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Técnicas de narrativa: a inocência do personagem - ou como apresentar um novo mundo ao leitor

em 2 de ago de 2011.

Muitas vezes, quando pensamos em uma história, surge o seguinte problema – que, dependendo da trama, pode ser um enorme problema: como faço para apresentar o ambiente por mim criado, ou imaginado, ao leitor? Naturalmente, percebe-se que esta é uma questão ainda mais forte quando tratamos de ficção científica e de literatura fantástica; afinal, em ambos os gêneros, de uma maneira geral, é necessário se apresentar um mundo completamente diferente daquele no qual vivemos.

Surgem, então, inúmeras possibilidades para o autor; no entanto, a tarefa não é fácil. Como fazer esta apresentação de um modo que o leitor não se canse? Existem algumas técnicas. É possível, por exemplo, fazer igual a Aldous Huxley, no início de Admirável Mundo Novo, obra de ficção científica em que se inicia o texto com uma explicação sobre os modos de reprodução e graduação (quase em castas) dos seres humanos – tudo para já ambientar o leitor àquela história. Pode-se também fazer de um jeito mais brusco. A história se inicia com um personagem já envolvido naquele mundo, e o narrador aos poucos começa a explicar os detalhes.

Todavia, há uma técnica bem mais comum a este tipo de livro: tanto nos de fantasia quanto nos de ficção científica – e isso ocorre também no já citado Admirável Mundo Novo, um pouco mais para frente. Trata-se da utilização da inocência de um personagem para que o mundo diferente que pretende se retratar apareça. É, inclusive, a mesma técnica que apliquei no meu livro, O Código dos Cavaleiros (veja aqui três capítulos), por meio do Lino, personagem principal.

Vamos, então, a alguns exemplos para que tudo fique mais claro. Em O Hobbit, o escritor J.R.R. Tokien possui um mundo criado por ele muito rico em detalhes, porém seria complicado explicá-lo diretamente ao leitor, todo de uma vez, quase como numa enciclopédia. Por isso, ele escolhe para ser seu herói Bilbo Bolseiro, um Hobbit calmo e inocente, que mal conhece os detalhes daquele mundo. Deste modo, Tolkien pode, ao longo da aventura de Bilbo, apresentar com facilidade as facetas de sua criação, uma vez que o personagem é inocente e também não conhece os detalhes da Terra-Média. O leitor, junto com Bilbo, irá conhecer aquele mundo. Ou seja, o autor utiliza o desconhecimento do personagem para apresentar seu universo ficcional. O pequeno Hobbit é quase como um personagem neutro, utilizado para dar a visão do narrador, que precisa revelar, pouco a pouco, o mundo em que se passa a história. Se repararem, o mesmo acontece em O Senhor dos Anéis, mas desta vez pelo olhar também inocente de Frodo Bolseiro.

Em Viagem ao Centro da Terra, de Júlio Verne, ele também opta por um personagem inocente, Axel, para que as teorias do Professor Lidenbrock sobre uma possível viagem ao centro da terra sejam explicadas. E durante toda a trama, é Axel quem se pergunta exatamente o que se passa a cada momento, recebendo, então, a resposta do Professor ou de suas próprias observações. Nesta obra, as revelações se dão muito mais por meio de diálogo, porém, do que pela narração – algo um pouco contrário ao método de O Senhor dos Anéis.

E, mais recentemente, por que não citar Harry Potter? Um menino, que até os onze anos de idade nada sabia sequer sobre a existência da magia e do mundo dos bruxos, é convidado a comparecer a Hogwarts. Ele, assim como nós, leitores, então se depara com uma série de coisas desconhecidas, com uma série de criaturas mágicas, aventuras e pessoas novas e fantásticas. Harry Potter, especialmente nos primeiros livros, desbrava aquele mundo mágico novo junto com o leitor – e a narradora se utiliza dele para apresentar tudo aquilo que havia criado.

Enfim, creio que poderia dar ainda muitos outros exemplos, tanto na literatura fantástica como na ficção científica, mas imagino que todos tenham já notado a técnica que eu pretendia apresentar. Especialmente para aqueles envolvidos com os gêneros citados, vale muito prestar atenção nisso. Muitas vezes aplicamos a técnica até de maneira instintiva, mas é bom saber que ela existe e pensar em como usá-la com precisão.

E mesmo em sua aplicação, há variações. Como já citei anteriormente, às vezes a carga de apresentação se dá mais pela forma de narrativa, às vezes mais pelo diálogo – e outras vezes, claro, por uma mistura entre ambas.

Bom, espero que tenham gostado da dica e do texto – e se tiverem coisas a acrescentar, por favor, sintam-se sempre convidados a comentar!

