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[A Sociedade da Rosa] Boa vizinhança - Parte I

em 27/02/2011.
| Comentários: (4)
Após algum tempo, após ter colocado aqui o início da série, coloco a primeira parte do primeiro conto para que vocês leiam. Tentarei colocar a segunda parte na semana que vem, ou ainda nesta semana, veremos como as coisas sairão. Gostaria de pedir a quem gostar, se gostar, espalhar por aí, indicar para amigos e etc... é uma série que dá trabalho, então é sempre motivador saber que tem gente acompanhando. Junto com a primeira parte, coloquei também a introdução que já tinha postado no blog, sempre farei isso, basta clicar mais abaixo que o texto se abrirá; quem acompanha por feed, basta ignorar esta primeira parte caso já tenha lido. Colocar essa introdução sempre é interessante para aqueles que não sabem nada da série poderem se inteirar um pouco. Enfim, espero que gostem desta postagem, é mais longa do que o normal.

__________________________________

A Sociedade da Rosa - Relato primeiro

Muitas vezes algo de extrema importância nos bate à porta, choca-se conosco e altera radicalmente nosso destino sem que tenhamos escolha. Isso aconteceu comigo cinco anos atrás, quando encontrei alguns diários em um antigo sebo de Veneza. O dono não conseguia lê-los e me vendeu bem barato; os livros estavam escritos em português: retratavam a história de vida de um homem chamado Felipe Pereira Meinham, um brasileiro que me deu pistas sobre uma organização extremamente complexa e influente; a Sociedade da Rosa.

Antes de continuar com meus relatos, porém, acho prudente me apresentar. Chamo-me Marcos Costa de Oliveira, sou um historiador com mestrado e doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nunca pensei que me envolveria em algo tão grande como o que estou prestes a relatar, sempre fui um acadêmico centrado, não dado a nenhuma especulação histórica, a nenhuma pesquisa que envolvesse pressupostos nebulosos, sem visíveis bases concretas, mas sinto que, de algum modo, as coisas não poderiam ter acontecido de maneira diferente.

Como já bem lhes relatei, faz cinco anos, deparei-me com alguns diários em Veneza que me abriram os olhos para um mundo novo. De lá para cá, fiz muitas pesquisas, no mundo inteiro e, principalmente, no Brasil, para reconstruir a vida deste misterioso homem chamado Felipe Pereira Meinham – e muitas vezes cheguei a arriscar a minha vida para isso. Infelizmente, devo admitir, fiz descobertas terríveis, coisas que muitos achariam repugnantes – e que a maioria teria dificuldade em acreditar. Conheci uma organização que já atua faz centenas de anos na sociedade ocidental e que, desde o princípio, foi responsável por dar um destino ao mundo, mesmo que tudo parecesse obra do acaso.

Escrevo, a partir do dia de hoje, para transmitir o que descobri a todas as pessoas, escrevo também para impedir que a Verdade – uma vez que a organização me parece quase uma entidade metafísica – possa ser silenciada, para ter certeza de que minha história chegará às mãos de outros, mesmo que algo de terrível aconteça a mim. Sou apenas um mero pesquisador, não sei se tenho as habilidades literárias necessárias, mas tentarei reconstruir tudo aquilo que descobri da vida de Felipe Pereira Meinham para revelar, por meio de sua história, mais detalhes a respeito da Sociedade.

Ass. Marcos Costa de Oliveira


Sociedade da Rosa – Boa vizinhança

Estes relatos retratam o período vivido por Felipe Pereira Meinham em uma pensão na Lapa, localizada na Avenida Mem de Sá, número 71

11 de Setembro de 2001
Foi muito doloroso assistir à implosão das torres. Talvez pior do que o atentado, fosse admitir que eu falhara de maneira tão grotesca. Era triste pensar nas conseqüências, na Guerra ao Terror que se instauraria nos anos seguintes. Eu havia perdido. Nigel tinha sido mais capaz do que eu. Seu plano tinha sido perfeito, a história seria mudada, conforme nos pede a organização. Eu queria evitar, mas não pude, é duro admitir que este capítulo histórico terá um enredo escrito de maneira tão infeliz. Agora, nada me resta a fazer senão voltar ao Brasil, reencontrar meus amigos de pensão e terminar o treinamento de Taíssa. Gostaria muito, porém, de saber o porquê de fazermos isso tudo, para que devemos manipular o mundo por caminhos aleatórios. Gostaria de saber qual é realmente a nossa função.

Felipe Pereira Meinham não era o tipo de homem que precisava se preocupar com uma boa vizinhança. Ele era um agente treinado, um dos melhores, alguém que certamente não precisaria de um refúgio em que se sentisse confortável, um lugar para chamar de casa. Era o tipo de pessoa independente, até por causa do rigor que exigia seu trabalho, um homem com uma enorme capacidade de viver sozinho, de sair ileso das situações mais complexas e perigosas.

