mesa de madeira que usavam para trabalhar em suas armas; sua expressão era séria, de quem estava realmente preocupado. Fazia tempos que Lia não o via daquela maneira.

- Preciso deixar a cidade. Thomas me pediu para ir até o reino de Sir Lance.

- Uhm... e você está preocupado?

- Sim... claro. – o general se levantou com um ar pensativo; mantinha a cabeça baixa – Muitos nobres já começam a se voltar contra ele... alguns homens importantes do exército também.

Lia colocou cautelosamente a flecha sobre a bancada e fitou Gabriel com calma, sabia que ele queria lhe dizer alguma coisa. Ela sorriu.

- E quais são seus planos? Você sempre tem um.

O general levantou a cabeça e a fitou longamente. Por alguns momentos, até se esqueceu daquilo que pretendia dizer; lembrou-se de como gostava de observar Lia, de como se encantava ao confrontar o seu olhar sincero e perspicaz, o olhar de uma amante e também de uma guerreira. Ela tinha a capacidade de lê-lo, de conhecê-lo mais até do que ele mesmo, era surpreendente.

- Mandei que reunissem os generais. Irei deixá-la em meu lugar. Se você ficar como minha representante aqui, de repente pode evitar que eles se mobilizem.

Lia caminhou na direção de Gabriel e o abraçou carinhosamente.

- E você acha que eles vão aceitar?

- Eles têm de aceitar. Eu sou o general no comando, minhas decisões são quase como as decisões reais, apenas Thomas poderia revogá-las.

- Tudo bem, então, eu fico no seu lugar, faço o que me pediu.

Gabriel sorriu e depois lhe deu um beijo longo e apaixonado. Tinha certeza de que somente ela seria capaz de impedir uma insurreição.

- Então, venha. Vamos até a cúpula dos generais.

Os dois saíram de casa apressados, mas procuravam evitar qualquer demonstração de ansiedade. Se algum espião de outro nobre ou general os visse desequilibrados emocionalmente durante o caminho, tal informação poderia prejudicá-los no decorrer da reunião. Nestes tipos de situação, era essencial demonstrar confiança, o punho firme da autoridade real e militar; era preciso ter todos os presentes sob controle.

Foi por isso que Gabriel entrou no salão de forma imponente, mal dando tempo para que os demais o cumprimentassem antes de começar a dar as suas ordens. Demonstrava pressa e certeza; esperava terminar tudo antes de qualquer um poder confrontá-lo.

- Partirei hoje para o reino de Sir Lance. Não pensem que deixarei a cidade sozinha. Meus exércitos ficam, estarão sob o comando de minha mulher, Lia. – ao dizer isso, Gabriel fez um gesto delicado com a mão direita na direção de sua mulher, que agora se encontrava mais ao fundo do salão, uma vez que oficialmente não fazia parte da cúpula.

- Não acha que estará dando muito poder a uma reles comandante? – indagou um dos nobres presentes.

- Enquanto eu estiver fora, ela será minha representante, ficará com o cargo de supremo general.

Gabriel permanecia de pé, embora todos os membros da cúpula estivessem sentados; assim ele pretendia transmitir a idéia de que estava com pressa, de que não abriria a sessão para discussões. A manobra, porém, não deu muito certo: o general Malenberg, que seria naturalmente o seu sucessor, logo se levantou em protesto.

- Isso é ultrajante! Quem garante que ela tem a capacidade para comandar os seus exércitos, os dela e ainda tomar as decisões de um supremo general?

- Sente-se agora, Malenberg! – Gabriel soou extremamente severo e convicto. – Não lhe dei o direito de se pronunciar. Você que tanto aprecia os regulamentos, deveria dar o exemplo: só fale quando o seu superior permitir.

A cúpula ficou em silêncio, alguns nobres chegaram a baixar a cabeça. O general Malenberg se sentou, ainda um pouco relutante e irritado.

- Esta é minha decisão e, como sabemos, só pode ser revogada pelo Rei. Partirei agora, sozinho. Meus exércitos estarão à disposição de Lia. E a partir de agora vocês devem obediência a ela.

- Está certo, senhor. – disse Malenberg, com um pouco de desgosto em sua voz. – Mas por que irá partir sozinho? Não acha arriscado?

- Não. Sozinho poderei me locomover muito mais rapidamente. Preciso alcançar Sir Lance o quanto antes.

