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Por que Harry Potter se tornou um sucesso mundial?

em 1 de ago de 2011.

Talvez precisar as razões pelas quais um livro se torna um sucesso absoluto, como aconteceu com Harry Potter, seja uma das tarefas mais complicadas de se realizar; tanto para editores, como para críticos e teóricos. Como meus estudos se voltam justamente para a produção ficcional na pós-modernidade, eu tenho minha visão sobre o sucesso do livro.

Antes de se pensar se a narrativa é ou não é boa, se o livro possui ou não qualidade, é necessário ter uma outra concepção em mente. Para que uma obra alcance um sucesso do tamanho alcançado por Harry Potter, não basta que se tenha uma boa história, não basta que se tenha um grande autor. A realidade é: algo naquela trama, em alguma instância, conecta-se com a sociedade; dá as pessoas o que lhes falta.

Por este motivo, em minha opinião, grande parte do sucesso de Harry Potter ocorre pela história se tratar de uma obra tanto "moderna" como "pós-moderna". E logo explico o porquê.

Ficção e sociedade sempre andaram juntas. Quando paramos e analisamos com cuidado as produções ficcionais de cada período, notaremos como elas influenciam a sociedade (e como são por ela influenciadas). Acontece que, hoje, vivemos numa época conturbada e imprecisa. Muitos teóricos discutem se estamos em um período que pode ser ainda classificado como moderno, como modernidade tardia ou, então, como pós-modernidade. Eu sou adepto de, talvez, se falar em uma modernidade tardia, uma vez que o mundo, atualmente, é muito diversificado e, por isso, inclui, na vida de cada pessoa, características do que se chama “pós-modernidade” e também da modernidade. Há, além disso, diferenças sociais gritantes que colocam alguns grupos sociais mais ligados à modernidade, principalmente os com menos poder aquisitivo, e outros ao estilo de vida considerado "pós-moderno".

Logo, quando falo que Harry Potter é uma obra moderna e pós-moderna, indico que ele consegue abranger um público enorme, quase como se seu público-alvo pudesse incluir todas as faixas-etárias, de uma gama incrível de países e de culturas também.

Para que fique mais claro, irei falar um pouco de como o homem moderno se relacionava com a ficção. Neste período histórico, viveu-se o ápice da expansão científica. Era uma época em que novas máquinas surgiam o tempo inteiro, as cidades se expandiam, as descobertas se multiplicavam. Tudo era ciência e evolução. Ao mesmo tempo, tinha-se uma sociedade que prezava pela civilidade. Havia uma série de regras comportamentais que deveriam ser seguidas para que se pudesse evoluir com segurança. Daí surgiu o ideal de se expandir a civilização, de se educar, no Brasil, por exemplo, os diversos povos indígenas, aqueles considerados “bárbaros”.

Enfim, na modernidade, como afirmou Freud, trocou-se um pouco da liberdade por segurança. As mulheres abriam mão das possibilidades de lutar por direitos no trabalho e de competir com os homens para ter uma vida financeiramente segura através de um casamento. Os homens, por sua vez, sempre buscavam as carreiras tradicionais, como direito, medicina e engenharia, mesmo que isso não respondesse aos seus anseios, por saberem que tais carreiras lhes garantiriam um futuro seguro. Ou seja, as pessoas abriam mão de experimentar o novo e de muitas outras possibilidades em função de ter uma vida mais certa, de ter um futuro garantido.

Por todos esses motivos, a ficção funcionava, como ainda funciona, como uma válvula de escape. As pessoas procuravam nas aventuras ficcionais por histórias em que pudessem viver aquilo que não podiam na vida real. Era justamente nos universos ficcionais que eles podiam ter toda a liberdade de que se privavam em seu cotidiano.