Entretanto, por muito tempo, ele teve seu porto seguro; uma pequena pensão situada na Avenida Mem de Sá, próxima aos Arcos da Lapa, no centro do Rio de Janeiro. Era uma casa pequena, com apenas três quartos disponíveis para aluguel. Felipe ocupava dois deles, pagava um preço cinco vezes mais alto do que o combinado. A responsável pelo estabelecimento, Dona Nevinha, uma mulher doce e prestativa, já com seus 57 anos, não reclamava, naturalmente, mas se sentia obrigada a cozinhar, todos os dias, pelo menos duas refeições para Felipe e qualquer convidado que ele trouxesse como forma de agradecer pelo pagamento.

No terceiro quarto, vivia um jovem introvertido chamado Júlio. Era daqueles tipos revoltados com o mundo; tinha fugido de casa, usava roupas largas e sempre mantinha uma aparência de quem não se preocupa com as coisas. Felipe sabia, porém, que o garoto vendia drogas. Os horários em que costumava sair, o pó presente nas roupas e o fato de pagar a pensão sempre com dinheiro vivo haviam lhe dado esta certeza; confirmada com uma pequena investigação feita no quarto de Júlio em um dia em que ele passara a tarde toda fora.

Durante seus primeiros meses na pensão, Felipe almoçava quase diariamente com uma mulher extremamente atraente; uma loira, de traços finos, com cabelos longos e sedosos. Seu nome era Taíssa Siqueira, e ela tinha sido apontada, através de uma mensagem enviada pela organização, como uma nova agente a ser treinada. Por um bom tempo, foi testada em diversas missões, recebendo tarefas das mais variadas, para desenvolver todas as habilidades de que um membro da Sociedade necessita.

Após os atentados de 11 de Setembro, após ser superado por um de seus rivais, Felipe retornou ao Brasil para assistir à última missão de sua aprendiz; se ela obtivesse sucesso – e não restava dúvidas de que obteria – se tornaria uma agente oficial da organização.

**************

Ele respirou fundo, enchendo os pulmões com o ar morno da noite carioca. Caminhava lentamente pela praia de Copacabana, atento ao som constante do vai-e-vem das ondas do mar. Ele gostava de caminhar sozinho, gostava de levar o tempo que precisasse pensando sobre questões que há anos o afligiam. Mas, naquele momento, não poderia se dar ao luxo de se perder em seus pensamentos, havia uma missão que ele precisava cumprir: tinha de se certificar de que Taíssa completaria a tarefa que lhe fora designada. Fora um teste simples, ajudar um casal a se apaixonar; coisa fácil, nada demais se comparado às principais tarefas da organização. Na realidade, tratava-se de uma missão simbólica, uma forma de lembrar dos primeiros tempos, da época em que a Sociedade se estabelecera.

No período dos reinos absolutistas, como todos sabem, eram os reis que detinham o poder. Nenhuma localidade tomava decisões, entrava em guerras ou mudava suas políticas sem a permissão de seus governantes. Eram períodos conturbados e obscuros, em que um simples matrimônio poderia alterar o curso da História. E foi então que a Sociedade da Rosa foi fundada, ninguém sabe precisar quando ou por quem. Ela surgiu com o intuito de determinar as rotas do mundo; as guerras, as alianças, tudo. E tudo se definia pelo matrimônio, pela junção de um príncipe – e de seu reino – com o reino de uma princesa. Quantos países não foram poupados durante toda a História de invasões terríveis por um casamento fortuito, uma “jogada do destino”? Quantas alianças imbatíveis não foram feitas pelo mesmo motivo?

Era justamente assim que trabalhava a Sociedade. Ela criava encontros, gerava situações políticas favoráveis, convencia reis; enfim, fazia com que os casais corretos se formassem, e assim seus agentes controlavam o destino do mundo, sempre batalhando entre si para estabelecer a sua visão das coisas. A Rosa se tornou um símbolo do amor – e agora finalmente entendo como.

Felipe reduziu o passo de sua caminhada e se sentou em um banco do calçadão, um local estratégico, de onde poderia observar o trabalho de Taíssa sem ser notado. A noite era agradável, possuía uma espécie de caráter romântico que ele não conseguia explicar, apenas percebia. Era nesses dias que gostava de agir quando precisava unir algum casal. E por isso mesmo, ordenou que sua pupila finalizasse sua missão naquele dia.

O local escolhido fora o Devassa, um bar bem conhecido no Rio de Janeiro. Ali, era onde Taíssa mais gostava de trabalhar nas vezes em que sua missão envolvia relações românticas. O amor é sutil, e os agentes eram treinados com muito cuidado para que pudessem lidar com estas sutilezas. Ainda assim, o amor é também imprevisível – e, por isso, muitas vezes até os mais experientes dentro da organização falhavam miseravelmente.

De onde estava, Felipe conseguia ver o casal. Eles já saíam fazia algum tempo, três “encontros”, para ser mais exato. Talvez por algum motivo de razão psicológica – ou simplesmente “por acaso”, embora nenhum dos agentes gostasse dessa expressão – ainda não tinham se entregue ao que sentiam. Era necessário um pequeno empurrão.

Taíssa já os fizera se encontrar, “sem querer”, no cinema. Ambos eram cinéfilos assumidos, gostavam, inclusive, mais de assistir aos filmes sozinhos do que acompanhados; era uma experiência sem igual, diziam. Mas quando se sentaram, “por acaso”, um ao lado do outro, alguma coisa aconteceu; a conversa fluiu, os olhares se encontraram, havia, definitivamente, algo entre eles: era possível sentir, quase como se fosse uma energia palpável.

