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[Construção de Personagens] As Aventuras de Tintim

em 11 de abr de 2011.

Desde que voltei da minha viagem para a Bélgica, onde foram criadas "As Aventuras de Tintim", pelo talentoso escritor e desenhista Georges Prosper Remi (mais conhecido como Hergé), queria escrever um pouco sobre o quadrinho e, também, sobre desenho; uma vez que eu mesmo tive primeiro contato com o desenho, que passava na TV Cultura, antes de ler qualquer um dos quadrinhos. Devo admitir que sempre fui muito fã do personagem - que inclusive é um símbolo para os estudantes de jornalismo. Mas após a viagem fiquei ainda mais encantado. Como escritor, preciso dizer que é um prazer enorme você poder ver de perto como um personagem criado por alguém pode ter um impacto tão grande na cultura de um país (o mesmo aconteceu quando visitei o museu de Sherlock Holmes, em Londres). Acho que é um sonho para todos nós, que criamos nossos personagens, vê-los ter tal importância cultural um dia.


Na minha estadia em Bruxelas, fiz uma visita ao Museu de Histórias em Quadrinho. Não é uma instalação gigantesca (embora seja bem grande e estruturada), mas é realmente muito interessante ver um museu inteiro dedicado a um assunto que no Brasil é, na maioria das vezes, colocado de lado. Ainda mais interessante é ver tal museu ser apontado como um dos pontos turísticos da cidade. Mais uma vez, isso se deve ao Tintim, que é visto quase como um herói nacional.

Antes de falar sobre os aspectos de construção de personagem que me chamaram a atenção na visita, entretanto, gostaria de falar um pouquinho sobre o museu. Basicamente, sobre o acervo. Agora não lembro exatamente, mas eles foram capazes de juntar, se não me engano, mais 2 mil páginas de quadrinhos diversos, que incluem as obras de Hergé; embora fiquem em exposição apenas algumas obras. Assim, sempre que se vai ao museu, pode-se observar novas páginas, já que há um revezamento entre elas. O prédio também é muito interessante, todo em Art Noveau, muito bonito.

A construção possui três andares. No térreo há um restaurante e também algumas informanções sobre Art Nouveau, assim como reconstruções de objetos clássicos dos quadrinhos, como o foguete das histórias do Tintim, estátuas de Smurfs, carros e etc.. No segundo andar, há uma sala que passa desenhos (quadrinhos que foram animados), além de uma série de pequenos estandes que mostram todo o processo de produção de uma história em quadrinhos, dos primeiros rascunhos à distribuição. No último andar, dedica-se o espaço aos autores e às suas histórias. Ali, pode-se  ver algumas páginas dos maiores autores belgas, assim como objetos criados que foram inspirados nos livros. Enfim, é uma visita rápida, porém muito interessante, ainda mais para quem gosta do assunto.



Agora, volto-me à questão da criação de personagens. Naturalmente, ao me deparar com o alcance que o Tintim tem na própria cultura belga, e na sua forte presença em âmbito mundial, fiquei pensando nesta questão dos personagens: como uma criação bem-feita pode realmente se conectar com as pessoas. E sobre este aspecto: há informações no museu, sobre o próprio Tintim e também sobre outros membros das histórias, como o capitão Haddock e o Professor Girassol.

A intenção de Hergé quando criou o seu personagem principal era a de que ele pudesse ser alguém que tivesse a capacidade de se conectar com todas as pessoas. Por isso, os traços de seu desenho, se repararem, são bem leves, quase sem marcações que indiquem emoção. Assim, qualquer um poderia ser Tintim (se colocar em seu lugar), do mesmo modo que Tintim poderia ser qualquer um (por isso, poderia se disfarçar de qualquer coisa: árabe, chinês, marujo e etc...). Além disso, o rosto sem tantas expressões possuía a intenção de gerar um processo catártico. Quem coloca os sentimentos em Tintim é o próprio leitor, dando a ele suas próprias emoções.

Para balancear este fator, foi criado o Capitão Haddock - e por isso sua grande importância para a história. Ele é o oposto de Tintim. Ele tem sempre suas emoções em erupção, o que justifica seus sucessivos ataques de raiva e os traços pesados em seu rosto. É o capitão que traz aquilo que, de algum modo, poderia faltar ao personagem principal.

Já o professor Girassol tem uma importância, além de cômica (também desempenhada pelo Capitão), para uma boa parte das tramas. Muitas das aventuras de Tintim acontecem justamente pela intervenção do professor; seja por causa de uma de suas descobertas, por ele estar em perigo ou por ele trazer uma nova informação à trama.