9 Comentários:

Luiz Teodosio

Estou passando justamente por essa dificuldade em apresentar os elementos do meu mundo sem sobrecarregar o leitor, e até pedirei para alguém lê-lo apenas para saber se não está muito pesado. Eu também prefiro ir adicionando as caracteristicas do mundo aos poucos, para o leitor inalar a história com leveza. Eu não uso exatamente personagens inocentes, mas procuro forçar algumas brechas em algumas cenas para que uma explicação se encaixe de forma natural. Minha protagonista é uma adolescente, como é pouco ciente do próprio mundo onde vive, isso facilita demais quando eu for apresentar algumas coisas; o que a faz realmente "inocente", no final das contas. rsrs.
Existem livros que possuem um Glossário ou um tipo de Enciclopédia nas últimas páginas - como eu vi em "Duna" -, e confessso que, se a história for muito complexa, um glossário seria um guia e tanto. Quando não o tiver, acho muito importante que o autor divulgue algumas informações extras em um site ou blog para refrescar a mente do leitor quando este possuí dúvidas.

Paul Law

Muito útil sua reflexão sobre os modos de apresentar o mundo novo para os leitores. Nunca tinha prestado atenção nestas técnicas, apesar de utilizá-las involuntáriamente. Com olhos atentos podemos aprender mais. Um abraço, Leonardo.

Leonardo Schabbach

Luiz legal que você já viu o texto e comentou. Assim que escrevi pensei que você poderia ser um dos interessados. Ia até te mandar o link via twitter. Mas vejo que você já apareceu por aqui, hehehe =)

Fernando Heinrich

Olá, Leo! Gostei bastante do tema abordado! Particularmente gosto de misturar, nas falas e na narrativa, a descrição do ambiente. Vejo que é importante tudo ocorrer gradativamente, para que as informações não sejam apresentadas de uma única vez ao leitor, mas aos poucos, à medida que o personagem vive cada momento e passa por situações variadas. Então, o personagem que detém o PDV vai nos mostrando de que forma aquele ambiente o influencia. Isso marca bastante o cenário. E não apenas o que foi descrito, mas muitos outros elementos automaticamente se formam na mente do leitor, situando na sua imaginação o personagem e um grande mundo, rico em detalhes que até mesmo não haviam sido mencionados diretamente. Um grande abraço, Leo e parabéns pelo tópico! =D

Aline Nardi

Que artigo bacana. Gostei bastante. É sempre surpreendente ver como a produção literária no Brasil caminha a passos largos, ao contrário dos discursos de que não temos leitores.
Acho bastante interessante essa proliferação de editoras novas oportunizando a entrada destes novos autores ao mercado. Feroz, claro. Eu sou uma dessas.
Não escrevo literatura fantástica nem ficção científica, mas apresento meu mundo e a crítica deste mundo ao meu leitor de forma gradual. Através de diálogos, situações, de certa forma, de um modo brusco, como você mesmo falou. Às vezes inicio no meio de uma acontecimento e retorno ou no meio de um diálogo mesmo, aí o leitor tem que pegar o bonde andando e se situar..rs.
No meu romance recém lançado, eu recebi alguns retornos de leitores que me informaram que os cortes de espaço-tempo que eu fiz ou a intromissão das duas narradoras confundiam um pouco, mas era uma questão de entender a cadência da história. Eu fico encantada quando um leitor opina sobre minha história de forma crítica, foi bem assim que um deles colocou sua opinião.
Leo, parabéns pelo espaço e por acreditar na nossa literatura.
Abraços!

Leonardo Schabbach

Legal, Aline. Muito legal saber um pouco de sua experiência. Com certeza ajuda a todos.

E Fernando, geralmente é por aí mesmo. Acho que esse seu método vai bem de encontro ao que eu falava, de usarmos os personagens quase como ferramentas para o narrador mostrar seu mundo pouco a pouco! =)

Anônimo

Adorei este artigo. Eu estou tendo dificuldade para conseguir essa apresentação de um mundo novo em meu livro, mas depois da sua ajuda acho que vou dar uma relida e reler novamente se necessário. Obrigada mesmo.

Isie Fernandes

Adorei, simplesmente! Sou bastante imatura quando o tema é literatura fantástica, mas entrei numa experiência e me empolguei. Estou no décimo sétimo capítulo de um romance que mistura os dois estilos aqui abordados - por se passar em nosso mundo, classifiquei como Realismo Fantástico. Até agora, nada de muito significativo, nesse sentido, aconteceu. Os personagens estão apresentando suas habilidades de modo paulatino, tanto por meio dos diálogos, quanto das descrições. No geral, quando algo fora do comum ocorre, o personagem central narra o motivo - sempre parte de alguma ação interior dele. Mais adiante, quando sua anomalia for revelada, os porquês serão explicados através dos diálogos e, especialmente, da ação dos antagonistas.

Foi muito bom ler esse artigo e perceber que, mesmo instintivamente, apliquei a técnica certa. Agora me resta pesquisar um pouco mais e desenvolvê-la.

Obrigada, Leo!

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