E mesmo agora, no bar, era visível a atração de ambos. Inclinavam-se um na direção do outro enquanto conversam. Ela alisava o cabelo, ele fitava os olhos e depois a boca. Eventualmente, as mãos se tocavam; trêmulas, tímidas, mas desejosas.

Inesperadamente, uma belíssima rosa vermelha foi colocada entre os dois. Logo em seguida, uma garrafa de champagne. O casal olhou surpreendido para a atendente, uma mulher loira e de boa aparência; ela sorria.

Felipe atravessou a rua apressado, queria saber o que Taíssa diria a seguir.

- É... olha só, a gente... não pediu nada disso. – comentou a mulher, ainda um pouco desnorteada; embora, por dentro, suspeitasse e desejasse que fosse uma surpresa orquestrada por ele.

- Não. Eu sei. – respondeu Taíssa, ainda sorridente, embora também deixasse transparecer um falso embaraço. – É que nós estamos com uma política hoje de premiar alguns casais... sabe... os mais apaixonados. E vocês foram os ganhadores.

Ao terminar de dar sua resposta, ela balançou levemente a cabeça, parecendo um pouco envergonhada, e logo se virou, sem deixar tempo para uma resposta. É claro que sua história não era muito plausível, mas nenhum casal apaixonado se prenderia a esta questão.

Quando Taíssa deixou a mesa, ele e ela se entreolharam por um longo tempo. Sorriam, ainda um pouco envergonhados. Conforme o silêncio se prolongava e os sorrisos não se dissipavam, eles finalmente percebiam o que, aparentemente, apenas eles não tinham notado – ou, então, assumido. Os olhos se procuravam, excitados. A respiração acelerava. Aos poucos, inclinavam-se, mais em mais, um em direção ao outro. O beijo veio, finalmente. Mágico e marcante, como toda boa história de amor deveria começar.

Felipe sorriu, estava satisfeito. Talvez não atuasse daquela exata maneira se fosse uma missão sua, mas Taíssa fora inegavelmente eficaz, seria uma grande agente, sem sombra de dúvidas. Na mesma hora, seu celular apitou, ele recebera uma nova mensagem:


Parabéns! Acaba de finalizar o treinamento de sua pupila. O valor de 300 mil dólares referentes a esta tarefa foi depositado em sua conta.

Ele levantou a cabeça, tentava encontrar algum outro agente, alguém que pudesse ter avaliado seu sucesso para que tal mensagem fosse enviada. Não conseguiu ter suspeitas de ninguém, entretanto. E era sempre assim. Eles sempre sabiam, sempre. Mas ele nunca conseguia descobrir como eles eram capazes de observá-lo.

Após algum tempo, quando se certificou de que ninguém nas proximidades o vigiava, atravessou a rua novamente e pegou um taxi de volta para sua casa. Estava feliz com o sucesso de Taíssa, mas também um pouco melancólico. Agora que ela não era mais sua pupila, dificilmente a veria de novo; e isso era normal, ele já passara pela mesma situação com muitos outros discípulos.

Quando finalmente chegou à pensão, parado em frente à porta de entrada, notou que Júlio também acabara de chegar. O jovem lhe lançou um olhar assustado, como se não tivesse percebido sua presença; sua expressão era tensa, ele parecia um pouco ansioso e descontrolado. Felipe estranhou, mas abriu a porta e o deixou entrar, acompanhando-o com o olhar até o seu quarto. Havia algo de estranho, definitivamente; e Júlio era um bom garoto.

Felipe decidiu investigar. Andou até a porta do quarto e, com muita habilidade, destrancou-a sem fazer barulho.

- Ei, garoto, aconteceu alguma coisa?

Júlio, que já tinha deitado em sua cama, levantou-se depressa ao escutar a pergunta, parecendo um pouco intrigado.

- Ahn... eu não tinha trancado a porta?

Felipe abriu um sorriso irônico, deslocando o corpo levemente para trás, como se acabasse de ouvir algo absurdo.

- Claro que não, né? Se eu abri...

Júlio suspirou.

- É... eu devo ter me esquecido.

- Mas, então, aconteceu alguma coisa? Isso aí não tem a ver com as drogas que você anda vendendo, tem? – perguntou Felipe, com os olhos fixos no jovem. Tentava aparentar confiança, mas ainda assim tomava cuidado para não soar ameaçador.
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Resultado do sorteio de "A Batalha do Apocalipse" e informações sobre novas postagens

em 25/02/2011.
| Comentários: (1)
Primeiro, gostaria de agradecer pela participação de todos no sorteio e na divulgação do livro. Acho bem legal quando o pessoal se interessa e apóia autores nacionais. Aproveito também para dizer que na semana que vem é provável (dependerá do meu tempo) que tenhamos mais uma entrevista com mais um autor brasileiro - e que tenhamos também o sorteio de um novo livro.

Como devem ter notado, nesta semana não tive tempo para novas postagens, mas já tenho algumas coisas legais para colocar por aqui (além da entrevista + resenha + promoção de que falei acima). Há um projeto literário interessante que quero apresentar ao pessoal do blog, isso deve ocorrer lá pela metade da semana que vem. Enfim, essa semana foi cheia e não tive tempo para postar nada, mas na semana que vem devemos ter mais coisas.

