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[Resenha] Um homem: Klaus Klump, por Gonçalo M. Tavares

em 20/04/2011.
| Comentários: (4)
Hoje escrevo sobre o livro Um homem: Klaus Klump, de Gonçalo M. Tavares. A obra faz parte da coleção O Reino, que inclui também o livro Jerusalém, que recebeu o prêmio Portugal Telecom de Literatura, em 2007. Quem acompanha o blog sabe que sou muito fã do escritor português, por isso indico a todos a postagem Gonçalo M. Tavares: um autor a ser lido. E para quem ainda tiver mais curiosidade sobre as capacidades narrativas do autor, há também um trecho do livro "Jerusalém" no artigo técnicas de narrativa.

Decidi falar sobre este livro, pois, dos romances do autor, este é o que mais me agrada, exatamente por ser muito diferente das obras que costumamos ler. Segue um estilo fragmentado, em que se passa de um personagem para o outro entre os capítulo e mesmo entre os parágrafos do texto, similar ao de Jerusalém; entretanto, em Um homem: Klaus Klump, a fragmentação é ainda maior. É preciso até prestar um pouco de atenção para comprender onde o texto nos leva, mas são justamente essas mudanças que, apesar do tom fragmentado, acabam gerando um efeito muito interessante, que provoca reflexão. O livro, de uma maneira geral, tem um trabalho muito rico com a linguagem, sempre apresentando a capacidade narrativa característica do Gonçalo, que descreve todas as coisas de uma maneira muito diferente, irônica e perspicaz. Além disso, o texto sempre apresenta reflexões, sempre nos passa questionamentos filosóficos novos e interessantes. Sem sombra de dúvidas, quem ler Um homem: Klaus Klump, repensará muitas de suas noções de mundo e refletirá um pouco mais sobre o ser humano.

Este livro, assim como Jerusalém, difere muito da tônica presente em outra coleção muito boa do autor, chamada O Bairro. Enquanto em O Bairro vemos um Gonçalo mais lúdico, que traz a reflexão por meio de histórias mais irônicas e leves, quase brincadeiras, na coleção O Reino ele busca investigar o ser humano, expô-lo de maneira nua e crua, mesmo que isso gere textos mais pesados. É exatamente isso que está presente em Um homem: Klaus Klump. A história se passa em um país invadido pela guerra. Klaus é um homem que optava por se manter afastado de todos os conflitos, um covarde. Porém, ao longo do livro, tudo muda, e nosso personagem principal se torna um inimigo dos invasores; torna-se mais forte, pois só assim pode lutar contra a força de outros povos. Como é dito na contra-capa do livro: "Um homem: Klaus Klump é um livro sobre muitas coisas, mas essencialmente sobre a força. A força dos fortes e a força dos fracos que se tornam fortes".

Mas não pensem que se trata de uma história heróica de um personagem que se opõe a uma invasão. O livro trata de pessoas, de seres humanos, e Klaus se torna um homem um tanto quanto obscuro também. De uma maneira geral, a ação se passa de uma maneira até muito rápida no livro. As coisas acontecem, mas sem tanta relevância, é tudo muito rápido. O foco é justamente na mudança de cada um dos personagens, nas reflexões sobres os terrores da guerra, sobre as reações dos seres humanos em uma situação limite como esta. Enfim, é um livro sobre a humanidade, o que ela tem de bom e o que tem de muito ruim. Como disse, quem ler certamente repensará muitos conceitos.

Faço uma última ressalva, porém. A narrativa é bem particular, bem fragmentada mesmo. Eu particularmente acho isso espetacular, e acho a forma de o Gonçalo conduzir seu texto fantástica. Mas devo admitir que muita gente pode não se habituar a ela.

Abaixo, segue um trecho do livro que acho simplesmente incrível. Veja como é descrito o simples ato de o personagem estar com a mão no bolso:

"As mãos no bolso de Klaus. Como era estranho seu gesto de esconder as mãos nos bolsos. As mãos e os olhos eram o fundamento da guerra: sem mãos é impossível odiar, odeias pela ponta dos dedos, como se estes fossem o canal habitual e único de uma certa substância química má. As mãos nos bolsos são um processo de educar o ódio, processo lento quando comparado com aquele bem mais forte que é a ambutação dos braços. Mas só com as mãos nos bolsos os homens já acalmam.