De modo oposto a isso, colocas-se a relação do homem com a ficção na pós-modernidade. Hoje, vivemos a época da liberdade total. Quer se absorver o máximo de informações, quer se experienciar o máximo de sensações, explorar cada uma das possibilidades que se colocam diante de nós. Neste cenário, como nos aponta Bauman, trocou-se uma pouco de segurança por um pouco de liberdade. E embora tenhamos uma série de sensações a serem vivenciadas e escolhas a serem feitas, poucos são os caminhos que podem ser considerados seguros. Mesmo caminhos que antes eram bem certos (como as carreiras citadas logo acima) já não o são. As próprias relações sociais, as construções de identidades também já não são tão simples. Em meio a uma quantidade enorme de escolhas, é difícil para as pessoas definir aquilo que realmente pretendem seguir, aquilo que realmente são, aquilo que, enfim, lhes trará felicidade.

Nota-se, então, com alguma facilidade, as razões pelas quais livros de auto-ajuda e comédias românticas têm alcançado um sucesso cada vez maior. Os primeiros justamente dão às pessoas aquilo de que elas necessitam: “caminhos seguros a serem seguidos; fórmulas para o sucesso certo”. Já as comédias românticas transmitem aquela sensação de segurança que o mundo real já não mais nos proporciona; aquela certeza de que, apesar de tudo, apesar de todas as dificuldades, tudo terminará bem.

Harry Potter possui também esta característica – assim como os atrativos das histórias modernas. Ele serve como uma válvula de escape num sentido de levar as pessoas a um mundo mágico, livre, e muito diferente do nosso, de fazê-las embarcar em uma aventura não possível em seus cotidianos, ao mesmo tempo em que apresenta relações profundas entre os personagens, relações sociais. Harry sempre enfrenta, além de suas aventuras, questões de popularidade dentro do colégio (que muitas vezes afligem também os leitores), assim como (mais para o quarto livro) questões amorosas. Isto é, a obra, além de ter toda a sua veia de aventura, de liberdade, também traz as relações pessoais, dá aquela mesma segurança fornecida, por exemplo, por comédias românticas - embora não tenha nada a ver com uma, que fique claro.

De alguma forma, esses mesmo motivos para o sucesso de uma obra como Harry Potter podem ser dados para o de uma série como Crepúsculo, que tem basicamente as mesmas características (e com um foco ainda maior na parte “pós-moderna” das relações sociais; de identidade, popularidade e romance).

Enfim, sei que o texto ficou meio grande, mas esta é uma teoria que venho desenvolvendo tem algum tempo e que queria dividir com vocês. Claro que não tive muito como defender com grande afinco os argumentos, não pude explicá-los mais profundamente, para não deixar o texto excessivamente grande e pesado.

Aproveito para dizer também que gosto muito da série Harry Potter – e por isso mesmo tive vontade de fazer uma análise de seu sucesso por um prisma social.

13 Comentários:

Carol

Fique à vontade para escrever um texto grande. E realmente gostaria de entender seus argumentos com mais profundidade.
Além disso, fãs de Harry Potter adoram argumentar e tamanho de texto não é problema depois de 7 livros. =]

Leonardo Schabbach

Legal. Pois é, tentei explicar ao máximo possível, porque isso normalmente levaria algumas páginas de word. Mas acho que deu para entender essa capacidade do livro de responder aos anseios modernos e pós-modernos, o que o torna um livro atrativo a todos os gostos praticamente.

Ele permite que as pessoas tenham uma liberdade que não podem experimentar no cotidiano (magia, voar, participar das aventuras), assim como traz questões existenciais, brigas com outros jovens, questões amorosas, questões de ser afastado pelo grupo (como no segundo livro - e outros). Nesse aspecto ele responde aos anseios pós-modernos, especialmente maiores no pessoal mais novo; que incluem a questão da construção de identidade, popularidade e etc...

marcos nunes

Texto interessante. Destaco a questão da discussão acerca do status do contemporâneo: moderno, pós-moderno, modernidade tardia. Penso que o que mais caracteriza o mundo nos tempos que correm é sua condição pós-industrial, com o desenvolvimento da robótica e a transferência do trabalho humano para o setor de serviços. Isso caracterizaria uma mudança de paradigma, sem, contudo, caracterizar uma mudança de “tempo”, mas apenas sua continuidade, daí porque o termo modernidade tardia seria mais correto, se não fosse, contudo, também insuficiente, embora pós-moderno não seja cabível, pois permanecem os conflitos de poder entre classes e divisões hierárquicas arbitrárias, seja com pauta na “nobreza” ou tão somente no controle do capital.

