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Trecho do romance "Um", de Geraldo Lima

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As horas escoam para o nada, precipitam-se no abismo ao fim de cada giro do ponteiro do relógio, mas com a certeza de que retornarão amanhã, nesta mesma hora, num outro ambiente — um outro rio correndo diante de nós —, entremeadas de outras sensações, outros abalos da alma de quem segue seu percurso, seu renascer, seu reencarnar infinito —, infinito até que estejamos nos movendo em busca da salvação da alma ou da sua perdição completa, nos precipitando também no abismo, cegos, alucinados, ou, impelidos pelo senso de preservação, tentando não desperdiçar nenhum segundo, não perder tempo, construir a nossa vida, dar-lhe sólidos alicerces: o brilho da fortuna, os esteios da razão, e ainda ecoam nos meus ouvidos os conselhos de padre Artur, — Sem os esforços da razão não se chega a Deus, Paulo, por mais irracionais que possam parecer os fervores da fé. A voz e as palavras de padre Artur atravessam as paredes da Igreja Nossa Senhora da Conceição, a turva cortina dos anos, o mover preciso das horas, até repercutirem aqui, na sala do apartamento, junto ao riso de Ana, que estacionou no tempo, congelou-se entre as margens do porta-retratos, pulsando à minha frente, arrastando-me para trás, descolando-me do presente e arremessando-me nos labirintos do tempo, o tempo que já corre fora do eixo dos ponteiros do relógio, o tempo que escoa impreciso nos corredores da mente, em nacos de lembranças, fiapos de sensações, imagens rotas, desbotadas, que são, no entanto, minha história, grandiosa ou não, não importa, não importa.

(Ariadne me ensinou certo dia, ao me encontrar agitado, — Às vezes é preciso parar, respirar fundo, proferir cada sentença num ritmo vagaroso, preciso, sentindo o corpo de cada palavra, até que o equilíbrio retorne à nossa alma, à nossa fala. Pois é exatamente o que tento fazer agora, estancando essa sangria verbal.)

Desde a hora em que me levantei, estou girando em torno dessa gargalhada, dessa explosão de alegria, tentando decifrar seus mistérios, tentando dissipar a névoa que cobre a sua origem, o instante exato em que ela eclodiu na boca de Ana. A fotografia não ajuda: seu fundo é impreciso, apenas um borrão sem nenhum objeto que possa auxiliar a memória. O rosto de Ana se destaca então num cenário desfocado, e a sensação que se tem é de que os olhos perderam a capacidade de precisar o contorno das coisas. Uma multidão de rostos ao fundo, desfocados? Uma paisagem litorânea, campestre ou urbana? ou seria apenas uma parede, talvez essa aí, que separa a sala do quarto? Onde e quando veio ao mundo esse riso-explosão, essa imagem que me aprisiona como uma epifania?

Ainda tentei ser prático, planejar a aula do dia seguinte, ler o jornal, ajeitar os livros na estante, lembrar de pedir para a diarista tirar o pó desses livros amontoados aí no canto, anotei, isso e alguns outros afazeres, na vã tentativa de meter a vida nos trilhos, na senda iluminada da razão, contudo a coisa já vinha inchando na mente, no peito (sei lá onde mais), há dias, num crescendo medonho, num processo opressivo, solapador de toda concentração, — Às vezes temos de sentar, em posição de lótus, ou mesmo numa cadeira dura, com a espinha ereta, os olhos voltados para frente, respirar fundo, respirar fundo, prender a respiração, depois soltá-la num tempo maior do que o que se gastou para inalar, sem ruídos, assim, limpar os pulmões, relaxar, libertar a mente de toda inquietude (todo sofrimento está na nossa mente inquieta), até reencontrarmos o centro, o ponto de luz que nos reoriente, e deixar a energia circular pelo nosso corpo.

Ariadne, minha amiga, minha mente não cessa nunca. Meu coração vai explodir: uma galáxia de sentimentos emergindo do fundo do ser traz à tona gritos da carne e do espírito. As palavras querem me sufocar, brotam como um enxame no fundo da minha garganta.

Ao meio-dia, não sei por que razão, baixou em mim uma calma profunda, uma leveza de espírito tão agradável que me vi impelido a sair e andar pelas entrequadras, aproveitando a sombra das árvores. No afã de não deixar escapar do meu corpo aquela sensação de bem-estar, respirava o ar já meio quente como se fosse o primeiro sopro divino dentro das trevas do cosmo, tentava observar cada detalhe da paisagem, achando em tudo uma graça, uma beleza própria, que mais parecia coisa vinda de Ana do que de mim mesmo. As crianças, andando de bicicleta, me transportavam até a minha infância reclusa, cheia de medos, de pavores, enfermidades, cercada pelos cuidados e pela voz católica da minha mãe. Toda a poesia estava ali, nas folhas esmaecidas forrando o chão, apodrecendo no meio da grama; a grama, sentindo já a ausência da chuva, rendia-se aos semitons, resvalando entre o amarelo, o verde e o cinza, ressequida aqui, mas pintada ali, perto de um bloco, de um verde intenso, favorecida, talvez, pela alma samaritana de algum zelador que a regara.

E andei durante mais de uma hora em êxtase, cativo dos ipês floridos, da vastidão celeste. Sentei-me num banco, relaxei-me ouvindo a voz tântrica de Ariadne ressoar dentro do meu ouvido, respire fundo, respire fundo, deixe toda a energia circular pelo seu corpo, e o mundo estava intacto naquela hora, livre de todas as impurezas, como se estivesse sendo criado naquele instante. As coisas pulsavam diante dos meus olhos sem mistério algum: a árvore, apenas uma árvore de copa fechada, hermética; a grama, apenas uma grama já castigada pela severidade do sol; cada pessoa, um sopro de vida, um oceano de segredos, um ser movido a dramas e a comédias banais, tudo, tudo muito humano e terreno. E eu, sentado ali, como um Alberto Caeiro, procurando ver as coisas como elas são, não pensar, porque pensar é não compreender...

Às três da tarde, começou tudo de novo. A sensação de equilíbrio, de paz interior, da mesma forma que veio, foi-se embora. Minha mente inquieta outra vez. — O poder da oração é que nos traz a sensação de conforto, de segurança, aconselhava-me padre Artur, adivinhando no meu rosto a sombra da angústia. Mesmo cercado de vozes empenhadas em reorientar meus passos, desde a infância até a maturidade — mais intensamente a voz da minha mãe, dura às vezes, espinhenta, cega de tanta convicção —, não consigo sossegar minha mente. Ah, mas a angústia não vem assim, à toa, sem um motivo claro. O que fez minha mente mergulhar de novo no lodaçal foi a revelação da origem desse riso de Ana.

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(Trecho do romance UM, de Geraldo Lima, publicado em 2009 pela LGE editora)

Geraldo Lima é autor dos livros A noite dos vagalumes (contos, Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, FCDF), Baque (contos, LGE Editora/FAC) e Nuvem muda a todo instante (infantil, LGE Editora) e UM (romance, LGE Editora/FAC).

É colunista do blog O Bule: www.o-bule.blogspot.com

 
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