"Com as mãos nos bolsos um homem percebe que não é Deus. Não se chega às coisas. Se tocares no mundo com a cabeça obterás desse toque sentimentos secundários; afastados de uma intensidade mínima a que a existência das mãos te habituou. As mãos tornam-te intenso. O obsceno - isso mesmo -, o obsceno que é o homem na guerra, mesmo que numa pausa, põe provocadoramente as mãos nos bolsos. Assumir que não se é Deus em momento de guerra é acto corajoso, e  por estranho que pareça, o único divino. Só os cobardes fingem que são Deus.

"Mas por momentos a vida de Klaus perde os seus órgãos inteligentes, os órgãos máximos do raciocínio que são as mãos. Órgãos especializados nesse instinto primário que é sobreviver: instinto primário e também instinto último a largar um corpo. Com as mãos nos bolsos Klaus não pode deixar de parecer um imbecil, um homem que não pensa".

(e o texto segue, por mais um tempo, nessa reflexão em relação às mãos, falando do combate corpo-a-corpo e outras coisas; é uma passagem realmente magnífica, e apenas ela já valeria a leitura do livro, na minha opinião)

Enfim, fica a dica de leitura. Tenho certeza de que muita gente aqui irá gostar. Mas também, como sempre digo, se forem começar a ler textos do Gonçalo, iniciem pelo livro O Senhor Brecht, da coleção o Bairro. A partir dele, já ficará clara a maneira singular que tem o escritor de conduzir sua narrativa. Além disso, é um livro pequeno, que pode ser lido em cerca de uma hora.
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Por que escrever?

em 18/04/2011.
| Comentários: (19)
Qual é a razão que nos empurra para a escrita? De onde surge a necessidade de botar histórias e sentimentos no papel? Este para mim é um dos grandes mistérios da literatura. O que faz de alguém um escritor? Há, provavelmente, milhares de razões, milhares de respostas para todos estes questionamentos; cada pessoa com uma história diferente, cada qual com uma relação diferente com os livros e com as palavras. E talvez seja por isso que, mesmo com o surgimento de outros meios de comunicação, da televisão, do rádio, do cinema, dos computadores e da internet, mesmo com tudo isso, escrever ainda seja essencial para muitos; e ler seja um prazer inenarrável.

Não sei exatamente o que move cada um que lerá este texto, não sei quais as razões que fizeram lê-lo e muitos menos os motivos que levam cada pessoa a escrever. Mas posso falar da minha experiência, das minhas impressões; e posso escutar também o que os outros têm a dizer. Escrever, para mim, é questão de necessidade. Contar histórias não é só um modo de entreter, mas também de viver mundos novos, de refletir por meio das palavras, por meio de uma boa narração, por meio das idéias e dos sentimentos de cada personagem. Escrever também é dividir, é se aproximar; e, por isso, gosto tanto da poesia. No mundo em que vivemos, em que cada vez mais as pessoas se distanciam, basta um bom poema, apenas um, para que se crie um laço, para que se origine uma relação entre o leitor e o poeta, entre um pessoa e outra, algo tão raro nesta sociedade. Um poema é, definitivamente, uma das mais belas representações do que há de humano.

E existem também os contos, as crônicas e tantos outros tipos de texto. Todos com características específicas, todos com funções diferentes. É um universo incrível este da escrita. É onde podemos colocar o que sentimos, é onde podemos expressar nossas opiniões, é onde podemos exercitar nossa criatividade, coisa também muito rara nos tempos atuais.