Não vejo, assim, que tenhamos trocado “um pouco de segurança por um pouco de liberdade”, mas sim uma segurança ilusória por uma baita insegurança, o que cria uma tremenda contradição entre a miríade de escolhas possíveis e a experimentação plena da vida, diante da precariedade de qualquer opção, sua baixa remuneração e o enorme contingente de pessoas que vão se capacitando para exercício das mesmas funções sociais ou mesmo trabalho artístico, daí que, para o êxito pessoal, o passado está mais presente do que nunca, com as velhas mecânicas do compadrio azeitando a eletrônica da virtualidade que rende a visibilidade nesse estranho mundo em que todos são anônimos e famosos ao mesmo tempo.

Daí que a série de livros em questão, na verdade, apenas reutiliza fórmulas, tais como o binômio winners versus losers e outros dualismos simplificadores das complexas relações sociais, compatíveis às abordagens dos livros de autoajuda - “caminhos seguros a serem seguidos; fórmulas para o sucesso certo” – que remetem às velhas opções de carreiras “seguras” – engenharia, medicina, direito... – surgindo, como contrapeso ao realismo, a solução mágica (logo, impossível) para os problemas. Ou seja, diante da insegurança em meio a uma “liberdade” meramente ilusória, o livro oferece a mesma “válvula de escape” de todos os super-heróis de antigamente, como o Super-Homem, criado justamente para fazer face à Grande Depressão dos anos 30, em que as pessoas sonhavam com uma inexistente super-potência para superar a perplexidade diante do mundo que se desfazia diante de seus olhos.

Aí entra Harry Potter. Como o capitalismo tardio é o regime produtivo que ultrapassou as crises cíclicas para cair na... crise permanente, a leitura dos livros do “mago” remetem às esperanças descabidas que cada um alimenta na própria vida; ou isso ou, como disseram “As Cobras” futuristas do Veríssimo, o “Grande deus Lotto, capaz de alterar o destino de todas as coisas”. Potter é, assim, tal qual um livro de autoajuda, alívio para a impotência que prefere a ilusão à reflexão sobre os descaminhos dos fatos que não produzem mais oportunidades de prosperidade, mas apenas insegurança em carreiras frágeis, virtuais, ou, como quer Bauman, líquidas. Em paralelo, para melhor identificação com os “simples mortais”, Harry partilha das mesmas simples preocupações da aceitação social, inserção em um grupo, aceitação de seus afetos, ruminações acerca do passado e angústias diante do quadro de futuro que se apresenta. É alguém em quem o leitor passa a confiar por empatia, pois nele se vê, demagogicamente, retratado em seus traços de “jovem e homem comum”, com esperanças e possibilidades mágicas que oferecem novas oportunidades e horizontes antes impensáveis.

Ficamos assim presos nas contradições do capitalismo tardio, que nos apresenta o mundo maravilhoso das novas tecnologias, mas, em paralelo, o mundo assustador do desemprego e da perpetuação da precariedade de todas as coisas e relações existentes. Haja mago para resolver isso.

Michel Filipe

Gostei da matéria, Leo!
Eu amo Harry Potter. Eu conheci o Harry através do filme. Mas o filme nunca me cativou o bastante, só aprendi a gostar mesmo quando li o primeiro livro da série.(E nisso já estavam fazendo a filmagem do sexto filme)

Era uma mistura de livro de ficção com trama policial que não pude resistir. O modo como trabalhava a trama me impressionava, coisa que só acontecia quando lia os livros de Sherlock Holmes e da Agatha Christie.