Por fim, os ganhadores da promoção foram @Paul_Law e @AnakinT, como pode ser conferido no seguinte link - http://sorteie.me/1EI429. Peço aos dois vencedores que entrem em contato via twitter.
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[Resenha] A Batalha do Apocalipse, de Eduardo Spohr

em 17/02/2011.
| Comentários: (32)
Após postar aqui um pouco sobre o autor e sua história (confiram a matéria e entrevista), pretendo agora falar sobre a sua obra: A Batalha do Apocalipse. Aviso também que, ao final da postagem, vocês leitores poderão concorrer a dois exemplares autografados do livro (cortesia da @Editora_Record e da @Verus_Editora) ; portanto, chequem o regulamento e participem.

A Batalha do Apocalipse é um livro que eu chamaria de bem peculiar no mercado brasileiro. Com exceção de uns poucos autores, a literatura fantástica nacional ainda não é muito valorizada, embora a literatura fantástica "importada" sempre figure entre os livros mais vendidos no país. Ou seja, se é um gênero que tem tanta abertura assim, por que não apostar em autores brasileiros também? Este livro mostra que isso é possível, e que é possível também obter um enorme retorno.

Porém, o fato é que ainda não se aposta nos autores daqui. Tanto que o Eduardo Spohr (@eduardospohr), como visto na entrevista anterior, precisou fazer muito sucesso primeiro de forma independente para então entrar de vez no mercado - no caso, ele foi contratado por um selo da Editora Record (@editora_record), que recentemente criou selos bem voltados para livros YA (Young Adults) e de literatura fantástica; vamos torcer para que eles apóiem mais autores do país também, além dos estrangeiros já consagrados.

Neste seu primeiro livro, Eduardo Spohr traz uma obra muito interessante de literatura fantástica, que utiliza também muitos elementos bíblicos, algo que certamente tem a ver com a própria cultura brasileira, muito voltada para o religioso. A obra, claro, é de pura ficção, mas contém uma pesquisa geográfica e histórica muito interessante. A descrição dos diversos locais do mundo (o que inclui também o Brasil, especialmente o Rio de Janeiro) é bem precisa, assim como a de alguns costumes. Isso já traz um charme ao livro, uma vez que há um público muito interessado nestes aspectos mais de pesquisa. E há também muita história, tendo em vista que o personagem principal, Ablon, por ser um anjo renegado (expulso do céu, para resumir, por não se curvar diante da tirania de Miguel e de Lúcifer; e por querer proteger os seres humanos) já vive na terra por milhares de anos. Deste modo, até por causa da opção de Eduardo Spohr por uma narrativa não linear, A Batalha do Apocalipse nos leva a um passeio por muitos períodos históricos, como a China antiga, Roma e até mesmo uma versão própria da história da Torre de Babel. E tudo isso, naturalmente, torna o livro ainda mais rico e envolvente.

Durante a obra, há também variação entre a primeira e terceira pessoa. Para que se entre com mais detalhes na psique de Ablon, segundo palavras do próprio autor, opta-se por narrar alguns acontecimentos de seu ponto de vista. Em outros momentos, a narração é a clássica em terceira pessoa - que eu, particularmente, aprecio mais. Entretanto, é necessário ressaltar, eu gostei da narração em primeira pessoa executada pelo Eduardo, e isso não é uma coisa assim tão fácil de acontecer.

De uma maneira geral, o livro transcorre num ritmo fragmentado, com muitos flashbacks e idas-e-vindas no tempo. A narrativa, bem simples e seca, lembrou-me a de roteiros de cinema, o que é uma característica bem crescente da literatura pós-moderna. Logo, somando-se a estrutura fragmentada a uma narrativa com muitas descrições dos aspectos físicos (ambiente) que envolvem a trama e das ações dos personagens, tem-se um efeito bem imagético, que é muito apreciado por boa parte dos leitores contemporâneos. Ainda assim, acho que a narrativa, em um ponto ou outro, poderia ser melhorada, principalmente em algumas cenas de batalha; mas, tenho de ser sincero, tenho certeza de que essas cenas irão agradar muito aos leitores, são pontos fortes do livro, embora ainda possam passar por um polimento aqui e ali.

Em resumo, digo que esta é uma obra muito boa de literatura fantástica, que pode facilmente brigar por seu espaço no mercado (e está conseguindo fazer isso com muito sucesso). O livro tem uma trama muito legal - embora eu não tenha entrado em tantos detalhes aqui, para não dar informações que eu não deveria a quem ainda não leu -, e uma forma de contar a história bem envolvente. É certamente uma obra a ser lida por quem gosta do gênero.

No mais, espero pelo próximo livro do Eduardo, que, pelo que sei, não está tão longe assim de ficar pronto!


ENTREVISTA E SORTEIO

Vocês podem conferir abaixo uma nova entrevista com o autor, agora mais voltada para a obra. Além disso, quem quiser concorrer a dois exemplares do livro precisará fazer TODAS as etapas seguintes:

- Seguir o blog na nova ferramenta do google colocada na barra lateral (eu achei que o número de seguidores alí subiria rapidamente e alcançaria o número de leitores de feed; mas ainda está muito longe disso, por isso a exigência, hehe).