É difícil, portanto, saber os motivos que nos levam a escrever. Mas é fácil compreender que eles são tantos, que todos nós, algum dia, teremos a necessidade de jogar palavras no papel.
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Publicação independente x Publicação tradicional

em 13/04/2011.
| Comentários: (11)
Na postagem de hoje pretendo entrar um pouco mais na questão das vantagens e desvantagens da auto-publicação em relação à publicação de livros tradicional, conforme prometi no texto Lançando um livro de forma independente. Como deixei claro anteriormente, em muitos casos é possível se ganhar mais dinheiro com uma publicação independente do que da maneira  tradicional. Normalmente, quando um autor fecha contrato com uma editora, ele passa a receber apenas 8%, 10%, do valor de capa, equivalentes aos seus direitos autorais. Já em uma produção inteiramente autônoma, o escritor ficará com o lucro inteiro. Dependendo de quanto ele gastou com os processos de edição (diagramação, revisão e capa) e com a impressão, este lucro pode ser realmente alto por livro. Se houverem amigos ajudando na produção e reduzindo os custos dos processo de edição, este lucro variará basicamente com os custos de impressão. Isso significa dizer que, quanto maior a tiragem feita pelo autor independente, maior será também sua margem de lucro.

Esta situação, porém, esbarra em um enorme problema. Na maioria das vezes, um autor que está começando tem praticamente nenhuma possibilidade de iniciar com uma tiragem alta - não necessariamente por não possuir capital para isso, mas pelo fato de que será extremamente difícil de se vender um número alto de exemplares. Por este motivo, a produção independente, como em todo investimento, possui um risco maior de dar errado, mas uma possibilidade de lucros muito maior também.

O fato é que, se algum escritor pretende lançar seu livro de maneira independente, ele precisará de planejamento. Precisará ser muito objetivo ao medir quantos livros conseguirá vender com facilidade. É este número que servirá de parâmetros para que ele possa medir sua tiragem inicial. Caso seja um número pequeno, pode se optar pela impressão digital, que hoje permite a impressão de pequenas tiragens por preços acessíveis. Naturalmente, o lucro será bem menor do que numa tiragem de mil ou três mil exemplares, mas se tem um controle quase que absoluto sobre o investimento. Através da impressão digital e de um bom planejamento, é quase impossível que o autor tenha prejuízos.

Porém, este caminho pode não ser assim tão satisfatório. Afinal, quem irá ler o livro será um círculo muito pequeno de pessoas - e muitos autores querem ter a sua capacidade reconhecida, querem que suas histórias e textos sejam lidos, o que é natural.  Neste cenário, o planejamento é ainda mais vital, assim como o trabalho. O autor precisará se utilizar de todos os meios possíveis para angariar mais leitores e poder garantir uma tiragem maior, de no mínimo, eu diria, mil exemplares (seria necessário se vender algo entre 200 e 300 livros para se evitar prejuízos, caso o autor faça todos os processos de edição sem custo). Isso pode ser conquistado de diversas maneiras. O autor pode vender seu livro em eventos, de porta em porta, na rua, enfim, dar o seu jeito (como fez a Thalita Rebouças em seu início, como algumas pessoas citaram nos comentários da última postagem). E pode também se utilizar da internet; expondo seus textos em muitos sites, criando o seu próprio blog, tudo para entrar em contato com novos possíveis leitores. Já citei aqui a autora Babi Dewet (veja entrevista), que trilhou exatamente este caminho e teve bastante sucesso com seu livro. Há também o caso do Eduardo Spohr (confira entrevista com ele aqui), que conseguiu uma parceria com o site Jovem Nerd e iniciou as vendas de seu livro por lá. Foi assim que conseguiu vender mais de 5 mil exemplares em dois anos, chamou a atenção do mercado editorial e, hoje, passeia pela lista dos mais vendidos.

Eis que aparece, então, uma segunda situação. Esses autores que conseguem um bom resultado em suas vendas independentes, superando os mil exemplares vendidos de maneira autônoma, certamente conseguiriam ganhar um bom dinheiro se publicassem somente desta maneira. Para que arrecadassem a mesma quantidade em dinheiro numa publiação tradicional, precisariam de livros best-sellers, que vendessem muitas milhares de cópias para que os 10% que receberiam de direitos autorais chegassem aos mesmos valores da publicação independente.

