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[Conto] Feliz Ano Novo. Fim. - por Cizenando Cipriano

em 5 de jan de 2011.

Após um longo tempo sem postar nada dele aqui, lá vai mais um conto de um dos colaboradores "oficiais" do blog. Durante um período do ano passado, o Cizenando postou alguns textos por aqui e o pessoal gostou bastante. Espero que apreciem o conto a seguir, eu achei bem interessante, embora talvez não tenha um cunho não tão otimista em relação ao ano novo, hehe.


Cizenando Cipriano - @cizenando_ - é colaborador do Na Ponta dos Lápis; jornalista da área esportiva, com passagens por MB Press (UOL e IG), LANCE! e Rádio Nacional. Você pode encontrar mais textos do autor, com algumas pitadas humorísticas, no blog Pau Na Mesa.



Feliz Ano Novo. Fim.

Já era quase fim de tarde. As diretrizes, definidas há algumas poucas semanas, foram sendo repassadas serena e mentalmente enquanto caminhava sem pressa na calçada em busca do melhor lugar para atravessá-la. A decisão foi até rápida, vinda de quem a tomou. O momento agora era colocá-la em prática.

Entrou no carro comum, alugado, e encontrou seu caminho sem muitos obstáculos, apesar da confusão que toma a cidade nesta época. Parou na cabine de entrada, quase meia-hora depois, pediu a suíte e a recebeu sem maiores delongas. Na rota até o quarto, diversas garagens já fechadas. Muito o quê comemorar?

Sua primeira providência foi deitar-se na cama, deixando a mochila cair pelo braço. O colchão macio contrastava com o áspero do lençol encardido. Não achava nojento pensar nas substâncias, nos suores, nos gozos ali impregnados. Aspirou fortemente aquele tecido branco em busca de algo tátil nos odores de outros tempos. Vagamente letras e nomes se confundiram no ar. Desistiu de pensar.

Ali, na cama, não era como se estivesse depositando o peso que carregava. Ao contrário, queria manter o peso do mundo sobre si até o momento derradeiro. Talvez fosse uma forma de dar sentido a tudo aquilo e, mais profundamente, um depósito onde buscar coragem se ela, por ventura, faltasse-lhe quando necessária.

Horas. Esperaria. Sorriu com o canto direito da boca enquanto olhava a irregularidade da pintura nas paredes do quarto: os planos sempre reféns dos ponteiros do relógio. Nem agora se deixava libertar desta quimera chamada tempo. Tinha compromisso apenas consigo e mesmo assim prendeu-se ao mundo. Ironizou-se: um último presente.

No chão, a costa ereta respirava. De olhos fechados, rememorava. As palavras ainda brincavam de anagramas em sua cabeça, uma despedida, porém algumas se fixavam. “Quando eu morrer (...) Chamem palhaços e acrobatas! (…) A um morto nada se recusa (...)”. Gostava da sensação de consciência.

Durante aqueles dias vinha buscando uma justificava. Não que precisasse de uma, decidiu-se e pronto, era a sua única saída, mas e se lhe fosse perguntado? E se lhe dessem o direito de falar? Agradava-lhe o significado de controle daquilo tudo: não decidiu sobre o início, muito do que viveu foi de acordo com as circunstâncias. Mas, ali, roubava do acaso a ordem sobre o ponto final.

E se antes tudo se arrastava – minutos deságuam em dias –, naquela contagem regressiva parecia que as nove horas jamais dariam entrada às dez. Somente andava. Poderia estar tentando repassar sua trajetória, acertar mentalmente as contas com o que viveu. Não, apenas andava. Sobre brasa, sobre cacos de vidro, sobre o nada. Serenamente.

Um arrepio peculiar percorreu-lhe o corpo de súbito. Qual seguisse um roteiro, pegou o revolver 38 e o sentiu nas mãos, como da vez em que o comprara. Havia sido a única vez em que o tocara. Não lhe acometeu nenhum sentimento diferente. Era como se já estivesse tudo combinado para que seguisse aquele caminho. Nada lhe faltava, nem antes, nem já.

Os fogos de artifício ganharam mais força nos céus da cidade. Visualizou alguns rostos sorrindo e multidões esperançosas. Foi um flash rápido, carregado por uma espécie de contagem regressiva mental. Mesmo sem relógios, nem nada, tinha certeza de que saberia o instante exato para puxar o gatilho.