Temos também os detetives Dupond e Dupont. Estes aparecem o tempo todo - e exercem um papel basicamente cômico na história, além de serem responsáveis por trazer algumas novas informações importantes a Tintim. São a conexão com a polícia que seria necessária a um repórter investigativo, que normalmente resolve os casos em que se mete, como um detetive.

Por último, mas não menos importante, há Milu - amigo inseparável de Tintim, seu cachorro. Nos quadrinhos, há uma vantagem em relação à maioria dos episódios levados às telas como desenho. Neles, de vez em quando, existem momentos em que Hergé descreve os pensamentos de Milu, o que muitas vezes é engraçado e interessante. Entretanto, a grande importância do cachorro para a história não é essa. Em grande parte do tempo, ele é também o herói. Em muitas das aventuras, é Milu quem salva Tintim - e quem é parte essencial para a resolução dos mistérios.

Enfim, há toda uma teia muito bem construída que permitiu a Hergé criar um sucesso do tamanho de "As aventuras de Tintim". Achei interessante dividir as informações no blog, pois creio que, observando exemplos como estes, podemos evoluir também como autores. Claro que, em meio escrito, não há a possibilidade de se dar características aos personagens por meio de traços de desenhos, como no rosto de Tintim e Haddock, mas perceber as intenções por trás daquilo que o autor fez é importante. Isso nos fará também refletir sobre os detalhes das nossas criações - e perceber a importância que os personagens auxiliares devem ter.

Como sempre, espero que tenham gostado das informações e que elas sejam úteis. E, se um dia passarem pela Bélgica, não deixem de dar uma olhadinha do Museu, é coisa rápida!

5 Comentários:

Paul Law

Leonardo, sua explicaçãosobre as emoções e o processo para incorporá-las ao personagem são eficientes. Nunca tinha percebido o motivo do traço de Tintim ser ão simples. Que o desenho é mágico isso é.

Também sou fã de hqs. Reparo que são os personagens bem construídos; com passado marcante ou personalidade original que se destacam.

Um abraço.

marcos nunes

Agora o desagradável (desculpas antecipadas!): Hergé criou Tintim motivado por razões ideológicas, de propaganda anticomunista. Seu primeiro livro foi Tintim no País dos Sovietes, em 1929. Além disso, temos também a justificação do processo de colonização em Tintim no Congo, extremamente racista, e que simplesmente se esquece do genocídio praticado pelos belgas no país, literariamente abordado por Joseph Conrad em O Coração nas Trevas.

Tudo bem gostar do Tintim. Mas é importante também ressaltar os aspectos menos meritórios da criação de Hergé.

Por maior que se demonstrasse, já na época, o fiasco que redundou o processo revolucionário russo, por "n" razões, a defesa do imperialismo colonizador e genocida, com tinturas de um racismo abjeto, não pode ser esquecida.

É parte importante no processo artístico, de criação e abordagem do personagem que, principalmente por expressar um orgulho nacionalista reacionário e racista, é cultuado na Bélgica, que é um péssimo exemplo de país desenvolvido: toda sua riqueza se deve à ocupação do Congo, mesmo depois da independência do país africano, que ficou sob a esfera política e dominação econômica dos antes colonizadores.

O traço pouco distintivo de Tintim, conforme você mencionou, serviu justamente para isso: cada belga podia se ver como Tintim, fundindo assim o individualismo com o nacionalismo eivado por doutrina política demagógica e populista.

Uma das páginas mais tristes da história da humanidade, que tem páginas tristes à beça.

Luan Augusto

Para falar a verdade, não me lembro de ter ouvido falar dessa HQ, embora tenha reconhecido o rosto de Tintim. A respeito dos traços simples do protagonista, em literatura até é possível usar descrições vagas para que a pessoa imagine quem ela quiser no lugar da personagem. Mas deixar as emoções meio vagas, quase evanescentes, não dá, fica muito superficial.

Leonardo Schabbach

É uma história em quadrinhos antiga, não tem nada a ver com as americanas, por exemplo. É no mesmo estilo, em termos de formato e etc..., da do Asterix.

Maioria do pessoal da minha idade conheceu a história primeiro pelo desenho que passava na Cultura. Eu tenho o box com todos os episódios.

Ivana Maria

Bom, não tenho muito a falar sobre o personagem, apenas agradeço a todos por dividirem os seus conhecimentos a respeito, o que enriquecem os nossos. Porém, aproveito a deixa, educadora infantil que sou, para falar de um personagem que infelizmente faz muito sucesso entre as crianças, estou me referindo ao PICA-PAU. Um personagem extramente agressivo e antisocial, que não serve em nada para bom exemplo das nossas crianças. Um abraço a todos.

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