Todavia, nada é assim tão simples; há alguns fatores muito importantes que ainda devem ser considerados na publicação tradicional. O primeiro é justamente a possibilidade de se ter um livro que venda muito, o que significa que o autor colocaria seu pé de vez no mercado editorial. Além disso, uma parte de seus ganhos deixaria de vir dos livro; o autor passaria a ganhar também com palestras, workshops e etc... O que, muitas vezes, poderá lhe gerar muito mais ganhos do que com a venda de exemplares.

Um segundo importante aspecto é a questão do trabalho. Numa produção independente, é necessário se cuidar de todas as etapas de produção. E também é preciso brigar por espaço na mídia, nos blogs e, principalmente, nas livrarias. É quase impossível para um autor independente ter uma distribuição que seja de fato eficaz. Isso significa dizer que, numa publicação tradicional, a única preocupação que se tem é em escrever - e, claro, em participar da divulgação. O autor não ocupará seu tempo com tantas coisas, podendo se dedicar ao que realmente gosta de fazer, e terá também uma possibilidade de crescimento muito maior, uma vez que o investimento em divulgação e distribuição será também muito maior.

De uma maneira geral, vejo a publicação independente como um bom modo de se chamar a atenção do mercado editorial. Se um autor novo, sabe-se lá por que meios, conseguir chamar muita atenção, vender mil, dois mil exemplares de um livro de maneira autônoma, ele certamente será percebido de maneira diferente pelos editores. Isso porque, mesmo para as grandes casas editoriais, não é tão simples assim se vender essa quantidade de livros com tão pouco investimento. Logo, tal feito também demonstrará às editoras que aquele autor ou aquele livro tem uma boa aceitação pelo público, isto é, causa a propaganda boca a boca, algo considerado essencial  em termos editoriais.

Ou seja, basicamente, as vantagens e desvantagens são essas que coloquei. Como disse, em minha análise, pesando todas as características de cada tipo de publicação, vejo a independente como uma forma de se ganhar espaço no mercado e, como consequência, de se conseguir espaço nas grandes editoras, algo que, não havendo um sucesso anterior (que pode vir pela auto-publicação), é praticamente impossível.

Há, porém, uma grande exceção, um assunto no qual tenho pensado ultimanente. Os autores de grandes best-sellers, como Dan Brown, J.K. Rowling e etc... poderiam facilmente criar seus próprios selos se quisessem, apenas para seus livros, fazendo, assim, um caminho reverso. Certamente, ganhariam muito mais dinheiro do que já ganham, uma vez que nenhuma livraria se negaria a colocar seus livros nas vitrines e que o número de fãs pelo mundo é gigantesco. De qualquer modo, eles ainda teriam um bom trabalho para administrar a publicação e a venda dos livros (algo que poderia ser terceirizado). Porém, imagino eu, como já ganham dinheiro mais do que suficiente, não creio que pensem em publicar de forma independente. Ainda assim, é um caminho que pode ser interessante no futuro.

Enfim, como sempre, convido a todos a deixarem mais perguntas e a trocarem idéias e informações. Isso só trará mais conteúdo à postagem - e abrirá espaço para novos textos também!
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[Construção de Personagens] As Aventuras de Tintim

em 11/04/2011.
| Comentários: (5)
Desde que voltei da minha viagem para a Bélgica, onde foram criadas "As Aventuras de Tintim", pelo talentoso escritor e desenhista Georges Prosper Remi (mais conhecido como Hergé), queria escrever um pouco sobre o quadrinho e, também, sobre desenho; uma vez que eu mesmo tive primeiro contato com o desenho, que passava na TV Cultura, antes de ler qualquer um dos quadrinhos. Devo admitir que sempre fui muito fã do personagem - que inclusive é um símbolo para os estudantes de jornalismo. Mas após a viagem fiquei ainda mais encantado. Como escritor, preciso dizer que é um prazer enorme você poder ver de perto como um personagem criado por alguém pode ter um impacto tão grande na cultura de um país (o mesmo aconteceu quando visitei o museu de Sherlock Holmes, em Londres). Acho que é um sonho para todos nós, que criamos nossos personagens, vê-los ter tal importância cultural um dia.