- Deixar seu comentário na postagem (afinal, isso é legal para o autor e também servirá para que eu confira se a pessoa segue o blog ou não; logo, postem com suas contas google)

- Tuitar a seguinte mensagem: #promoção Concorra a um exemplar autografado de A Batalha do Apocalipse, do @eduardospohr, no blog do @leoschabbach - http://migre.me/3TI5s (vocês podem tuitar a mensagem ao menos uma vez por dia)


*A promoção será válida até a quinta que vem (24/02/2001). Se eu não tiver tempo, poderá ser alongada até a semana seguinte


ENTREVISTA COM EDUARDO SPOHR

O seu livro percorre diversos lugares e também momentos históricos, descrevendo-os com grande precisão. Isso indica que houve uma grande pesquisa para criar a história. Você pode nos contar um pouco sobre como foi essa pesquisa? E quanto tempo durou?

R: A pesquisa foi longa e curta ao mesmo tempo. Curta, porque não pesquisei muito para o livro em si, mas longa porque vinha estudando sobre os temas que desejava abordar durante toda a minha vida. Aí ficou bem mais fácil: eram assuntos de que eu gostava.


De onde veio a idéia para o tema do livro? Houve alguma inspiração nos mundos do RPG para a construção do enredo? Se sim, conte-nos um pouco sobre.

R: Veio principalmente a partir dos quadrinhos da Vertigo e do filme “Anjos Rebeldes”. O RPG sem dúvida me ajudou a ganhar prática na elaboração de tramas, personagens e improvisação. É um passatempo formidável!


Você alterna, no livro, entre a narração em primeira pessoa e em terceira pessoa. Por que razões resolveu adotar esse estilo? E quais as diferenças, para você, na hora de produzir um trecho em primeira pessoa e um em segunda?

R: Adotei este estilo porque é uma parte em que o próprio personagem principal conta sua história. O objetivo era mudar o foco da trama. A primeiro pessoa permite que você explore mais a psique do protagonista.


Sua obra, claramente, tem uma aproximação com os roteiros de cinema, caso observemos a maneira de narrar as situações em detalhes e também a construção desfragmentada. Você acha que foi realmente influenciado pelo cinema?

R: Com certeza. Star Wars foi a mitologia que me ensinou a ver as metáforas no universo.


O livro tem um caráter não-linear. Em alguns momentos fala-se do futuro, em alguns momentos do passado, enfim, a história é cheia de idas e vindas temporais. Por que achou interessante utilizar este recurso no livro?

R: Cheguei a conclusão que se fosse fazer algo cronológico, muita coisa se perderia. Tornar-se-ia chato e maçante. Assim, escolhi este recurso. Se deu certo, não sei, mas me ajudou a captar só as partes relevantes para a trama.
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Eduardo Spohr: de autor independente à lista dos mais vendidos

em 15/02/2011.
| Comentários: (14)
Como havia prometido algum tempo atrás, volto a tentar colocar pelo blog mais entrevistas e matérias com autores brasileiros. Sei que tem muita gente que gosta de acompanhar, por isso procuro, toda vez que tenho tempo, fazer postagens do estilo. Acho legal também valorizar os autores nacionais, como sempre digo.

Hoje, trago uma história que, para mim, é muito interessante, animadora e que pode servir de exemplo para muita gente. Falo do escritor Eduardo Spohr (@eduardospohr) e do enorme sucesso alcançado por seu livro, A Batalha do Apocalipse. Também conversei com o Eduardo, sempre muito prestativo, e irei trazer duas entrevistas diferentes para vocês, uma hoje e outra na quinta-feira, quando irei postar a resenha do livro com uma promoção: portanto, fiquem ligados.


Imagino que boa parte dos leitores já tenha ouvido falar da obra. Se passarmos em qualquer das grandes livrarias a encontraremos com facilidade. Entretanto, a história nem sempre foi assim. Eduardo fez sua pesquisa, escreveu o seu livro, que tem um grande número páginas, o que torna difícil a publicação por parte das editoras, e decidiu apostar em seu próprio projeto - após receber, segundo fui informado, em um concurso, alguns exemplares impressos como premiação. O que começou, então, com uma pequena tiragem vendida pela internet no site do Jovem Nerd, ganhou novos contornos; pessoas comentavam com outras pessoas sobre o livro e a obra começou a se vender sozinha. Após algum tempo, segundo pude apurar, A Batalha do Apocalipse havia vendido algo em torno de 5 mil exemplares sem o auxílio de nenhuma livraria, feito que já seria considerado excelente mesmo que o livro tivesse sido lançado com investimento e por uma grande editora. Notamos, então, como a divulgação da obra pela internet foi bem feita e como ela tem a capacidade de gerar propaganda boca a boca; isto é, o poder que ela tem de fazer com que as pessoas a indiquem para amigos e conhecidos.

O sucesso, naturalmente, chamou a atenção dos editores; e a obra foi retocada e reimpressa pelo selo Verus, da Editora Record. A partir daí, o até então escritor independente Eduardo Spohr passou a dividir a lista dos livros mais vendidos com balados autores estrangeiros, o que é um feito bem difícil para um autor nacional, ainda mais um estreante.

