Hoje escrevo sobre o livro Um homem: Klaus Klump, de Gonçalo M. Tavares. A obra faz parte da coleção O Reino, que inclui também o livro Jerusalém, que recebeu o prêmio Portugal Telecom de Literatura, em 2007. Quem acompanha o blog sabe que sou muito fã do escritor português, por isso indico a todos a postagem Gonçalo M. Tavares: um autor a ser lido. E para quem ainda tiver mais curiosidade sobre as capacidades narrativas do autor, há também um trecho do livro "Jerusalém" no artigo técnicas de narrativa.
Decidi falar sobre este livro, pois, dos romances do autor, este é o que mais me agrada, exatamente por ser muito diferente das obras que costumamos ler. Segue um estilo fragmentado, em que se passa de um personagem para o outro entre os capítulo e mesmo entre os parágrafos do texto, similar ao de Jerusalém; entretanto, em Um homem: Klaus Klump, a fragmentação é ainda maior. É preciso até prestar um pouco de atenção para comprender onde o texto nos leva, mas são justamente essas mudanças que, apesar do tom fragmentado, acabam gerando um efeito muito interessante, que provoca reflexão. O livro, de uma maneira geral, tem um trabalho muito rico com a linguagem, sempre apresentando a capacidade narrativa característica do Gonçalo, que descreve todas as coisas de uma maneira muito diferente, irônica e perspicaz. Além disso, o texto sempre apresenta reflexões, sempre nos passa questionamentos filosóficos novos e interessantes. Sem sombra de dúvidas, quem ler Um homem: Klaus Klump, repensará muitas de suas noções de mundo e refletirá um pouco mais sobre o ser humano.
Este livro, assim como Jerusalém, difere muito da tônica presente em outra coleção muito boa do autor, chamada O Bairro. Enquanto em O Bairro vemos um Gonçalo mais lúdico, que traz a reflexão por meio de histórias mais irônicas e leves, quase brincadeiras, na coleção O Reino ele busca investigar o ser humano, expô-lo de maneira nua e crua, mesmo que isso gere textos mais pesados. É exatamente isso que está presente em Um homem: Klaus Klump. A história se passa em um país invadido pela guerra. Klaus é um homem que optava por se manter afastado de todos os conflitos, um covarde. Porém, ao longo do livro, tudo muda, e nosso personagem principal se torna um inimigo dos invasores; torna-se mais forte, pois só assim pode lutar contra a força de outros povos. Como é dito na contra-capa do livro: "Um homem: Klaus Klump é um livro sobre muitas coisas, mas essencialmente sobre a força. A força dos fortes e a força dos fracos que se tornam fortes".
Mas não pensem que se trata de uma história heróica de um personagem que se opõe a uma invasão. O livro trata de pessoas, de seres humanos, e Klaus se torna um homem um tanto quanto obscuro também. De uma maneira geral, a ação se passa de uma maneira até muito rápida no livro. As coisas acontecem, mas sem tanta relevância, é tudo muito rápido. O foco é justamente na mudança de cada um dos personagens, nas reflexões sobres os terrores da guerra, sobre as reações dos seres humanos em uma situação limite como esta. Enfim, é um livro sobre a humanidade, o que ela tem de bom e o que tem de muito ruim. Como disse, quem ler certamente repensará muitos conceitos.
Faço uma última ressalva, porém. A narrativa é bem particular, bem fragmentada mesmo. Eu particularmente acho isso espetacular, e acho a forma de o Gonçalo conduzir seu texto fantástica. Mas devo admitir que muita gente pode não se habituar a ela.
Abaixo, segue um trecho do livro que acho simplesmente incrível. Veja como é descrito o simples ato de o personagem estar com a mão no bolso:
Enfim, fica a dica de leitura. Tenho certeza de que muita gente aqui irá gostar. Mas também, como sempre digo, se forem começar a ler textos do Gonçalo, iniciem pelo livro O Senhor Brecht, da coleção o Bairro. A partir dele, já ficará clara a maneira singular que tem o escritor de conduzir sua narrativa. Além disso, é um livro pequeno, que pode ser lido em cerca de uma hora.
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Este livro, assim como Jerusalém, difere muito da tônica presente em outra coleção muito boa do autor, chamada O Bairro. Enquanto em O Bairro vemos um Gonçalo mais lúdico, que traz a reflexão por meio de histórias mais irônicas e leves, quase brincadeiras, na coleção O Reino ele busca investigar o ser humano, expô-lo de maneira nua e crua, mesmo que isso gere textos mais pesados. É exatamente isso que está presente em Um homem: Klaus Klump. A história se passa em um país invadido pela guerra. Klaus é um homem que optava por se manter afastado de todos os conflitos, um covarde. Porém, ao longo do livro, tudo muda, e nosso personagem principal se torna um inimigo dos invasores; torna-se mais forte, pois só assim pode lutar contra a força de outros povos. Como é dito na contra-capa do livro: "Um homem: Klaus Klump é um livro sobre muitas coisas, mas essencialmente sobre a força. A força dos fortes e a força dos fracos que se tornam fortes".