Na minha estadia em Bruxelas, fiz uma visita ao Museu de Histórias em Quadrinho. Não é uma instalação gigantesca (embora seja bem grande e estruturada), mas é realmente muito interessante ver um museu inteiro dedicado a um assunto que no Brasil é, na maioria das vezes, colocado de lado. Ainda mais interessante é ver tal museu ser apontado como um dos pontos turísticos da cidade. Mais uma vez, isso se deve ao Tintim, que é visto quase como um herói nacional.

Antes de falar sobre os aspectos de construção de personagem que me chamaram a atenção na visita, entretanto, gostaria de falar um pouquinho sobre o museu. Basicamente, sobre o acervo. Agora não lembro exatamente, mas eles foram capazes de juntar, se não me engano, mais 2 mil páginas de quadrinhos diversos, que incluem as obras de Hergé; embora fiquem em exposição apenas algumas obras. Assim, sempre que se vai ao museu, pode-se observar novas páginas, já que há um revezamento entre elas. O prédio também é muito interessante, todo em Art Noveau, muito bonito.

A construção possui três andares. No térreo há um restaurante e também algumas informanções sobre Art Nouveau, assim como reconstruções de objetos clássicos dos quadrinhos, como o foguete das histórias do Tintim, estátuas de Smurfs, carros e etc.. No segundo andar, há uma sala que passa desenhos (quadrinhos que foram animados), além de uma série de pequenos estandes que mostram todo o processo de produção de uma história em quadrinhos, dos primeiros rascunhos à distribuição. No último andar, dedica-se o espaço aos autores e às suas histórias. Ali, pode-se  ver algumas páginas dos maiores autores belgas, assim como objetos criados que foram inspirados nos livros. Enfim, é uma visita rápida, porém muito interessante, ainda mais para quem gosta do assunto.



Agora, volto-me à questão da criação de personagens. Naturalmente, ao me deparar com o alcance que o Tintim tem na própria cultura belga, e na sua forte presença em âmbito mundial, fiquei pensando nesta questão dos personagens: como uma criação bem-feita pode realmente se conectar com as pessoas. E sobre este aspecto: há informações no museu, sobre o próprio Tintim e também sobre outros membros das histórias, como o capitão Haddock e o Professor Girassol.

A intenção de Hergé quando criou o seu personagem principal era a de que ele pudesse ser alguém que tivesse a capacidade de se conectar com todas as pessoas. Por isso, os traços de seu desenho, se repararem, são bem leves, quase sem marcações que indiquem emoção. Assim, qualquer um poderia ser Tintim (se colocar em seu lugar), do mesmo modo que Tintim poderia ser qualquer um (por isso, poderia se disfarçar de qualquer coisa: árabe, chinês, marujo e etc...). Além disso, o rosto sem tantas expressões possuía a intenção de gerar um processo catártico. Quem coloca os sentimentos em Tintim é o próprio leitor, dando a ele suas próprias emoções.

Para balancear este fator, foi criado o Capitão Haddock - e por isso sua grande importância para a história. Ele é o oposto de Tintim. Ele tem sempre suas emoções em erupção, o que justifica seus sucessivos ataques de raiva e os traços pesados em seu rosto. É o capitão que traz aquilo que, de algum modo, poderia faltar ao personagem principal.

Já o professor Girassol tem uma importância, além de cômica (também desempenhada pelo Capitão), para uma boa parte das tramas. Muitas das aventuras de Tintim acontecem justamente pela intervenção do professor; seja por causa de uma de suas descobertas, por ele estar em perigo ou por ele trazer uma nova informação à trama.

Temos também os detetives Dupond e Dupont. Estes aparecem o tempo todo - e exercem um papel basicamente cômico na história, além de serem responsáveis por trazer algumas novas informações importantes a Tintim. São a conexão com a polícia que seria necessária a um repórter investigativo, que normalmente resolve os casos em que se mete, como um detetive.

