As Aventuras de Pi é plágio da obra de Moacyr Scliar. Divulguem!

Antes de entrar exatamente no que quero falar, deixe-me explicar a situação para quem ainda não a conhece. As Aventuras de Pi, livro mais do que premiado, que gerou a adaptação para o cinema, adaptação essa que faturou quatro estatuetas do Oscar ontem, trata-se de um plágio descarado da obra Max e os felinos, do autor brasileiro Moacyr Scliar.

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Uso dos diálogos em uma narrativa

em 10/10/2011.

Certo, já li várias postagens a respeito desse assunto. Acho que todos têm uma compreensão de o quanto é importante termos bons diálogos em uma narrativa (é claro que nem toda narrativa precisa deles, mas, naquelas em que eles são necessários, sua boa construção e utilização é simplesmente fundamental). A relevância é tão grande que existem diversas maneiras de se estruturar até mesmo graficamente os diálogos no texto. Seja com travessões, seguidos algumas vezes por descrições, seja com aspas ou, em alguns casos, com nenhuma marcação, como faz José Saramago, por exemplo.

Enfim, o diálogo é fundamental para definir quais os objetivos de uma história. Sei que é uma afirmação estranha, mas é a verdade. Basta analisarmos as diferentes obras e os diferentes modos de se utilizar um diálogo. Por exemplo, em livros de entretenimentos, thrillers e etc... a conversa entre os personagens aparece com muita frequência - e precisa ser trabalhada com precisão para que se construa um cenário, para que o leitor possa imaginar cada detalhe do que acontece no livro, quase como num filme. Nesse tipo de obras, de uma maneira geral, os diálogos utilizam travessões e, logo após, em muitos casos, descrições da cena, como o que o personagem faz enquanto fala, o que acontece no cenário durante a conversa e etc...

Este diálogo, portanto, tem a função justamente de ilustrar ainda mais um livro com um caráter mais imagético e de ação do que necessariamente reflexivo. Se eles não forem bem construídos, é muito possível que grande parte do apelo da obra se perca.

Já em obras mais reflexivas, o uso do diálogo é, normalmente, bem diferente. Ele possui menos marcações, já que aquilo que acontece, a ação por assim dizer, não é tão importante. Talvez o que é dito seja muito mais importante do que aquilo que acontece - e geralmente os diálogos aparecem de forma mais esparsa, servindo apenas para trazer novas informações e jogar o leitor, junto com o narrador e os personagens, em uma série de reflexões.

No entanto, devo lembrar, nada é assim tão preto no branco. Há livros que, dentro de sua própria trama, variarão entre um tipo de diálogo e outro, entre um momento de reflexão e outro de mais ação. A estrutura de uma longa narrativa, como são os livros, é muito complexa, por isso pode incluir diversos tipos de diálogos, vozes, narrações e etc...

Como uma última observação, falaria de livros que têm "excessivo" uso de diálogos - na verdade, predominância massiva de diálogos, o que não significa automaticamente excesso. De um modo geral, há gente que critica, alegando que isso poderia indicar uma falta de capacidade do autor. Devo admitir que, muitas vezes, isso pode sim ser verdade; mas não sempre. Em muitas casos, um diálogo bem escrito pode substituir blocos e mais blocos de narrativa - às vezes narrativas densas demais, que fariam o leitor se perder ou se sentir fatigado. E quando falo densa, não me refiro à complexidade, mas sim à inutilidade do trecho.

Exemplo, fiz uma postagem faz algum tempo em que apresentava uma técnica a ser utilizada na literatura fantástica para se apresentar o mundo que se quer descrever. Uma segunda técnica para alcançar o mesmo objetivo poderia ser justamente o uso dos diálogos. Em muitas das minhas histórias, quando quero explicar algo que se alongaria muito por meio de descrição (ou ficaria fora de contexto no livro) incluo um diálogo em que aquele determinado algo é dissecado e explicado. Assim, deixa-se de escrever longas descrições, aquelas desnecessárias, que podem tirar o foco da linha principal do livro. Ou seja, pensem muito bem antes de descartar um autor simplesmente pelo fato de o livro ter muitos diálogos (e o mesmo vale para livros com muita narração, ok?)

A grande prova do que falo vem lá da Grécia. Um dos maiores filósofos de todos os tempos, Platão, em vez de escrever páginas e mais páginas sobre sua complexa filosofia de modo acadêmico ou com trechos de narração gigantescos, optava por fazer isso através de diálogos. Isto é, por intermédio deles é que Platão apresentava idéias filosóficas altamente complexas ao mundo. Isso significa dizer que um livro, para ser reflexivo, não precisa ter necessariamente (como alguns pensam) infindáveis páginas de pura narrativa e/ou rebuscamento. É possível obter o mesmo efeito também através dos diálogos - que podem ser um bom jeito de atingir um público maior, já que eles, de um modo geral, são mais "leves" e "descontraídos".

11 Comentários:

Paul Law

Ótimo tema para uma postagem. Acho que os diálogos são muito importantes para a literatura de forma geral. tenho observado que os novos escritores usam o recurso com muita frequência o que pode ser bom ou ruim, como você mesmo explicou.

Também sou da opinião de que as vezes explicar algo por diálogo é mais prático e mais agradável do que descrever a explicação.

Um abraço, Leonardo.