Mas não pensem que se trata de uma história heróica de um personagem que se opõe a uma invasão. O livro trata de pessoas, de seres humanos, e Klaus se torna um homem um tanto quanto obscuro também. De uma maneira geral, a ação se passa de uma maneira até muito rápida no livro. As coisas acontecem, mas sem tanta relevância, é tudo muito rápido. O foco é justamente na mudança de cada um dos personagens, nas reflexões sobres os terrores da guerra, sobre as reações dos seres humanos em uma situação limite como esta. Enfim, é um livro sobre a humanidade, o que ela tem de bom e o que tem de muito ruim. Como disse, quem ler certamente repensará muitos conceitos.
Faço uma última ressalva, porém. A narrativa é bem particular, bem fragmentada mesmo. Eu particularmente acho isso espetacular, e acho a forma de o Gonçalo conduzir seu texto fantástica. Mas devo admitir que muita gente pode não se habituar a ela.
Abaixo, segue um trecho do livro que acho simplesmente incrível. Veja como é descrito o simples ato de o personagem estar com a mão no bolso:
"As mãos no bolso de Klaus. Como era estranho seu gesto de esconder as mãos nos bolsos. As mãos e os olhos eram o fundamento da guerra: sem mãos é impossível odiar, odeias pela ponta dos dedos, como se estes fossem o canal habitual e único de uma certa substância química má. As mãos nos bolsos são um processo de educar o ódio, processo lento quando comparado com aquele bem mais forte que é a ambutação dos braços. Mas só com as mãos nos bolsos os homens já acalmam.
"Com as mãos nos bolsos um homem percebe que não é Deus. Não se chega às coisas. Se tocares no mundo com a cabeça obterás desse toque sentimentos secundários; afastados de uma intensidade mínima a que a existência das mãos te habituou. As mãos tornam-te intenso. O obsceno - isso mesmo -, o obsceno que é o homem na guerra, mesmo que numa pausa, põe provocadoramente as mãos nos bolsos. Assumir que não se é Deus em momento de guerra é acto corajoso, e por estranho que pareça, o único divino. Só os cobardes fingem que são Deus.
"Mas por momentos a vida de Klaus perde os seus órgãos inteligentes, os órgãos máximos do raciocínio que são as mãos. Órgãos especializados nesse instinto primário que é sobreviver: instinto primário e também instinto último a largar um corpo. Com as mãos nos bolsos Klaus não pode deixar de parecer um imbecil, um homem que não pensa".
(e o texto segue, por mais um tempo, nessa reflexão em relação às mãos, falando do combate corpo-a-corpo e outras coisas; é uma passagem realmente magnífica, e apenas ela já valeria a leitura do livro, na minha opinião)
"Com as mãos nos bolsos um homem percebe que não é Deus. Não se chega às coisas. Se tocares no mundo com a cabeça obterás desse toque sentimentos secundários; afastados de uma intensidade mínima a que a existência das mãos te habituou. As mãos tornam-te intenso. O obsceno - isso mesmo -, o obsceno que é o homem na guerra, mesmo que numa pausa, põe provocadoramente as mãos nos bolsos. Assumir que não se é Deus em momento de guerra é acto corajoso, e por estranho que pareça, o único divino. Só os cobardes fingem que são Deus.
"Mas por momentos a vida de Klaus perde os seus órgãos inteligentes, os órgãos máximos do raciocínio que são as mãos. Órgãos especializados nesse instinto primário que é sobreviver: instinto primário e também instinto último a largar um corpo. Com as mãos nos bolsos Klaus não pode deixar de parecer um imbecil, um homem que não pensa".
(e o texto segue, por mais um tempo, nessa reflexão em relação às mãos, falando do combate corpo-a-corpo e outras coisas; é uma passagem realmente magnífica, e apenas ela já valeria a leitura do livro, na minha opinião)
Enfim, fica a dica de leitura. Tenho certeza de que muita gente aqui irá gostar. Mas também, como sempre digo, se forem começar a ler textos do Gonçalo, iniciem pelo livro O Senhor Brecht, da coleção o Bairro. A partir dele, já ficará clara a maneira singular que tem o escritor de conduzir sua narrativa. Além disso, é um livro pequeno, que pode ser lido em cerca de uma hora.



