Por último, mas não menos importante, há Milu - amigo inseparável de Tintim, seu cachorro. Nos quadrinhos, há uma vantagem em relação à maioria dos episódios levados às telas como desenho. Neles, de vez em quando, existem momentos em que Hergé descreve os pensamentos de Milu, o que muitas vezes é engraçado e interessante. Entretanto, a grande importância do cachorro para a história não é essa. Em grande parte do tempo, ele é também o herói. Em muitas das aventuras, é Milu quem salva Tintim - e quem é parte essencial para a resolução dos mistérios.

Enfim, há toda uma teia muito bem construída que permitiu a Hergé criar um sucesso do tamanho de "As aventuras de Tintim". Achei interessante dividir as informações no blog, pois creio que, observando exemplos como estes, podemos evoluir também como autores. Claro que, em meio escrito, não há a possibilidade de se dar características aos personagens por meio de traços de desenhos, como no rosto de Tintim e Haddock, mas perceber as intenções por trás daquilo que o autor fez é importante. Isso nos fará também refletir sobre os detalhes das nossas criações - e perceber a importância que os personagens auxiliares devem ter.

Como sempre, espero que tenham gostado das informações e que elas sejam úteis. E, se um dia passarem pela Bélgica, não deixem de dar uma olhadinha do Museu, é coisa rápida!
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Ficção e Realidade: observações sobre "A Ilha das Flores"

em 06/04/2011.
| Comentários: (4)
O principal foco das minhas pesquisas no mestrado - e desde a época da graduação - foi a questão entre ficção e realidade; ou melhor, a possibilidade de a ficção criar hoje realidades ficcionais que nos façam refletir sobre o mundo em que vivemos. Por este motivo, gostaria de mostrar para o pessoal que acompanha o blog um curta excelente, de 1989, de Jorge Furtado. Trata-se de uma espécie de documentário reflexivo, que tem o intuito justamente de fazer as pessoas refletirem sobre o papel do próprio documentário, que normalmente tem uma mística de trazer aos espectadores a realidade. No entanto, como quem trabalha com o meio sabe, há uma série de técnicas (narração em OFF, técnicas para entrevista e etc...) que são utilizadas de modo a transmitir ao espectador uma sensação de verdade, de que aquilo que estão vendo é verdadeiro; isto é, tenta-se passar a impressão de que não há a interferência de quem produz o documentário naquilo que é "observado".

Mas "A Ilha das Flores" vai além, trazendo uma crítica profunda sobre a sociedade - não é à toa que foi um curta muito premiado, inclusive internacionalmente. O filme tem um caráter peculiar interessante, que, na minha opinião, o desqualifica como documentário e o põe como ficção; uma ficção reflexiva, claro, mas ainda assim uma obra de caráter ficcional. Entretanto, deixarei para falar disso mais adiante, pois espero que as pessoas vejam o vídeo (que será colocado logo abaixo) antes de continuarem a ler o texto.

Tenho certeza de que irão gostar do curta. É um filme rápido e muito engraçado, embora termine com um aspecto mais dramático, justamente com o intuito de causar reflexão. Antes disso, entretanto, são utilizadas várias técnicas (como uma narração - de Paulo José - muito exagerada em seu caráter informativo e cheia de obviedades) que causam certo humor, uma vez que desmistificam características clássicas do cinema documentário. Enfim, confiram o vídeo abaixo, vale a pena, e depois sigam a leitura do texto:



Como eu falei anteriormente, para mim o filme tem caráter ficcional pelo fato de que o único ponto real em todo o documentário é "A Ilha das Flores". Todavia, mesmo este ponto não é tão verdadeiro assim. O lixão que aparece no filme não se localiza exatamente na Ilha das Flores, mas na Ilha dos Marinheiros no Rio Guaíba. Além disso, os vegetais levados pelas pessoas presentes no filme não são aqueles que foram descartados para os porcos; isso foi uma roteirização feita por Jorge Furtado, em cima de aspectos de uma realidade verdadeira. Os alimentos não são os que foram rejeitados pelos porcos, mas ainda assim a população retira o seu sustento do lixão, dos alimentos que foram jogados fora.