Assim que terminou de falar, Gabriel se virou e deixou o salão a passos firmes e apressados. Os nobres e generais presentes ficaram alguns segundos calados, ainda digerindo tudo o que acontecera. Depois, viraram-se para Lia, que agora se deslocava para a posição central da mesa da cúpula. De agora em diante, seria ela quem daria as cartas.

- A reunião está finalizada, voltem aos seus afazeres.





*******************


James ficou sem reação ao receber das mãos de Sir Thomas Brickmond, o lendário cavaleiro que salvara a humanidade, um homem que batalhara ao lado de seu pai, as armas mágicas construídas pelas fadas, o escudo e a espada que tinham derrotado o dragão mais cruel que já existira. Sua mãe e seu irmão também pareciam incrédulos. Era inacreditável. Só de poder ver aquelas armas de perto já se sentiriam felizes. Saber que James as portaria, então, deixava-os radiantes e orgulhosos. Ainda assim, era difícil imaginá-lo partir tão jovem em uma empreitada que parecia tão importante.

- Quero que as leve consigo. Ninguém pode dizer ao certo que perigos encontrarão pelo caminho. Espero que as armas sirvam para protegê-lo, que elas nos ajudem a salvar nosso povo por mais uma vez. – recitou Sir Brickmond enquanto dava a sua bênção a James e a Lanir com um gesto lento e sutil de sua mão direita.

Os dois se abaixaram e fizeram uma longa reverência, acompanhados por Irina e Davis. Era um prazer muito grande receber as armas e a bênção de um homem tão grandioso como Sir Thomas Brickmond.

- Agora que já nos deu tudo de que precisaremos para a viagem, partiremos o mais rápido possível. – disse Lanir, ao se levantar. – Já havia ordenado que providenciassem cavalos e suprimentos para a viagem. É bom que não nos demoremos. É bom também que sigamos em total segredo.

Sir Brickmond assentiu e, novamente através de um gesto de sua mão direita, deu permissão para que todos se retirassem. Lentamente, Davis, Irina, James e Lanir deixaram a sala do trono.

- Já está tudo preparado. Vamos embora agora. – afirmou o mensageiro. – Se quiserem se despedir, por favor, sejam breves. Esperarei na estrebaria.

- Está bem. Eu te encontro lá. – disse James, com um meio-sorriso. Não sabia se devia ficar feliz ou triste com sua partida. Ficaria longe de sua família, mas também se envolveria numa aventura, num mundo com o qual sonhara desde muito pequeno, um universo ao qual seu pai pertencera, ao qual seu irmão pertencia.

Finalmente começava a se enxergar como um adulto, um homem capaz de cuidar de si, sem a ajuda de outros, por mais novo que ainda fosse. Ao mesmo tempo, sentia-se desamparado, com medo. Nunca ficara longe de sua mãe e de seu irmão; seu querido irmão que por tanto tempo o protegera. Como seria partir para um lugar desconhecido sob a tutela de um estranho?

- Filho, - iniciou a sua mãe enquanto lutava contra as lágrimas e lhe dava um abraço carinhoso. – eu sempre soube que você era especial. Vá despreocupado. Eu vou ficar bem, você sabe que o Davis vai cuidar bem de mim. Ele sempre cuidou. – ela sorria.

- É. Pode partir despreocupado, irmãozinho! Nós vamos ficar bem. E vamos esperar por você aqui, dia após dia. – afirmou Davis, que também estampava um sorriso no rosto. – E acho melhor você ir logo, aquele homem parecia estar com muita pressa.

James fitou sua mãe e seu irmão com os olhos marejados, sabia que sentiria muita falta deles. Mas agora era realmente a hora de partir, ele sabia disso.

- Espero voltar em breve.

- Nós também.

O garoto tomou coragem, virou-se e desceu correndo as escadarias do castelo em direção à estrebaria. Era melhor sair dali antes que mudasse de idéia. Quanto mais cedo pudesse se deixar envolver pela aventura, melhor. Só assim o medo de ficar longe de sua família começaria a ser superado, ou quem sabe até mesmo esquecido: era hora de amadurecer.

- Até que foi rápido. – disse Lanir, assim que notou a presença de James. – Sabe como montar um cavalo?

- É claro que sim. Adoro animais, mesmo que aqui na cidade não tenhamos muitos.

- Então suba neste aqui, ele é bem forte, carregará você e os suprimentos. – o mensageiro pegou o garoto pela cintura e o levantou para lhe ajudar a montar.

James olhou para o cavalo com atenção. Ele parecia realmente muito resistente; tinha os músculos da perna avantajados e a pele densa. Era certamente um animal de carga, adaptado às condições mais frias, ideal para aquela época do ano. Talvez não fosse extremamente rápido, mas seria um animal difícil de ser derrubado.

