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Pálido ponto azul: a belíssima reflexão de Carl Sagan sobre a Terra, o universo e a nossa sociedade

em 15 de jul de 2015.

Com todo esse buzz em relação às fotos de Plutão, lembrei-me de algo muito legal, uma reflexão belíssima e profunda, do tipo que buscarei trazer mais aqui para o blog, a respeito do nosso mundo, do nosso universo e, principalmente, de nossa sociedade. Um texto simplesmente poético e genial do astrofísico, cosmólogo e escritor Carl Sagan, que nos faz pensar e refletir sobre a importância da nossa vida e sobre todo o excesso de guerras e de violência que trazemos para esse pequeno ponto azul em que vivemos.


É uma leitura obrigatória a qualquer um, de verdade. E a quem já leu, sempre vale a releitura. Além disso, acrescentei um vídeo no Youtube, gravado pelo Guilherme Briggs, um dos mais proeminentes dubladores e narradores do Brasil, que ficou perfeito. Aconselho a escutarem (mais do que lerem, nesse caso) e refletirem. É lindo.





Reflexão de Carl Sagan

A espaçonave estava bem longe de casa. Eu pensei que seria uma boa idéia, logo depois de Saturno, fazer ela dar uma ultima olhada em direção de casa.

De saturno, a Terra apareceria muito pequena para a Voyager apanhar qualquer detalhe, nosso planeta seria apenas um ponto de luz, um “pixel” solitário, dificilmente distinguível de muitos outros pontos de luz que a Voyager avistaria: Planetas vizinhos, sóis distantes. Mas justamente por causa dessa imprecisão de nosso mundo assim revelado valeria a pena ter tal fotografia.

Já havia sido bem entendido por cientistas e filósofos da antiguidade clássica, que a Terra era um mero ponto de luz em um vasto cosmos circundante, mas ninguém jamais a tinha visto assim. Aqui estava nossa primeira chance, e talvez a nossa última nas próximas décadas.

Então, aqui está – um mosaico quadriculado estendido em cima dos planetas, e um fundo pontilhado de estrelas distantes. Por causa do reflexo da luz do sol na espaçonave, a Terra parece estar apoiada em um raio de sol. Como se houvesse alguma importância especial para esse pequeno mundo, mas é apenas um acidente de geometria e ótica. Não há nenhum sinal de humanos nessa foto. Nem nossas modificações da superfície da Terra, nem nossas maquinas, nem nós mesmos. Desse ponto de vista, nossa obsessão com nacionalismo não aparece em evidencia. Nós somos muito pequenos. Na escala dos mundos, humanos são irrelevantes, uma fina película de vida num obscuro e solitário torrão de rocha e metal.

Considere novamente esse ponto. É aqui. É nosso lar. Somos nós. Nele, todos que você ama, todos que você conhece, todos de quem você já ouviu falar, todo ser humano que já existiu, viveram suas vidas. A totalidade de nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e saqueador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e plebeu, cada casal apaixonado, cada mãe e pai, cada crianças esperançosas, inventores e exploradores, cada educador, cada político corrupto, cada “superstar”, cada “lidere supremo”, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali, em um grão de poeira suspenso em um raio de sol.

A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pense nas infindáveis crueldades infringidas pelos habitantes de um canto desse pixel, nos quase imperceptíveis habitantes de um outro canto, o quão frequentemente seus mal-entendidos, o quanto sua ânsia por se matarem, e o quão fervorosamente eles se odeiam. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, em sua gloria e triunfo, eles pudessem se tornar os mestres momentâneos de uma fração de um ponto. Nossas atitudes, nossa imaginaria auto-importancia, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no Universo, é desafiada por esse pálido ponto de luz.

Nosso planeta é um espécime solitário na grande e envolvente escuridão cósmica. Na nossa obscuridade, em toda essa vastidão, não ha nenhum indicio que ajuda possa vir de outro lugar para nos salvar de nos mesmos. A Terra é o único mundo conhecido até agora que sustenta vida. Não ha lugar nenhum, pelo menos no futuro próximo, no qual nossa espécie possa migrar. Visitar, talvez, se estabelecer, ainda não. Goste ou não, por enquanto, a terra é onde estamos estabelecidos.

Foi dito que a astronomia é uma experiência que traz humildade e constrói o caráter. Talvez, não haja melhor demonstração das tolices e vaidades humanas que essa imagem distante do nosso pequeno mundo. Ela enfatiza nossa responsabilidade de tratarmos melhor uns aos outros, e de preservar e estimar o único lar que nós conhecemos… o pálido ponto azul.

10 Comentários:

Anônimo

Lembro da época que ele escreveu isso. Legal ter achado aqui. Belo site!

Anônimo

Lembro da época que ele escreveu isso. Legal ter achado aqui. Belo site!

Leonardo Schabbach

Pois é. Eu sei que é uma reflexão antiga, mas é acho tão espetacular que tive que colocar aqui de novo. Até porque, as novas gerações não devem ter visto. Eu mesmo não tinha, até faz pouco tempo.

Marcia Sena

É uma visão magnifica. Oportunidade única de enxergar o quão somos minúsculos.

Anônimo

Eu sou uma eterna amante deste discurso dele, tanto é que encomendei o livro dele (paguei horrores mas creio que Vale a pena), mas vi no YouTube que tem o Pálido Ponto azul 2, mas até agora não encontrei o texto, que é tão maravilhoso, magnifico, fantástico e satisfatório como este. Eu, acadêmica de filosofia, das todo juz a graduação, tanto um ponto de vista mais aberto deste vasto universo

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