Vale lembrar que o próprio filme não se pretende verdadeiro (os dizeres em seu início são claramente uma ironia). Não se trata mesmo de um documentário que retrata a vida daquele local, mas uma demonstração de como é o funcionamento da sociedade capitalista, onde só é "gente" quem tem dinheiro. É um documentário que evidencia uma realidade social, e que nos traz a reflexão. No entanto, é uma obra ficcional; o que nos mostra, uma vez mais, como na atualidade a ficção se confunde, com cada vez mais frequência, com a realidade e pode provocar tanto processos mais alienantes (de manutenção do status social) quanto processos reflexivos, como os presentes na obra de Jorge Furtado.
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Lançando um livro de forma independente

em 04/04/2011.
| Comentários: (16)
Bom, na última postagem em que perguntava o que as pessoas gostariam de ver no blog, uma das sugestões foi se falar justamente sobre o lançamento de livros de maneira independente. Posso dizer que tenho um conhecimento legal do assunto, já que sei os custos para se fazer os livros e também por ter conversado com alguns autores que tiveram sucesso se lançando desta maneira (alguns com mais resultados, outros com menos; mas muitos com vendas realmente satisfatórias). Ainda assim, o caminho do autor independente, que ninguém se engane, é muito complicado, mas muito complicado mesmo. Por outro lado, a internet, sem dúvida alguma, tem permitido aos lançamentos independentes terem no mínimo um sucesso que seja o suficiente para o autor receber de volta o dinheiro que gastou. Se o escritor for realmente bom, tiver um blog legal, souber se promover pelos meios digitais, ele pode sim facilmente lançar o seu livro de forma independente sem, no final das contas, machucar o seu bolso. Além disso, em alguns casos, é possível ter um lucro até muito bom, às vezes muito melhor do que quando se publica por uma editora tradicional.

Todavia, nada é assim tão fácil. Primeiro, porque todo o trabalho de edição, revisão, capa e diagramação ficará por conta do autor. Se ele tiver amigos que possam ajudar nestas etapas e conseguir com isso alcançar um resultado legal, ótimo, economizou-se muito dinheiro. Se ele precisar contratar profissionais para fazer isso, o livro então já pode começar a sair mais caro. Uma revisão muito simples, sem copidesque, sairia em torno de 1 real por lauda (no formato word) - e esse é um preço que coloco bem baixo, com apenas as correções de praxe no texto, sem melhoramentos e sugestões. A diagramação sairia por um preço similar e ainda precisaria se pagar por uma capa (que neste caso tem o preço com uma variação maior, dependendo do capista). Enfim, se o autor não tiver como fazer esses processos sozinho ou com a ajuda de amigos, o livro independente já sairá bem mais caro. Portanto, é bom pensar nesses detalhes quando se planejar um lançamento independente.

O outro grande problema, naturalmente, é a divulgação, que também precisará ser feita unicamente pelo autor. Como eu já falei, uma boa presença na internet pode ser extremamente favorável. Se o autor batalhar muito, produzir sempre e dividir suas produções com novos leitores que ele pode conquistar nos meios digitais, ele pode, já no lançamento do seu livro, ter garantido o número de exemplares necessários para o custeamento da impressão. Um caso em que isso literalmente ocorreu foi o do Alex Castro, do blog Liberal, Libertário e Libertino. Ele anunciou que queria publicar um livro seu que havia sido muito elogiado por amigos e fez uma campanha em que as pessoas compravam pelo Uol Pagseguro os exemplares. As 100 primeiras pessoas, se não me engano, teriam seus nomes impressos no livro, por terem sido "patrocinadoras" dele como autor (eu fui uma delas). Desta maneira, o Alex conseguiu juntar dinheiro suficiente para fazer uma determinada tiragem do livro (não lembro quantos) e pôde publicá-lo sem maiores preocupações. Lembro que logo no início, nas noites de autógrafo que ele fez por bares do Rio e de São Paulo, ele já tinha passado de 200 exemplares vendidos, o que é um feito bem legal se pensarmos que o livro mal tinha sido lançado. A iniciativa dele foi realmente muito interessante e inteligente.