Enfim, uma história de sucesso legal, que nos mostra que o autor nacional pode sim conquistar o público e que, por isso, deve ser valorizado. Arrisco-me a dizer também que A Batalha do Apocalipse mostra, uma vez mais, a força da literatura fantástica (da qual sou muito fã, embora se dê pouca atenção aos autores nacionais do gênero).

Bom, agora que já sabem um pouco mais da história do Eduardo, vocês podem acompanhar a primeira entrevista que fiz com ele, falando um pouco sobre suas experiências:


De onde surgiu a idéia de fazer uma publicação independente? Você chegou a enviar o original de seu livro para editora comerciais?

R: Enviei para várias editoras, mas como não houve resposta decidimos investir nós mesmos, fazendo a produção independente.


Muita gente sabe que seu livro está vendendo muito agora, uma vez que foi relançado por um selo da Record, mas pouca gente sabe que somente com vendas online você chegou a vender, pelo que fui informado, mais de 5 mil exemplares, algo muito difícil de acontecer até mesmo com autores de grandes editoras. Você esperava por este sucesso estrondoso que o livro fez por meio do universo online?

R: É impossível prever se uma obra fará ou não sucesso, portanto não tínhamos certeza. Mas acreditávamos no potencial do livro, e resolvemos arriscar.


Você acha que a internet abre portas para os novos autores? Até que ponto? Como acha que ela deve ser utilizada?

R: A Internet é só mais um meio de divulgação e comunicação. O que vai abrir portas é a pessoa ser persistente, trabalhar, ir atrás do que gosta.


Acha que mais autores independente nacionais podem obter o mesmo sucesso que você? E quais as maiores dificuldades que você encontrou ao fazer sua publicação independente?

R: Não só podem como já estão fazendo. O André Vianco, por exemplo, está aí na estrada há muitos anos. Outros como o Raphael Draccon e o Leonel Caldela são exemplos de escritores nacionais de fantasia que fazem grande sucesso.

Sobre a produção independente, o único problema é que você tem que pôr a mão no bolso e bancar a produção inicial. Mas isso não é diferente de qualquer empreendimento, em que o empreendedor deve entrar com um capital inicial.


Os autores de literatura fantástica nacional são sempre deixados em segundo plano pelas editoras tradicionais, algo que parece até mesmo estranho, uma vez que este é um gênero que tem feito um sucesso incrível tanto aqui como lá fora. O que você pensa sobre este assunto? Você tem a percepção de que o sucesso do seu livro pode abrir espaço para os novos autores nacionais?

R: Esse é justamente o objetivo. Sempre digo que a missão deste livro é abrir portas e incentivar a literatura de fantasia nacional.


Conte-nos um pouco sobre as estratégias que você utilizou para divulgar o seu livro, quando ele ainda era independente.

R: Usamos basicamente o blog, o podcast e as redes sociais, especialmente o Twitter. Fizemos um hotsite e nele colocamos imagens e trailers em áudio.


Como foram as conversas com a Record?

R: Depois da repercussão na Internet, eles vieram me procurar e ofereceram um contrato.


Você acompanha a produção literária nacional, digo, está atento aos novos autores, principalmente de fantasia, que estão surgindo no mercado? Se sim, algum lhe chama a atenção?

R: Com certeza. Esses três autores que eu mencionei acima - André Vianco, Raphael Draccon e Leonel Caldela – são os nomes mais importantes, ao meu ver.


Você acha que os autores nacionais conseguiriam ter tanto sucesso como os estrangeiros se as editoras gastassem o mesmo dinheiro com propaganda e com altas tiragens como gastam com títulos importados?

R: Acho que depende mais do conteúdo e da qualidade do livro do que da propaganda. Afinal, a melhor divulgação é o boca-a-boca.
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Resenha - Os homens que não amavam mulheres, de Stieg Larsson

em 13/02/2011.
| Comentários: (4)
Hoje, após um bom tempo, faço uma resenha aqui no blog. Como todos sabem, sou um grande admirador de romances policiais - um dos personagens que mais gosto trata-se, ninguém mais, ninguém menos, do que do detetive Sherlock Holmes. Nesta postagem, falarei sobre um livro deste estilo que me foi indicado pela também blogueira @Kariread. Pelo que entendo, já há até filmes do livro e todo mundo já conhecia, mas eu até então eu não tinha ouvido falar. Os homens que não amavam mulheres é o primeiro livro da Trilogia Millenium. A obra em alguns pontos da contra-capa chega a ser comparada ao Nome da Rosa, do Umberto Eco. Não sei se chegaria a tanto, uma vez que se trata de um clássico dos romances policiais, mas diria que o livro de Stieg Larsson é, de fato, muito bom; e quem gosta do gênero definitivamente não irá se decepcionar com a história.

O homens que não amavam mulheres começa com o jornalista Michael Blomkvist, um dos sócios de uma revista econômica chamada Millenium, sendo condenado por difamar um poderoso homem de negócios (Hans-Erik Wennerstrom). Aproveitando-se da situação complicada do jornalista, Henrik Vanger, antigo presidente de uma grande coorporação da Suécia, chama-o para sua casa, que se situa em uma ilha, e lhe oferece ajuda caso Michael se comprometa a tentar solucionar um mistério: descobrir o que aconteceu com Harriet Vanger, que muito anos antes, no dia em que havia acontecido um acidente na ilha, simplesmente desaparecera.