Marcos Reis

Muito legal o post. Útil, não só para narrativas literárias, mas também para narrativas em cinemas e até na publicidade, aliás, nesta o uso do diálogo é essencial.
O fato de usar o diálogo para descrever algo também é uma estratégia bem interessante, nunca tinha parado para pensar neste uso. Muito legal mesmo esta abordagem.
Agora as literaturas mais reflexivas, essas sim me chamam a atenção, e é bem provável que esta admiração seja devido a construção dos diálogos. É incrível quando você começar a se interessar por esta parte da narrativa, pois, não só o seu olhar, mas os seus ouvidos se tornam mais atenciosos ao que está ao redor, por exemplo, você está na fila de um espetáculo e o grupo de pessoas que estão ali estão falando algo que você pode achar engraçado, absurdo, o que seja, e aquele diálogo te inspira para você criar ou usá-lo em seu prórpio trabalho, ou seja, os melhores diálogos estão na rua, e é um exercício agradável e divertido de se fazer: você ouvir e estar atento a tudo e a todos que estão ao seu redor.
Leonardo, uma curiosidade, quais os escritores que você mais aprecia no que se refere à construção de diálogos? Eu particularmente curto os diálogos urbanos do Marcelo Rubens Paiva; os diálogos cheios de polifonia - e que por isso, necessitam ser analisados e resignificados - do Machado de Assis; os diálogos metafísicos de Goethe; e os diálogos do João Carrascoza, que aliás, é uma redescoberta que tem o valor de uma descoberta, pois voltei a ler um livro de contos deste autor. A sua capacidade de transformar a nostalgia em algo palpável e material é tremenda.
Abraços, Leonardo! Excelente visão, ótimo texto!

Fabrício Marreco

Excelente post.
Acho que, desde que bem utilizada, toda técnica é válida para enriquecer o texto.
Não conhecia o blog. Gostei muito.

Leonardo Schabbach

Oi, Marcos.

Difícil quando se trata de diálogo. Como eu mesmo já disse, eles variam muito de função. Eu gosto muito do estilo do Saramago. Há alguns livros da Clarice Lispector que ela usa os diálogos com perfeição também, mas é mais para causar aquele efeito introspectivo típico da sua literatura.

Já num âmbito mais comercial, acho espetacular o modo como diálogo e narração se encaixam nos livros do Patrick Rothfuss, autor de O Nome do Vento, que resenhei aqui. O cara é bom demais.

Agora, se formos pegar o diálogo puro, com aquela predominância quase total no texto, eu ficaria, como indiquei no texto, com Platão mesmo. A profundidade filosófica que ele chega por intermédio da simplicidade do diálogo é fantástica.

Agora, Machado de Assis também era fenomenal quando se tratava de diálogos, fenomenal. Guimarães Rosa também, embora de uma maneira geral a voz dos personagens invadisse basicamente o texto inteiro - e não apenas os diálogos.

Sybylla

Eu gosto muito de diálogos, acho que eles enriquecem o enredo e trazem uma emoção e tornam o personagem real.

Para destacar meus diálogos eu os coloco em itálico.

Eu até não curto muito livros que têm poucos diálogos. Acho que é a melhor maneira do leitor interagir com o personagem.

Ótimo texto, abraço!

renansouzamerces

Como prometido, aqui estou eu.

Na minha mera opinião, os diálogos às vezes atraem alguns públicos, como por exemplo o infanto-juvenil. Não só por tratar de mais fácil entendimento, mas também por facilitar a leitura. Sendo sincero adoro ler diálogos, eles criam em minha mente as personalidades dos personagens.

Ainda não tinha lido nenhum artigo escrito por você, Leonardo, e admiro o modo como trata do assunto sem agredir a ninguém.

Parabéns.

Leonardo Schabbach

Legal que gostou. Eu tento ter essa visão mesmo, a literatura engloba muita coisa, muitos gostos diferentes. Por mais que eu não goste de um ou outro tipo de literatura, tento respeitar ao máximo aos jeitos.

Também há aquela guerra entre críticos e o pessoal dos best-sellers, mas eu não vejo essa diferenciação, são só estilos diferentes, só que todos fazem parte da literatura - e um autor pode explorar todos os caminhos.

Mônica Cadorin

Muito boa a reflexão sobre os diálogos. O exemplo de Platão é ótimo. Um dia desses, refletindo sobre os diálogos que eu faço, cheguei à conclusão de que apresentar informações em diálogos faz o leitor se sentir mais esperto, pois ele se sente capaz de perceber a informação sem a necessidade que o narrador lhe conte (didaticamente). Isso talvez ajude a fazer dos diálogos partes interessantes dos livros. Eu adoro diálogos. Muitas vezes pulo as partes narrativas (maçantes para mim) para ler só os diálogos. A conclusão é que escrevo muitos diálogos também, tentando não apenas fazer as personagens se relacionarem como apresentar a forma como elas pensam, em que acreditam, sua visão de mundo. Por isso são diálogos cheios de conteúdo, onde os conflitos se apresentam e se resolvem.

Willian Marinho

Muito legal o post. E concordo com o ponto que o pessoal levantou por aqui: o interessante no uso de diálogos é o enriquecimento do personagem em relação à sua personalidade. Eu acho que é neste ponto, onde eles se expressam, é que os conhecemos (ou não, vai que eles mentem xD). Gosto muito quando os diálogos tornam-se um "elemento de cena", tal como nos filmes, em que as falas dos personagens ajudam a criar e expandir o imaginário na sua cabeça.

Isie Fernandes

Mais uma que ama ler e escrever diálogos. Escrevo muitos e vou variando os modos, depende bastante do tipo de narrador e, se for um narrador-personagem, do seu estado de espírito. Mas também gosto de boas descrições, então, para que não se tornem densas, utilizo alguns recursos: na terceira pessoa, discurso indireto livre e inovações do discurso direto (parecido com o estilo de Saramago); na primeira pessoa, monólogo interior, discurso indireto e as inovações do discurso direto. Para mim, os diálogos não devem servir apenas como entretenimento, mas fazer parte da narração, no sentido de revelar a história. Como Mônica disse, gosto quando eles surgem "cheios de conteúdo, onde os conflitos se apresentam e se resolvem".

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