Há outros casos de sucesso também, até maiores do que o citado. A escritora Babi Dewet (@babidewet), que eu já entrevistei no Na Ponta dos Lápis, conseguiu atingir um público bem grande com o seu livro. O seu blog (se quiser conferí-lo basta clicar aqui) tem um grande número de seguidores; ela sabe utilizar muito bem o twitter e outras ferramentas para atrair ainda mais leitores e, com isso, conseguiu ter uma boa vendagem do livro. Lembro que, na entrevista que fiz com ela, foi mencionado que já na pré-venda estavam reservados 600 exemplares, um número bem impressioante para um lançamento de uma autora nova. Acrescento também que, até por saber do interesse do pessoal no blog sobre a publicação independente, vou entrevistá-la uma segunda vez, para que ela conte o que aconteceu desde a primeira conversa que tivemos.

E os exemplos não param por aí. Recentemente, a autora Bianca Briones (@biancabriones), do blog Redoma de Cristal, lançou seu livro também de maneira independente. Depois procurarei ter uma conversa maior com ela (inclusive, convido-a a comentar sobre sua experiência nesse artigo), mas, pelo que me pareceu, o lançamento foi também um sucesso, uma vez que já vejo muitas resenhas sobre o livro pipocando pela internet (acho que já passam de 40, segundo pude acompanhar pelo twitter).

Como eu falei, a internet pode ajudar muito, principalmente pelo fato de que um blog de qualidade pode mostrar ao leitor desavisado que aquele autor é bom (ou que se enquadra no tipo de livro que aquele leitor gosta - é bom colocar essa ressalva aqui já que, quando se trata de livros, o que é bom para uns nem sempre é bom para outros). Afinal, quais os grandes problemas para uma pessoa comprar o livro de um autor independente? 1) Facilidade de pagamento e 2) O livro é bom mesmo? O autor sabe escrever?

Essas questões, hoje, são facilmente resolvidas pela internet. Com ferramentas como Pay Pal e Uol Pagseguro a venda se tornou bem simples e segura. E, com os blogs, onde o autor pode expor pedaços do livro, além de outros textos de sua autoria, torna-se mais fácil para o leitor a decisão de comprar ou não a obra que lhe é oferecida. Ele poderá, por meio dos textos disponíveis, avaliar se gosta ou não da maneira de escrever daquele autor.

Logicamente, um grande problema continua existindo: como fazer meu blog obter leitores? Essa é uma questão muito complicada. Primeiro, será preciso ter paciência, escrever sempre e manter um site legal, com conteúdo de qualidade e com um layout atrativo. Depois, é preciso usar com muita intensidade e inteligência redes sociais, como Twitter, Facebook, DiHitt.

Como ressaltado anteriormente, não será fácil, mas também não é impossível. E também como já mencionado, se este autor, que batalhou muito para conquistar seu público, conseguir um bom número de leitores, ele provavelmente ganhará muito mais dinheiro do que se tivesse vendido aqueles exemplares por uma editora maior. Porém, dentro deste aspecto, há algumas questões super interessantes a serem exploradas. E como esta postagem já ficou enorme, deixarei para falar sobre esta questão (Produção independente x Editoras tradicionais) em um outro momento.

Enfim, espero que tenham gostado! Se tiverem mais dúvidas, perguntem nos comentários que eu posso fazer novas postagens. Além disso, para quem está interessado no assunto sugiro três outros textos do blog:

Ser escritor dá trabalho

A importância dos blogs para os escritores: Certezas e Confiança

A importância dos blogs e das redes sociais para os escritores



Gostou do blog? Gostou dos textos? - o autor Leonardo Schabbach, que produz o conteúdo do Na Ponta dos Lápis lançou recentemente sua primeira obra literária, O Código dos Cavaleiros. Ajude-o a continuar produzindo! Informações sobre a obra (como comprar - autografada -, capítulos para degustação, capa, sinopse e muito mais) podem ser encontradas neste super hotsite (clique para acessar).

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