A história, portanto, envolve o mistério do desaparecimento de Harriet, tendo aquele clima clássico insular, em que nosso detetive está sozinho em um local onde certamente um assassino está a espreita: quem da família Vanger ou dos moradores da ilha poderia ter participado do desaparecimento da menina?

O enredo é muito bem trabalhado, envolvendo diversas outras questões (como as de cobertura jornalística, negociações e etc..), assim como personagens interessantes. A outra personagem principal da história é Lisbeth Salander, uma mulher que trabalha para uma empresa de investigações. Prefiro, inclusive, não comentar muito sobre a participação dela na história, para evitar estragar algumas surpresas; mas posso afirmar que trata-se de uma personagem muito bem trabalhada e realmente fascinante, imagino que a maioria das pessoas irá gostar.

De uma maneira geral, considerei o livro muito bom, muito bom mesmo. Para quem gosta do gênero é um prato cheio. A narrativa também é bem fluída e realmente muito boa de ler, tirando um ou outro probleminha. Além disso, a obra também traz à discussão um problema que é muito grave na suécia, país de onde vem o autor, e também no mundo: a violência contra as mulheres. É uma obra que põe em evidência esta situação. Sem dúvida alguma, vale a leitura.
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Quatro poemas na madrugada

em 10/02/2011.
| Comentários: (9)
Tenho algumas matérias que gostaria de colocar no blog. Estou para terminar umas entrevistas para colocar aqui, já que sei que vocês gostam de acompanhar - e tem também alguns projetos interessantes a respeito de literatura. Essas semanas têm sido cheias para mim, por isso não coloquei ainda estas matérias no ar. Por enquanto, coloco os textos que produzo ou que encontro por aí. Esses quatro poemas abaixo têm uma história interessante. Eu normalmente demoro muito para escrever um poema; revejo, releio, penso muito nas frases quando estou montando, é um processo bom, mas não tão rápido. Nesses dias, acabei por mudar um pouco meu processo. Me deu uma vontade grande de escrever poemas, coisa que não fazia tinha um tempo por causa das minhas tarefas, e então acabei escrevendo quatro de uma vez, durante uma madrugada. Eles acabaram até com um tom mais pessoal do que eu costumo dar, por isso até fiquei meio com pé atrás de mostrar (até porque, por ter feito eles rapidamente, não sabia se teriam qualidade ou não). Mas fui convencido a postá-los, e cá eles estão. Espero que gostem!


Tempo

O tempo, hoje, se resume pelo cansaço.
O tempo, hoje, é marcado pelos passos.
O tempo, hoje, não tem finalidade.
É tão somente um ato de bondade,
que indica,
piedoso,
o final de mais um dia.

Repouso.

O tempo, às vezes, pode ser bom.
O tempo, às vezes, pode ser amigo.
O tempo, às vezes, cria juízo
e, de tempo em tempo, nos faz um alerta:

Hoje é o dia em que eu vivo!


Agonia

O coração sente,
de quando em quando,
uma falta.
E uma agonia acomete o meu ser.

O coração briga,
uma briga brigada,
e o corpo se ressente:
não é possível vencer!

E o coração mente,
e a mente,
dopada,
se sente,
entorpecida,
e tenta esquecer.

Mas o coração volta
para aquela mesma estrada,
rua sem saída,
noite sem amanhecer


Destino

A serenidade da espera
é a única coisa que acalma.
A serenidade da espera
é a janela da alma.

Serenidade é paz,
momento indescritível,

Estar sereno é enxergar o invisível.


Angústia

Sinto o peso do mundo,
o peso das escolhas,
o peso do tudo.

A vivência é tão complicada,
tão cheia de nomes,
de regras,
de medos.

Viver é andar tropêgo,
tateando o mundo,
perdido no escuro.

A vida é um lugar inseguro
e não nos dá nada além de opções.

Viver é tomar decisões,
que não parecem certas
e que não soam erradas.

A vida é uma encruzilhada.
E difícil é escolher um caminho.
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5

[CONTO] Sonho Gelado - por Cizenando Cipriano

em 07/02/2011.
| Comentários: (5)
Coloco por aqui mais um conto de um dos colaboradores do blog, Cizenando Cipriano (@cizenando_), para que vocês leiam, curtam e comentem. Espero que gostem - eu gostei. Como sempre digo, gosto da forma dele de narrar as coisas, a escolha das palavras e das expressões. É um estilo que eu aprecio, tanto que falei o mesmo sobre outro autor, cujo conto foi também publicado no Na Ponta dos Lápis, o Luis Narval - embora ele use uma linguagem um pouco mais rebuscada. Se quiserem conferir a postagem sobre ele, basta seguir por este link.


Cizenando Cipriano - @cizenando_ - é colaborador do Na Ponta dos Lápis; jornalista da área esportiva, com passagens por MB Press (UOL e IG), LANCE! e Rádio Nacional. Você pode encontrar mais textos do autor, com algumas pitadas humorísticas, no blog Pau Na Mesa.