Gostava da série também não como modo de refúgio, mas como inspiração. Não vejo Harry Potter como "tudo termina bem no final", mas como "para terminar bem você deve batalhar, engolir sapos, sempre aos trancos e barrancos viver cada dia para conseguir o que realmente quer".

O livro me ajudou bastante, tanto quanto pessoal quanto no dia a dia. O sucesso eminente de Rowling não sei dizer como foi, mas lendo a história de vida dela, acho que foi mais do que merecido.

Provando sim, que mesmo sendo a vida ruim, com muita força de vontade pode-se ter um final feliz.

J R

Adorei o texto, é triste que as palavras me escapem sempre, mas sempre que abro minha caixa de correio, fico esperando um destaque na Ponta Do Lápis. Sou fã da série, não sou capaz de fazer uma análise social, mas gosto dos aspectos psicológicos dos personagens, Dumbledore, os Elfos domésticos, uma menina estranha e os grandes feitiços que se misturam a natureza humana. Estes fatores me encantam na trama.

Leonardo Schabbach

Marcos como eu disse, eu gosto muito dos livros. Talvez seu comentário possa até não ser muito popular entre os fãs da série. Mas tenho que dizer. Perfeito! Excelente mesmo.

Por mais que eu goste muito da história, a grande aceitação social vai muito por isso tudo o que você falou mesmo, por mais terrível que pareça. Grande texto, grande texto mesmo.

E JR, valeu pelos elogios. Fico muito feliz em saber que curte o blog. Espero que os textos continuem te agradando!!

marcos nunes

"Talvez seu comentário possa até não ser muito popular entre os fãs da série." Acho que não; conversava com um noutro dia em termos semelhantes, e ele concordou, mas simplesmente disse que continuaria a se interessar por Harry Potter e qualquer livro semelhante, pois o que buscava e continuando buscando na literatura não é a reflexão sobre os paradigmas sistêmicos (ok, ele não falou com essas palavras) mas um refresco das pressões do cotidiano e uma fuga para a frente descartando as utopias (por socialmente compromntidas) e investindo no delírio das soluções mágicas, mesmo colhendo cotidianamente as frustrações.

Leonardo Schabbach

É como eu falei: talvez. Esse comentário não necessariamente desmerece o livro, quem gosta continuará gostando. Eu gosto, acho legal, acho que traz novos leitores também. O que não pode é ler estritamente livros do tipo.

Mas é como eu falei, a ficção funciona como fuga mesmo, seja por quem busca liberdade, seja por quem busca certezas.

Veronica

Olá Leonardo,
infelizmente só vi seu post hoje - alias, só conheci seu site essa semana, pois foi quando comecei a pensar em investir na minha escrita e a pesquisar o assunto.
Achei bacana o texto e penso que valeria a pena explorar essa linha de raciocínio mais afundo, até porque acho que a análise do sucesso o Harry Potter pode ter mil e uma visadas.
Gostaria de inserir um novo elemento na análise, que penso ser fundamenal: o papel desempenhado pelos personagens. Vi que você citou Freud, e acredito que o Jung possa ser um intercessor interessante nesse tipo de reflexão. Independente de sua fama como místico, creio que ele foi muito perspicaz ao perceber a repetição de certos arquetipos nos mitos e folclore de diversos povos. Vale a pena conferir.

Leonardo Schabbach

Oi,

Veronica. O artigo faz parte do que eu estudo em Comunicação, então ter novos autores com que trabalhar, novas visões, é sempre bom. Parei um pouco com os estudos agora para me dedicar à literatura e ao meu livro que foi lançado.

Mas no início do ano que vem, vou retomá-los, para me preparar para o doutorado. Então, é sempre bom que nos indiquem outros caminhos.

Valeu pelo toque!

Anônimo

Acho que Harry Potter, sempre, foi uma massa que ocupa a lacuna deixada por uma infância ruim... Li, e recomendo a todos aqueles que procuram por uma porta para ingressar no mundo obsoleto e intelecto dos livros.

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