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Ficção e Realidade: observações sobre "A Ilha das Flores"

em 6 de abr de 2011.

O principal foco das minhas pesquisas no mestrado - e desde a época da graduação - foi a questão entre ficção e realidade; ou melhor, a possibilidade de a ficção criar hoje realidades ficcionais que nos façam refletir sobre o mundo em que vivemos. Por este motivo, gostaria de mostrar para o pessoal que acompanha o blog um curta excelente, de 1989, de Jorge Furtado. Trata-se de uma espécie de documentário reflexivo, que tem o intuito justamente de fazer as pessoas refletirem sobre o papel do próprio documentário, que normalmente tem uma mística de trazer aos espectadores a realidade. No entanto, como quem trabalha com o meio sabe, há uma série de técnicas (narração em OFF, técnicas para entrevista e etc...) que são utilizadas de modo a transmitir ao espectador uma sensação de verdade, de que aquilo que estão vendo é verdadeiro; isto é, tenta-se passar a impressão de que não há a interferência de quem produz o documentário naquilo que é "observado".

Mas "A Ilha das Flores" vai além, trazendo uma crítica profunda sobre a sociedade - não é à toa que foi um curta muito premiado, inclusive internacionalmente. O filme tem um caráter peculiar interessante, que, na minha opinião, o desqualifica como documentário e o põe como ficção; uma ficção reflexiva, claro, mas ainda assim uma obra de caráter ficcional. Entretanto, deixarei para falar disso mais adiante, pois espero que as pessoas vejam o vídeo (que será colocado logo abaixo) antes de continuarem a ler o texto.

Tenho certeza de que irão gostar do curta. É um filme rápido e muito engraçado, embora termine com um aspecto mais dramático, justamente com o intuito de causar reflexão. Antes disso, entretanto, são utilizadas várias técnicas (como uma narração - de Paulo José - muito exagerada em seu caráter informativo e cheia de obviedades) que causam certo humor, uma vez que desmistificam características clássicas do cinema documentário. Enfim, confiram o vídeo abaixo, vale a pena, e depois sigam a leitura do texto:



Como eu falei anteriormente, para mim o filme tem caráter ficcional pelo fato de que o único ponto real em todo o documentário é "A Ilha das Flores". Todavia, mesmo este ponto não é tão verdadeiro assim. O lixão que aparece no filme não se localiza exatamente na Ilha das Flores, mas na Ilha dos Marinheiros no Rio Guaíba. Além disso, os vegetais levados pelas pessoas presentes no filme não são aqueles que foram descartados para os porcos; isso foi uma roteirização feita por Jorge Furtado, em cima de aspectos de uma realidade verdadeira. Os alimentos não são os que foram rejeitados pelos porcos, mas ainda assim a população retira o seu sustento do lixão, dos alimentos que foram jogados fora.

Vale lembrar que o próprio filme não se pretende verdadeiro (os dizeres em seu início são claramente uma ironia). Não se trata mesmo de um documentário que retrata a vida daquele local, mas uma demonstração de como é o funcionamento da sociedade capitalista, onde só é "gente" quem tem dinheiro. É um documentário que evidencia uma realidade social, e que nos traz a reflexão. No entanto, é uma obra ficcional; o que nos mostra, uma vez mais, como na atualidade a ficção se confunde, com cada vez mais frequência, com a realidade e pode provocar tanto processos mais alienantes (de manutenção do status social) quanto processos reflexivos, como os presentes na obra de Jorge Furtado.

6 Comentários:

Paul Law

Entendo o que você quer dizer com as técnicas de deixar o documentário com aspecto realista. Não faz muitos dias assisti ao documentário que relata a história do menino Sandro aí do Rio. Aquele que sequestrou um ônibus. As técnicas empregadas da produção são fantásticas para prender quem assiste.

Um abraço.

marcos nunes

Vi este curta a primeira vez há muito, muito tempo, lá no começo dos anos 90 ou fim dos anos 80 (como se lembrar exatamente quando?). Era um dos primeiros exemplares do que depois tornou-se regra geral: embaralhar as cartas da realidade com a ficção, para mostrar, entre outras coisas, que ambas não se confundem: são, em si, a mesma coisa, pois toda realidade aos olhos humanos corresponde à perspectiva daqueles que olham, cada um submetidos ás idéias que, sendo deles, na verdade são compartilhadas com todos dentro de um espectro ideológico afim à classe social a que cada um pertence, onde mora, qual sua formação (como forjou suas preferências e a quais bens materiais e culturais teve acesso).

Por isso o curta é finalizado com um poema de Cecília Meirelles sobre a Liberdade, "...essa palavra que o sonho humano alimenta que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda...", como elemento da linguagem fundador de uma ideologia que produz justamente a desigualdade na formação dos papéis sociais e valores sobretudo (ou a princípio) monetários, quando se caracteriza como símbolo de algo que, posto em dúvida, existe alhures, e não pode ser apropriado e posteriormente inserido no campos de normas sociais, uma vez que a liberdade é matéria de sonho. O que é uma criação, uma visão, uma ficção, enfim, serve como álibi para execução de um programa político real, onde a primeira vítima é justamente o sonho, a liberdade, cerceada pelo regime de propriedade, controlada pelo acesso das pessoas aos bens necessários à vida ou à mera sobrevivência.

É importante que você tenha trazido novamente à baila esse pequeno curta, tão importante na formação daqueles que o viram há uma ou duas décadas atrás, e hoje não é mais conhecido pelos jovens, ainda mais porque não há mais obrigatoriedade de exibição de curtas antes dos filmes comerciais, e o universo virtual privilegia as pequenas curiosidades, os lances de humor pastelão, o “celebritarismo”, visando sempre o “entretenimento” (essa forma sutil de doutrinação conformista) e não a reflexão sobre as tensões entre as versões e os fatos em um universo sob diversos tipos de controle de conteúdo, desde as mercadorias expostas no supermercado até as informações manipuladas para satisfação de diferentes projetos de poder.

Desculpe pelo comentário extenso em demasia. Depois dessa, vou encher o saco da Rachel para publicá-lo no blog dela também, e ajudar a “redivulgar” Ilha das Flores.

Leonardo Schabbach

Nada, o comentário é bom, traz uma perspectiva de quem o viu ser lançado, traz mais reflexões também, que foi a idéia mesmo da postagem, fazer o pessoal discutir.

Sobre o que falou entre realidade e ficção serem vistos como a mesma coisa, ou serem a mesma coisa, é justamente o tema de todas as minhas pesquisas, hehe.

Silvania Copa Santos

Já comentei...tenho alguns conteúdos prontos, faz tempo, mas só agora, pensei em mandar para u editora. Me informe, se ainda existem aquelas exigências ( de quando a gente usava a boa e velha máquina de escrever e as editoras exigiam coisas tais como espaço dois, lateral dom !X! de centímetros, etc , ou a gente manda o conteúdo e a própria editora redefine o formato . Parece meio infantil e sem lógica esse questionamento, mas me atenho muito ao conteúdo, que nunca me prendi ao lay out. Agradeço informações. Grata

Leonardo Schabbach

Então Silvania, isso você terá que ver no site de cada editora. Em geral, as que aceitam originais tem um local no site que informa como eles querem recebê-los em termos de formatação. Por isso, veja caso por caso.

Agora, atualmente o mercado brasileiro tem melhorado em alguns aspectos quanto aos agentes literários. Muito mais editoras, hoje, aceitam apenas originais vindos de agentes ou agências.

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