Sonho gelado

A noite já dança sensualmente entre luas, olhares e esbarrões. Porto seguro, a mesa de bar é a casa do boêmio. Entre encontros originais, alegrias desdobradas e tristezas destiladas, nascemorrem madrugadas e sonhos, enquanto sobrevive a ilusão. No copo úmido, a ideia vem lenta como o próximo gole: por que não? É a pergunta fatal.

O vão entre o brilhantismo e a estupidez, dizem, é de 20 andares. Como só esteve em um dos lados da equação, ele não pode confirmar a tese. Reunido com os amigos, deixa-se levar pela possibilidade antes desejada, há pouco palpável e agora real: com a experiência de quem já transitou dos botequins mais vagabundos às franquias assépticas, tinham condições de abrir seu próprio bar.

Nada mais perfeito do que fazer do prazer uma fonte de renda, não? E, ainda, após tantos golpes de água fria nos pés e ofertas de retirada das mais sutis às mais grosseiras, manteriam a porta de ferro levantada pelo tempo que desejassem – a sua política é que imperaria em sua casa, afinal. Brinde feito, e repetido, e repetido, e repetido, plano iniciado. Sobreviveria a algumas horas de sono?

Sobreviveu. E entre tentativas de lembrar as geniais estratégias de marketing e administração, pensavam no local ideal para instalar o pequeno botequim. O grupo divergiu por poucos minutos, até brotar o consenso pela tradição, apesar da concorrência: projetavam que o conhecimento da arte da boêmia e dos anseios dos boêmios tornaria sua casa um ponto de referência.

Mais uma gelada aberta para comemorar e os cenários foram se desenhando como petiscos exibidos no balcão. O primeiro de tudo: como seria a relação com seus produtos? O ponto de partida é que não poderiam ficar sem beber, é claro. Mas beber o que precisavam vender? Só consumir na concorrência – então, qual o sentido de ter um bar? Uma cota de consumo – mas qual? E foram copos e mais copos nesta discussão...

O primeiro impasse lhes colocou diante do dilema capital: o lucro corrompe o prazer. Tornarem-se burocratas da boêmia parecia-lhes um crime. E colocar as raposas para cuidar do galinheiro, como se dizia antigamente, não parecia um investimento fadado ao sucesso. A sensação de ressaca tomou a todos quando acordaram do sonho perfeito.

Amigo, mais uma aqui, por favor. “No shopping Center, alegria artificial. No bar, tristezas sinceras”, dizia o poeta na mesa ao lado.
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7

Autobiografia de um poema

em 03/02/2011.
| Comentários: (7)
Faz algum tempo que não posto poemas meus por aqui. Ontem, revisando algumas pastas aqui no meu computador, encontrei alguns que nunca tinha postado no blog ou sequer mostrado. Achei esse bem legal, irreverente, diferente e resolvi colocar aqui. Não tem sido tão fácil de fazer postagens com textos meus, já que não tenho produzido tanto assim; as últimas semanas têm sido bem cheias, especialmente com a fase final do mestrado.




Autobiografia de um poema

Sou alegre e sou triste
e vivo tudo ao mesmo tempo.
Sou aquele que existe,
vivo parado e em movimento.

Sou apenas por ser.
E não tenho a necessidade de estar.
Sou aquele que é
enquanto não sou
em cada lugar.

Alguns me chamam poema
outros me chamam paradoxo.
Sou aquele que blasfema
e, ao mesmo tempo, sou devoto.
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2

Donatelo, o escritor: A leitura

em 01/02/2011.
| Comentários: (2)
Donatelo se sentou em sua poltrona verde, como sempre gostava de fazer; mas dessa vez não pretendia contar as pessoas que passavam na janela. Não. Quem o conhecia sabia bem que naquele horário ele se entregava à leitura, às fantásticas histórias contidas nos livros. Mas tinha de ser naquele específico horário e, principalmente, naquela poltrona.

Donatelo, inclusive, ponderava: como aquela relação era forte! O livro, a poltrona, um copo de água, afinal, precisaria molhar a garganta, e uma xícara de café, que tinha a exclusiva função de intoxicar o ambiente com seu aroma inebriante. Tudo estava, então, pronto para o início de sua viagem, ou melhor, de sua leitura, como sua mulher cismava em lhe corrigir.

As primeiras palavras do livro soavam hipnóticas, era uma sensação estranha. E como é estranha a sensação que se tem ao ler. Aquela voz começa a soar, a recitar um som silencioso de palavras. Mas logo ela some, se o livro for bom, é claro; a casa some, a poltrona some, tudo some. Donatelo logo se vê em outro lugar; não imagina, sente. Esse é o poder dos livros. Não via tanta graça em filmes ou mesmo na televisão. Eles não levam a lugar algum, te deixam estáticos, a observar apenas.

É nos livros que se realmente vive, ele repetia para sí. É nos livros que se sente e pensa, é uma experiência, por assim dizer. Depois, não pensou em mais nada, estava totalmente focado em sua viagem ao centro da terra. Vamos, Axel, não seja tão cético, ele pensava, chegou a hora de nos prepararmos.


*Axel é o personagem que narra a história Viagem ao Centro da Terra, de Júlio Verne
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