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De onde vem a inspiração?

em 03/06/2011.
A postagem de hoje faço em cima de um poema de Vinícius de Moraes. Quem acompanha o blog, deve ter me visto citá-lo uma ou duas vezes. Não é uma poesia super complexa, nem muito grande, mas é bem significativa. Inclusive, de uma maneira geral, são assim os poemas de Vinicius. Simples, com uma musicalidade e ritmo extremamente agradáveis e com belas mensagens; trata-se realmente de um talento único.

O texto de hoje e o poema que quero destacar falam um pouco daquilo que eu abordei na postagem Como lidar com o bloqueio criativo. Vejam o poema:


A Um Passarinho

Para que vieste
Na minha janela
Meter o nariz?
Se foi por um verso
Não sou mais poeta
Ando tão feliz!
Se é para uma prosa
Não sou Anchieta
Nem venho de Assis.

Deixa-te de histórias
Some-te daqui!


Fica clara a mensagem transmitida pelo poeta aqui. A poesia, neste eu-lírico, viria exatamente dos momentos de melancolia ou tristeza, daquelas horas em que é necessário expor em versos sentimentos difíceis de serem racionalizados. Talvez o próprio Vinícius trabalhasse assim.

Acho que é um poema muito interessante, por trazer à tona parte da discussão que já coloquei aqui anteriormente. De onde cada escritor retira sua inspiração? De momentos tristes? De momentos felizes? E por que não questionar se ela existe? João Cabral dizia que um bom poema, para ele, se fazia com muito mais transpiração do que inspiração.

Enfim, é uma questão complicada, eu mesmo não saberia dizer. Muitas vezes, racionalmente, afirmo que não há algo como uma inspiração. É preciso que sentemos e nos coloquemos a produzir. Outras vezes, há poemas que vêm com tanta facilidade, tão de repente, que é difícil negar a existência de um processo, não necessariamente etéreo, que nos empurra ao poema.

Eu, basicamente, acredito que a inspiração vem da experiência. Quanto mais pessoas conheço - e quanto mais interessantes forem -, quanto mais situações me aparecem, quanto mais locais eu visito, mais idéias surgem, praticamente em qualquer lugar. Portanto, acho que é essa experiência, a vida, que se transforma em literatura. E se estivermos atentos aos detalhes, podem surgir poemas "do nada" e "já prontos" na nossa cabeça, tudo porque nós já estávamos observando e pensando nos versos sem perceber. Ao menos acho que o meu processo passa um pouco por aí.

Por fim, para quem nunca viu, deixo um poeminha engraçado que fiz sobre Inspiração já faz um tempo.

Inspiração

A inspiração entrou pela janela
assim que decidi tomar um ar.
Sentei e conversei com ela,
perguntei se podia me inspirar.

A tarefa, disse ela, é complicada,
me pediu dois bolinhos e um chá.
A noite foi, então veio a madrugada;
a inspiração e eu a conversar.

Metódica, do chá tomava um gole
a cada dois pedaços de bolinho.
É preciso primeiro matar a fome,
para depois descobrir o seu caminho.

Gesticulava e com os gestos desenhava
poemas concretos, poemas-bastão,
como aqueles da química escolada;
fórmulas, carbonetos, combustão.

Me surpreendeu, também era matemática,
se transformou em números na minha frente.
Assustado, gritei "Senhora?" de repente,
ela virou-se para mim e disse "fática"!

Corri e rabisquei no meu caderno
ela leu e olhou com reprovação.
Tinha escrito poemas de inverno,
ela queria poemas de verão.

Irritado, a coloquei para fora,
ela nada tinha a ver com os meus poemas.
E hoje quando escrevo tenho problemas
por causa de uma inspiração que chora.

5 Comentários:

Ivana Maria

Achei tão graciosa essa poesia Inspiração! Creio ser esse um tema comum de reflexão entre os que ousam escrever as suas idéias e pensamentos. Não sei porque mas acho que a inspiração para poesias vêm menos na felicidade, creio que deve ser poque nesses instantes ao invés de escrevê-las estamos vivenciando-as. bjs

Maíra da Fonseca Ramos

Uns precisam da tristeza, outros, da alegria. Ainda bem que cada um é cada um... Gostei do teu poema!

marcos nunes

Penso que quando se escreve a inspiração vem de tudo, de todo lugar, envolta em todo tipo de sentimentos; se manifesta sempre, enquanto se caminha para o trabalho, se tom a café, se lè o jornal, se distrai quando passa a mulher bonita, se prende no farfalhar das folhas dum arbusto ou duma árvore; inspiração não falta enquanto não falta viver; só mesmo quando as tarefas do dia são pesadas, cansativas, repetitivas, massacrantes, a inspiração foge; daí porque a inspiração é uma flor do ócio, o ócio de um minuto ou de uma hora, o ócio que permite a contemplação de tudo e de si mesmo para que tudo se consagre numa linha, numa página, num poema, num conto, romance, tese. A inspiração, em suma, é inerente ao viver: sem inspiração não há vida e vice-versa, por mais que a vida nos embruteça, nos aparvalhe, nos devore.

Natan

Concordo com você. Acho que a experiência é a principal fonte de inspiração. Seja por situações que vivemos, ou livros que lemos ou filmes que assistimos, toda inspiração tem uma fonte.
É claro que a criatividade existe também, e não podemos negá-la. Contudo, até na criação de algo totalmente novo, percebemos detalhes que são inspirados por nossa mente, dada alguma experiência que tenhamos vivido. A pura criação é algo dificílimo, mas quando ocorre, conta diretamente com a inspiração de alguma fonte.

Olhares não me dizem nada

acredito que não há algo como uma inspiração em si, creio que o que impulsiona muitos escritores a aflorarem belos sentimentos e coloca-los em papel de forma mágica não é vivência de vida, mas sim A PERCEPÇÃO QUE TEMOS DE MUNDO. uma linda flor pode estar ali debaixo de seu nariz e ao olhar para ela muitos não sentem nada, porém, outros, sensibilizam-se com sua beleza e percebem nela algo que os emociona, entristece ou causa melancolia, despertando sensações e comportamentos criativos.

Creio nisso, inspiração está em tudo, mas são poucos que conseguem ter percepção para encontra-la, as vezes chegamos ao fim da vida, sem nunca provarmos do doce sabor da inspiração pois nunca paramos para perceber o mundo a nossa volta.

Adorei a postagem, ficaria honrado em compartilhar os textos de de meu blog com vcs.

http://brechadoolhar.blogspot.com/

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