A sua maior dúvida fora sobre onde disparar. Algo eficaz, definitivo, certeiro. No peito? Não, muito piegas e sem resultado garantido; na têmpora? Talvez, boa simbologia, mas tinha algum risco de não dar certo; sob o queixo? Também não havia garantia absoluta. Decidiu-se pelo mais grosso dos modos. A beleza estava no gesto, não na sua forma.

Um silêncio tenso tornou-se a atmosfera da noite. Sabia. Não deixara bilhete, carta, recado, despedida. Tudo fora dado ao longo de trinta e um anos, para que mais? Se alguém se importasse, entenderia. A tensão ganhou um crescendo. Nove... Sete... Cinco... Três... Um... E a arma enfiada na boca coloriu de vermelho o quarto branco, enquanto o corpo, como se sincronizado com uma força exterior, mergulhava sobre a cama, já sem peso.

Feliz ano novo, o grito era espalhado de boca em boca. No quarto, fim.

9 Comentários:

marcos nunes

O problema no conto é sua previsibilidade. O contraste data festiva/agonia individual pode ser utilizado, mas o elemento surpresa, mesmo se constituindo, paradoxalmente, em obviedade, pode ser obtido à custa de alguns elementos externos à subjetividade do suicida. Claro que a escolha é do escritor, mas ratifico que o conto entrega, já no título, o suicídio, de forma que percorremos as linhas com a sensação de déjà vu, o que torna o prazer da leitura reduzido, se não inexistente. Rubem Fonseca fez um conto famoso com o mesmo título que surpreende sem utilizar, contudo, truques de folhetim: a surpresa decorre apenas do deslindamento da trama que opõe classes distintas que terminam por se encontrar num tempo/espaço determinado, onde não se conclui propriamente o drama, apenas se realiza o óbvio com uma crueza acachapante. Formas de fazer e de ver, diga-se de passagem. Escolhas. Cada um faz as suas.

Leonardo Schabbach

Mas, em minha visão ao menos, aqui o conto não tem mesmo nenhuma intenção de surpreender, por isso o título e o encaminhamento. O que importa é o processo; como aquele personagem age até lá, como ele se sente, no que ele pensa. O conto é centrado no personagem - e no contraste entre o momento do ano novo, de "renovação", com o de fim. Então, o que importa são as sensações, os pensamentos do personagem em questão. E da maneira como foi escrito, passa um sentimento interessante, ainda mais com o contraste dado.

Nem todo conto precisa ser surpreendente, ou se focar nos acontecimentos. Clarice Lispector que escrevia muito assim. Tinha vezes que no conto não acontecia nada, mas com o personagem, na sua cabeça, acontecia muito; e nos fazia pensar.

marcos nunes

Diria que, sim, o processo em si pode bastar, mas aí ele tem que trazer elementos um tanto mais insólitos, com detalhes mais interessantes, conexões possíveis com outros elementos, outras vidas, outras paisagens, aí não é necessário nenhuma "reviravolta" clichê ou coisa assim. Creio que quando já sabemos o que vai ocorrer o interesse não se perde, mas o conteúdo deve ser tão ou mais interessante que o fiapo de trama que, no final das contas, ler a última linha só nos deixa com vontade de estender um pouco mais o miolo. Aí, desculpe, ao menos para mim, não foi o caso. Daí porque citar Clarice me pareceu até uma crítica involuntária. Mas não esquenta; o debate é em si mesmo um processo interno ao texto, terminando por enriquecê-lo.

Leonardo Schabbach

Não, eu não esquento não. Pelo contrário, eu gosto dos debates literários. Inclusive gostaria que acontecessem sempre mesmo nas postagens do blog. Literatura é um assunto muito complexo, a divergência de opiniões deveria ser muito comum; mas é claro, divergir sem agredir, obviamente.

Quanto ao comentário em relação a Clarice, naturalmente não foi uma crítica, foi só uma observação no sentido de mostrar que contos nem sempre precisam surpreender. Este, no caso, traz um elemento que passe uma certa sensação melancólica pela própria maneira como foi escolhida, construção de frases e palavras.

Exatamente por você saber o final, a escolha do vocabulário, das figuras de linguagem, me deu uma sensação bem de melancolia, com uma certa agonia em saber o porquê daquele personagem querer se matar. Enfim, uma questão não só do que está escrita, mas como está escrito. Ao menos, ficou-me esta sensação.