Já Lanir montara em uma égua marrom, era esquia e de belo porte; provavelmente um cavalo de corrida.

- Vamos, nossa viagem pode ser longa...

- E para onde vamos? – perguntou James enquanto se ajeitava na sela; seu cavalo talvez fosse grande demais para o seu corpo miúdo.

- Para a Floresta Escura.

- Para a Floresta Escura? Não tem medo de ir para lá? Ouvi coisas terríveis daquele lugar.

Lanir fitou o garoto com olhos cuidadosos. Ele realmente parecia assustado. E era natural, esperaria por aquele tipo de reação. Mas de alguma maneira, por toda a maturidade que James aparentara até então, tinha esquecido de que ele não passava de um menino, de alguém ainda muito novo e inexperiente.

- Não se preocupe, eu tenho um plano. Mas antes precisamos chegar até lá, o caminho será longo. E temo que as estradas talvez já não sejam tão seguras. – Lanir tentava soar descontraído, apesar de falar de assuntos sérios. – Primeiro vamos ao posto de vigia nos pés das cordilheiras. De lá pensaremos em como chegar a Floresta Escura de maneira rápida.

James pareceu ficar um pouco mais calmo.

- E você sabe as coisas que vivem por lá? Sabe das histórias que o povo conta?

Os dois começaram a trotar para fora da cidade.

- Claro que sim. – Lanir sorriu. – Mas não se preocupe com elas, nem todas são verdadeiras.

O garoto foi novamente tomado por uma expressão assustada.

- Mas isso quer dizer que algumas são?

- Sim... mas somente as melhores. – o mensageiro desta vez deixou escapar uma risada alta. – O povo é que não sabe lidar com elas.

James olhou para Lanir um pouco intrigado. Seus medos ainda eram grandes, mas pela expressão corporal e pelo modo como o mensageiro falava da floresta, podia jurar que ele parecia conhecê-la realmente bem, parecia ter uma familiaridade fora do comum com o lugar; e isso já bastava para deixá-lo mais tranqüilo. Por hora, era melhor não pensar mais no assunto e se focar em seu primeiro objetivo: chegar até o primeiro posto de vigia.
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Cap. 4 - Partidas (Parte II)

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Lanir retornou à Taverna dos Robinson tão imerso em seus pensamentos que mal notou o intenso movimento do lugar enquanto se deslocava até o seu quarto. Alguns clientes, inclusive, lançaram-lhe olhares incisivos, sem entender o que um homem maltrapilho como aquele fazia em uma taverna bem freqüentada.

Ele pouco se importava; planejava o que faria mais à frente, quando já contaria com a companhia de James e partiria para a Floresta Escura. Era crucial que encontrassem o menino das profecias o quanto antes. O tempo se esgotava, ele sabia disso, sabia que as criaturas estavam cada vez mais próximas, que, a cada dia desperdiçado, elas fechariam mais o cerco ao Reino dos Homens.

- Senhor Lanir... – sussurrou Irina, ao abrir uma pequena fresta da porta do quarto com cuidado. – Podemos entrar?

O mensageiro apenas assentiu com a cabeça. A porta se abriu. Davis, James e Irina entraram lentamente.

- Foi você quem falou com Gabriel, não foi? Eu vi. Lá na praça. – afirmou Davis. – Você falou com ele. Estão dizendo que foi você quem o fez cancelar o torneio.

Lanir respondeu de maneira seca e direta, embora mantivesse ainda um tom agradável.

- Sim, fui eu.

Davis e Irina entreolharam-se, estavam um pouco confusos. O que aquele homem poderia ter a ver com assuntos reais? Apesar dos fatos estarem a favor de sua afirmação, ainda era difícil de acreditar; nunca o tinham visto pela corte ou sequer pela cidade...

- Eu disse a vocês que ele era diferente, que sabia de alguma coisa. Vocês não acreditaram em mim... – James riu.

- Silêncio, querido. – interrompeu a sua mãe enquanto lhe fazia um carinho na cabeça. – Vamos ouvir o que o homem tem a falar.

Lanir se levantou, cruzou os braços por trás das costas e fitou longamente os olhos de cada um. Alguma coisa em sua postura, em sua presença, dava-lhe credibilidade. Não parecia mais um mendigo, um homem maltrapilho, mas um cavaleiro de épocas distantes, das lendas declamadas pelos bardos.

