Quer meu livro de graça? Assine minha newsletter e venha conversar comigo!

Além disso, a newsletter é para ser algo mais pessoal, nela vocês podem responder e conversar diretamente comigo. E eu ainda pretendo enviar uma série de textos exclusivos por lá, sendo alguns mais pessoais, alguns capítulos antecipados de livros que serão lançados, assim como alguns e-books gratuitos.

Leia Mais

1

Qual o espaço da ficção em nossa sociedade?

em 17 de jul de 2012.

É uma questão simples, mas de extrema importância para leitores, editores, escritores e, principalmente, para a sociedade. Saber qual o lugar da ficção na sociedade atual (e não necessariamente a função que ela deveria exercer) é crucial para compreender o mundo em que vivemos, a relação das pessoas com as coisas e também com o outro.



Desde a sua criação, a ficção sempre possuiu um vínculo muito íntimo com a sociedade. Ambas sempre andaram lado a lado, numa relação quase simbiótica, em que a ficção preenche um espaço vital para que a sociedade não se desfaça - e, ao mesmo tempo, ainda se aproveita disso, pois é justamente através deste vácuo que a ficção se alimenta, se sustenta e se perpetua.

Tivemos na Grécia, por exemplo, os grandes poemas, os grande poetas, que contavam as grandes histórias para o mundo, numa narrativa em que ficção e realidade se fundiam (algo que de alguma forma retorna na atualidade) com o intuito de dar ordem a toda uma sociedade. Os heróis gregos, as batalhas entre divindades, tudo dava forma a um mundo que necessitava de existência para a manutenção do status social da época.

Já na modernidade, tivemos uma mudança brusca. Vivia-se em um mundo de regras mais estritas, de uma crença em ideais como a pureza e a civilidade. Nada podia estar no lugar errado, ninguém deveria se comportar de maneira diferente para que o mundo permanecesse em ordem. Era assim com as mulheres, castradas de quase qualquer vontade e liberdade - e era assim também com os homens, que seguiam caminhos quase predefinidos para suas vidas, tendo a segurança de que aqueles caminhos os levariam a uma vida garantida, a dinheiro e à tranquilidade. No entanto, toda essa sociedade gerava uma pressão social muito forte sobre os indivíduos, castrava-lhes. Eis, então, que surge uma novidade. O romance aparece como um salvador, como um profeta capaz de retirar aquelas pessoas tão aprisionadas, que não sabiam o que era uma aventura, de um mundo repressor e levá-las a novos lugares, fazê-las conhecer novas pessoas, permiti-las viver intensamente uma história excitante e encantadora.

A ficção, portanto, surgia como uma válvula de escape, capaz de dar toda aquela liberdade de que os indivíduos necessitavam. Explodem, assim, os livros de ficção científica e as grandiosas aventuras, como as de Júlio Verne. Através do livro, as pessoas buscavam sonhar, buscavam conhecer novas culturas e viver tudo aquilo que não podiam na sua "vida real". E assim a ficção andava de mãos dadas com o momento social. E assim conseguimos compreender os anseios de uma época por meio desta relação.

Já hoje, as coisas mudaram. Não completamente, claro, mas mudaram. É certo que muitos ainda lemos para  fugir um pouco de nossa realidade, para utilizar os mundos incríveis criados e narrados pelos autores como uma redoma mágica capaz de nos proteger de todo e qualquer sofrimento. Todavia, os tempos são outros, o espaço da ficção não é necessariamente o mesmo. Atualmente, não falta liberdade. As pessoas possuem escolhas, inúmeras escolhas; e experimentam tudo ao mesmo tempo. E essa experimentação acaba atordoando, deixando o indivíduo atônito diante de um universo infinito de possibilidades. E é justamente aí que a ficção aparece. Não exatamente como uma portadora de mundos novos e excitantes, mas como aquela capaz de fornecer ao homem as certezas que lhe são tão escassas no "mundo real" (como apontaria Umberto Eco).

A ficção hoje ocupa justamente este espaço, ela dá chão, ela diz às pessoas que vai ficar tudo bem, que aquele universo enorme de possibilidades não é tão vasto assim - e que há um caminho e um lugar onde todos podem e irão chegar. É por isso que fazem tanto sucesso as comédias românticas, que exemplificam com perfeição os anseios de cada indivíduo, ao mostrarem que tudo, de repente, deu errado, mas que no final as coisas se acertaram. É por isso também que fazem sucesso os livros de auto-ajuda e os livros ficionais que, de algum modo, podem ser qualificados como tal.

O espaço da ficção hoje é esse. O que nos resta ponderar, como rapidamente mencionado no início deste texto, é se é isso que realmente deve ser feito - se isso é realmente a função que ela deveria exercer. E se for o caso, como uma ficção com tais características poderia, ao dar estas certezas às pessoas, dar de algum modo este conforto, ao mesmo tempo ainda ser capaz de fazê-las refletir?

Fica a ponderação - e ficam também as perguntas. Afinal, talvez só o tempo possa ser capaz de nos dar uma resposta. Mas nunca se esqueçam: ficção e sociedade andam sempre de mãos dadas.

1 Comentários:

Sybylla

O "deserto do real" de Matrix é insuportável às vezes. A ficção consegue quebrar essa visão cinza de mundo, oferecendo uma fuga ou mostra que nem tudo está perdido.

Mas a ditadura da escolha, as milhares de opções também pode ser opressiva se a pessoa for insegura, ou se não souber o que quer. Acho que aí é que mora o perigo, que pode causar um abandono da ficção.

Abraço!

Postar um comentário

Participe você também. Sinta-se convidado a postar as suas opiniões. Com a sua ajuda, o blog se tornará ainda melhor!

 
Copyright© 2010 Na Ponta dos Lápis
Apoio: Literatura Fantástica
Tema original "Solitude" Modificado por Mundo Blogger