Ivana Maria

Adorei o conto, conseguiu me envolver. Li todo com aquela invejinha boa de "queria saber escrever assim" rsrs, mas me contento em ser "uma boa leitora". Quanto a discussão acima, concordo que o o autor não pretendeu ser imprevisível, pelo contrário, realmente intencionou anunciar o "fim" no título e ainda assim demonstrar a capacidade de prender a atenção do leitor. Voltarei outras vezes aqui para aprender mais. Um abraço. Parabéns pelo Blog, de muito bom gosto.

Leonardo Schabbach

Fico muito feliz que tenha gostado do conto. Como comentei acima, eu gostei, mais ou menos pelos mesmos motivos que você, por isso coloquei por aqui.

Espero que continue acompanhando o blog mesmo, será um prazer!

Cizenando Cipriano

Olá a todos.

Primeiramente, obrigado pela leitura, pela atenção com o texto e pelos comentários.

Sendo breve, só gostaria de pontuar que a intenção jamais foi criar algum tipo de surpresa com relação ao destino da personagem, como o título já sugere.

A principal intenção é desenhar algumas sensações dela nos momentos que antecedem a conclusão de uma decisão trágica (em um dia simbólico. Se o objetivo foi atingido ou não, a resposta está com vocês.

Abraço a todos

Luis Narval

Tchekhov, exímio, e no meu entender, incomparável contista russo, dizia a respeito do conto, que seria preciso (se o autor pretendesse ser totalmente honesto) eliminar seu começo e o seu final, porque é aí que o autor mais "mente". Mentira no sentido de blefe, de convencer, com quase nenhum subsídio, o leitor de que vale a pena prosseguir na leitura, e que mais adiante irá encontrar o "el dorado". Bem, geralmente, no melhor dos casos, isso quase nunca passa de uma bela promessa. Tchecov sabia disso, assim desdenhava seus começos e finais, e se concentrava no "miolo", no eixo que fazia e faz tudo girar; sem se render a pressa, ao tédio e a curiosidade pueril de muitos de seus leitores de ocasião. Ele tinha uma preocupação, acredito, que todos nós, devotos da expressão escrita e aspirantes à boa literatura, também devemos aprender a cultivar. Qual seja: devemos escrever, sempre, como se já tivessemos um público formado. E que esse público não se deixa ludibriar facilmente, e que por isso mesmo nos dará o tempo necessário, imprescindível (um parágrafo, uma página...)até que possamos, enfim, acionar o "mecanismo" e recompensá-lo por sua dedicação.

Luis Narval

Desculpem pelo último post, escrevi-o às pressas e acabei cometendo alguns deslizes gramaticais, além de não ter podido explanar melhor o assunto e de fazer alguns comentários sobre o bom conto do Cipriano.

Então, vamos lá.

Primeiro, sobre o que referiu o Marcos, e devo dizer, com muita propriedade. As "conexões" de fato estão ausentes. O conto, apesar de bem escrito, não consegue "universalizar", seu protagonista não provoca empatia, identificação com o leitor, a não ser num nível muito rudimentar. Sua "morte", voluntária ou não, não nos afeta, e isso porque não é capaz de nos fazer lembrar de nossa própria, iniludível condição mortal - porque, afinal, é disso que o conto se propõe a tratar. Temas pontuais como a morte, o amor, etc, têm a peculiaridade de ser paradoxais. Têm a necessidade/obrigatoriedade de estabeler um sem número de ligações. Ligações essas, num primeiro momento, impensáveis. Como exemplo, coloco aqui um pequeno trecho de um conto de Leonid Andreiév, que trata justamente da morte, do nada, do além. "... Meu coração está cansado até de alegrias, continuava, refletindo, o dignatário, que conduziam ao cemitério. Não pede mais do que o repouso eterno. Quiçá seja demasiado estreito o meu coração, mas estou terrivelmente cansado. E estava decidido pelo nada, pela morte definitiva. Recordara-se de um breve episódio. Foi antes de cair doente. Tinha visita em sua casa, conversavam, riam. Ele também ria muito, às vezes até chorava de tanto riso. E foi exatamente no momento em que se julgava mais feliz que sentiu de repente um desejo irresistível de ficar só. E para satisfazer esse desejo escondeu-se, como um menino que teme o castigo, num cantinho..." Percebem?

De todo modo, não quero frustrar o Cipriano. Seu texto tem qualidades, sim. Seu vocabulário possui amplitude. Há ritmo na sua prosa. E com o tempo, acredito, com a reflexão, com o estudo atento e incansável, com a dedicação incondicional aos grandes/pequenos temas universais, acredito que se tornará um belo escritor. Abraços.

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