- Eu tenho uma missão importantíssima a realizar em nome de vosso rei, uma empreitada que pode salvar a toda a humanidade. Vossas famílias já sentem o medo imposto pelas criaturas; uma escuridão constante se aproxima, um período de guerras e tristezas. Eu vim para cumprir uma profecia, para ajudar a salvar o Reino dos Homens.

O mensageiro falava com convicção, com chamas nos olhos, com confiança. Por mais absurda que a história parecesse, por algum motivo, Davis e Irina simplesmente não conseguiam deixar de acreditar nela; as palavras de Lanir soavam-lhes extremamente sinceras. E realmente eram. James sempre soubera disso.

- Sei que o que digo parece estranho, mas é a verdade, simples assim. Eu precisava de um companheiro para me acompanhar nas viagens, já o encontrei, não precisamos mais realizar o torneio.

- Você trabalha mesmo para o rei? – perguntou Davis, ainda um pouco receoso e surpreendido. – E se hospedou com a gente?

- Eu queria conhecer a cidade, sabia que ela me mostraria o caminho certo. Encontrei nesta casa meu companheiro. É seu irmão, James. Se ele quiser poderá me acompanhar em minha empreitada, poderá me ajudar em uma missão de suma importância a toda a humanidade.

Lanir sequer piscava. A voz soava calma e poderosa, como anos antes, no dia em que entregara o presente dos dragões a Sir Thomas Brickmond e a Sir Robert Lance. Havia algo de diferente nele, uma espécie de certeza reconfortante. Parecia ser impossível contrariá-lo, opor-se a ele seria tolice; a simples idéia de acreditar no que era dito, no poder de sua voz, trazia uma segurança que a família Robinson não podia recusar. Certamente aquele homem falava a verdade.

- Você vai levar meu filho com você, então? Quando pretende sair? – perguntou Irina, com extrema naturalidade.

Lanir sorriu.

- Vamos agora até o castelo. Lá, tudo será decidido. E ficará provado que não minto para vocês.

Davis e Irina apenas concordaram com a cabeça: não precisavam de provas, mas fariam questão de acompanhá-lo até os aposentos reais, gostavam da idéia de poder encontrar Sir Thomas Brickmond por mais uma vez.

Já James mal podia se conter: seus olhos brilhavam. Era certo que o coração pesava, o medo tentava tirar o gosto daquela notícia, a notícia que ele esperara por toda a sua vida. Seu espírito aventureiro, porém, falava mais alto. Ele sonhava em viajar pelo mundo, conhecer lugares diferentes, lutar para salvar a humanidade; tinha certeza de que isso o faria sentir seu pai mais próximo do que nunca. Às vezes até achava estranho: não sabia como podia amar tanto um pai que sequer conhecera.

A família seguiu o mensageiro até o castelo. Os guardas, já devidamente avisados, deixaram-nos passar. Era estranho como as coisas tinham mudado tão rapidamente, como o caçula da família, de um dia para o outro, parecia destinado aos grandes feitos. Davis e Irinia se sentiam orgulhosos: James sempre se mostrara mais atento aos detalhes do que qualquer pessoa que tivessem conhecido. Era um menino inteligente e corajoso. E por mais que a empreitada parecesse perigosa, eles sentiam que tudo ficaria bem, pelo menos enquanto Lanir estivesse por perto.

- Você atacou aquele guarda, não foi? – perguntou James, assim que os quatro passaram pela porta que dava para o salão do trono.

O mensageiro o fitou com um olhar de curiosidade.

- E como sabe?

- Este bastão com esta navalha na ponta que você carrega, tem uma lasca de metal azul. Só os guardas reais utilizam esta pigmentação nas armaduras. Aquele homem não pareceu muito feliz com sua presença, nos deixou passar com... ahm... um pouco de... desgosto.

Lanir riu.

- Está certo. Foi isso mesmo. Eles não queriam me deixar passar de maneira educada, eu estava com pressa... enfim. Mas ninguém se machucou, fique despreocupado.

- Tudo bem, não achei que fosse nada sério, só fiquei curioso. – retrucou James, feliz por ter acertado em suas conclusões.

- Bom que seja observador, precisaremos disso na viagem.

Assim que o mensageiro terminou sua frase, a família parou diante do trono real, de onde Sir Thomas Brickmond os fitava em silêncio, e fez uma grande reverência. James sentiu o rosto corar, era a primeira vez que ficava tão próximo de um homem tão importante, um homem que, mais até do que ser rei, fora um grande amigo de seu pai.
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